sábado, 19 de janeiro de 2008

Orion - 44 anos depois

13 horas: fotografia da subida do ORION - Fonte: Jornal de Notícias, 20 Janeiro 1964

Esse dia 19 de Janeiro de 1964 foi um domingo soalheiro de inverno, com um céu azul, sem nuvens, o vento quase nulo, um mar chão muito calmo e que verdejava lá em baixo, arrancando reflexos dourados às águas que vinham beijar as areias, nessa altura ainda limpas, deixando a flutuar franjas irregulares de espuma branca.

— Faltam 60 minutos para a Hora Zero! – disse, tirando o relógio do pulso e colocando-o no peitoril da janela da casamata, ao lado do caderno que nos servia de "check in" e dando baixa neste – É preciso verificar o ângulo de inclinação da rampa de lançamento e a temperatura exterior do corpo do Orion - sussurrei ao Jaime.

Aproveito e vou com o Daniel verificar as ligações eléctricas e o sistema de ignição. Com tanta gente à volta do foguetão, não me espanta nada que lhe tenham dado um encontrão e que se tenha desligado qualquer coisa – sugeriu Jaime, pegando nos materiais necessários para alguma substituição de última hora.

Enquanto este e o Daniel se afastavam, subi a pequena ravina na base da qual se encontravam os restos do que fora em tempos passados um abrigo - e que chamávamos "casamata" - que nos servia de base de lançamento.

Espraiei os olhos à minha volta: estava rodeado de um grande número de curiosos que procurávam o melhor local para assistir ao lançamento do Orion. Lá no fundo, para os lados da Casa de Chá e do Farol da Boa Nova, uma densa multidão apressada aproximava-se do local de lançamento, desafiando os esforços dos nossos jovens “seguranças” que tentavam fazer com que essa “mole humana” se dirigisse para o perímetro de segurança que fixáramos previamente.

Olhei o corpo majestoso do foguetão, bem apontado para o céu e que cintilava beijado pelos raios de sol.

O Eduardo, um dos responsáveis pela segurança do Projecto, juntamente com outros amigos, empurravam a custo o batalhão de fotógrafos, operadores de cinema e de TV para uma duna situada a cerca de 100 metros do local de lançamento. Mas mal se virava as costas, os jornalistas regressavam a ponto inicial (mas muito mais perigoso), ávidos dos melhores ângulos para as suas fotografias ...

Regressei à casamata, verifiquei a lista à minha frente, olhei para o relógio e disse quase maquinalmente:

(Dando uma vista de olhos ao foguetão)

— 20 minutos para a Hora Zero!

O Jaime e o Daniel que acabavam de chegar, olharam o relógio que se aproximava das 13 horas (este lançamento esteve marcado para as 12 horas mas, devido ao grande número de visitantes, tivemos de adiá-lo uma hora).

(Dando uma vista de olhos ao foguetão)

Hora zero menos quinze minutos – e virando-me para o Eduardo, recomendei – mantenham as pessoas nos perímetros de segurança.

Este, furioso, começou a barafustar:

Não entendo estes jornalistas! Voltaram a romper o cordão de segurança e por mais que se faça, não obedecem! Já não sei mais que fazer!

Olhei os jornalistas que, pouco a pouco, se aproximavam (e logo se instalavam de armas e bagagens cada vez mais perto da zona perigosa. Olhei o relógio e desta vez perdi a calma:

— Se estes gajos não recuam já para trás das dunas, aborto mesmo o lançamento! Eduardo, Gaspar, levem toda a gente disponível e façam recuar os jornalistas e digam-lhes mesmo ou eles recuam para as zonas delimitadas ou nós abortámos esta porra! Se há um azar e esta coisa explode, ficam que nem picado e quem se lixa somos nós!

Observei as negociações jornalistas/seguranças do Projecto. O Gaspar esbracejava e passeava-se de um lad0 para outro e, de repente, correu na nossa direcção e, com um amplo sorriso, disse:

— Pronto, pronto, não se preocupem! Vão pôr toda a maquinaria fora das dunas e apontadas para o Orion e vão abrigarem-se dentro da zona que fixámos. Se houver qualquer “chatice “ garantiram-nos que assumiam toda a responsabilidade! Vão-se as máquinas, ficamos sem as nossas fotos, mas os gajos ficam. Com um grande susto, mas ficam!

