quinta-feira, 11 de setembro de 2014

11 de setembro de 1973 - Golpe militar no Chile - 41 anos depois

Salvador Allende

Em 11 de Setembro de 1973, as forças armadas chilenas, comandadas pelo general Augusto Pinochet e com o apoio e financiamento dos Estados Unidos e da CIA, bem como de organizações terroristas chilenas, como a “Patria y Libertad”, derrubaram o governo de Unidade Popular de Salvador Allende, democraticamente eleito 3 anos antes.

No dia 10 de Setembro de 1973, a esquadra chilena zarpou, como estava previsto, para participar nos UNITAS, um tradicional exercício naval entre as marinhas dos Estados Unidos e as marinhas latino-americanas.
A armada chilena regressou ao Chile na manhã de 11 de Setembro e tomou rapidamente a cidade de assalto, enquanto os navios de guerra dos Estados Unidos ficaram de prevenção no limite das águas territoriais chilenas.
Se tivesse havido resistência armada ao golpe de estado, o plano previa que os “marines” invadissem o Chile, a pretexto de "preservar a vida de cidadãos norte-americanos".
Um avião WB-575 - um centro de telecomunicações - da força área norte-americana, pilotado por militares norte-americanos, sobrevou o Chile. Simultaneamente 33 caças e aviões de observação da força aérea norte-americana aterraram na base aérea de Mendonza, na fronteira da Argentina com o Chile.

Estas são as minhas últimas palavras…

"Certamente, esta será a última oportunidade em que poderei dirigir-me a vocês. A Força Aérea bombardeou as antenas da Rádio Magallanes.

As minhas palavras não têm amargura, mas sim, decepção. Que sejam elas um castigo moral para quem traiu o seu juramento (…)

Colocado num transe histórico, pagarei com a minha vida a lealdade do povo. E digo-lhes que tenham a certeza de que a semente que entregamos à consciência digna de milhares de chilenos, não poderá ser ceifada em definitivo.

Eles têm a força, poderão subjugar-nos. Porém, os processos sociais não se detêm nem com crimes nem com a força. A história é nossa e é feita pelo povo.

Trabalhadores da minha Pátria: quero agradecer-lhes a lealdade que sempre tiveram, a confiança que depositaram num homem que foi apenas intérprete de grandes anseios de justiça, que empenhou a sua palavra no respeito à Constituição e à Lei, e assim o fez.

Neste momento definitivo, o último em que posso dirigir-me a vocês, quero que aproveitem a lição: o capital estrangeiro, o imperialismo, unidos à reacção criaram o clima para que as Forças Armadas rompessem a sua tradição, que lhes fora ensinada pelo general Schneider e reafirmada pelo comandante Araya, vítima do mesmo sector social que hoje estará à espera, com mão alheia, de reconquistar o poder para continuar a defender as suas mordomias e os seus privilégios.

Dirijo-me a vocês, sobretudo à mulher modesta da nossa terra, à camponesa que acreditou em nós, à mãe que soube da nossa preocupação pelas crianças. Dirijo-me aos profissionais patriotas que continuaram a trabalhar contra o levantamento popular estimulado pelas associações de profissionais, associações classicistas que também defenderam as vantagens de uma sociedade capitalista.

Dirijo-me à juventude, àqueles que cantaram e doaram a sua alegria e o seu espírito de luta. Dirijo-me ao homem do Chile, ao operário, ao camponês, ao intelectual, àqueles que serão perseguidos, pois no nosso País o fascismo já esteve presente várias vezes: nos atentados terroristas, explodindo pontes, cortando linhas ferroviárias, destruindo oleodutos e gasodutos, perante o silêncio daqueles que tinham a obrigação de tomar providências.

Eles estavam comprometidos. A história irá julgá-los

Certamente, a Rádio Magallanes será calada e o metal tranquilo de minha voz já não chegará até vocês. Mas isso não é importante. Vocês continuarão a ouvi-la. Ela estará sempre junto de vós. Pelo menos a minha lembrança será a de um homem digno que foi leal com a Pátria.

O povo deve defender-se, mas não se sacrificar. O povo não pode deixar-se arrasar nem se deixar balear, mas tampouco pode humilhar-se.

