quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Camilo Castelo Branco


No passado sábado, em Vermoim, o nosso amigo poeta e investigador António Vales (87 anos. Durante anos fez o trajecto Vandoma – Paredes – Vermoim e vice versa, para estar na nossa companhia) trouxe-nos um trabalho interessante sobre a poesia de Camilo Castelo Branco e que nos leu com o seu habitual sentido de humor que muito agradou os frequentadores da nossa habitual “Noite de Poesia em Vermoim”.

Deixo-vos com o texto que nos leu, com um abraço nosso:











Para o SARAU de 06-10-2012

Vim matar saudades e despedir-me de todos vocês, estimadas companheiras e companheiros das NOITES DE POESIA de Vermoim - Maia, porque a partir do próximo dia 14 deixo de ter licença de conduzir, por limite de idade (87 anos).
Despeço-me agora, e não o fiz quando na Primavera deixei de vir, porque queria dizer um adeus em beleza. Vir aqui só para me despedir e, para recitar alguma coisa, ter de ser mais do mesmo, não tinha interesse.
Assim, hoje tenho o gosto de não vir de mãos vazias. Trago-lhes um soneto de Camilo Castelo Branco.

Camilo não era poeta; pelo menos não se assumia como tal - que isto de as pessoas se assumirem, deixem-me dizer-lhes em aparte, até tem graça. Por exemplo: o ladrão que foi condenado e torna a roubar, perdeu a vergonha, portanto assumiu-se; a lésbica, quando se assume, toma um ar heróico  e até para os jornais e revistas com um à-vontade desafiador; um invertido, desde que se assuma, obtém o privilégio de se poder casar com outro homem, formando uma família às avessas, para obter vantagens sociais e redução de impostos, e os dois já não são homossexuais, são “gays”.

Camilo não se assumiu como poeta mas deixou-nos um poema notável e que a gente sente que lhe saiu do mais fundo da sua alma. Achei-o tal qual o apresento aqui, há uns 25 anos, suspenso dum cordel na parede ou estante duma livraria do Porto. Adquiri-o imediatamente. Não sei se a casa ficou com mais algum, mas nunca tornei a ver mais nenhum pelas livrarias por onde andei. É um soneto bem construído e sente-se que escrito com muita justificada mágoa.

Camilo não se assumiu como Poeta, mas numa obra em 12 tomos chamada “Portugal Antigo e Moderno”, de Pinho Leal, que a minha cunhada Dra. Gracinda Vales comprou por 12 contos, aí pelos anos 60, e mais tarde me ofereceu, um fulano que mandou ao Pinho Leal, para sair nessa obra, lá as trapalhadas que entendeu (isto por 1861) ao falar da “bibliografia de Camilo” que era o nome desse seu livro, chamou-lhe uma data de vezes “o Poeta” e só no fim, pág. 137, é que diz: Camilo antes de tudo foi romancista. Depois de várias parlapatices que o fulano mandou para o tal dicionário, ao menos agora disse certo.
É facto que de versos só lhe conhecemos este soneto[1]. Meditemos nele, que nos ensina muita coisa: uma delas que a verdadeira amizade não é incómoda nem oportunista:



             Os Amigos

Amigos, cento e dez, ou talvez mais,
Eu já contei. Vaidades que eu sentia:
Supus que sobre a terra não havia
Mais ditoso mortal entre os mortais.

Amigos, cento e dez, tão serviçais,
Tão zelosos das leis da cortesia,
Que eu já farto de os ver, me escapulia
Às suas curvaturas vertebrais.

Um dia adoeci profundamente:
Ceguei. Dos cento e dez houve um somente
Que não desfez os laços quase rotos.

- Que vamos nós (diziam) lá fazer?
Se ele está cego, não nos pode ver...
- Que cento e nove impávidos marotos.

(Camilo Castelo Branco)


Mas, bem vistas as coisas, Camilo escreveu mais um poema, porém este apenas com dois versos, e com muita graça. Foi assim:

A Coroa (ou seja, o governo de S. M. o rei D. Luís I) tendo achado que Camilo Castelo Branco, autor de tantos livros (41) e onde retratava o Povo português dum modo novo e dum humanismo a toda a prova, merecia ser distinguido com um título, e sugeriu o de Visconde.

Por aquele tempo os brasileiros que regressavam à Pátria cheios de dinheiro, compravam na sua terra uma casa de lavoura arruinada, cingiam-na de altos muros, construíam um palacete e... já não se sentiam bem como o Sr. João ou Sr. Manuel. Então davam à coroa sete contos e recebiam o título de Barão; e os que dessem doze contos recebiam o de Visconde. É de ver que começou a haver Barões e Viscondes até dar cum pau!


Vai daí Camilo sai-se com este poema:

Foge, cão, que te chamam barão.
Mas para onde, se me chamam visconde?


António Vales
06-10-2012 

António Vales levou um quadro onde estava encaixilhado o poema “Os Amigos” de Camilo Castelo Branco. Deixo-vos com uma composição desse quadro:





Um abraço,
José Gomes


[1]  Penso que esta observação não está correcta e disse-o a António Vales. Pelo menos conheço mais 4 sonetos. Numa consulta à Wikipédia verifiquei: Nas Trevas”, é um livro com data de 1890, de poemas, amargo, e julgo que o seu último livro publicado em vida, visto ter falecido em Junho desse ano. Nessa altura, Camilo estaria já quase cego”.


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