segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Mensagem de Natal


Poema de Natal

Se considero o triste abatimento
Em que me faz jazer minha desgraça,
A desesperação me despedaça,
No mesmo instante, o frágil sofrimento.

Mas súbito me diz o pensamento,
Para aplacar-me a dor que me trespassa,
Que Este que trouxe ao mundo a Lei da Graça,
Teve num vil presepe o nascimento.

Vejo na palha o Redentor chorando,
Ao lado a Mãe, prostrados os pastores,
A milagrosa estrela os reis guiando.

Vejo-O morrer depois, ó pecadores,
Por nós, e fecho os olhos, adorando
Os castigos do Céu como favores.

Manuel Maria Barbosa du Bocage



sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Timor - Ontem e Hoje


Pensei falar, neste dia 7 de Dezembro, que Díli, capital de Timor Leste, foi invadida em 7 de Dezembro de 1975 pelas forças agressoras indonésias.

Desisti, pois foi uma data que nos marcou muito.

É uma data histórica, um grito heróico do Povo Timorense que, passo a passo, com muito sacrifício e muita luta caminhou até à vitória final: a restauração da sua independência em 20 de Maio de 2002.

Em homenagem a este Povo heróico, deixo este trabalho.

Timor - Foto Tozé - 2003

TIMOR…
Conta a lenda que, um belo dia, um cansado e desiludido crocodilo se fez ao mar, levando no seu dorso um rapaz que o acompanhou na busca de um disco dourado que todos os dias se levantava para lá do horizonte...

Conta a lenda que esse crocodilo, ao chegar ao seu destino, se transformou dando origem à ilha de Timor.

E o rapaz, feito Homem, deu origem a uma Nação: TIMOR LESTE.


Timor - Pintura de Milú Coelho Gomes 



Timor é um país de sonho e encantamento, perdido entre planícies verdejantes, montanhas floridas e rodeado de um extenso mar da cor do céu.

As montanhas de Timor, da altura dos Pirinéus, são rasgadas por precipícios que se espelham no azul do mar.

O Sol, com os seus raios, desflora a terra vermelha de Timor calcinando-lhe as pedras, lançando fogo e luz sobre as planícies e os vales floridos.

Como é belo sonhar à sombra dos tamarindos em flor, aspirar a brisa ondulante dos extensos palmares, sentir o perfume inebriante do sândalo e dos cafezais, ouvir o ronronar suave das águas do mar quando se espreguiçam nas praias douradas.


Timor - Toké - M. Amado - Outubro 2003

Lembro do cantar dos Tokés (espécie de lagarto ou sardão cuja voz imita esta palavra) que povoavam os tectos das nossas casas ou corriam pelas árvores.


Timor - Acácias Rubras - foto Prof. A. Serra - Nov. 2003

Sinto o suave aroma das acácias rubras que ladeavam as largas avenidas e o cheiro das rosas do meu quintal cujo aroma atraía as abelhas das redondezas.

Ouço, ainda, o latir do velho Tejo a pedir uma carícia no seu focinho húmido, quando me sentia chegar da escola...

Lembro-me das catatuas, donzelas de branco, toucado amarelo e olhos de rubi.




Lembro-me dos loricos, de cores verde, vermelho e amarelo, cujo colorido me deslumbrava, e que se passeavam, sem medo, pelo meio das pessoas tecendo seus comentários no palrar das suas gargantas...
...

Deixo-me levar, deleitado, pelos cânticos das mais variadas aves que fazem a saudação ao Sol do dia-a-dia.


Timor é uma sinfonia mística de cores, de cambiantes garridos de Vida, de searas extensas que flutuam ao som dos ventos rasantes, onde os grilos, as cigarras e os camarões se guerreiam por um grão de milho doirado.

As águas das ribeiras correm inquietas, dolentes às vezes, alucinadas quase sempre, ansiosas por chegar ao fim, pelo abraço terno do “mar-mulher”, de águas mornas, muito límpidas e calmas.

As ribeiras são símbolos... símbolos da vida do Oriente, símbolos da vida de Timor.

A Vida corre, sem preocupações, o Sol aquece, as Sombras são tão doces e suaves...

Lá ao longe ouve-se o ressoar monótono e monocórdico dos tambores, as vozes erguem-se ora dolentes ora em gritos, como um chamamento da Terra-mãe, da pátria Maubere...

A Vida é bela, e vive-se...

A Vida não é mais que a ânsia de viver, de sentir-se Vida em todo o seu êxtase de loucura, do sorver cada momento que passa...

Enquanto se vive, luta-se... quando a luta chega ao fim, a Vida acabou!

Depois...

Depois vem o descanso, o bem-estar, o regresso às origens...

O mar, no seu vai e vem de milénios, continua a beijar a ilha em forma de crocodilo...

O Sol aquece...

O chilrear das aves anuncia o novo dia!


José Gomes
07 de Dezembro 2012






domingo, 2 de dezembro de 2012

Noites de Poesia em Vermoim - 1 Dez. 2012 - a reportagem


A pedido do Movimentum – Arte e Cultura (e porque estes Amigos estão de parabéns pelo seu 19º aniversário!!!) transcrevemos o post que publicaram em http://movimentum-blogando.blogspot.pt/, convidando os nossos leitores a fazer um pequeno exercício de divulgação – e seria ouro sobre azul deixarem um comentário. Olhem que eles merecem.


Foi uma Noite de Poesia muito diferente. Diferente, porque teve gente jovem, nesta noite em que invocamos a velhice, a dar, musicalmente, o seu contributo. Diferente, porque teve uma televisão regional a fazer uma reportagem das nossas Noites de Poesia. Diferente porque, como Movimentum - Arte e Cultura, fazemos 19 anos de actividade... e 19 anos é mesmo muito tempo!

Mas que tem valido a pena, ai isso é que tem!

Recebemos várias mensagens de parabéns, destacamos estas duas, a primeira recebida por email, a segunda lida durante a Tertúlia:


"O Movimentum - Arte e Cultura completou ontem 30 de Novembro, 19 anos de existência...!

Foi no ano de 1993 que pela mão de Maria Mamede, Maria Jerónima, José Gomes, Milú Coelho, Raquel Silva e Sónia Gomes.

Como os anos velozmente passam! 19 anos.

