sexta-feira, 22 de junho de 2012

Recordações do S. João do Porto


Bonito trabalho do meu companheiro de muitas lutas, Zé Kagomes, que tem uma imprecisão comum no Porto e em Lisboa. Na capital, dizem que é o Santo António, quando o padroeiro é S. Vicente. No Porto, é a Senhora da Vandoma, como se pode confirmar aqui:

http://www.diocese-porto.pt/index.php
option=com_content&view=article&id=1053:solenidade-de-nossa-senhora-da-vandoma-padroeira-principal-da-cidade-do-porto&ca 

O Germano Silva também falou nisso na sua crónica domingueira do JN de 17-Junho-2012. Conta que no séc. XIX havia 3 S. Joões: - o de Cedofeita, miguelista; o da Lapa, constitucional e o do Bonfim, republicano. O alho-porro era usado para afastar o mau-olhado. Lembro-me de, na minha meninice, o alho ser pendurado na parede da minha casa, sendo substituído no ano seguinte. Os bairros eram engalanados pelos moradores e neles se dançava pela madrugada fora. Às tantas saíam todos em grupo (rusga) e, cantando, percorriam as ruas até às Fontainhas como era tradição. O meu pai contou-me que não era costume bater com o alho nas pessoas. Deu-se o facto de, por alturas da II Grande Guerra, na rua de Santa Catarina, à porta do Grande Hotel, a gerência lembrar-se de colocar umas cadeiras de lona para os hóspedes assistirem à passagem das rusgas, oferecendo um alho-porro a cada um . As velhotas inglesas, começaram a pousar a flor do alho na cabeça e no nariz dos e das passantes, numa atitude amistosa. O seu gesto não tardou a ser copiado e generalizou-se, não só com o alho mas com os ramos de cidreira. Depois veio a desgraça do plástico e, hoje, anda tudo à martelada...
«:-) G.M.
Obrigado, Gaspar, por teres colaborado numa melhor compreensão do S. João do Porto.


No dia de S. João / Vamos todos cantar /
Brincar com um balão / Até ele rebentar

A noite de 23 para 24 de Junho, na cidade do Porto, é a noite de todas as folias, a noite menor e mais alegre do ano (solstício de Verão), em que multidões de pessoas vêm para as ruas festejar o S. João, o santo mais venerado, o padroeiro dos amores e da folia. A cidade vive manifestações de cariz popular, cultural e recreativas, nomeadamente a corrida de São João, bailaricos, fogueiras, quermesses, música e os concursos de cascatas, montras e quadras populares.
Um pouco por toda a cidade vendem-se manjericos, cravos, erva-cidreira, "alho-porro" e, mais recentemente, os famigerados martelinhos de plástico, as “armas” indispensáveis para a “guerra” dos foliões da Noite de S. João.

O Sagrado

S. João – Praça da Ribeira

S. João Baptista é o Santo que anunciou a vinda Jesus Cristo, seu primo. Foi ele que O baptizou nas águas do rio Jordão, na Palestina e O apresentou como Messias. Iconograficamente aparece representado como um menino a brincar com um cordeiro ou um adulto vestido com uma pele de carneiro.
As comemorações do seu nascimento são realizadas no dia 24 de Junho. Os portuenses escolheram-no como seu padroeiro e este dia como seu feriado municipal. S. João Baptista é o padroeiro das doenças mentais, da amizade, dos comerciantes de vinho, de muitas profissões ligadas às peles e lãs e das diversões.

As origens da Festa de S. João estarão ligadas ao culto do Sol como fonte de vida. Há muitos séculos que a Festa religiosa em homenagem a S. João é acompanhada por festividades pagãs, inicialmente combatidas pela Igreja, que não consentia a mistura entre o sagrado e o profano.
Santo Elói, no século VII, proclamou do seu púlpito aos fiéis que o ouviam: “Eu vos peço... que na festa de S. João e em outras solenidades dos santos, se não faça uso do solstício; que não se entreguem a danças, a jogos, a corridas, a coros diabólicos…”.
Na legislação religiosa sobre superstições populares, nas Constituições do Bispado de Lamego, de 1639, escreveu-se “…pode-se também pôr em exemplo (de superstição) no que se tem introduzido em dia de S. João Baptista, que se colham as ervas e levem a água da fonte para casa, ou se lave a gente e os animais nela, antes do sol nascer, metendo a gente de pouco saber que redunda em honra e louvor do Santo”.

