domingo, 28 de agosto de 2011

Reflexões...



Reflexões à volta de um tempo sem Tempo

O BEM e o MAL têm a mesma face; tudo depende apenas da época em que cruzam o caminho de cada ser humano.[1]

Sinto-me magoado com a maneira como os “media” tratam a guerra como se fosse o relato de um vulgar jogo de futebol... — os clarões alaranjados dos mísseis, seguido do som seco dos que caiem em plena capital provocando no seu seio explosões, fumo e destruição...Porém nós não ouvimos os gritos de agonia das pessoas que tombam na derrocada dos edifícios... Não, esses gritos não são notícia!

O Homem (diz-se!) é o ser perfeito (!!!) que foi criado à imagem e semelhança do seu Criador... Será?!!
Fico sempre cheio de dúvidas e de interrogações. A certeza que tenho é que o Homem é um predador por natureza e por instinto... os outros animais matam por necessidade (fome ou quando se sentem ameaçados).
O Homem mata por prazer, por crueldade, pelo poder, pelo gosto de destruir. À sua passagem ficam apenas rastos de “nada de nada”, de dor, de desolação... depois já nada mais fica igual: — nem os rios, nem as serras, nem as florestas, nem os animais, nem o solo, nem o ar...
Um dia vai ser o próprio Homem a destruir completamente a sua espécie...

“ (...) Sabemos uma coisa que talvez o Homem Branco descubra um dia: o nosso Deus é o mesmo. Vocês podem pensar nesta altura que Ele vos pertence, do mesmo modo como desejam que as nossas terras vos pertençam; porém não é assim. Ele é o Deus dos homens e a Sua compaixão reparte-se por igual entre o Pele Vermelha e o Homem Branco. Esta terra tem um valor inestimável para Ele, e, se a estragarmos, isso provocará a ira do Criador. Também os Brancos acabarão um dia, talvez antes que as demais tribos. Contaminem os vossos leitos e uma noite morrerão afogados nos vossos próprios detritos.
Contudo vocês caminharão para a vossa destruição cheios de glória, inspirados pela força do Deus que os trouxe a esta terra e que, por algum desígnio especial, vos deu o domínio sobre ela e sobre os Peles Vermelhas. Este destino é um mistério para nós, pois não percebemos porque se exterminam bisontes, se domam cavalos selvagens, se saturam os mais escondidos recantos dos bosques com a respiração de tantos homens e se mancha a paisagem das exuberantes colinas com os fios do telégrafo. Onde se encontra o matagal? Destruído! Onde está a águia? Desapareceu!” [2]

Olho para a televisão: no meio de colunas de fumo, ouço os gritos do jornalista:
    As sirenes voltam a soar e no horizonte clarões alaranjados atingem os seus alvos...”.

Quais alvos?!! Os chamados terroristas que teimam em manter-se escondidos? As armas químicas que não se vislumbram no horizonte? A psicose das máscaras ao lado de um aparato bélico tipo “Guerra das Estrelas”? Não há problemas! – garantem-nos!

Mata-se hoje para amanhã, em nome duma democracia imposta, se poder controlar os poços de petróleo... – “por favor, não deitem fogo aos poços, nem atirem para o mar toneladas de petróleo bruto... (que podem ainda virem a render uns bons biliões!!!... e então se forem aplicados em armamento, droga, prostituição, etc. !).

Olho a televisão...
Não, não é o Coliseu de Roma, nem o combate de morte dos gladiadores... São colunas de carros de combate que se arrastam pelo chão poeirento de um qualquer deserto, são sofisticados aviões (sabiam que cada um custa mais do que um hospital devidamente equipado?!!!) que sulcam os céus do inferno, com uma enorme carga de morte debaixo das suas asas, rumo não se sabe bem a quê...

Ah, sim!
Cirurgicamente atingem-se os “alvos previamente seleccionados”, indiferentes à argamassa que cai e cobre os corpos das crianças, velhos e mulheres estilhaçados pelas bombas e seus estilhaços...

Não tem importância, são apenas os chamados “danos colaterais”!

E lá estão aqueles senhores comentadores, comodamente sentados diante das câmaras, tecendo estratégias, augurando nas entranhas dos monitores um futuro risonho, tecendo as maravilhas dos novos tempos que hão-de vir... tal como se fosse um potente e sofisticado pesticida... pronto! Acabam-se de vez os terroristas, os ditadores, os déspotas, os que hoje servem as malhas das estratégias, mas que amanhã não serão mais que meras peças, sem qualquer utilidade (antes pelo contrário!), a destruir...

