domingo, 1 de julho de 2012

Ruy Cinatti . o poeta que amou Timor

Em tempos prometi à Rosely Forganes um artigo sobre Cinatti. O tempo foi passando mas a inspiração foi tardando... chegou agora!
Espero que gostes.
Dedico este artigo à Milú e a todos aqueles que trazem Timor no coração.


Ruy Cinatti

Poeta, Agrónomo, Etnólogo, Antropólogo e Investigador


Teus olhos, Honorine, cruzaram Oceanos...

Teus olhos, Honorine, cruzaram Oceanos,
Longamente tristes, sequiosos,
Como flor aberta na sombra em busca do sol.
Vieram com o vento e com as ondas.
Através dos campos e bosques de beira-mar.
Vieram até mim, estudante triste
Dum país do Sul.

                      Ruy Cinatti

(Dedico este trabalho a Ruy Cinatti, um homem que deu e dedicou o melhor da sua vida ao desenvolvimento de Timor que amou como Pátria sua fosse! Através dele, do seu exemplo e da sua paixão a essa Terra de mil encantos, dedico-o a todos os Homens, Mulheres e Crianças timorenses de todos os tempos e de todas as épocas que, com o seu espírito de luta e de fé e, sobretudo, com o seu sacrifício, ajudaram a construir Timor Lorosae).


Foi pela poesia que vim a conhecer Ruy Cinatti. Através dela fui descobrindo o seu espírito de aventura, o seu amor e o seu “dar-se” ao povo de Timor. Mais tarde acabei por descobrir o Agrónomo, o Etnólogo, o Antropólogo e o Investigador que se deixou enfeitiçar pela natureza deslumbrante, pela paisagem magnífica e acolhedora de Timor e do seu Povo.

Ruy Vaz Monteiro Gomes Cinatti nasceu, em Londres, em 1915, filho de um diplomata português e de mãe de ascendência italiana.
Desde muito jovem que a poesia lhe estava no sangue. Com Tomás Kim e José Blanc criou os “Cadernos de Poesia” (1940 – 1953), publicação literária que deu nome a muitos dos poetas do seu tempo.
Em 1941 dedicou à memória de sua Mãe o seu primeiro livro de poesia “Nós não somos deste mundo”.
Foi galardoado com o Prémio Antero de Quental (“O Livro do meu Amigo Nómada” – 1958), Prémio Nacional de Poesia (“Sete Septetos” – 1967) e Prémio Camilo Pessanha, da Agência do Ultramar (“Cancioneiro para Timor” – 1968).

A história de Ruy Cinatti está ligada, de uma forma indirecta, à invasão japonesa de Timor, durante a II Guerra Mundial. Mas para o compreender e o situar no seu espaço e tempo, temos que recorrer à nossa História recente...

Para impedir que as tropas japonesas ocupassem Timor Leste (ilha estratégica situada no Oceano Pacífico) esta foi invadida pelas tropas australianas e holandesas em 1941. O governo português protestou energicamente invocando o seu estatuto de neutralidade naquele conflito. Já com tropas portuguesas a caminho de Timor para substituir os aliados, o Japão invadiu e ocupou aquele território.
As tropas portuguesas voltaram para trás e Portugal tentou recuperar a soberania daquele território através de negociações diplomáticas. Em 1944 o governo português conseguiu autorização para enviar uma missão de inquérito e observação a Timor.
Marcello Caetano, na altura ministro das Colónias, enviou, então, um contingente composto por um grupo de funcionários administrativos e tropas portuguesas que iriam substituir as forças invasoras.
Ruy Cinatti, valendo-se da amizade que entretanto travara com o ministro, ofereceu-se para os acompanhar, mas a sua pretensão foi recusada por Marcello Caetano que, em carta que lhe escreveu, o avisou do perigo que iria correr e de temer que essa expedição nunca chegasse a ter qualquer êxito.

Findo o conflito bélico, o ministro das Colónias nomeou nova administração para Timor. No início de 1946 Ruy Cinatti, engenheiro agrónomo e que estava prestes a entregar a sua tese (licenciou-se em Agronomia pelo Instituto Superior de Agronomia de Lisboa) foi convidado pelo governador Oscar Ruas para secretário e chefe do seu gabinete.