Noitada de S. João
Avenida dos Aliados – Porto

Os festejos S. João, inseridos nas Festas da Cidade do Porto, continuam pelos nossos dias, noutros ambientes e com outros cenários, mas com a mesma moldura humana, com o mesmo movimento que, ano após ano se repete. As expressões religiosas são agora mais ténues, resumindo-se ao interior dos templos onde se materializa a memória do santo nos altares em sua honra.

S. João das Fontainhas

À cascata das Fontainhas acorrem os populares que, na rua, prestam tributo ao Santo, oferecendo-lhe preces e agradecimentos pelas graças recebidas.

Nas cidades onde o S. João é festejado, as celebrações alcançam o seu expoente máximo nas ornamentações das ruas e na diversão do povo.
Todavia, o Porto e os portuenses desde sempre sentiram uma especial devoção e carinho por S. João Baptista, como podemos adivinhar nas canções a ele dedicadas…

São João santo bonito,
Bem bonito que ele é.
Com os seus caracóis de oiro,
E seu cordeirinho ao pé.
Não há nenhum assim,
Pelo menos para mim
Nem mesmo São José.

Santo António já se acabou
O São Pedro está-se acabar
São João, São João
Dá cá um balão para eu brincar.
(…)

… ou depositando alusões ao Santo e ao dia da sua Festa, na própria história da cidade, na sua toponímia, em acontecimentos importantes e perpetuando a sua afeição ao culto, velando o seu património religioso, como o testemunham a Igreja do Convento de S. João Novo, construída no local onde existiu a Ermida de S. João na extinta freguesia de S. João Baptista de Belomonte.
Passados cerca de trezentos anos, foi construída a Igreja de S. João da Foz, na freguesia da Foz do Douro, da qual é orago local.


A imagem de S. João está representada na escultura, nas artes plásticas e decorativas no interior das igrejas e capelas da cidade do Porto:

Na Ribeira

Igreja da Misericórdia – de estilo barroco, datada do séc. XVI e reedificada no séc. XVIII, de autoria de Nicolau Nasoni. A imagem de S. João Baptista é do tipo maneirista e alberga um retábulo estilo império. No núcleo museológico da Santa Casa da Misericórdia existe um painel em honra a S. João, da autoria de António Carneiro e um relicário de S. João Baptista em forma de cabeça.

Igreja de S. Nicolaudo séc. XVII, inserida na corrente maneirista, embora apresente algumas soluções de tendência barroca. Possui no Baptistério uma tela representativa do baptismo de Cristo por S. João. Por ocasião das festas de S. João é exposta na Igreja uma pequena mas valiosa imagem de S. João.

Igreja Conventual de S. Francisco - do séc. XIV, de estilo gótico. É uma das mais importantes obras do barroco em Portugal, pelo seu revestimento em talha dourada. De destacar, na Capela dos Carneiros, também chamada do Baptismo de Cristo ou de S. João Baptista, uma pintura da cena bíblica do Baptismo com a manifestação da Santíssima Trindade, num retábulo que data do séc. XVI.

Na Sé

Catedral - do séc. XII, de estilo românico, com grandes alterações na época barroca. O Baptistério tem representado, num baixo-relevo da autoria de Teixeira Lopes (pai), a cena do Baptismo de Cristo por S. João Baptista.

Igreja de Santa Clara - de origem gótica, com o interior revestido a talha dourada. Neste conjunto é-nos apresentada uma composição, constituída por uma escultura de S. João Baptista, encimando uma espécie de cascata sanjoanina e um relicário de S. João em forma de cabeça, aludindo ao episódio da degolação.

Em Miragaia

Igreja de S. João Novo - finais do séc. XVII, de origem Barroca. No seu interior podemos admirar um retábulo em talha dourada dedicado a S. João Baptista, datado de finais do séc. XVII. Em 24 de Junho, dia do nascimento de S. João, realiza-se nesta Igreja a missa solene em sua honra.

Igreja de S. Pedro de Miragaia - foi a primeira Sé do Porto, mas sofreu várias intervenções a partir do século XVII. No seu interior vê-se a imagem de S. João Baptista na capela em honra de Santa Rita. Na sala da confraria pode-se ver um tríptico da escola flamenga do séc. XVI, que representa S. João Baptista baptizando Cristo no rio Jordão.

