

Era uma vez...
Embora o Tempo e o Relógio passem juntos todo o santo dia (mas sempre de costas voltadas um para o outro!), um dia o Tempo resolveu pôr os pontos nos “ii” e dizer ao Sr. Relógio umas certas verdades que já engolia há muito, muito tempo!
Atirou-se, então, ao Relógio com unhas e dentes e disse-lhe que tinha tantas saudades daqueles tempos em que não existiam relógios e, curioso, nessa altura toda a gente tinha tempo!
Mas o “bicho homem”, predador e destruidor de tudo por natureza e feitio, sempre à procura de qualquer coisa para lhe alimentar o ego, fabricou o primeiro relógio que começou a marcar o tempo, melhor, pôs o tempo a marcar passo!...
Curioso!... a partir deste momento nunca mais ninguém conseguiu ter tempo! A partir dessa altura o homem ficou escravo do seu invento, esmigalhado na sucessão dos segundos, dos minutos, das horas, dos anos que acabara de criar!
— Ahhh – disse o Tempo - como eu recordo com saudade aqueles dias em que o Homem trabalhava de Sol a Sol e ainda tinha tempo para apreciar a natureza, deliciar-se com as tonalidades do pôr-do-sol, saborear as cores do arco-íris, deliciar-se com o bailado das estrelas no céu escuro, sem o brilho pálido da luz da Lua...
E o Relógio, no seu tic-tac metálico, ouviu, ouviu, mas não tinha tempo para responder, com medo de se atrasar...
— Antigamente – continuou o Tempo – nascia-se no tempo certo, sem ser preciso cesarianas nem incubadoras para aqueles que passavam ou se atrasavam no seu tempo de nascer. A natureza sabia, bem a tempo, quando era chegado o tempo de nascer... Hoje, o Homem, obedece-te, Relógio, mesmo antes de nascer... até os médicos, escravos do teu tic-tac, estão cada vez mais apressados e não têm tempo a perder!
E o Relógio, no seu tic-tac metálico, ouviu, ouviu, mas não tinha tempo para responder, com medo de se atrasar...
— Ainda me lembro – continuou o Tempo – quando o Homem crescia sem pressas, quando ainda tinha tempo para ser criança! Comia só quando tinha fome e dormia quando tinha sono. Não tinha horário para comer, para dormir e muito menos para amar... Envelhecia ao ritmo natural, na calma e tranquilidade duma vida sem estar a olhar constantemente para ti, Relógio, simplesmente porque tu ainda não existias!... Depois, encolhia-se calmamente no ventre da Mãe Terra e partia ao meu encontro, para aquele abraço duma Vida que sempre leváramos juntos...
E o Relógio, no seu tic-tac metálico, ouviu, ouviu, mas não tinha tempo para responder, com medo de se atrasar...
— Mas desde que foste inventado nunca mais o ciclo da vida foi o mesmo! O Homem, ainda criança, vai para a escola onde lhe dão um horário. Depois, mal aprende a saber contar as horas, o pai dá-lhe logo um relógio... e, então, nunca mais tem tempo na vida! Corre para o emprego, come apressado, dorme sem sono pois sabe que de manhã, bem cedinho, estás a gritar-lhe aos ouvidos, arrancando-o da cama quando ele queria dormir nem que fossem só mais cinco minutinhos!...
E o Relógio, no seu tic-tac metálico, ouviu, ouviu, mas não tinha tempo para responder, com medo de se atrasar...
— E a amar?!! Não sei se ainda hoje alguém faz amor!... Há tanta gente que já não tem tempo nem para respirar! Quando, de repente, se apercebem... já estão velhos, cansados, sem terem tido tempo de ver o Tempo passar...! E enterram-no, apressados, para a Vida poder continuar.
O Relógio corou!... O seu tic-tac metálico, ouviu, ouviu, mas continuou a não ter tempo para responder, com medo de se atrasar...
José Gomes