Rejeitando flutuar ao sabor do vento e marés, tanto em voga já que o melhor seria sucumbir.

Felicito a todas e a todos amigas(os), à Maria Mamede e ao José Gomes. Agradecendo tudo o que em prol da cultura têm feito.

Parabéns ao Movimentum - Arte e Cultura.

1 Dezembro 2012
Jorge Carvalho"


Maria Mamede agradeceu a presença de todos os poetas e justificou a ausência de outros, nomeadamente da Irene Lamolinairie (que mandou um abraço muito apertado, desejos de Bom Natal e felicidades para o Novo Ano) que continua doente mas sempre com o seu pensamento nos seus amigos que continuam a frequentar as Noites de Poesia. Agradeceu, ainda, a presença da Media Comunicação Regional, o canal de televisão on line que esteve a fazer a cobertura desta Noite de Poesia. Introduziu, ainda, a Maria Inês António (9 anos), Margarida Silva (14 anos) e António Francisco (11 anos) que iriam fazer a cobertura musical deste evento. Estes jovens são alunos da Filarmonia de Vermoim, apadrinhada pela Junta de Freguesia e vieram acompanhados pelos seus professores.

Maria Inês António, de 9 anos, em dueto com o seu professor Pedro Brito deliciou-nos com a sua interpretação ao pino de "Banda de Música em Movimento", de Charles Ward.

Maria Mamede deu início ao tema desta Noite com um poema seu (Quando eu for velha) salientando a sua alegria pela presença neste Salão de tantos jovens promissores de um novo Futuro.

Seguiram-se os poetas Armindo Cardoso, Teresa Vaz, Pedro Cabral, Maria José Santos Leite e José Ribeiro que nos declamaram poemas do tema e tema livre.

Margarida Silva, de 14 anos, aluna do professor Pedro Brito, interpretou-nos ao piano a peça Clair de Lune, de Debussy.

Manuela Miguéns, Jorge Carvalho, Marília Teixeira, Silvino Figueiredo, José Gomes e Maria Mamede declamaram poemas do tema e tema livre.

António Francisco, 11 anos, em violino, interpretou-nos a Concertina de Rieding.

Mário Jorge, em nome da Junta de Freguesia de Vermoim, desejou a todos os poetas presentes e ausentes um Bom Natal e um óptimo Ano Novo. Salientou que a Junta de Freguesia tem sempre apostado na Cultura e já tem obra feita. Em primeira mão divulgou a vontade da Junta de Freguesia de Vermoim, em Maio/Junho do próximo ano, editar o III Antologia das Noites de Poesia em Vermoim - 2009-2012.

Na rubrica "Poesia na Net" foram declamados poemas de Teresa Gonçalves, Natália Vale, João Diogo e José Carlos Moutinho.




Esta "Noite de Poesia em Vermoim" terminou com "Parabéns a Você", dedicado ao Movimentum - Arte e Cultura, tocado por Maria Inês ao piano, e António Francisco em violino e cantado, de pé, por todo o público presente.

Muito obrigado a todos.

Voltamos em 5 Janeiro 2013 e o tema proposto é:

Novo ano... e agora?!!!





Podem ver a reportagem deste evento em:

mcregional.tv
televisão on line
a cultura está neste neste canal

www.mcregional.tv

Envie o seu comentário para:
geral@mcregional.tv


Boas Festas, Bom Natal e que o Novo Ano de 2013 consiga ser melhor que este que em breve nos abandonará (e sem saudades nossas!!!).

Então, até para o ano!

José Gomes


domingo, 25 de novembro de 2012

Camilo Castelo Branco por Terras Famalicenses

Camilo Castelo Branco por Terras Famalicenses
Quinta da Bonjoia - 22 Novembro 2012


Na passada quinta-feira, 22 de Novembro de 2012, Camilo Castelo Branco esteve na Quinta da Bonjóia, no Porto, pela mão da Dra. Maria de Fátima Castro.

O Prof. Mota Cardoso introduziu o tema desta Noite e a autora.

A Dra. Maria Adelina Vieira realçou a forma de escrita da autora, numa visão profunda do livro então apresentado e de autoria da Dra. Maria de Fátima Castro.

Transcrevo a seguir o resumo da apresentação da Dra. Maria Adelina Vieira que, gentilmente, nos foi cedido:
Dra. Maria Adelina Vieira