Muito bem, mas gostava der ver tudo isso passado a escrito! — disse o Jaime, encolhendo os ombros — Fernando, toma-me agora conta do “check-in”. Estamos a cinco minutos…

Hora Zero menos cinco minutos... — disse eu, olhando da casamata o corpo do foguetão que brilhava no meio do descampado.

Um razoável perímetro de segurança estabelecera-se, finalmente, à volta do Orion. De repente, um silêncio sepulcral invadiu toda a região. Parecia que toda aquela multidão, ululante até aí, tivesse de repente deixado de respirar, ficando suspensa no que iria suceder no minuto seguinte. Só o suave murmurar do mar, alguns metros lá em baixo, se associava à ligeira brisa que soprava...

Hora zero menos...

Porra, porra!!! Pára-me essa contagem, Zé! - gritou o Eduardo, completamente fora de si! - Párem, párem tudo! A merda daquela avioneta está a aproximar-se! Rápido, os gajos da rádio, que lancem um aviso...

Algum dos repórteres ao meu lado – não me lembro bem quem – que faziam a cobertura em directo do lançamento (ou alguém no aeroporto que os estava a ouvir), devem ter com a avioneta que acabou por dar meia volta, deixando livre o nosso espaço aéreo.

Depois de terem sido feitos os acertos nas rotinas de segurança, recomecei a contagem, atrasada agora mais alguns minutos:

Hora Zero menos dez minutos!

Respirei fundo! Olhei à minha volta e o Jaime a verificar com uma das mãos as ligações do cabo de ignição e a roer as unhas da outra, com um ar muito compenetrado. O Daniel, apesar de todas as normas de segurança, acendeu mais um cigarro que juntou ao outro que mantinha aceso nos lábios, ajustou a braçadeira na sua bata branca e fez-me um sinal com a cabeça que estava tudo bem.

Olhei para cima, para o que fora o telhado da casamata e vi dezenas de caras que observavam os nossos gestos, as câmaras de TV que nos seguiam, os “flashes” que aumentavam ainda mais a minha dor de cabeça...

De repente apercebi-me que até eu estava a roer as unhas!

Hora Zero menos cinco minutos...

Olhei o céu que se mantinha limpo, as várias equipas nos seus postos, os jornalistas atrás das dunas. Cocei a cabeça!

Hora Zero menos dois minutos... – senti um calafrio a subir-me pela espinha e encostei-me ao parapeito da janela da casamata...

... 30 segundos...

Está tudo OK! – disse o Jaime, enquanto pousava o dedo no interruptor da ignição.

Olhei para o meu Pai que me espreitava lá de cima. Sorri-lhe. Até dois dias antes nunca tinha acreditado no Projecto Orion! Sorri-lhe e continuei com a contagem:

20 segundos...

Ignição preparada! – disse o Jaime em voz calma e bem segura.

Daniel aproximou-se mais da janela e assestou os binóculos no Orion. Limitei-me a prosseguir com a contagem:

10 ...

O suor, em camarinhas, começou a escorrer-me pela cara, a camisa estava colada às costas. As minhas pernas começavam a parecer que eram feitas de manteiga! Lá, muito ao longe ouvia a minha voz...

7... 6... 5...

É agora! – sussurrou Jaime

Os meus olhos, muito abertos, estavam fixos no foguetão:

4... 3... 2... 1... IGNIÇÃO!!!

O berro com que concluí a contagem foi abafado pelo roncar dos gases expelidos pela tubeira do Orion, enquanto este se erguia majestosamente nos céus da Boa Nova, largando um elegante novelo de fumo branco, seguido por uma estrondosa salva de palmas da multidão que assistia ao lançamento do primeiro foguetão português.

Mal gritei “IGNIÇÃO” saí a correr da casamata em direcção à rampa de lançamento ainda envolta em fumaça. Lembro-me de ver o corpo cilíndrico do foguetão a subir no céu. Não me lembro da separação do segundo andar.

Corri, depois, em direcção ao mar, com a multidão atrás de mim!

(…)

(in “Orion – O início de um sonho… - José Gomes).


Para continuar a história, nada melhor que seguir a animação que está abaixo. Está feita em Power Point, com som, colada no "slideshare" só que não funciona como pensei nem a música está a tocar. Espero, com este trabalho, recordar o lançamento do Orion e de todos aqueles jovens que trabalharam conosco para construir um Projecto em Portugal.

José Gomes