domingo, 10 de junho de 2012

Vasco Gonçalves - um dos grandes portugueses do Século XX

“Penso que ainda temos muito a fazer, por exemplo, através dos nossos textos e usando a Verdade, transmitindo, principalmente aos mais novos, claramente, aquilo que até agora, no calor da nossa Luta, ainda não conseguimos. Todas as contribuições não serão demais, para edificação de uma sociedade mais justa e fraterna”. 
Fernando Bizarro (12 Junho 2005)



VASCO GONÇALVES
1921/2005



O General Vasco Gonçalves nasceu a 3 de Maio de 1921 em Lisboa e faleceu no Algarve, a 11 de Junho de 2005.

Apareceu no Movimento dos Capitães em Dezembro de 1973, na reunião alargada da Comissão Coordenadora que se efectuou na Costa da Caparica.
Coronel de Engenharia, foi membro da Comissão de Redacção do Programa do Movimento das Forças Armadas, sendo o elemento de ligação com o General Costa Gomes. Foi membro da Comissão Coordenadora do MFA e, mais tarde, primeiro-ministro dos II, III, IV e V governos provisórios.

Durante o seu governo iniciou-se a Reforma Agrária, criaram-se as condições para as nacionalizações dos principais meios de produção privados (bancos, seguros, transportes públicos…), foi estabelecido o salário mínimo, o subsídio de férias e o subsídio de Natal.

Vasco Gonçalves tinha 52 anos quando a Revolução começou. Por ela havia esperado e para ela se havia preparado durante muitos anos. Foi a maior alegria da sua vida participar no 25 de Abril e viver aqueles momentos como primeiro-ministro.

Na sequência dos acontecimentos de 25 de Novembro de 1975, Vasco Gonçalves foi perdendo toda a sua influência, acabando por ser abafado pelo sistema que o foi deixando cair no esquecimento. É assim que se neutralizam os homens de valor.

Sete anos depois do seu desaparecimento físico e como minha homenagem ao Companheiro Vasco, ao Homem Bom e Honesto que foi e que sonhou com um País Novo, à solidariedade em que sempre acreditou, à liberdade porque sempre se bateu, aos ideais de Abril que foi sempre um acérrimo defensor deixo, hoje e aqui, estas palavras de Maria Manuela Cruzeiro:

 “ (…) Mas a História não se desenvolve às avessas, como se o passado pudesse ser determinado a partir do futuro. A inviabilidade da Revolução Portuguesa numa Europa da qual a URSS desapareceu não pode servir de justificação política à contra-revolução.
Para quantos se situam na perspectiva de Vasco Gonçalves — entre eles me incluo — a Revolução Portuguesa foi uma revolução assassinada. Assim a devemos tentar compreender, contemplada deste início do século XXI, quando alguns dos principais responsáveis civis pela contra-revolução, pequenos políticos caricaturais, se pavoneiam pelo mundo mascarados de campeões da democracia.
No Inverno da vida, Vasco Gonçalves está consciente de que «as maiores conquistas que o povo português alcançou ao longo dos seus oito séculos de história, se verificaram em 74-75 e nelas desempenharam um papel fundamental os militares do MFA».
O projecto revolucionário, como o concebera, não se concretizou. Mas não há calúnia nem agressão à história que possa apagar o significado da participação decisiva na Revolução de Vasco Gonçalves, cidadão, soldado e patriota. Ele foi com Álvaro Cunhal um dos grandes portugueses do século XX.”
(última parte do artigo “Vasco Gonçalves – O general do povo que fez história”, da autoria de Miguel Urbano Rodrigues, sobre o livro “Vasco Gonçalves – Um General na Revolução”, entrevista de Maria Manuela Cruzeiro).


Nesta data e para que a memória colectiva não esqueça, deixo-vos com uma das acções que o General do Povo muito gostava:

Vasco Gonçalves e as Campanhas de Dinamização Cultural e Acção Cívica do MFA

Para Vasco Gonçalves, um dos principais objectivos das Campanhas de Dinamização Cultural e Acção Cívica do MFA «era levar os militares, o MFA, às populações e apoiá-las no desenvolvimento, na tomada de consciência dos problemas que elas tinham. [...] Pretendíamos, sobretudo, transformar as ideias de fundo dessas populações. Não pretendíamos transformar essas populações em socialistas ou em comunistas. Queríamos transformá-las em gente democrática, gente aberta a analisar as situações e arrancá-las de toda aquela carga de fascismo que durante 48 anos tinha pesado sobre elas».

As Campanhas de Dinamização Cultural e Acção Cívica do MFA tiveram um importante papel na democratização e dinamização das Forças Armadas. Os militares que as protagonizaram regressarem «mais politizados» devido ao contacto com as diferentes realidades que procuravam transformar. Nesse sentido, e numa perspectiva cara à Primeira República, Vasco Gonçalves evocou, numa sessão de esclarecimento realizada no Sabugo (Sintra) em Fevereiro de 1975, a figura do «militar-educador». Este deveria aprender com aqueles que procurava educar, com aqueles que procurava ensinar, com aqueles que procurava ajudar. Na sua óptica, a expressão que melhor caracterizava a Dinamização Cultural era o «trabalho quotidiano» porque as Campanhas constituíam uma aprendizagem mútua, um processo de conhecimento do país que a revolução surpreendeu.

Para Vasco Gonçalves o grande impulsionador das Campanhas de Dinamização Cultural e Acção Cívica do MFA fora Ramiro Correia, o «comandante-médico que até fazia versos [...] um idealista no bom sentido do termo». Na génese desta iniciativa, salientava a importância da Acção Psico-social utilizada na guerra colonial, assegurando que «muitos militares vieram influenciados com isso e consideravam-se em condições de desenvolver uma acção desse nível dentro do nosso proprio país, com os seus compatriotas».

A relação entre os militares e a população adquiriu novos contornos com a transição democrática e, para Vasco Gonçalves, as Campanhas de Dinamização Cultural e Acção Cívica do MFA seriam uma ferramenta axial no fortalecimento desta relação, eternizada na expressão aliança Povo-MFA a qual condensava os ideais da facção progressista do MFA «que eram sobretudo os da libertação da nossa pátria, do nosso povo, da realização das aspirações básicas». Utilizava o termo «missão» para aludir às Campanhas, afirmando serem estas «um trabalho gigantesco para as nossas possibilidades», referindo-se à insuficiência de meios técnicos e humanos que dispuseram para a concretização desta proposta da agenda revolucionária. «Foi uma das nossas debilidades fundamentais».

Num dos muitos cartazes que desenhou João Abel Manta pareceu representar a «esperança e a confiança» que Vasco Gonçalves depositava nesta iniciativa ao atribuir-lhe uma centralidade no célebre cartaz MFA-Vasco-Povo. Povo-Vasco-MFA (1975), onde surge ladeado por duas figuras híbridas meio soldado, meio povo, reforçadas pela frase «Força, Força Companheiro Vasco / Nós Seremos a Muralha de Aço».
E foi da seguinte forma que Vasco Gonçalves se referiu a este cartaz: «O cartaz é muito terno, eu era o companheiro Vasco, mas para certo sector da população, não para o país».

(Texto de Sónia Vespeira de Almeida, com base em entrevista a Vasco Gonçalves (2002) no âmbito da sua tese de doutoramento em Antropologia. Inserido no folheto comemorativo da homenagem a Vasco Gonçalves, realizada na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, em 21 de Outubro de 2006).

José Gomes



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