Uma leitura hermenêutica sobre o ensaio Camilo C. Branco por terras famalicenses

Com dotes inatos de historiadora e de mulher de pesquisa, por opção, Mª de Fátima Castro, consciente que Camilo recorre ao processo de verosimilhança no engendramento de espaços, personagens e enredos, pretende provar, neste ensaio, Camilo Castelo Branco por terras famalicenses, que as personagens-tipo camilianas, cujo perfil sociológico nos é apresentada, pela primeira vez, no séc. XIX, contêm uma certa carga de exotismo comportamental, que se projecta tanto ao nível da modernidade das relações de sociabilidade que cultivam, como à imprevisibilidade das acções de algumas delas. Tomemos como exemplo O Senhor do Paço de Ninães, Rui Gomes de Azevedo, e Marta e Honorata Guião, em A Brazileira de Prazins, personagem que vinda da corte se comporta, no meio rústico, com gestos e hábitos próprios de uma verdadeira dama da Rainha, incompatibilidade que justifica a sua fuga com o Dr. Adolfo da Silveira, a quem Camilo põe ironicamente a alcunha de “ O Doutor dos Pombais”.
Também Marta é uma personagem criada pelo narrador, a partir do que o Reitor de Caldelas lhe conta das histórias de amor que tem com José Dias de Vilalva, donde se conclui que Marta tem um perfil ousado, como nos conta ironicamente o autor:
“Com a exposição do Reitor saiu Marta muito enfeitada de joias sentimentais”.
Convirá, pois, esclarecermos que Camilo recorre à construção ficcional de Marta, a protagonista de A Brasileira de Prazins, sendo que a personagem ficcionada está ao serviço de um ajustamento de um conflito entre Camilo e a família de Leonor, personagem real, facto que conduz à seguinte pergunta, por parte da autora: “ O ressentimento teria ajudado a compor as tintas com que pintou o quadro dessa urdidura literária? E, perante um hiato, um interstício narrativo, a autora suspende a resposta: “Não se sabe!” (p.94)
Sabe-se, sim, que toda a obra de Camilo é construída para agitar e fazer tremer as estruturas sociais e literárias vigentes, criando enredos invulgarmente singulares, diga-se vanguardistas, conferindo às personagens comportamentos extravagantes que provocam rupturas com a moral conservadora e com os costumes vigentes das comunidades locais.
Não será, pois, despiciendo salientar que a alma rural das comunidade das aldeias contactadas por Mª de Fátima Castro e incluídas neste ensaio, recordam ainda, que com a chegada de uma burguesia endinheirada e chic que se fixa nas freguesias e lugares que serviram de “corpus” ao seu trabalho de pesquisa, seus antepassados sentiram uma alteração no “status quo” do seu quotidiano rotineiro, vendo-se compelidos a adaptarem-se a novos “modus vivendi ” de uma classe poderosa com hábitos bizarros.
Na verdade, numa primeira aproximação conclui-se que Mª de Fátima Castro, nesta tese, pugna, antes de mais, pela defesa do espírito criativo e ficcional de Camilo, tentando levar os leitores e as populações locais a compreenderem que, sem pôr de parte a sua faceta de investigador dos factos históricos, na sua condição essencial de sujeito criador, eivado de um espírito célere no engendramento ficcional, a autora cabe provar que o autor não se submete nem a regras estéticas, nem a convenções históricas, nem a interesses pessoais e/ou sociais. A autora não pode, pois, por motivos particulares de interesses locais ou de ascendências genealógicas, permitir que Camilo fique prisioneiro de datas, espaços, famílias e até histórias de vida.
Tendo como objectivo libertar a obra camiliana de adiposidades e conveniências particulares, de que método se serve, então, a autora? Diremos que prudentemente protege o autor, colocando uma interrogação retórica dirigida, num primeiro plano, ao leitor e, simultaneamente lançar um apelo à comunidade científica, deixando, deste modo, um espaço aberto, para que o universo da pesquisa possa, no futuro, encontrar resposta ou mesmo levantar novas questões.
Direi, em síntese, que ao longo deste ensaio, a autora transfere, frequentemente, a sua dúvida para o campo do leitor, através da interrogação retórica. Trata-se de um xeque-mate inquietante, um modo invulgar de a autora implicar o leitor na dúvida subjacente a todo o trabalho de pesquisa, de o introduzir nos meandros de um complexo xadrez que é, afinal, o valor simbólico das personagens e do espaço geográfico, na construção da diegese camiliana.

Maria Adelina Vieira
Licenciada em Filologia Românica pela Faculdade de Letras do Porto;
Mestre em Linguística Histórica e Filologia Latina pela Universidade Católica Portuguesa;
Doutorada em Sociologia da Literatura pela Universidade Fernando Pessoa, onde desenvolve o pós-doutoramento sobre a obra de Maria Ondina Braga.

Dra. Maria Fátima Castro


A Dra. Maria de Fátima Castro levou-nos (com ajuda de uma criteriosa selecção de slides) pelos caminhos de Camilo por terras de Famalicão, mostrando-nos a “construção” das diversas personagens de Camilo Castelo Branco por aqueles lugares.


Maria Mamede



Maria Mamede mostrou-nos a vertente poética de Camilo Castelo Branco através de poemas que nos declamou.


Prof. Mota Cardoso


O Prof. Mota Cardoso agradeceu, com palavras sentidas às Dras Maria Adelina e Maria Fátima, mais este serão muito interessante na Quinta da Bonjoia e ao público presente que, além de assistir atentamente às palestrantes, também acabaram por intervir, numa amena discussão académica.


A pedido de vários presentes, deixo algumas das fotos que foram tiradas durante esta Tertúlia pela Milú Coelho Gomes. O tratamento das imagens, claro, esteve a cargo da Sónia Coelho Gomes.

















 Um abraço,
José Gomes



quarta-feira, 21 de novembro de 2012

AQUELA PRAÇA



Aquela Praça

Vi o rio
Vi a serra
Vi a ponte
Da nossa terra
Vi a Sé
Onde à tardinha
Meu amor ia rezar (...)”[1]

Esta melodia, desde manhã cedinho, bailava dentro da minha cabeça... Sentado à beira-rio, na Praça da Ribeira, ouvia o canto dolente do Douro a passar por baixo dos meus pés que baloiçavam ao ritmo desta canção cuja letra, pouco a pouco, ia tomando forma...
O céu encoberto pelas nuvens matinais deixava escapar – aqui e ali! – réstias de sol que dardejavam as águas, arrancando-lhes arco-íris de cores luminosas...
O piar das gaivotas em seus voos circulares, confundia-se com o sussurrar das águas do rio que lentamente caminhavam para a Foz!
Mais ao largo um barco subia o rio em direcção à ponte, soberba em toda a sua estrutura metálica. Lá em cima o tom amarelado do Metro deslizava suavemente....
— Oh freguês, carapau vivinho!...
Saltei da balustrada ao som do pregão da varina!
Acordei!
Fixei os olhos ainda mal abertos na quitanga recém-montada atrás de mim, onde o reluzir cinzento-metálico das escamas dos peixes arrancava mini arco-íris que saiam da banca e se perdiam naquele céu com nuvens...
Diante de mim a ponte Vasco da Gama, o Tejo reflectindo-se num céu encoberto e quente, as pessoas movendo-se como que fugindo a um temporal que se avizinhava.
Os meus olhos acompanharam aquele arco-íris, agora de cores bem definidas, uma ponta diluindo-se a meus pés, a outra passando pela ponte e perdendo-se no céu...

Quem sabe, pensei, a outra ponta abraçava, a 300 km mais para norte, o outro rio de cores bem vivas...

Como seria giro ver o Tejo e o Douro num abraço terno de amizade!...


Vi o rio
Vi a serra
Vi a ponte
Da nossa terra
Vi a Sé
Onde à tardinha
Meu amor ia rezar (...)”