Chegou a Timor em finais de Julho de1946. Foi encontrar aquele território desbastado e deixado a saque pelos invasores japoneses, como consequência da II Guerra Mundial:
"Díli sofrera 97 bombardeamentos aéreos. Da cidade restavam apenas 10 casas. Por toda a parte havia crateras e capim. O hospital fora poupado...Desapareceram totalmente as povoações de Manatutu, de Lautem, de Aileu, de Maubisse, de Ainaro, de Viqueque, da Ermera e outras. Volatilizaram-se edifícios de circunscrições e de postos, hospitais, postos sanitários, escolas, missões e quartéis." (in "Paixão e redenção de Timor" – Marcelo Caetano, Lisboa,1973).

Cinatti iniciou de imediato os trabalhos de reconstrução da Ilha de Timor. Fez um levantamento de todo o território, recolhendo espécimes da flora local. Foi aqui que descobriu plantas desconhecidas do mundo científico, a que deu o nome de “Podocarpus Imbriacata”, “Eucalyptus Cinathiensis” e “Justitia Cinatti” (espécies raras de eucaliptos) e apresentou na Conferência de Aviação Civil do Pacífico Sul, em Melbourne, Austrália (chefiada pelo coronel Humberto Delgado) "uma colecção de amostras de madeira de Timor, acompanhada pelos respectivos exemplares de herbário e a nomenclatura indígena relativa...".

Durante as suas deslocações no território travou conhecimento com os timorenses, a sua cultura, as suas tradições e os seus conhecimentos. Quanto mais os conhece mais admirava aquele Povo...“o timorense é a nossa melhor arma política; sem ele não teria sido possível conservar a soberania portuguesa durante a guerra, num território tão distante da metrópole... O timorense é um ser adulto, pensante, com uma personalidade social definida e responsável[1]

O trabalho e as pesquisas que desenvolveu em Timor foram incluídas na sua tese de licenciatura (Reconhecimento em Timor) que apresentou e defendeu em Lisboa (1948), tendo sido aprovado com 19 valores.

Regressou a Timor como chefe dos Serviços de Agricultura, cargo que nunca chegou a desempenhar pois o novo governador queria-o, não no meio dos indígenas e a fazer pesquisas pela ilha, mas sim sentado a uma secretária a mexer em papeladas.

Ruy Cinatti sempre acreditou que o desenvolvimento agrícola desta Província só seria possível com uma articulação entre a cultura local e o respeito pela conservação das florestas.
Mas os entraves, a indiferença e o ostracismo que as autoridades portuguesas sempre dedicaram àquele território e sem qualquer possibilidade de concretizar a missão que se propôs desenvolver em Timor, pediu a sua transferência para a Junta de Investigação do Ultramar, em Lisboa.

Pouco antes de regressar a Portugal manifestou-se violentamente contra a atitude prepotente do governador de Timor ao proibir o uso da “Lipa” (pano tradicional usado pelos homens em volta da cintura), atitude essa que classificou como prepotente e de falta de respeito e de consideração pelos usos e costumes locais e uma afronta à dignidade dos timorenses.
Claro, tanto o governo de Díli (Timor) como o governo central (Lisboa) ignoraram pura e simplesmente o seu protesto!

Em Janeiro de 1956 encontra-se em Lisboa em licença graciosa. O seu herbário "comporta 750 plantas que, em quintuplicado, perfazem 3750 exemplares. Acabo de enviar para a Junta 79 amostras de terra correspondentes a 25 perfis de que fiz o estudo morfológico. Colecções de corais, conchas e pedras, seguiram já também...Tenho entre mãos o esboço climatológico da ilha, feito na base dos dados ecológicos..." – escreveu Ruy Cinatti.

Nesta altura vê-se confrontado com a opinião pública que classificava o timorense como “... preguiçoso, arredio a qualquer esforço a que não seja forçado e pouco afeito a estímulos progressivos...”. e, indignado, publicou um manifesto “Em Favor dos Timorenses” em que rebateu com veemência estas afirmações gratuitas e transmitidas por aqueles que desconheciam a realidade timorense...

Em 1958 entregou ao governo o “Plano de Fomento Agrário para Timor” e preparava-se para regressar para aquela província quando, na altura da partida, através da Junta de Investigação do Ultramar, foi convidado a frequentar durante três anos um curso de Etnologia e Antropologia na Universidade de Oxford, em Inglaterra.

