quarta-feira, 22 de junho de 2016

S. João no Porto - minhas recordações

O S. João no Porto



O Sagrado


S. João Baptista foi o Santo que anunciou e mais tarde baptizou Jesus Cristo nas águas do rio Jordão, na Palestina. Iconograficamente é representado como um menino com um cordeiro ao colo ou um adulto vestido com uma pele, a baptizar Jesus.

No dia 24 de Junho é comemorado o nascimento de S. João Baptista. A cidade do Porto está intimamente ligada à figura de S. João, mas o santo (ou melhor, um dos santos João) não é o padroeiro da cidade, distinção que foi atribuída há nove séculos a Nossa Senhora da Vandoma). Este dia foi escolhido para feriado municipal na cidade do Porto.
S. João Baptista é o padroeiro das doenças mentais, da amizade, dos comerciantes de vinho, de muitas profissões ligadas às peles e lãs e das diversões.

A origem da Festa de S. João está ligada ao culto do Sol como fonte de vida. Há muitos séculos que a Festa religiosa em homenagem ao S. João foi acompanhada por festividades pagãs, inicialmente combatidas pela Igreja mas depois a mistura do sagrado com o profano foi consentida pela mesma.
Santo Elói, já no século VII, proclamava do seu púlpito aos fiéis que o ouviam: “Eu vos peço... Que na festa de S. João e em outras solenidades dos santos, se não faça uso do solstício; que não se entreguem a danças, a jogos, a corridas, a coros diabólicos…”.

Em 1639, nas Constituições do Bispado de Lamego, na legislação religiosa desta época sobre superstições populares escreveu-se “…pode-se também pôr em exemplo (de superstição) no que se tem introduzido em dia de S. João Baptista, que se colham as ervas e levem a água da fonte para casa, ou se lave a gente e os animais nela, antes do sol nascer, metendo a gente de pouco saber que redunda em honra e louvor do Santo”.

No séc. XIX há referências a três Festas de S. João no Porto: - o de Cedofeita, miguelista; o da Lapa, constitucional e o do Bonfim, republicano.

Os meus pais diziam que pelos anos quarenta: “Nessa época, não havia ainda plásticos, o S. João estava limpo de martelos, o que não significava que essa não fosse a noitada de muitas marteladas… Fazia parte do ritual desta festa, que remonta aos cultos pagãos da fertilidade, a compra do alho-porro inteiro (raiz, folhas, caule e flor) e dependurá-lo na principal parede da casa para dar sorte e afugentar o mau-olhado, ali ficando até ser substituído por outro no ano seguinte".
Foi esta a prática, ainda hoje recordo, na casa dos meus pais até, mais ao menos, à minha adolescência.

Pelo Santo António os moradores dos bairros e das ilhas espalhadas pela cidade ornamentavam terreiros improvisados que eram engalanados e aqui se dançava e cantava pela madrugada fora. Estas quermesses estendiam-se até ao dia de S. Pedro (29 de Junho).

Pela tardinha do dia 23 de Junho (véspera de S. João) saía-se a pé dos bairros e das ilhas em direção às Fontainhas. Pelo caminho comprava-se o alho-porro, vasos de manjerico, ramos de cidreira e de cravos.

A batalha com o alho-porro foi introduzida no S. João depois dos anos quarenta. Até esta altura não era hábito bater com o alho-porro na cabeça das pessoas. Na rua de Santa Catarina, à porta do Grande Hotel, a gerência colocou cadeiras de lona no passeio junto à portaria do hotel para que os hóspedes pudessem assistir à passagem das rusgas e dos foliões que se dirigiam para as Fontainhas, oferecendo a cada um dos hóspedes um alho-porro. As velhotas estrangeiras (atrevidas como sempre!), sentadas à porta do hotel começaram a dar com a flor do alho-porro delicadamente na cabeça dos passantes numa atitude amistosa. E o pessoal gostou!!! Depois começaram a imitá-las e em pouco tempo toda a gente batia com o alho-porro uns nos outros, ou passavam com a flor do alho pelo nariz das raparigas/rapazes, que retribuíam este “cumprimento” com um sorriso ou um chiste. 
Esta batalha campal pacífica, divertida e alegre em breve se estendeu desde a baixa do Porto até às Fontainhas, fazendo da noite de 23 de Junho mais um ícone do S. João do Porto.

O Profano

A relação mágica “terra/céu” assume um papel muito importante na vida das comunidades. A Festa de S. João Baptista, festa do solstício de verão, é a marca do apogeu do curso solar e herda, assim, todos os símbolos que caracterizam uma festa de origem pagã. O culto das pedras, das ervas, da água, das plantas e do fogo há muito que estão integradas na celebração religiosa em honra deste Santo, com benefícios destes elementos no amor, na amizade, na saúde, na felicidade e na beleza.

A Festa de S. João no Porto – nos nossos dias

São João santo bonito,
Bem bonito que ele é.
Com os seus caracóis de oiro,
E seu cordeirinho ao pé.

Não há nenhum assim,
Pelo menos para mim
Nem mesmo São José.