José Gomes
Novembro 2012


[1]  Canção do filme “A Costureirinha da Sé” de Manuel Guimarães, 1958.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

OUTONO

Visita ao Parque da Cidade - Novembro 2012
Sónia Coelho Gomes

Hoje de manhã levantei-me cedo.
Grossas nuvens toldavam um céu ainda escuro, ameaçador de uma forte chuvada que não tardaria a cair.
Cheirava-me, não sei bem porquê, a aldeia!... talvez porque das traseiras da minha casa ainda veja campos lavrados e ao longe, entre os pirilampos de luzes públicas, adivinho o que vai restando das árvores semeadas nos montes - outrora floresta densa - que se estendem no escuro.
O moinho de vento, em primeiro plano, faz girar as suas pás, gemendo à brisa que passa, enquanto a sua cauda metálica tenta seguir o mínimo sopro da aragem que por ela passa.
Os galos começam a cantar, aqui um, mais além outro, mais ao fundo acorda outro, juntando a sua voz ao silêncio que, lentamente, começa a despertar!

Visita ao Parque da Cidade - Novembro 2012
Sónia Coelho Gomes
Debruço-me na janela e sinto que o Outono já chegou...
Os dias já são mais curtos, mais frescos, sinto até que o vento é diferente!
O dia vai esmoendo o alvorecer e reparo, então, na folhagem das árvores que estão a deixar os seus tons esverdeados que conheci até há poucos dias atrás e que começam, agora, a vestir-se de cores quentes, donde sobressaem os castanhos, os vermelhos, os dourados...

Visita ao Parque da Cidade - Novembro 2012
 Sónia Coelho Gomes

As folhas começam a cair num bailado de harmonia e cor e quedam-se, imóveis, já sem vida, enfeitando o chão com um tapete crocante, emprestando à natureza as cores de uma estação em mutação!
As andorinhas, os estorninhos, os patos e outras aves começam a sua viagem para terras mais quentes...

Sinto que há qualquer coisa especial no ar!
São as primeiras chuvas, as primeiras trovoadas em concerto de som e luz, o cheiro a terra húmida...

Visita ao Parque da Cidade - Novembro 2012 
Sónia Coelho Gomes

O azul do céu, quando consegue furar o manto das nuvens, é mais pálido e mais triste.
Os pássaros residentes esvoaçam, agitados, de árvore em árvore, procurando um refúgio para a chuva, para as noites frias, para a curiosidade mórbida dos predadores...
É o Outono que já chegou!...

O pôr-do-sol pinta o horizonte de vermelho e as nuvens do fim da tarde vestem-se de cores vivas, numa miscelânea de roxos, castanhos, azuis...
Cores que me dizem que estamos no Outono... sarapintado de nostalgia!
Cores que me convidam a caminhar ao encontro da Harmonia e a irmanar-me com a Natureza num amplexo de Paz, de Bem Estar e de reencontro com a Mãe Terra.

Visita ao Parque da Cidade - Novembro 2012
Sónia Coelho Gomes

Texto--------- José Gomes
Fotografias--- Sónia Coelho Gomes



segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Massacre de Santa Cruz: Ontem e Hoje


12 Novembro 1991
21 anos depois


» Para que a História nunca se esqueça «

Antes de darmos início a este trabalho queremos justificar a demora em publicá-lo. Desde sábado que estávamos suspensos pela identificação de uma fotografia (Monumento ao Massacre de Santa Cruz) que passou de uma placa à porta deste cemitério, uma cruz dentro do cemitério e no domingo, finalmente, deparamo-nos com a fotografia do referido monumento em construção. No entanto, foi apenas hoje, dia 12 de Novembro, que conseguimos apurar que o Monumento, localizado em frente à Igreja de Motael, seria inaugurado hoje pelas 17,30 horas locais...

Levi Corte Real, baleado, nos braços de um amigo
©1991 Max Stahl
12-11-1991: fotograma do filme do jornalista Max Stahl, que denunciou ao mundo a situação vivida em Timor-Leste, escondida até então do resto do mundo. Este fotograma mostra um jovem a ajudar Levi Corte Real, gravemente ferido, no momento em que os militares indonésios abriram fogo contra manifestantes no interior do Cemitério de Santa Cruz, em Díli, Timor-Leste.


Índice
  • Antecedentes
  • As últimas horas
  • O Massacre do Cemitério de Santa Cruz
  • O Massacre do Cemitério de Santa Cruz visto pelo Mundo
  • As consequências do Massacre de Santa Cruz
  • Algumas imagens
  • José Gomes e o Massacre de Santa Cruz
  • Para que a história nunca se esqueça
  • Sónia Coelho Gomes e o Massacre de Santa Cruz
    • Leituras relevantes
    • Vídeos relevantes
  • Fontes

Texto e pesquisa de
José Gomes e Sónia Coelho Gomes
Maia, 12 de Novembro de 2012

Todas as fotografias constantes deste trabalho são da exclusiva propriedade dos seus autores. Porém, para serem introduzidas neste artigo de forma harmoniosa, todas elas foram preparadas e receberam os ajustes considerados necessários para maior realce das mesmas. O tratamento de todas as imagens foi efectuado por Sónia Coelho Gomes.



Antecedentes

A 7 de Dezembro de 1975, Timor Leste foi invadido por tropas indonésias (por terra, mar e ar), tendo sido mais tarde indexado à força como uma das províncias indonésias, com o nome de Timor Timur. Começou então uma campanha de violência que, quase sem o mundo notar, matou mais de 200.000 timorenses.

Desde a ocupação de Timor Leste (7 Dezembro 1975), que uma onda de contestação ao regime de Jacarta não parou de crescer, até atingir o seu ponto alto no ano de 1991. Apesar de todos os esforços desenvolvidos pela Indonésia para calar a Resistência, esta continuou sempre activa tanto no interior de Timor como internacionalmente.

Foi em 1982 que, finalmente, Portugal assumiu uma parte da responsabilidade por, até esta data, em nada ter contribuído para evitar o genocídio timorense. A Assembleia da República Portuguesa criou assim, a 2 de Abril, uma Comissão Eventual de Acompanhamento da Situação em Timor Leste.

Um dos actos favoritos dos indonésios sempre foi o massacre integral de aldeias. Entre Agosto e Outubro de 1983, as tropas indonésias chacinaram cerca de 287 habitantes da aldeia de Crarás (incluindo bebés de tenra idade), que ficou conhecida desde então como “a aldeia das viúvas”. Após este incidente, novos batalhões indonésios foram enviados para Timor Leste.

