domingo, 25 de novembro de 2012

Camilo Castelo Branco por Terras Famalicenses

Camilo Castelo Branco por Terras Famalicenses
Quinta da Bonjoia - 22 Novembro 2012


Na passada quinta-feira, 22 de Novembro de 2012, Camilo Castelo Branco esteve na Quinta da Bonjóia, no Porto, pela mão da Dra. Maria de Fátima Castro.

O Prof. Mota Cardoso introduziu o tema desta Noite e a autora.

A Dra. Maria Adelina Vieira realçou a forma de escrita da autora, numa visão profunda do livro então apresentado e de autoria da Dra. Maria de Fátima Castro.

Transcrevo a seguir o resumo da apresentação da Dra. Maria Adelina Vieira que, gentilmente, nos foi cedido:
Dra. Maria Adelina Vieira


Uma leitura hermenêutica sobre o ensaio Camilo C. Branco por terras famalicenses

Com dotes inatos de historiadora e de mulher de pesquisa, por opção, Mª de Fátima Castro, consciente que Camilo recorre ao processo de verosimilhança no engendramento de espaços, personagens e enredos, pretende provar, neste ensaio, Camilo Castelo Branco por terras famalicenses, que as personagens-tipo camilianas, cujo perfil sociológico nos é apresentada, pela primeira vez, no séc. XIX, contêm uma certa carga de exotismo comportamental, que se projecta tanto ao nível da modernidade das relações de sociabilidade que cultivam, como à imprevisibilidade das acções de algumas delas. Tomemos como exemplo O Senhor do Paço de Ninães, Rui Gomes de Azevedo, e Marta e Honorata Guião, em A Brazileira de Prazins, personagem que vinda da corte se comporta, no meio rústico, com gestos e hábitos próprios de uma verdadeira dama da Rainha, incompatibilidade que justifica a sua fuga com o Dr. Adolfo da Silveira, a quem Camilo põe ironicamente a alcunha de “ O Doutor dos Pombais”.
Também Marta é uma personagem criada pelo narrador, a partir do que o Reitor de Caldelas lhe conta das histórias de amor que tem com José Dias de Vilalva, donde se conclui que Marta tem um perfil ousado, como nos conta ironicamente o autor:
“Com a exposição do Reitor saiu Marta muito enfeitada de joias sentimentais”.
Convirá, pois, esclarecermos que Camilo recorre à construção ficcional de Marta, a protagonista de A Brasileira de Prazins, sendo que a personagem ficcionada está ao serviço de um ajustamento de um conflito entre Camilo e a família de Leonor, personagem real, facto que conduz à seguinte pergunta, por parte da autora: “ O ressentimento teria ajudado a compor as tintas com que pintou o quadro dessa urdidura literária? E, perante um hiato, um interstício narrativo, a autora suspende a resposta: “Não se sabe!” (p.94)
Sabe-se, sim, que toda a obra de Camilo é construída para agitar e fazer tremer as estruturas sociais e literárias vigentes, criando enredos invulgarmente singulares, diga-se vanguardistas, conferindo às personagens comportamentos extravagantes que provocam rupturas com a moral conservadora e com os costumes vigentes das comunidades locais.
Não será, pois, despiciendo salientar que a alma rural das comunidade das aldeias contactadas por Mª de Fátima Castro e incluídas neste ensaio, recordam ainda, que com a chegada de uma burguesia endinheirada e chic que se fixa nas freguesias e lugares que serviram de “corpus” ao seu trabalho de pesquisa, seus antepassados sentiram uma alteração no “status quo” do seu quotidiano rotineiro, vendo-se compelidos a adaptarem-se a novos “modus vivendi ” de uma classe poderosa com hábitos bizarros.
Na verdade, numa primeira aproximação conclui-se que Mª de Fátima Castro, nesta tese, pugna, antes de mais, pela defesa do espírito criativo e ficcional de Camilo, tentando levar os leitores e as populações locais a compreenderem que, sem pôr de parte a sua faceta de investigador dos factos históricos, na sua condição essencial de sujeito criador, eivado de um espírito célere no engendramento ficcional, a autora cabe provar que o autor não se submete nem a regras estéticas, nem a convenções históricas, nem a interesses pessoais e/ou sociais. A autora não pode, pois, por motivos particulares de interesses locais ou de ascendências genealógicas, permitir que Camilo fique prisioneiro de datas, espaços, famílias e até histórias de vida.
Tendo como objectivo libertar a obra camiliana de adiposidades e conveniências particulares, de que método se serve, então, a autora? Diremos que prudentemente protege o autor, colocando uma interrogação retórica dirigida, num primeiro plano, ao leitor e, simultaneamente lançar um apelo à comunidade científica, deixando, deste modo, um espaço aberto, para que o universo da pesquisa possa, no futuro, encontrar resposta ou mesmo levantar novas questões.
Direi, em síntese, que ao longo deste ensaio, a autora transfere, frequentemente, a sua dúvida para o campo do leitor, através da interrogação retórica. Trata-se de um xeque-mate inquietante, um modo invulgar de a autora implicar o leitor na dúvida subjacente a todo o trabalho de pesquisa, de o introduzir nos meandros de um complexo xadrez que é, afinal, o valor simbólico das personagens e do espaço geográfico, na construção da diegese camiliana.

Maria Adelina Vieira
Licenciada em Filologia Românica pela Faculdade de Letras do Porto;
Mestre em Linguística Histórica e Filologia Latina pela Universidade Católica Portuguesa;
Doutorada em Sociologia da Literatura pela Universidade Fernando Pessoa, onde desenvolve o pós-doutoramento sobre a obra de Maria Ondina Braga.

Dra. Maria Fátima Castro


A Dra. Maria de Fátima Castro levou-nos (com ajuda de uma criteriosa selecção de slides) pelos caminhos de Camilo por terras de Famalicão, mostrando-nos a “construção” das diversas personagens de Camilo Castelo Branco por aqueles lugares.


Maria Mamede



Maria Mamede mostrou-nos a vertente poética de Camilo Castelo Branco através de poemas que nos declamou.


Prof. Mota Cardoso


O Prof. Mota Cardoso agradeceu, com palavras sentidas às Dras Maria Adelina e Maria Fátima, mais este serão muito interessante na Quinta da Bonjoia e ao público presente que, além de assistir atentamente às palestrantes, também acabaram por intervir, numa amena discussão académica.


A pedido de vários presentes, deixo algumas das fotos que foram tiradas durante esta Tertúlia pela Milú Coelho Gomes. O tratamento das imagens, claro, esteve a cargo da Sónia Coelho Gomes.

















 Um abraço,
José Gomes



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