Na Baixa

Igreja dos Congregados - finais do séc. XVII, de estilo barroco. Possui no seu interior um altar neoclássico dedicado a S. João Baptista.

Igreja dos Clérigos - estilo barroco. O conjunto arquitectónico é composto pela Igreja e pela Torre dos Clérigos, ex-libris da cidade. Na sua construção trabalharam vários artistas, salientando-se Nicolau Nasoni. A imagem de S. João Baptista aparece no altar dedicado a Nossa Senhora das Dores.

Igreja da Lapa - dos séc.XVIII / XIX, estilo neoclássico. De autoria de João Glama Stroberle, guarda na sua capela-mor, num mausoléu granítico, o coração de D. Pedro IV, rei de Portugal e que foi oferecido à cidade do Porto pela Imperatriz D. Amélia de Beauharnais, cumprindo assim o desejo do marido. Possui no seu interior um altar dedicado a S. João Baptista.

Capela das Almas – foi construída nos princípios do séc. XVIII. No séc. XX todo o exterior foi revestido de azulejos representando passos da vida de S. Francisco de Assis e de Santa Catarina. No interior há um altar neoclássico dedicado a S. João e um relicário deste em forma de cabeça.

Igreja da Trindade - construída no séc. XIX, de estilo neoclássico. Na capela-mor, destaca-se o painel de grandes dimensões do pintor José de Brito, representando o Baptismo de Cristo, além de uma escultura de S. João, na lateral esquerda desta Igreja.

Na Foz

S. Joao Batista - Foz do Douro

Igreja de S. João da Foz - da época do renascimento. Na fachada da Igreja há um nicho com a imagem de S. João. No interior há uma pintura no baptistério e uma escultura do Santo no retábulo-mor, entalhado no séc. XVIII.

No Bonfim

Igreja do Bonfim - datada do séc. XIX. No seu interior, num nicho, há uma escultura representando S. João Baptista.

Em Cedofeita

Capela dos Anjos - datada do séc. XIX, apresenta no seu interior uma imagem de S. João Baptista com os braços abertos, em sinal de pregação

Igreja dos Carmelitas - do séc. XVIII. De estilo barroco e com intervenção de Nicolau Nasoni ao nível da fachada. A imagem de S. João Baptista aparece numa das paredes da Igreja, em conjunto com as imagens de S. Pedro e Santo António.


O Profano

A relação mágica “terra/céu” assume desde a pré-história um papel muito importante na vida das comunidades. A Festa de S. João Baptista, festa do solstício de verão, é a marca do apogeu do curso solar e herda, assim, todos os símbolos que a caracterizam como uma festa de origem pagã. O culto das pedras e das ervas, da água, das plantas e do fogo há muito que se alia à celebração religiosa em honra deste Santo, com benefícios destes elementos no amor, na amizade, na saúde, na felicidade e na beleza.


A Festa de S. João no Porto

S. João – Ornamentações em Miragaia

As primeiras referências às festas em homenagem ao S. João do Porto aparecem no século XIV, por um dos cronistas do Rei.
O envolvimento dos portuenses é marcado pela força e o entusiasmo com que aderem às festividades e pelo seu esforço na organização das inúmeras iniciativas que compõem as festas da cidade, nomeadamente nos espetáculos culturais e recreativos, nas rusgas, nos bailes populares e no convívio das multidões anónimas.
S. João Baptista é um “Santo Popular”, por ser festejado na rua pelo povo.

Noitada de S. João - Ribeira

Das Festas da Cidade que se realizam durante o mês de Junho, saliento a corrida de S. João, os concursos de cascatas, os concursos de montras, o concurso de rusgas e das quadras populares alusivas ao S. João, das largadas dos tradicionais balões de S. João, feitos em papel de cores variadas que, nesta noite, são cuidadosamente lançados em direcção ao céu, proporcionando um espectáculo de centenas de pontos de luz.

Largada de balões

Nesta ocasião, as ruas enchem-se de ornamentações e iluminações festivas, barracas de petiscos, bailes ao ar livre e diversões variadas, para que o povo festeje um S. João popular, folião, de convívio, amizade e alegria.

As fogueiras e o fogo de artificio

Fogueiras de S. João - Porto

As fogueiras de S. João são ateadas em algumas ruas da cidade. Por cima delas saltam os foliões demonstrando, assim, a sua coragem e a sua crença nas virtudes purificadoras destas na saúde, no casamento e na felicidade.