Trabalhadores de minha Pátria, tenho fé no Chile e no seu destino. Outros homens hão-de superar este momento cinza e amargo em que a tradição pretende impor-se. Prossigam vocês, sabendo que, bem antes que o previsto, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor.

Viva o Chile! Viva o Povo! Viva os Trabalhadores!

Estas são as minhas últimas palavras e tenho a certeza que o meu sacrifício não será em vão. Tenho a certeza de que, pelo menos, será uma lição moral que castigará a deslealdade, a covardia e a traição."

Últimas palavras de Salvador Allende, em Santiago do Chile, na manhã do dia 11 de Setembro de 1973. Pouco minutos passavam das 9 horas...

Cercados no palácio presidencial e bombardeados pela Força Aérea, Salvador Allende e alguns colaboradores leais resistiram de armas na mão. Foram todos mortos em circunstâncias até hoje desconhecidas.

O exército chileno - liderado por Augusto Pinochet - não teve qualquer humanidade com os militantes do Partido da Unidade Popular. A repressão militar foi vingativa e intolerante.

Pinochet instaurou uma ditadura que durou 17 anos em que foram brutalmente assassinadas 3.197 pessoas (este número inclui 49 crianças de 2 a 16 anos e 126 mulheres, algumas delas grávidas) e mais de 100 mil presas e torturadas.
Pinochet morreu em Dezembro de 2006 sem nunca ter sido julgado pelos seus crimes.


O ONZE DE SETEMBRO QUE OS MEIOS DE INFORMAÇÃO SOCIAL NÃO QUEREM LEMBRAR:

Nem de propósito, acabei de ver há pouco as campanhas grotescas e publicitárias do 11 de Setembro nos Estados Unidos e falei com a família como era possível que não se falasse no 11 de Setembro no Chile. Apesar de todo o respeito pelas vítimas civis nos E.U.A., o Chile não as teve só naquele fatídico dia, continuou a tê-las durante todos aqueles longos anos da ditadura, desaparecimentos, mortes, torturas, etc. Como é possível que este mundo seja tão hipócrita e que a Imprensa tenha perdido a função de informar? Como é possível que se pactue durante horas e em todos os noticiários com uma pseuda homenagem às vítimas, que não é senão um aproveitamento das vítimas? E se querem realmente fazer uma homenagem a todas as vítimas da injustiça humana, então no mínimo deveriam noticiar em igualdade de circunstâncias os dois acontecimentos.
(…)
É uma data que trago para sempre no coração, por Allende, por Neruda, por todos os outros...
Bem hajas por a lembrar.
Beijinhos.


Homenagem ao Povo do Chile

Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro.

(...)

José Carlos Ary dos Santos



José Gomes

1 comentário:

  1. O NOSSO 11 N, NÃO PASSARÃO!
    Aqui começou a grande ofensiva do neo-liberalismo com os chamados "boys de Chicago", a experiência de política económica mais ciminosa e desumana que até hoje, praticamente todos os povos estão a sentir na pele. Os patrocinadores do golpe de Pinochet são os mesmos que estiveram por trás de todas as ditaduras fascistas da América Latina, são os que estão por trás de todas as guerras, são os que hoje impõem as políticas de austeridade, e têm nomes: um Estado terrorista - USA, uma força de agrssão - Nato, financiamento - FMI, BM, BCE, cúmplices - OMC, TPI, União Europeia, Sionismo Israelita, etc., etc., etc... O golpe do Chile ainda está a decorrer - no Iraque, no Afeganistão, na Síria, na Ucrânia, na Palestina, em todas as partes onde os norte-americanos e o sionismo contam com uma embaixada ou consulado como disfarce para as conspirações da CIA, da NSA e da MOSSAD, com servos de colarinho branco e banqueiros, com todos os sociopatas e criminosos que, uma vez eleitos, esquecem o dever de servir os povos para passarem a servir-se deles. O 11 de Setembro de 1973 talvez seja o Outono da nossa vulnerabilidade, mas será sempre a Primavera das nossas memórias que, com força e convicção nos permitirá gritar: NÃO PASSARÃO!!!

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