terça-feira, 26 de julho de 2005

Porto Sentido

Acordei hoje com saudades do Porto...
Lembrei-me da Ribeira, do Rio Douro, das manhãs de neblina, do casario e das pontes que fizeram o encanto da minha juventude...

"Quem vem e atravessa o rio
Junto à serra do Pilar
Vê um velho casario
que se estende até ao mar
Quem te vê ao vir da ponte

És cascata, são-joanina
Dirigida sobre um monte
No meio da neblina. " (...)

E este poema de Carlos Té, com música e voz de Rui Veloso, deu o mote para fazer este "post".

Vou aproveitar um belo poema de Fernando Peixoto que terá como tema de fundo "Ondas do Douro", interpretado pela Tuna Universitária do Porto, no concerto de apresentação da Queima das Fitas em Maio 2000.

Ahhh... não sei bem como, consegui "meter" a música... penso que o problema está na Firewall do Panda...

Espero que gostem.

PORTO CANÇÃO

Neste Porto todo em bruma
que cobre as águas do rio
passeia um deus que se esfuma
nas águas em desvario.

Neste Porto em que me deito
sonho noites de ternura
sorvendo-o me deleito
em cálices de amargura
depois deito-me adormeço
numa cama de granito
e já nem me reconheço
nos sonhos em que me agito.

Neste Porto todo em bruma
que se alaga sobre o rio
passeia um deus que se esfuma
nas águas em desvario.

Ao chegar a madrugada
espreguiça-se a cidade
respira o ar da nortada
banha-se na claridade.
Neste Porto me levanto
com gestos de lentidão
entorpecido no canto
dos passos da multidão.

Neste Porto todo em bruma
que se alaga sobre o rio
passeia um deus que se esfuma
nas águas em desvario.

E saio por aí fora
disfarçado em burburinho
como quem sabe onde mora
este Porto em desalinho
vou sorvendo o labirinto
em frenética ansiedade
neste Porto em que me sinto
um Ícaro em liberdade.

Neste Porto todo em bruma
que se alaga sobre o rio
passeia um deus que se esfuma
nas águas em desvario.

E mergulho na corrente
coloco a Foz como rota
dirigindo-me ao poente
nas asas duma gaivota
busco o mar que me alicia
com as lendas marinheiras
com ondas de melodia
a embalar as traineiras.

Neste Porto todo em bruma
que se alaga sobre o rio
passeia um deus que se esfuma
nas águas em desvario:
- é Neptuno carpindo
os seus ciúmes e mágoas
ao ver o Porto sorrindo
sobre o espelho das águas.

Fernando Peixoto

http://clioeros.blogs.sapo.pt/


Um abraço, Fernando, e obrigado pelo poema.

José Gomes