Entre Fevereiro e Março de 1985, Xanana Gusmão (líder da Resistência), aproveitando o restabelecimento das comunicações com o exterior, enviou mensagens para os chefes de estado dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) e para Pérez Cúellar, o então Secretário-Geral da ONU, onde denunciava as atrocidades que estavam a acontecer em Timor Leste, apelando para que a Comunidade Internacional não ignorasse, mas sim interviesse com ajuda ao povo timorense. 

A 24 de Setembro, em Nova Iorque (EUA), teve lugar a primeira sessão de conversações entre delegações portuguesas e indonésias sob os auspícios da ONU.

Em Abril de 1987 foi criada uma contra-guerrilha indonésia com o objectivo de neutralizar e exterminar a guerrilha timorense.

A 13 de Janeiro de 1988, Ali Alatas (Ministro dos Negócios Estrangeiros indonésio) declarou a intenção da Indonésia aceitar que “Timor Timur” (Timor Leste) fosse visitado por uma delegação de deputados portugueses, com a condição de que estes não fossem investigar mas sim observar.

No dia 5 de Fevereiro, D. Ximenes Belo (Bispo de Díli) recebeu em sua casa estudantes a chorar por terem sido maltratados pelos seus professores indonésios, que os acusavam de ser analfabetos, pobres e atrasados, acrescentando ainda que se sabiam alguma coisa à Indonésia o deviam!

Tendo em conta o episódio do dia anterior, D. Ximenes Belo escreveu ao Secretário-Geral das Nações Unidas as seguintes palavras:
«Tomo a liberdade de escrever a Sua Excelência o Senhor Secretário-Geral para levar ao seu conhecimento que o processo de descolonização de Timor Português ainda não está resolvido pelas Nações Unidas e convém não deixá-lo no esquecimento. Nós, o Povo de Timor, pensamos que temos de ser consultados sobre o destino da nossa terra. Por isso, como responsável pela Igreja Católica e como cidadão de Timor, venho por este meio pedir a Sua Excelência que inicie um processo genuíno e democrático de descolonização em Timor Oriental a ser realizado através de um referendo. O Povo de Timor tem de ser ouvido através de um plebiscito quanto ao seu futuro. Até agora, o povo ainda não foi consultado. São os outros que falam em nome do Povo. É a Indonésia que diz que o Povo já escolheu a integração, mas o próprio povo de Timor nunca disse isso. Portugal quer deixar ao tempo a resolução do problema. E nós vamos morrendo como povo e como nação. Sua excelência é um democrata e um defensor dos direitos humanos. Peço-lhe que demonstre por actos o respeito devido quanto ao espírito como á letra da carta das nações Unidas, que concede a todos os povos o direito de decidir sobre o seu próprio destino, livre, consciente e responsavelmente. Excelência mão há maneira mais democrática de sondar o desejo supremo do povo timorense do que a realização de um Referendo promovido pelas nações Unidas para o Povo de Timor»
No dia 7 de Setembro de 1989, seguindo a iniciativa tomada por D. Ximenes Belo, cerca de 100 estudantes também escreveram a Pérez de Cúellar solicitando a realização de um referendo.

Quase um mês mais tarde, a 5 de Outubro, Xanana Gusmão (agora Comandante das FALINTIL e presidente no CNRM) apresentou um novo Plano de Paz a ser executado sob a orientação de Pérez de Cúellar.

A visita do Papa João Paulo II a Timor Leste teve lugar a de 12 Outubro desse ano, tendo rezado uma missa em Tacitolo. A missa foi marcada por manifestações pró-independência por parte de jovens estudantes, que foram duramente reprimidos… D. Ximenes Belo comunicou ao Papa a razão da manifestação dizendo-lhe que os jovens apenas queriam mostrar ao Papa o quanto estavam a sofrer com a repressão indonésia. Este foi o ponto de partida para muitas mais manifestações organizadas pelas redes clandestinas, sempre defendendo a sua vontade de serem livres, independentes e serem eles próprios a escolherem o seu destino.

Em Janeiro de 1990, aquando da visita a Díli do Embaixador dos Estados Unidos em Jacarta, 400 jovens aproveitaram para se manifestarem e mais uma vez mostrar ao mundo o que se passava, realmente, em Timor Leste.

Mais tarde, em Outubro de 1990, Xanana Gusmão viu-se com a vida ameaçada durante o cerco de Suru Kraik, devido à ofensiva do exército indonésio contra a Resistência, que sofreram duras perdas. As constantes investidas dos indonésios e dos pró-indonésios foram enfraquecendo, cada vez mais, a Resistência.

Vendo-se cada vez mais ameaçados, organizaram-se para lançar uma estratégia de âmbito nacional que visava a organização das populações criando assim as primeiras estruturas da Frente Clandestina.

No verão de 1991 (25 Junho), representantes de Portugal e da Indonésia chegaram a acordo quanto à visita de uma delegação de deputados portugueses. Esta visita foi aceite oficialmente a 5 de Agosto e o acordo assinado entre ambos os países a 17 de Setembro.

Em Setembro de 1991 chegou a Timor Leste, fingindo ser um turista, o operador de câmara Max Stahl, que vinha fazer um filme sobre a Resistência para a Yorkshire Television (ITV) e entrevistar Xanana Gusmão. Mas nem ele poderia nesta altura imaginar quanto o seu trabalho iria correr mundo pondo fim ao longo silêncio sobre a verdadeira situação da repressão em Timor.

No entanto, a tão desejada e esperada visita dos parlamentares portugueses a Timor Leste, foi cancelada a 26 de Outubro, por Jacarta discordar da integração na delegação portuguesa da jornalista australiana Jill Jolliffe, considerada próxima da Resistência.

As expectativas para a visita dos portugueses era tão grande que levou a que, durante meses, os jovens estudantes timorenses estivessem a preparar manifestações de apoio à delegação portuguesa e cartazes em que pediam a liberdade deles próprios decidirem o seu destino. Por outro lado, aqueles que eram pró-anexação estavam a preparar manifestações contra a visita que deveria ocorrer nos finais do mês de Outubro.

Quando se soube que a visita tinha sido cancelada, os indonésios e aqueles a favor da Indonésia ficaram satisfeitos com o cancelamento, enquanto os timorenses foram invadidos por um grande sentimento de desilusão.