Fogo de artifício na noite de S. João

À meia-noite do dia 23 de Junho há o “fogo de S. João”, fogo de artifício que faz com que o povo saia à rua e se dirija para a Ribeira. Juntam-se milhares de pessoas em ambas as margens do rio Douro, para assistir ao maior espectáculo do ano, pleno de luz, cor e som.

A água e as orvalhadas

A água tem uma particular função nesta festa enquanto elemento do Baptismo de Jesus por João Baptista. Traz, também, consigo semelhanças com cultos e rituais pagãos. Na sabedoria popular a água dorme todas as noites, excepto na noite de S. João. Nesta noite e madrugada acredita-se que a água das orvalhadas é benta e tem o poder e a força para curar doenças, dar beleza aos jovens e favorecer os amores.

S João das Fontainhas

Na Alameda das Fontaínhas há uma fonte para onde o povo se desloca na noite de 23 para 24 de Junho, entre a meia-noite e o nascer do Sol, para beber da sua água ou lavar-se nela e assim obter as bênçãos e as propriedades mágicas dela.
As orvalhadas que são sentidas nesta noite de uma forma mais acentuada já fazem parte do ritual da própria festa.

A noite de S. João termina na Foz do Douro, com o povo a rumar em direcção ao mar e por aqui esperam, deitados nas areias douradas das praias, até ao nascer do Sol.

O alho-porro e o manjerico

As ervas aromáticas, também chamadas “ervas de S. João”, assumem nesta festa uma particular importância, tanto pelos benefícios que se julga trazerem à saúde, como pelas manifestações que o povo lhes atribuiu (virtudes mágicas e terapêuticas, resquícios de rituais antigos, derivados de festas romanas e célticas), tornando-as num símbolo do S. João.

"Alhos-porros" à espera de compradores
 S. João – Porto

O alho-porro, ou “alho de S. João” é usado democraticamente na noite mais longa do ano para tocar e dar a cheirar a quem por nós passa, desejando-se deste modo saúde, boa sorte e fortuna.

Manjericos

O manjerico é a erva aromática mais popular nesta festa, comprada em qualquer parte da cidade, quer para decoração, quer para oferta. Os vasos de manjaricos são enfeitados com uma bandeirola colorida, presa por um arame, com uma quadra popular alusiva à Festa, ao Santo ou ao povo. Devem ser “cheirados” só com a mão (dizem as más línguas que sempre que se cheira o manjerico com o nariz, a planta acaba por morrer).

O martelinho de S. João

Martelo de S. João

Os “martelinhos de S. João”, de cores, tamanhos e formas variadas, são uma das “armas” mais recentes do arsenal de S. João. Vendem-se por toda a cidade, ao lado dos tradicionais manjericos, cravos, erva-cidreira e “alho-porro”.
São de plástico e produzem um som próprio e característico que contagia desde o início do dia a quem está na cidade, até para além do próprio dia de S. João! São coloridos, de formas e tamanhos diferentes e escolhidos conforme a energia do folião. Servem para “bater” nas cabeças dos passantes, sem que essa demonstração provoque qualquer incómodo, apenas riso e um cumprimento/agradecimento… excepto naquelas ocasiões em que o “folião/foliona” não sabe dosear a força do martelo…!

A cascata


Cascatas de S. João

A cascata e o Presépio, provavelmente relacionadas com os solstícios de Inverno e Verão, devem ter a mesma origem.
A água, elemento imprescindível das cascatas sanjoaninas e a imagem de S. João Baptista baptizando Jesus, são os elementos centrais do conjunto, cujo cuidado na sua construção nos mostra a devoção dos portuenses ao Santo. Algumas cascatas são verdadeiras obras de arte e imaginação.
Na sua construção aparecem verdadeiras aldeias com casas minúsculas e caminhos traçados com areia e musgos, que são a reconstituição de lugares da cidade, costumes e ofícios de outros tempos.
As figuras de barro pintadas a cores vivas, são verdadeiras obras de arte popular criadas pelos mascateiros (vendedores ambulantes) que representam as pessoas no seu dia-a-dia, trabalhando nas suas profissões, muitas delas já desaparecidas e vários animais.
Algumas das cascatas são animadas através do movimento das suas peças e muito enfeitadas, pelo colorido das luzes, pelas folhagens e verduras utilizadas. Variam de tamanho e não obedecem a nenhum modelo de concepção, surgindo consoante a imaginação de quem as constrói.

