quarta-feira, 13 de junho de 2012

Álvaro Cunhal - 7 anos depois da sua partida

“(…) Quanto ao Álvaro, um político exemplar, um homem íntegro, um ser humano de uma dignidade irrepreensível, é um dos grandes políticos do século XX. Um dos grandes homens da História. Quer queiram quer não, figurará no topo dos ilustres, dos lutadores inabaláveis, daqueles que da lei da morte se libertou por ter sido sempre igual a si próprio. Para a sua irmã, Eugénia, deixo o meu apertado abraço. (…)” – Isabel (Isamar)



Álvaro Cunhal 
(Coimbra, 10 de Novembro de 1913 — Lisboa, 13 de Junho de 2005)


Álvaro Cunhal foi uma das figuras mais marcantes do século XX. Foi político, artista plástico e escritor, conhecido por ser um dos mais importantes resistentes ao Estado Novo e ter dedicado a sua vida ao ideal comunista.
Faz hoje (13 de Junho) sete anos que partiu um revolucionário que nunca abdicou do seu ideal. Partiu para novas lutas… 
Deixo-lhe aqui a minha homenagem, nas palavras de José Saramago:

Não foi o santo que alguns louvavam nem o demónio que outros aborreciam, foi, ainda que não simplesmente, um homem. Chamou-se Álvaro Cunhal e o seu nome foi, durante anos, para muitos portugueses, sinónimo de uma certa esperança. Encarnou convicções a que guardou inabalável fidelidade, foi testemunha e agente dos tempos em que elas prosperaram, assistiu ao declínio dos conceitos, à dissolução dos juízos, à perversão das práticas. As memórias pessoais que se recusou a escrever talvez nos ajudassem a compreender melhor os fundamentos da raquítica árvore a cuja sombra se recolhem hoje os portugueses a ingerir os palavrosos farnéis com que julgam alimentar o espírito. Não leremos as memórias de Álvaro Cunhal e com essa falta teremos de nos conformar. E também não leremos o que, olhando desde este tempo em que estamos o tempo que passou, seria provavelmente o mais instrutivo de todos os documentos que poderiam sair da sua inteligência e das suas finas mãos de artista: uma reflexão sobre a grandeza e decadência dos impérios, incluindo aqueles que construímos dentro de nós próprios, essas armações de ideias que nos mantêm o corpo levantado e que todos os dias nos pedem contas, mesmo quando nos negamos a prestá-las. Como se tivesse fechado uma porta e aberto outra, o ideólogo tornou-se autor de romances, o dirigente político retirado passou a guardar silêncio sobre os destinos possíveis e prováveis do partido de que havia sido, por muitos anos, contínua e quase única referência. Quer no plano nacional quer no plano internacional, não duvido de que tenham sido de amargura as horas que Álvaro Cunhal viveu ainda. Não foi o único, e ele o sabia. Algumas vezes o militante que sou não esteve de acordo com o secretário-geral que ele era, e disse-lho. A esta distância, porém, já tudo parece esfumar-se, até as razões com que, sem resultados que se vissem, nos pretendíamos convencer um ao outro. O mundo seguiu o seu caminho e deixou-nos para trás. Envelhecer é não ser preciso. Ainda precisávamos de Cunhal quando ele se retirou. Agora é demasiado tarde. O que não conseguimos é iludir esta espécie de sentimento de orfandade que nos toma quando nele pensamos. Quando nele penso. E compreendo, garanto que compreendo, o que um dia Graham Green disse a Eduardo Lourenço: "O meu sonho, no que toca a Portugal, seria conhecer Álvaro Cunhal." O grande escritor britânico deu voz ao que tantos sentiam. Entende-se que lhe sintamos a falta.
José Saramago

Até sempre, camarada.

José Gomes


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