A 28 de Outubro, as tropas indonésias localizaram um grupo de jovens estudantes pró-independência que estavam em vigília na Igreja Motael em Dili. Seguiu-se um confronto entre activistas pró-integração e os que estavam na igreja, que culminou na morte de um jovem de cada lado: Sebastião Gomes (apoiante da causa da independência timorense) e Afonso Henriques (apoiante da integração). Sebastião Gomes foi arrastado da igreja e executado, enquanto Afonso Henriques foi esfaqueado durante a luta e imediatamente levado para o hospital.

O corpo de Sebastião Gomes, que tinha acabado de completar 18 anos, estava no chão, crivado de balas nas costas. Era estudante, mas faltava muitas vezes às aulas pois preferia perder um exame do que perder a independência da sua pátria!



As últimas horas

A manifestação de 12 de Novembro não foi planeada pela frente clandestina, tratou-se apenas de uma decisão de última hora, em resposta às suas frustrações e à dos jovens pelo cancelamento da visita da delegação parlamentar portuguesa. 

Aproveitou-se a presença no território timorense de Pieter Kooijmans, relator especial para a tortura (uma divisão do departamento dos Direitos Humanos da ONU, cujo título completo é “Relator Especial da tortura, castigo e outras formas de tratamento cruel, desumano ou degradante”) e dos jornalistas estrangeiros Amy Goodman, Allan Nairn. 

O plano previsto seria a concentração, na igreja de Motael, do maior número de jovens (em menos de um dia foram mobilizados mais de 3000 jovens). Daqui seguiriam para o cemitério de Santa Cruz para depositar coroas de flores na campa de Sebastião Gomes. Depois do cemitério continuariam para Lecidere, terminando a manifestação em frente ao Hotel Turismo, onde estava alojado Pieter Kooijmans. 


O Massacre do Cemitério de Santa Cruz

No dia 12 de Novembro, cerca de 3000 pessoas, na sua grande maioria jovens, concentraram-se na igreja de Motael, onde foi rezada uma missa pela alma de Sebastião Gomes. Finda esta, caminharam até ao cemitério de Santa Cruz levando coroas de flores para homenagear o estudante abatido pelas tropas indonésias. 

Desde o início juntaram-se à manifestação os jornalistas americanos Amy Goodman e Allan Nairn que foram registando fotograficamente o acontecimento, enquanto o operador de câmara britânico, Max Stahl, registava tudo em filme. 

Os manifestantes foram em cortejo passando por vários edifícios do Governo, da polícia e do exército. Uns rezavam pela alma de Sebastião Gomes, outros empunhavam bandeiras e cartazes da FRETILIN e da UDT, e ainda outros gritavam palavras de ordem: “Viva Xanana”, “Viva a Resistência” e “Não à integração”, “Viva o Povo Maubere”, “Viva Timor Leste independente”… À manifestação foram-se juntando cada vez mais pessoas, sobretudo estudantes que se integraram na procissão. 

À medida que o cortejo avançava, grupos infiltrados provocavam os manifestantes e incitavam os indonésios. 
Quando chegaram ao cemitério, este já estava rodeado por militares. Os manifestantes continuavam a rezar e a gritar palavras de ordem e foram-se reunindo junto à campa de Sebastião Gomes e começaram a rezar o terço. Sem aviso prévio, do lado de Tabessi um pelotão de soldados indonésios começaram a disparar indiscriminadamente, descarregando a sua fúria assassina sobre os timorenses. 

Desesperada, a multidão correu para o fundo do cemitério procurando refúgio, tropeçando nos túmulos e pisando-se uns aos outros. Alguns conseguiram fugir, outros refugiaram-se em sítios que pensavam ser seguros... 

Como conta D. Ximenes Belo, pouco passavam das 8h30 (hora local) quando
«[…] os que estavam em cima dos muros caíram como passarinhos inanimados. Gerou-se grande confusão dentro do cemitério, [onde] os mais hábeis saltam por cima das campas e do cerco [e saíram] do cemitério correndo para sítios mais seguros. Outros são mortos no cemitério: muitos ficaram aí cercados, foram esbofeteados, e apanharam coronhadas. Um grupo de 150 recolheu-se na casa do Bispo em Lecidere. Outros tentaram chegar até lá, mas foram interceptados, presos e torturados […]»
Enquanto uns se escondiam, outros observaram, dos seus esconderijos, os soldados indonésios a transportar os corpos e a lavar o chão cheio de sangue o mais depressa que podiam. Segundo as palavras de Constâncio Pinto (agora Embaixador de Timor Leste nos EUA),

«[…] Lembro-me do som dos tiros de M16 e lembro-me de ter observado os militares indonésios a transportar jovens mortos e feridos para o hospital militar. Lembro-me dos pais que ficaram aflitos com seus filhos que saíram da casa sem dizer uma palavra. […]»
Os tiros dos soldados indonésios causaram mortos, feridos e desaparecidos. Os números… a esta altura ainda ninguém sabia. Os números oficiais indonésios que surgiram dias depois foram um insulto à memória de todos os que pereceram.


O Massacre do Cemitério de Santa Cruz visto pelo Mundo

As imagens deste massacre deixaram o Mundo em estado de choque. Pouco passava das 14,00 horas em Portugal quando os nossos lares foram invadidos por imagens horrorosas, não editadas, enviadas via Eurovisão e que tinham sido filmadas, na véspera, por Max Stahl, operador de câmara britânico.

Amy Goodman, Allan Nairn e Max Stahl acabaram por ser espancados e feridos pelas forças indonésias por tentarem servir de escudo entre os manifestantes e os soldados indonésios.

A única baixa estrangeira resultante deste massacre foi o estudante neozelandês, Kamal Bamadja, quando, devido à câmara que tinha com ele, foi abordado e abatido por tropas indonésias já longe do cemitério.

O operador de câmara Max Stahl, que filmou o massacre dentro do cemitério, conseguiu esconder as cassetes que já tinha filmado numa campa aberta recentemente.

Pouco depois foi preso e interrogado pelos soldados indonésios, que lhe confiscaram a máquina e as cassetes que tinha com ele. Algumas horas depois, após de ter sido libertado, voltou ao cemitério, recolheu as cassetes onde filmou a missa, o cortejo e o massacre.