As crianças, com as suas modestas cascatas, erguidas em qualquer recanto, fazem o seu peditório para o Santo:“um tostãozinho para o S. João!” (diziam! Mais recentemente tenho ouvido pedir “um euro para o S. João”…evolução e atualização da moeda atual!)

As cascatas mais conhecidas e tradicionais e que ainda subsistem, são a da Alameda das Fontaínhas, local de romaria e oração e a cascata frente aos Paços do Concelho, da iniciativa da Câmara Municipal.

A gastronomia

Caldo verde

Na noite da Festa ou no dia de S. João come-se caldo verde com broa, carneiro, anho, sardinha assada, salada de pimentos e, como sobremesa, leite-creme.

Na madrugada do dia 23 para 24 de Junho bebe-se café com leite e come-se pão com manteiga.
As origens desta tradição são pouco precisas. Há quem diga que o uso do anho ou cabrito se deve à presença deste animal nas imagens de S. João, numa alusão ao cordeiro de Deus.

Sardinhas prontas a serem assadas...

A sardinha foi introduzida, mais tarde, por ser mais barata e muito abundante nesta altura do ano. (de há uns anos para cá este petisco passou a ser um artigo de luxo e vendido como tal).

Bolo de S. João

Mais recentemente está a ser recuperada a tradição do “Bolo de S. João” (lembro-me que, por esta altura, em casa dos meus pais, tinha no dia de S. João esta iguaria na mesa), que desaparecera por volta dos anos 50. A receita oficial deste bolo (que lembra o “bolo-rei” mas menos doce e com mais frutos secos) leva farinha, fermento, frutas cristalizadas, nozes, amêndoas, licor, rum, cognac a gosto e leite para amassar.
É acompanhado com Vinho do Porto.


José Gomes
Junho 2012
Recordações minhas e pesquisas na Net.
Fotos nossas (Milú e José Gomes) e da Net.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Álvaro Cunhal - 7 anos depois da sua partida

“(…) Quanto ao Álvaro, um político exemplar, um homem íntegro, um ser humano de uma dignidade irrepreensível, é um dos grandes políticos do século XX. Um dos grandes homens da História. Quer queiram quer não, figurará no topo dos ilustres, dos lutadores inabaláveis, daqueles que da lei da morte se libertou por ter sido sempre igual a si próprio. Para a sua irmã, Eugénia, deixo o meu apertado abraço. (…)” – Isabel (Isamar)



Álvaro Cunhal 
(Coimbra, 10 de Novembro de 1913 — Lisboa, 13 de Junho de 2005)


Álvaro Cunhal foi uma das figuras mais marcantes do século XX. Foi político, artista plástico e escritor, conhecido por ser um dos mais importantes resistentes ao Estado Novo e ter dedicado a sua vida ao ideal comunista.
Faz hoje (13 de Junho) sete anos que partiu um revolucionário que nunca abdicou do seu ideal. Partiu para novas lutas… 
Deixo-lhe aqui a minha homenagem, nas palavras de José Saramago:

Não foi o santo que alguns louvavam nem o demónio que outros aborreciam, foi, ainda que não simplesmente, um homem. Chamou-se Álvaro Cunhal e o seu nome foi, durante anos, para muitos portugueses, sinónimo de uma certa esperança. Encarnou convicções a que guardou inabalável fidelidade, foi testemunha e agente dos tempos em que elas prosperaram, assistiu ao declínio dos conceitos, à dissolução dos juízos, à perversão das práticas. As memórias pessoais que se recusou a escrever talvez nos ajudassem a compreender melhor os fundamentos da raquítica árvore a cuja sombra se recolhem hoje os portugueses a ingerir os palavrosos farnéis com que julgam alimentar o espírito. Não leremos as memórias de Álvaro Cunhal e com essa falta teremos de nos conformar. E também não leremos o que, olhando desde este tempo em que estamos o tempo que passou, seria provavelmente o mais instrutivo de todos os documentos que poderiam sair da sua inteligência e das suas finas mãos de artista: uma reflexão sobre a grandeza e decadência dos impérios, incluindo aqueles que construímos dentro de nós próprios, essas armações de ideias que nos mantêm o corpo levantado e que todos os dias nos pedem contas, mesmo quando nos negamos a prestá-las. Como se tivesse fechado uma porta e aberto outra, o ideólogo tornou-se autor de romances, o dirigente político retirado passou a guardar silêncio sobre os destinos possíveis e prováveis do partido de que havia sido, por muitos anos, contínua e quase única referência. Quer no plano nacional quer no plano internacional, não duvido de que tenham sido de amargura as horas que Álvaro Cunhal viveu ainda. Não foi o único, e ele o sabia. Algumas vezes o militante que sou não esteve de acordo com o secretário-geral que ele era, e disse-lho. A esta distância, porém, já tudo parece esfumar-se, até as razões com que, sem resultados que se vissem, nos pretendíamos convencer um ao outro. O mundo seguiu o seu caminho e deixou-nos para trás. Envelhecer é não ser preciso. Ainda precisávamos de Cunhal quando ele se retirou. Agora é demasiado tarde. O que não conseguimos é iludir esta espécie de sentimento de orfandade que nos toma quando nele pensamos. Quando nele penso. E compreendo, garanto que compreendo, o que um dia Graham Green disse a Eduardo Lourenço: "O meu sonho, no que toca a Portugal, seria conhecer Álvaro Cunhal." O grande escritor britânico deu voz ao que tantos sentiam. Entende-se que lhe sintamos a falta.
José Saramago

