terça-feira, 22 de abril de 2014

25 de Abril - uma data a não esquecer – 5


AS PORTAS QUE ABRIL ABRIU
(cont.)

(…)

Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo do mês de Junho.

A seu lado também estavam
jornalistas que escreviam
actores que se desdobravam
cientistas que aprendiam
poetas que estrebuchavam
cantores que não se vendiam
mas enquanto estes lutavam
é certo que não sentiam
a fome com que apertavam
os cintos dos que os ouviam.

Porém cantar é ternura
escrever constrói liberdade
e não há coisa mais pura
do que dizer a verdade.

Dai ao povo o que é do povo
pois o mar não tem patrões.
- Não havia estado novo
nos poemas de Camões!

Foi este lado da história
que os capitães descobriram
que ficará na memória
das naus que de Abril partiram
das naves que transportaram
o nosso abraço profundo
aos povos que agora deram
novos países ao mundo.
De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
um menino que sorriu
uma porta que se abrisse
um fruto que se expandiu
um pão que se repartisse
um capitão que seguiu
o que a história lhe predisse


e entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo que levantava
sobre um rio de pobreza
a bandeira em que ondulava
a sua própria grandeza!


De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
e só nos faltava agora
que este Abril não se cumprisse.


E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe!


Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu!


Excertos de “As Portas que Abril Abriu” - Poema de José Carlos Ary dos Santos

Bairro Negro
José Silva canta este tema do nosso Zeca Afonso, numa das Noites de Poesia em Vermoim

Porque é necessário...
Cumprir ABRIL em cada voz que se levanta, em cada punho que se estende, em cada passo que se anda.

domingo, 20 de abril de 2014

25 de Abril - uma data a não esquecer – 4


AS PORTAS QUE ABRIL ABRIU
(cont.)

(...)
Era a semente da esperança
Feita de força e vontade
Era ainda uma criança
Mas já era liberdade

Era já uma promessa
Era a força da razão
Do coração à cabeça
Da cabeça ao coração
Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.

Posta a semente do cravo
começou a floração
do capitão ao soldado
do soldado ao capitão.

Foi então que o povo armado
percebeu qual a razão
porque o povo despojado
lhe punha as armas na mão.

Pois também ele humilhado
em sua própria grandeza
era soldado forçado
contra a pátria portuguesa.

Era preso e exilado
e no seu próprio país
muitas vezes estrangulado
pelos generais senis.

Capitão que não comanda
não pode ficar calado
é o povo que lhe manda
ser capitão revoltado
é o povo que lhe diz
que não ceda e não hesite
- pode nascer um país
do ventre duma chaimite.
Porque a força bem empregue
contra a posição contrária
nunca oprime nem persegue
- é força revolucionária!

Foi então que Abril abriu
as portas da claridade
e a nossa gente invadiu
a sua própria cidade.

Disse a primeira palavra
na madrugada serena
um poeta que cantava
o povo é quem mais ordena.

Foi esta força sem tiros
de antes quebrar que torcer
esta ausência de suspiros
esta fúria de viver
este mar de vozes livres
sempre a crescer a crescer
que das espingardas fez livros
para aprendermos a ler
que dos canhões fez enxadas
para lavrarmos a terra
e das balas disparadas
apenas o fim da guerra.

Foi esta força viril
de antes quebrar que torcer
que em vinte e cinco de Abril
fez Portugal renascer.

Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo do mês de Junho.

Quando o povo desfilou
nas ruas em procissão
de novo se processou
a própria revolução.
(...)

Excertos de “As Portas que Abril Abriu” - Poema de José Carlos Ary dos Santos

Erguem-se muros

José Silva canta Adriano Correia de Oliveira em Noites de Poesia em Vermoim.

Porque é necessário...
Cumprir ABRIL e cerrar muros à volta dos ideais e dos sonhos de ABRIL.


sábado, 19 de abril de 2014

25 de Abril - uma data a não esquecer - 3

(...)
Ali nas vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
vivia um povo tão pobre
que partia para a guerra
para encher quem estava podre
de comer a sua terra.


Um povo que era levado
para Angola nos porões
um povo que era tratado
como a arma dos patrões
um povo que era obrigado
a matar por suas mãos
sem saber que um bom soldado
nunca fere os seus irmãos.

Ora passou-se porém
que dentro de um povo escravo
alguém que lhe queria bem
um dia plantou um cravo.
Era a semente da esperança
feita de força e vontade
era ainda uma criança
mas já era a liberdade.

Era já uma promessa
era a força da razão
do coração à cabeça
da cabeça ao coração.
Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.

Esses que tinham lutado
a defender um irmão
esses que tinham passado
o horror da solidão
esses que tinham jurado
sobre uma côdea de pão
ver o povo libertado
do terror da opressão.

Não tinham armas é certo
mas tinham toda a razão
quando um homem morre perto
tem de haver distanciação
uma pistola guardada
nas dobras da sua opção
uma bala disparada
contra a sua própria mão
e uma força perseguida
que na escolha do mais forte
faz com que a força da vida
seja maior do que a morte.
(...)
Excertos de “As Portas que Abril Abriu” - Poema de José Carlos Ary dos Santos


Hino de Caxias
Ensaio aberto no Jardim da Cordoaria, Porto, sob a direção da soprano Ana Maria Pinto

Porque é necessário... Ouvir o clamor imenso daquela multidão de vozes que sentiram na pele as grilhetas e as chicotadas do fascismo. Que TODOS juntos, de mãos dadas, lutemos para que esses anos de terror não voltem mais.


terça-feira, 15 de abril de 2014

25 de Abril - uma data a não esquecer - 2

(...)
Era uma vez um país
onde o pão era contado
onde quem tinha a raiz
tinha o fruto arrecadado
onde quem tinha o dinheiro
tinha o operário algemado
onde suava o ceifeiro
que dormia com o gado
onde tossia o mineiro
em Aljustrel ajustado
onde morria primeiro
quem nascia desgraçado.

Era uma vez um país
de tal maneira explorado
pelos consórcios fabris
pelo mando acumulado
pelas ideias nazis
pelo dinheiro estragado
pelo dobrar da cerviz
pelo trabalho amarrado
que até hoje já se diz
que nos tempos do passado
se chamava esse país
Portugal suicidado.
(...)
Excertos de “As Portas que Abril Abriu” -  José Carlos Ary dos Santos



Hino "Maria da Fonte" - interpretação do CIP - Coro de Intervenção do Porto, sob a direção da soprano Ana Maria.
Gare da Estação de S. Bento, Porto.

Porque é necessário viver, sentir e bater-mo-nos por ABRIL.

domingo, 13 de abril de 2014

25 de Abril - uma data a não esquecer




Era uma vez um país
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais infeliz
dos povos à beira-terra.

Onde entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo se debruçava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.(...)

Excertos de “As Portas que Abril Abriu- José Carlos Ary dos Santos

Porque é necessário estar alerta... ACORDAI!


quarta-feira, 9 de abril de 2014