Com medo de lhe serem confiscadas as cassetes ao sair de Timor, Stahl conseguiu entrega-las a um padre português, que as levou ao aeroporto e as entregou à activista dos direitos humanos, a holandesa Saskia Kouwenberg (proposta para o Prémio Nobel da Paz em 2005).

As imagens que desfilaram perante os nossos olhos, os gritos, as sirenes e o metralhar não eram ficção, mas sim a mais torpe realidade! Foi em vão que os timorenses tentaram, com a fuga desordenada e as suas orações, travar as balas assassinas disparadas indiscriminadamente.

Este massacre fez, pelo menos, 271 mortos, 103 feridos e hospitalizados e 270 desaparecidos.


As consequências do Massacre de Santa Cruz

Este episódio ficou conhecido como o Massacre de Santa Cruz e serviu para fortalecer o movimento de libertação e a pressão internacional contra a ocupação indonésia de Timor Leste. 

As imagens bárbaras do massacre, correram o mundo… foram elas que fizeram mudar a opinião dos países que apoiavam a Indonésia e deram o reconhecimento internacional à luta pela independência de Timor Leste, o que viria a acontecer, anos depois, no referendo de 1999. 

Hoje, em Timor-Leste, o dia 12 de Novembro é um dia para celebrar a juventude e a liberdade. A lei nº 10/2005 declara-o DIA NACIONAL DA JUVENTUDE. É feriado nacional. 

No Dia Nacional da Juventude, em 2009, o então Presidente Ramos Horta anunciou que em 2010 seria lançado concurso para a construção de um monumento às vítimas do Massacre de Santa Cruz, monumento esse que seria erguido no Jardim da Paz, a inaugurar daí a dois anos, em Díli. 

No 20º aniversário do Massacre de Santa Cruz José Ramos Horta, presidente da República de Timor Leste, inaugurou, junto à porta da entrada do cemitério de Santa Cruz, uma placa comemorativa:

Placa comemorativa do 20º aniversário do Massacre de Santa Cruz
«Homenagem do Estado de Timor Leste em memória das vítimas do massacre de Santa Cruz»
©2011 Palmira Marques (a quem agradecemos a atenção) 
Quase a terminar este trabalho, foi partilhada connosco a foto abaixo. Finalmente encontramos algo sobre o tal Monumento ao Massacre de Santa Cruz que Ramos-Horta havia prometido há já 3 anos atrás. Quando recebemos a informação, ainda estava em fase de acabamento. 

Sabemos no entanto, que hoje, dia 12 de Novembro de 2012, pelas 17h30 locais, foi finalmente inaugurado esta bela obra, que honra e lembra as vítimas deste sangrento massacre dando-lhes a dignidade merecida.

Homenagem às Vítimas do Massacre de Santa Cruz (11 de Novembro de 2012)
©Natanael Lobato


Algumas imagens

Jovem timorense tenta fugir às balas assassinas das tropas indonésias durante o Massacre de Santa Cruz
©1991 Max Stahl
12-11-1991: fotogramas do filme do jornalista Max Stahl que denunciou o início do Massacre no Cemitério de Santa Cruz, em Díli, Timor Leste, transmitido em Portugal pelo Canal 1 da RTP, via Eurovisão.

Campa de Sebastião Gomes no cemitério de Santa Cruz, em Dili - Timor Leste
©2005 Scartol | ©desconhecido
Campa de Sebastião Gomes com coroas de flores
©PamelaM
Monumento aos desaparecidos
©2009 Albert Maramis
Segundo Natália Carrascalão (Embaixadora de Timor Leste em Portugal), esta cruz no cemitério de Santa Cruz lembra todas as vítimas caídas durante todos estes anos de luta em Timor. Ainda hoje as pessoas continuam a deixar flores neste local e a manter luzes e velas acesas por alma dos heróis que tombaram a lutar para que a sua terra fosse livre e independente.

Monumento ao Massacre de Santa Cruz, em construção (10 Novembro 2012)
©2012 Márcia Morikawa


Últimos preparativos para a inauguração do Monumento ao Massacre do cemitério de Santa Cruz
©Furak Alves (12 Novembro 2012)
O Cemitério de Santa Cruz como sempre deveria estar: em PAZ
©2011 Fred Colgan


José Gomes e o Massacre de Santa Cruz

[do artigo “Massacre de Santa Cruz”, 12 Novembro 2011]

Hoje, para que nunca mais se esqueça, para que nunca mais actos como este se repitam, relembro e denuncio aqui, aquela manhã de terça-feira, depois da missa do 15º dia celebrada em intenção do jovem Sebastião Gomes, varado pelas balas indonésias em 28 de Outubro, durante uma noite de vigília e de oração na igreja de Motael, em Dili;

Hoje, aqui e agora, relembro o horror crispado nos rostos daqueles jovens indefesos que rolavam pelo pó e que se esvaíam em sangue, crivados de balas;

Hoje e aqui sinto, ouço e me arrepio com o gemido lancinante das sirenes, o sibilar seco das balas que procuravam as vítimas indefesas no meio daquela corrida desenfreada de jovens que corriam para lado nenhum, procurando o abraço da morte ou os braços impotentes do amigo que o apertava, incrédulo, com lágrimas de raiva no olhar...

Hoje e aqui, rendo a minha homenagem a Timor que desde cedo ajudei a defender, pois sinto-o como uma pequena parte de mim. Esse Timor cheio de poesia, essa ilha de pouco mais de 20.000 km quadrados, situada no outro lado do mundo, em pleno Pacifico, com uma vegetação luxuriante, praias de areias acolhedoras, de águas quentes e cristalinas, onde os peixes mais exóticos, de cores garridas e belos olhos meigos saúdam, na sua candura, os pacatos mergulhadores;

Hoje e aqui agradeço aos jornalistas nacionais e estrangeiros, às organizações nacionais e internacionais, aos jovens, e a todos aqueles que, estoicamente, lutaram desde 1975 para que TIMOR sobrevivesse, com as suas tradições, com a sua identidade, com a sua liberdade e se tornasse na primeira Nação independente do século XXI.