Regressou a Dili em Dezembro de 1962. Numa carta enviada ao Prof. Penniman, seu orientador de tese em Oxford, escreveu: "Encontrei três locais com pinturas rupestres, qualquer dos três no extremo leste da ilha, distrito de Lautem, posto administrativo de Tutuala...Recolhi diversos mitos e histórias".

Continuou a desenvolver trabalhos de pesquisa na sua área, travando laços de amizade com os timorenses e chegando mesmo a fazer um pacto de sangue com dois chefes tribais. Este momento sublime, a sua união e ligação a um Povo e a uma Terra, está traçado no poema que se segue:

Pacto de Sangue

Nobres há muitos. É verdade.
Verdade. Homens muitos. É muito verdade.
Verdade que com um lenço velho
As nossas mãos foram enlaçadas.

Nós, como aliados, eu digo.
Panos, só um, tal qual afirmo.
A lua ilumina o meu feitio.
O sol ilumina o aliado.

Água de Héler! Pelo vaso sagrado!
Nunca esqueça isto o aliado.
Juntos, combater, eu quero!
Com o aliado, derrotar , eu quero!

A lua ilumina o meu feitio.
O sol ilumina o aliado.
Poderemos, talvez, ser derrotados
Ou combatidos, mas somente unidos.

Este pacto de sangue, além da grande honra que representou para um estrangeiro, deu-lhe abertura aos recintos sagrados, às iniciações tribais e acesso aos vestígios arqueológicos.
Descobriu pinturas rupestres, recolheu histórias, mitos e tradições que, mais tarde, deixaria em livros.

Por esta altura foi decretado o ensino obrigatório da língua portuguesa em todas as escolas timorenses. A esta medida que Cinatti aplaudiu, responderam os timorenses com um aumento muito significativo da população escolar.

De regresso a Lisboa (1963) publicou estudos sobre as plantas e um tratado sobre a província de Timor.

Em 1966, num colóquio nos Estados Unidos pediu a protecção das jazidas pré-históricas e dos monumentos históricos que descobriu. Para evitar a delapidação do património cultural de Timor e para recolher amostras da presença de um elefante pré-histórico, a comunidade científica pressionou o governo português a enviá-lo mais uma vez a Timor.

Ruy Cinatti ficou, durante todo o mês de Agosto de 1966 (e pela última vez) em Timor. De regresso a Lisboa e sentindo o tempo a fugir-lhe, publicou vários livros de poesia em que o tema foi Timor:
Um cancioneiro por Timor” (1968); “Uma sequência timorense” (1970); “Ali também Timor” (1973), “Paisagens timorenses com vultos” (1974); “Timor-Amor” (1974).

Ruy Cinatti tem uma obra poética muito difícil em que encontramos paralelos com as paisagens por onde passou, o retrato da sua própria vida, o desencanto com o mundo que o rodeava e Timor, o lugar onde se encontrava consigo e com a natureza (... posso fazer qualquer coisa útil quer no campo científico quer no campo social, aqui em Timor, onde já sou irmão, por pacto de sangue, de muitos timorenses.)[2]

Em 1975 escreveu uma carta para o Diário de Notícias (que nunca chegou a ser publicada) onde chamou a atenção para o perigo que Timor corria, o que veio a confirmar-se meses mais tarde (7 de Dezembro de 1975) com o bombardeamento de Dili, a invasão e posterior anexação de Timor Leste pela Indonésia.
Foi um rude golpe, do qual nunca mais chegou a recuperar.

Morreu a 12 de Outubro de 1986, com 71 anos de idade, vítima de um cancro pulmonar. Está sepultado no cemitério dos ingleses em Lisboa... acredito que Ruy Cinatti, por sua vontade, se sentiria tão bem num abraço dessa terra que tanto amou, descansando em paz à sombra de um tamarindeiro...

Premonição

Hei-de chorar
As praias mansas de Tíbar e Díli,
As manhãs, mesas de bruma, de Lautém,
Os horizontes transmarinhos de Dáre,
As planícies agrícolas
De Same e de Suai.

In “Timor Amor” – Ruy Cinatti


José Gomes
1 de Julho de 2012



[1] In “A condição humana em Ruy Cinatti” – estudo sobre a vida e obra de Cinatti, pelo Pe. Peter Stilwell.
[2] Carta a Jorge de Sena, ao recusar o convite que este lhe fez para ensinar agronomia no Brasil.