Santo António já se acabou
O São Pedro está-se acabar
São João, São João
Dá cá um balão para eu brincar.
(…)

As Festas da Cidade realizam-se durante o mês de Junho. A noite de 23 para 24 deste mês, na cidade do Porto, é o tempo de todas as folias, a noite menor (é o solstício de Verão) e mais alegre do ano, em que multidões de pessoas vêm para as ruas festejar o S. João.


A cidade vive manifestações de cariz popular, cultural e recreativas, nomeadamente a corrida de São João, bailaricos, fogueiras, quermesses, música, concursos de cascatas, montras e quadras populares e largadas de balões (feitos de papel de cores variadas que são cuidadosamente lançados para o ar, proporcionando um espetáculo de centenas de pontos de luz a correrem pelo céu confundindo-se com as estrelas).

Um pouco por toda a cidade vendem-se manjericos, cravos, erva-cidreira, "alho-porro" e, mais recentemente, os martelinhos de plástico, as “armas” indispensáveis para a “guerra” dos foliões na Noite de S. João.

As fogueiras e as alcachofras




As fogueiras de S. João são ateadas, ainda, em algumas ruas do Porto. Por cima delas saltam, cantam e riem os foliões demonstrando, assim, a sua coragem e a sua crença nas virtudes purificadoras deste fogo na saúde, no casamento e na felicidade.

As fogueiras são acesas nos bairros, nas praças e demais locais de diversão S. Joanina. Os rapazes e as raparigas dançam e cantam à volta das fogueiras. Os mais atrevidos saltam por entre as chamas purificando assim o corpo e a alma.

A história da alcachofra é contada assim: 
As raparigas e os rapazes que quisessem saber se o seu amor era correspondido, chamuscava a flor de alcachofra na fogueira e quando chegassem a casa atiravam-na para o telhado. Se passado alguns dias esta voltasse a florir era então o sinal que o amor era correspondido e que ia dar em casamento”.

O Fogo de artifício


À meia-noite do dia 23 de Junho há o “fogo de S. João”. Este fogo-de-artifício faz com que o povo se concentre na baixa da cidade e na Ribeira. Aqui se juntam-milhares de pessoas em ambas as margens do rio Douro, para assistirem a este espetáculo pleno de luz, cor e som.

A água e as orvalhadas

A água tem uma particular função nesta festa enquanto elemento do Baptismo de Jesus por João Baptista, trazendo consigo semelhanças com os cultos e rituais pagãos. Na sabedoria popular a água dorme todas as noites, excepto na noite de S. João. Nesta noite, acredita-se, que a água das fontes, dos rios e das orvalhadas são mágicas e têm o poder e a força para curar doenças, dar beleza aos jovens e favorecer os amores.


Na Alameda das Fontainhas há uma fonte para onde o povo se desloca na noite de S. João para beber da sua água ou lavar-se nela e assim obter as bênçãos e as suas propriedades mágicas.

Para alguns foliões esta noite só termina na Foz do Douro, com muita gente a rumar em direção ao mar e por aqui esperam, deitados nas areias das praias (alguns deles depois de um banho de mar refrescante…), o Sol nascer.

O alho-porro e o manjerico

As ervas aromáticas, também chamadas “ervas de S. João”, assumem nesta festa uma particular importância, tanto pelos benefícios que se julga trazerem à saúde, como pelas manifestações que se lhes atribui (virtudes mágicas e terapêuticas, resquícios de rituais antigos, derivados das festas romanas e célticas), tornando-as num símbolo do S. João.


O alho-porro, ou “alho de S. João” é usado democraticamente na noite mais longa do ano para “esfregar”, “dar pancadas suaves” ou dar a cheirar a quem passa nas ruas, desejando ao mesmo tempo muita saúde, boa sorte e fortuna.

O manjerico é a erva aromática mais popular nesta festa, comprada em qualquer parte da cidade, quer para decoração, quer para oferta. Os vasos de manjerico são enfeitados com uma bandeirola colorida, presa por um arame, com uma quadra popular alusiva à Festa, ao Santo ou ao povo. Os vasos de manjerico devem ser “cheirados” só com a mão (dizem as más línguas que sempre que se cheira com o nariz, esta planta murcha logo, acabando por morrer).

Os martelinhos de S. João


Os “martelinhos de S. João”, de cores vivas, tamanhos e formas variadas, são uma das “armas” mais recentes do arsenal de S. João. Vendem-se por toda a cidade, ao lado dos tradicionais manjericos, cravos, erva-cidreira e “alho-porro”. Servem para “bater” nas cabeças dos passantes, numa espécie de saudação, sem que esta demonstração provoque qualquer incómodo (só quando batem com demasiada força!), apenas o riso, um cumprimento e um agradecimento…

(O martelo de S. João foi inventado em 1963. Tem o aspecto de um fole ao qual se adicionou um apito e um cabo dando-lhe assim a forma de um martelo. Foi encomendado por estudantes e testado na queima das fitas desse ano. Foi um sucesso a utilização destes instrumentos na Queima das Fitas e um sucesso de tal ordem que os comerciantes do Porto abastecerem-se de martelinhos para a festa de S. João onde foram adoptados por todos os foliões.