Até sempre, camarada.

José Gomes


domingo, 10 de junho de 2012

Vasco Gonçalves - um dos grandes portugueses do Século XX

“Penso que ainda temos muito a fazer, por exemplo, através dos nossos textos e usando a Verdade, transmitindo, principalmente aos mais novos, claramente, aquilo que até agora, no calor da nossa Luta, ainda não conseguimos. Todas as contribuições não serão demais, para edificação de uma sociedade mais justa e fraterna”. 
Fernando Bizarro (12 Junho 2005)



VASCO GONÇALVES
1921/2005



O General Vasco Gonçalves nasceu a 3 de Maio de 1921 em Lisboa e faleceu no Algarve, a 11 de Junho de 2005.

Apareceu no Movimento dos Capitães em Dezembro de 1973, na reunião alargada da Comissão Coordenadora que se efectuou na Costa da Caparica.
Coronel de Engenharia, foi membro da Comissão de Redacção do Programa do Movimento das Forças Armadas, sendo o elemento de ligação com o General Costa Gomes. Foi membro da Comissão Coordenadora do MFA e, mais tarde, primeiro-ministro dos II, III, IV e V governos provisórios.

Durante o seu governo iniciou-se a Reforma Agrária, criaram-se as condições para as nacionalizações dos principais meios de produção privados (bancos, seguros, transportes públicos…), foi estabelecido o salário mínimo, o subsídio de férias e o subsídio de Natal.

Vasco Gonçalves tinha 52 anos quando a Revolução começou. Por ela havia esperado e para ela se havia preparado durante muitos anos. Foi a maior alegria da sua vida participar no 25 de Abril e viver aqueles momentos como primeiro-ministro.

Na sequência dos acontecimentos de 25 de Novembro de 1975, Vasco Gonçalves foi perdendo toda a sua influência, acabando por ser abafado pelo sistema que o foi deixando cair no esquecimento. É assim que se neutralizam os homens de valor.

Sete anos depois do seu desaparecimento físico e como minha homenagem ao Companheiro Vasco, ao Homem Bom e Honesto que foi e que sonhou com um País Novo, à solidariedade em que sempre acreditou, à liberdade porque sempre se bateu, aos ideais de Abril que foi sempre um acérrimo defensor deixo, hoje e aqui, estas palavras de Maria Manuela Cruzeiro:

 “ (…) Mas a História não se desenvolve às avessas, como se o passado pudesse ser determinado a partir do futuro. A inviabilidade da Revolução Portuguesa numa Europa da qual a URSS desapareceu não pode servir de justificação política à contra-revolução.
Para quantos se situam na perspectiva de Vasco Gonçalves — entre eles me incluo — a Revolução Portuguesa foi uma revolução assassinada. Assim a devemos tentar compreender, contemplada deste início do século XXI, quando alguns dos principais responsáveis civis pela contra-revolução, pequenos políticos caricaturais, se pavoneiam pelo mundo mascarados de campeões da democracia.
No Inverno da vida, Vasco Gonçalves está consciente de que «as maiores conquistas que o povo português alcançou ao longo dos seus oito séculos de história, se verificaram em 74-75 e nelas desempenharam um papel fundamental os militares do MFA».
O projecto revolucionário, como o concebera, não se concretizou. Mas não há calúnia nem agressão à história que possa apagar o significado da participação decisiva na Revolução de Vasco Gonçalves, cidadão, soldado e patriota. Ele foi com Álvaro Cunhal um dos grandes portugueses do século XX.”
(última parte do artigo “Vasco Gonçalves – O general do povo que fez história”, da autoria de Miguel Urbano Rodrigues, sobre o livro “Vasco Gonçalves – Um General na Revolução”, entrevista de Maria Manuela Cruzeiro).


