domingo, 19 de maio de 2013

CATARINA EUFÉMIA


Catarina Efigénia Sabino Eufémia  nasceu em Baleizão a 13 de Fevereiro de 1928 e foi assassinada em Monte do Olival, Baleizão, a 19 de Maio de 1954.
Foi uma ceifeira portuguesa que, na sequência de uma greve de assalariadas rurais, foi morta a tiro, pelo tenente Carrajola da Guarda Nacional Republicana.

Catarina Eufémia, na altura do assassinato tinha vinte e seis anos de idade, tinha três filhos, um dos quais de oito meses, que estava no seu colo no momento em que foi baleada.

 O Alentejo, à época, era uma região de latifúndios e de emprego sazonal, onde as condições de vida dos camponeses sem-terra e assalariados eram extremamente difíceis. Esta situação socioeconómica e laboral penosa e dura agitou as massas camponesas da região a partir de meados da década de 1940, vindo a agudizar-se nas duas décadas seguintes, gerando-se um permanente clima de agitação social no campesinato.

No dia 19 de Maio de 1954, em plena época da ceifa do trigo, Catarina Eufémia e mais treze outras ceifeiras foram reclamar com o feitor da propriedade onde trabalhavam para obter um aumento de dois escudos pela jorna. Os homens da ceifa foram, em princípio, contrários à constituição do grupo das peticionárias, mas acabaram por não hostilizar a acção destas. As catorze mulheres foram suficientes para atemorizar o feitor que foi à cidade de Beja chamar o proprietário e a guarda republicana.

Catarina Eufémia fora escolhida pelas suas colegas para apresentar as suas reivindicações.

A uma pergunta do tenente da guarda, Catarina respondeu que só queriam "trabalho e pão". O tenente respondeu com uma violenta bofetada que a atirou ao chão. Ao levantar-se, enfrentando o GNR disse-lhe: "Já agora mate-me."

O tenente da guarda disparou três balas que lhe estilhaçaram as vértebras. Catarina não terá morrido instantaneamente, mas poucos minutos depois nos braços do seu próprio patrão (entretanto chegado), que a levantou da poça de sangue onde se encontrava, e este, virando-se para o GNR, ter-lhe-á dito: 
 Oh senhor tenente, então já matou uma mulher, o que é que está a fazer?”.

O menino de colo, que Catarina tinha nos braços ficou ferido na queda. Uma outra camponesa teria ficado ferida também.


Notícia do “Diário de Alentejo” de 21 de Maio de 1954:
“Anteontem, numa questão entre trabalhadores rurais, ocorrida numa propriedade agrícola próximo de Baleizão, e para a qual foi pedida a intervenção da GNR de Beja, foi atingida a tiro Catarina Efigénia Sabino, de 28 anos, casada com António do Carmo, cantoneiro em Quintos. Conduzida ao hospital de Beja, chegou ali já cadáver. A morte foi provocada pela pistola-metralhadora do sr. Tenente Carrajola, que comandava a força da G.N.R. No momento em que foi atingida, a infeliz mulher tinha ao colo um filhinho, que ficou ferido, em resultado da queda. A Catarina Efigénia tinha mais dois filhos de tenra idade e estava em vésperas de ser novamente mãe. O funeral realizou-se ontem, saindo do hospital de Beja para o cemitério de Quintos. Centenas de pessoas vieram de Baleizão para acompanharem o préstito, verificando-se impressionantes cenas de dor e de desespero. Segundo nos consta, o oficial causador da tragédia foi mandado apresentar em Évora.”

De acordo com a autópsia, Catarina foi atingida por "três balas, à queima-roupa, pelas costas, actuando da esquerda para a direita, de baixo para cima e ligeiramente de trás para a frente, com o cano da arma encostada ao corpo da vítima. O agressor deveria estar atrás e à esquerda em relação à vítima".

Após a autópsia e temendo a reacção da população, as autoridades resolveram realizar o funeral às escondidas, antecipando-o de uma hora em relação àquela que tinham feito constar.

Quando se preparavam para iniciar a sua saída às escondidas, o povo correu para o caixão com gritos de protesto, e as forças policiais reprimiram violentamente a populaça, espancando não só os familiares da falecida, outros rurais de Baleizão, como gente simples de Beja que pretendia associar-se ao funeral. O caixão acabou por ser levado à pressa, sob escolta da polícia, não para o cemitério de Baleizão, mas para Quintos (a terra do seu marido cantoneiro António Joaquim do Carmo, o Carmona, como lhe chamavam) a cerca de dez quilómetros de Baleizão.

Vinte anos depois, em 1974, os seus restos mortais foram finalmente trasladados para Baleizão.

Na sequência dos distúrbios do funeral, nove camponeses foram acusados de desrespeito à autoridade; a maioria destes foi condenada a dois anos de prisão com pena suspensa.


O tenente Carrajola foi transferido para Aljustrel mas nunca veio a ser sequer julgado em tribunal. Faleceu em 1964.

À Memória da Catarina deixo Zeca Afonso a interpretar, magistralmente, este assassinato:

Um abraço,
José Gomes