PARA QUE A HISTÓRIA NUNCA SE ESQUEÇA


aqui fica um vídeo do Massacre de Santa Cruz (12 Novembro de 1991) 


Massacre do Cemitério de Santa Cruz - Timor Leste »»» Imagens e som original de Max Stahl
©1991 Max Stahl e Journeyman Pictures (15m14s)



Sónia Coelho Gomes e o Massacre de Santa Cruz

Lembro-me do dia em que soubemos do que se tinha passado em Santa Cruz. Não consegui ver as imagens e fiquei chocada com o pouco que vi, tendo mesmo tido pesadelos por causa do que vi – tinha na altura 14 anos… mas 14 anos do século XX, quando ainda éramos inocentes e, principalmente no meu caso, muito frágil quanto ao sofrimento e à morte dos outros.

Durante semanas fui invadida por uma sensação que nunca consegui compreender completamente, uma sensação que nunca quis perguntar aos meus Pais o que podia ser… É que, sabem?, a minha Mãe é timorense e o Pai dela (meu Avô) foi assassinado de maneira semelhante em Díli… como poderia eu “incomodar” a minha Mãe quando sabia que, com toda a certeza, aquilo por que ela estava a pensar era 1000 vezes pior do que eu alguma vez conseguiria sequer imaginar! E obviamente não poderia sobrecarregar o meu Pai que precisava de a consolar e, pensavam eles, esconder de mim os seus sentimentos para que eu não ficasse preocupada…

Mas eu vi não uma, mas várias lágrimas rolarem pela face da minha Mãe. Ela sabia que o meu Avô, Amadeu Coelho, sempre dizia:

«Eu bebi a água do coco… é em Timor Leste que eu tenho, que eu quero morrer!»

Mas de certeza que não era a morte que ele sofreu que a nossa família esperava para ele. Não era essa morte com que ele contava. Não era esta a morte que estes jovens timorenses, empenhados em lutar pela sua pátria e pela sua própria liberdade, mereciam. Ninguém merece morrer como os timorenses e aqueles que os amavam morreram durante anos de luta e resistência contra o tomar à força daquilo que é deles por direito!

E foi assim que eu ganhei coragem e pedi à minha Mãe, há 21 anos atrás, para vestir de luto. Na escola foi a primeira vez que me viram vestir de preto… muitos sabiam a razão, tendo eles próprios sido alunos da minha Mãe, mas nem respeitando a minha Mãe, e muito menos respeitando essa razão, me deixaram em paz… fui novamente alvo das maldades cruéis deles! Mas não faz mal. O que sofri às mãos destes palhaços não foi absolutamente nada comparado com aquilo que os timorenses sofreram à mão das forças invasoras e daqueles que estavam ao lado deles, e que muitas vezes se faziam amigos dos timorenses apenas para os denunciar sem dó nem piedade…

Fico feliz por só agora os meus Pais saberem disto. Significa que portei-me lindamente no papel que tive de representar à frente deles… agora só me resta pedir-lhes desculpa!

Infelizmente para aqueles que deram a sua vida para que Timor Leste seja livre, um pedido de desculpas de nada serve para atenuar a dor que eles sentiram nem a dor e o pesar das suas famílias. Mas como o ex-presidente da república timorense Ramos-Horta (o mesmo que brincou em pequeno com a minha Mãe), apelando para que se ultrapassar a sede de vingança, disse a 12 de Novembro de 2009:

«Perdoar não significa esquecer, significa resistir a sermos reféns 
da dor que nos consome a vida»

Realmente existem imensas formas de nos lembrarmos deste e doutros acontecimentos em Timor Leste, para que um dia mais tarde ninguém os possa negar: existem reconstituições em vídeo, vídeos gravados ao vivo (como o de Max Stahl), documentários com grande credibilidade, documentos oficiais da ONU, e espalhado pela Internet podem-se encontrar vários testemunhos contados na primeira pessoa. É preciso querer procurar e encontrar. É preciso saber distinguir o trigo do joio e tentar ao máximo corroborar os dados apurados – se bem que pode haver sempre alguma falha, afinal somos apenas humanos!

Muito teria ainda por falar, toda esta situação poderia dar azo a livros e mais livros, mas gostaria apenas de dizer que é urgente encontrar os corpos que nunca foram encontrados. Eu sei o que custou à minha Mãe acreditar que o Pai dela tinha morrido, simplesmente porque não havia conhecimento de uma campa ou algo palpável.

A campa do meu Avô, Amadeu Coelho
©2012 Rosa Coelho
Foram precisas décadas para, já no século XXI, saber que o Pai dela e meu Avô, Amadeu Coelho, efectivamente tinha sido assassinado durante a invasão Indonésia, mais precisamente no dia de Natal através de um acto de loucura de um “homem”. Não nos interessa saber quem o executou. Interessa-nos saber que o corpo foi encontrado e – se bem que não imediatamente – lhe tenha sido dada a hipótese de finalmente se deitar na sua última morada a descansar em Paz, para que nós (mas principalmente a minha Mãe) aqui do outro lado o mundo, possa também ela finalmente fazer o seu luto.

Felizmente algumas Mães timorenses podem agora (finalmente) fazer o seu luto, tudo graças a Max Stahl que filmou o massacre e desde então nunca mais parou de filmar Timor e os seus eventos mais importantes, vivendo hoje em dia com a família em Timor Leste. Para comemorar o 20º aniversário do Massacre, o operador de câmara e jornalista britânico rodou o filme “Timor à Procura”, que retrata os acontecimentos de ’91.

Max Stahl contou à Agência Lusa que o filme foi filmado durante 3 anos para poder acompanhar «os passos dos médicos forenses e antropólogos forenses da Argentina […] e da Austrália, que iniciou […] em Timor-Leste» a procura dos restos mortais das vítimas que ainda não foram encontradas, tentando desvendar o que lhes aconteceu. O filme mostra ainda a entrega às famílias dos corpos das primeiras 12 pessoas identificadas.

Mas onde estão os outros corpos? Só quando forem encontrados poderão todas as famílias, finalmente, terem a paz por que tanto anseiam e fazerem devidamente o seu luto!

Enquanto esperamos, fica aqui uma lista de alguns artigos e vídeos que achei “interessantes”, e que podem, penso eu, ajudar a aumentar e aprofundar o conhecimento de um acontecimento que tanto tem que se lhe diga.

Leituras interessantes

Vídeos interessantes


Fontes


Nota: este artigo foi escrito ao abrigo do antigo acordo ortográfico por opção pessoal dos autores.