Nesta data e para que a memória colectiva não esqueça, deixo-vos com uma das acções que o General do Povo muito gostava:

Vasco Gonçalves e as Campanhas de Dinamização Cultural e Acção Cívica do MFA

Para Vasco Gonçalves, um dos principais objectivos das Campanhas de Dinamização Cultural e Acção Cívica do MFA «era levar os militares, o MFA, às populações e apoiá-las no desenvolvimento, na tomada de consciência dos problemas que elas tinham. [...] Pretendíamos, sobretudo, transformar as ideias de fundo dessas populações. Não pretendíamos transformar essas populações em socialistas ou em comunistas. Queríamos transformá-las em gente democrática, gente aberta a analisar as situações e arrancá-las de toda aquela carga de fascismo que durante 48 anos tinha pesado sobre elas».

As Campanhas de Dinamização Cultural e Acção Cívica do MFA tiveram um importante papel na democratização e dinamização das Forças Armadas. Os militares que as protagonizaram regressarem «mais politizados» devido ao contacto com as diferentes realidades que procuravam transformar. Nesse sentido, e numa perspectiva cara à Primeira República, Vasco Gonçalves evocou, numa sessão de esclarecimento realizada no Sabugo (Sintra) em Fevereiro de 1975, a figura do «militar-educador». Este deveria aprender com aqueles que procurava educar, com aqueles que procurava ensinar, com aqueles que procurava ajudar. Na sua óptica, a expressão que melhor caracterizava a Dinamização Cultural era o «trabalho quotidiano» porque as Campanhas constituíam uma aprendizagem mútua, um processo de conhecimento do país que a revolução surpreendeu.

Para Vasco Gonçalves o grande impulsionador das Campanhas de Dinamização Cultural e Acção Cívica do MFA fora Ramiro Correia, o «comandante-médico que até fazia versos [...] um idealista no bom sentido do termo». Na génese desta iniciativa, salientava a importância da Acção Psico-social utilizada na guerra colonial, assegurando que «muitos militares vieram influenciados com isso e consideravam-se em condições de desenvolver uma acção desse nível dentro do nosso proprio país, com os seus compatriotas».

A relação entre os militares e a população adquiriu novos contornos com a transição democrática e, para Vasco Gonçalves, as Campanhas de Dinamização Cultural e Acção Cívica do MFA seriam uma ferramenta axial no fortalecimento desta relação, eternizada na expressão aliança Povo-MFA a qual condensava os ideais da facção progressista do MFA «que eram sobretudo os da libertação da nossa pátria, do nosso povo, da realização das aspirações básicas». Utilizava o termo «missão» para aludir às Campanhas, afirmando serem estas «um trabalho gigantesco para as nossas possibilidades», referindo-se à insuficiência de meios técnicos e humanos que dispuseram para a concretização desta proposta da agenda revolucionária. «Foi uma das nossas debilidades fundamentais».

Num dos muitos cartazes que desenhou João Abel Manta pareceu representar a «esperança e a confiança» que Vasco Gonçalves depositava nesta iniciativa ao atribuir-lhe uma centralidade no célebre cartaz MFA-Vasco-Povo. Povo-Vasco-MFA (1975), onde surge ladeado por duas figuras híbridas meio soldado, meio povo, reforçadas pela frase «Força, Força Companheiro Vasco / Nós Seremos a Muralha de Aço».
E foi da seguinte forma que Vasco Gonçalves se referiu a este cartaz: «O cartaz é muito terno, eu era o companheiro Vasco, mas para certo sector da população, não para o país».

(Texto de Sónia Vespeira de Almeida, com base em entrevista a Vasco Gonçalves (2002) no âmbito da sua tese de doutoramento em Antropologia. Inserido no folheto comemorativo da homenagem a Vasco Gonçalves, realizada na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, em 21 de Outubro de 2006).

José Gomes