Ao fim de 6 anos de utilização dos martelinhos o Vereador da Cultura e o Presidente da Câmara do Porto decretaram que estes brinquedos ia contra a tradição do S. João e queixaram-se ao Governador Civil do Porto que veio a proibir a venda destes martelos. Quem fosse apanhado com martelinhos na noite de S. João seria multado em 70$00 (muito dinheiro para a época!), e mandaram retirá-los das lojas onde eram vendidos.

O povo do Porto não acatou esta ordem e continuou a usar o martelo nos seus festejos populares, principalmente no S. João. A partir de 1973 os martelinhos de plástico voltaram a ser vendidos livremente tornando-se assim tradição popular não só no S. João do Porto, como no S. João de Braga, Vila do Conde, no Carnaval, nas Passagens de ano, etc.).

 As cascatas


As Cascatas e os Presépios estão relacionados com os solstícios de Verão e de Inverno. A água, elemento imprescindível das cascatas sanjoaninas e a imagem de S. João Baptista a baptizar Jesus, são os elementos centrais do conjunto, cujo cuidado na sua construção nos mostra a devoção dos portuenses ao seu Santo. Algumas cascatas são verdadeiras obras de arte e imaginação. Na sua construção aparecem verdadeiras aldeias com casas minúsculas e caminhos traçados com areia, pedras e musgos, fazendo a reconstituição de lugares da cidade, costumes e ofícios de outros tempos.

As figuras de barro pintadas com cores vivas, são verdadeiras obras de arte popular criadas pelos mascateiros (vendedores ambulantes) que representam as pessoas no seu dia-a-dia, trabalhando nas suas profissões (muitas delas já desaparecidas) e vários animais.

Algumas das cascatas são enfeitadas com luzes de várias cores, com folhagens e pelas verduras, algumas delas com movimento. Variam de tamanho, obedecendo à imaginação de quem as constrói.

As crianças, com as suas modestas cascatas e os seus “santinhos” na mão pedem: “um tostãozinho para o S. João!” (diziam! Mais recentemente ouço-as a pedir “um euro para o S. João”…a evolução e actualização da moeda actual!).

As cascatas mais conhecidas que ainda hoje subsistem, são as da Alameda das Fontainhas, local de romaria e oração, a cascata frente aos Paços do Concelho, da iniciativa da Câmara Municipal do Porto e ainda algumas bem interessantes espalhadas um pouco por toda a cidade e arredores, nomeadamente em Vermoim, S. Mamede Infesta, Vila Nova Gaia, Braga, etc.

A gastronomia


Na noite da Festa ou no dia de S. João come-se caldo verde com broa, carneiro, anho, um bom vinho, sardinha assada, salada de pimentos e, como sobremesa, leite-creme.

A origem desta tradição é pouco precisa. Há quem diga que o uso do anho ou do cabrito se deve à presença deste animal nas imagens de S. João, numa alusão ao cordeiro de Deus.

A sardinha foi introduzida há já bastantes anos nesta tradição dos Santos Populares por ser mais barata e muito abundante nesta altura do ano. (ultimamente este petisco passou a ser um verdadeiro artigo de luxo e vendido como tal!).

Recentemente está a ser recuperada a tradição do “Bolo de S. João” (lembro-me que, por esta altura, em casa dos meus pais, tinhamos no dia de S. João esta iguaria na nossa mesa), que desapareceu por volta dos anos 50.
A receita oficial deste bolo (que faz lembrar o “bolo-rei” mas menos doce e com mais frutos secos) leva farinha, fermento, frutas cristalizadas, nozes, amêndoas, licor, rum, cognac a gosto e leite para amassar.
É acompanhado com Vinho do Porto.




Recordações da minha infância e pesquisas na Net.
Fotos nossas (Milú, Sónia e José Gomes) e da Net.
Algumas notas do Gaspar Martins.


José Gomes - Junho 2016

domingo, 5 de junho de 2016

Quantas Cores Tem o Amor - apresentação deste livro na Biblioteca da Maia

Ontem, dia 4 de Junho 2016 (por acaso aniversário da Maria Mamede - até teve direito a que lhe cantassem os parabéns!), foi a apresentação na Biblioteca da Maia do seu mais recente livro de Poesia, que foi ilustrado pelo pintor Vítor Hugo de Freitas.

Segue o desenvolvimento da Sessão e no fim os vídeos da actuação de Aswin Barros:






Aswin Barros - Amazing Grace

Aswin Barros - My Voice

Aswin Barros - Saving all my love for you

Aswin Barros - I wanna dance with somebody

Aswin Barros - Happy Birthday

Aswin Barros - Colours of my life

Um grande abraço,
Obrigado a todos os participantes e a todos os amigos que apareceram ou que tiveram o cuidado de telefonar ou deixar uma mensagem.

Um abraço,
José Gomes