Finalmente vamos viver num mundo em Paz... Vai dar-se início a uma nova era, vamos todos ter direito à justiça, à igualdade, à fraternidade, à prosperidade...
Finalmente vai acabar-se de vez com todas as guerras que assolam o planeta!

Mas... não foi isso que prometeram aos nossos pais quando fizeram explodir as bombas atómicas em Hiroshima e Nagasaki?
Não foi isso que prometeram aos que acreditaram nos Pinochets, nos Husseins, nos Bin Ladens e em tantos outros figurões da história do passado recente?

Um dia (quem sabe amanhã?) um dedo de um senhor sem nome — perdido por cem, perdido por mil! — premirá um botão no meio de um esgar que pretenderá ser um sorriso... e um clarão brilhante que nem mil sóis iluminará a terra de ponta a ponta!

Desta vez a história terá de ser outra.
Será que ainda haverá dois macacos com juízo suficiente que, recordando a sua última experiência e olhando-se olhos nos olhos, perguntem:

    Oh Maria, será que vamos ter de repetir TUDO ISTO!!!?


Quando uma coisa evolui também evolui tudo o que está à sua volta. Quando procuramos ser melhores do que somos, tudo à nossa volta se torna melhor também.[3]



José Gomes
28 Agosto 2011


[1] In “O Demónio e a Senhora Prym” - Paulo Coelho
[2] “Resposta do Chefe Seattle (Ts'ial-la-kum /1786-1866/, líder das tribos Suquamish e Duwamish, no que hoje é o estado americano de Washington), dada em 1854, ao Grande Chefe Branco de Washington, à oferta de compra de uma grande extensão de terras índias, que prometiam criar uma “reserva” para o povo indígena”. Mais de um século depois, as reflexões deste chefe índio continuam ainda mais actuais. [Texto divulgado pelas Nações Unidas em 1976, no Dia Mundial do Ambiente].
[3] In “O Alquimista” – Paulo Coelho



4 comentários:

  1. Isabel Gonçalves30/8/11 14:34

    Gostei muito! Tanto, que me atrevo a corroborar as suas palavras com as de um grande pensador:
    "Se perdermos o contacto com a natureza perdemos o contacto com a humanidade. Se não houver relação com a natureza então tornamo-nos assassinos; então matámos focas-bebés, baleias, golfinhos e homens por lucro, por “desporto”, por comida ou em pró do conhecimento. A natureza então tem medo de nós, retirando-nos a sua beleza. Podemos dar longos passeios a pé nos bosques ou acampar em belos lugares mas somos assassinos e perdemos portanto a sua amizade. Provavelmente não estamos ligados a nada, à nossa mulher, ao nosso marido; estamos demasiado ocupados a ganhar e a perder, com os nossos próprios pensamentos privados, prazeres e dores. Vivemos no nosso próprio isolamento sombrio e a fuga dele é mais escuridão. O nosso interesse está numa sobrevivência curta, insensata, descontraída ou violenta. E milhares morrem de fome ou são chacinados devido à nossa irresponsabilidade. Deixamos a ordenação do mundo para o político mentiroso e corrupto, para os intelectuais, para os especialistas. Porque não temos integridade, construimos uma sociedade que é imoral, desonesta, uma sociedade baseada no egoísmo absoluto. E depois fugimos de tudo isto pelo qual só nós somos responsáveis, para as praias, para os bosques ou andamos armados por “desporto”.
    Podemos saber tudo isto mas o conhecimento não provoca em nós uma transformação. Quando tivermos este sentido do todo, estaremos ligados ao universo."
    J. Krishnamurti in O Diário de Krishnamurti, 1973-75

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  2. Obrigado, Isabel. Por haver uma sociedade imoral, desonesta e egoísta é necessário que haja muita gente a fazer contra-vapor para não perdermos nunca o contacto com a Natureza de maneira a criar-se de vez uma maior interligação e mais séria Natureza/Humanidade.
    JG

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  3. Muito lúcido este texto Zé!
    Que dizer, se está tudo lá?!
    Desde há muitos anos que tenho comigo a "Resposta do Chefe Seattle..." e que considero uma boa cartilha para esta civilização desumanizada, bem como o livro "Papalagui" a visão com que ficou de nós um chefe indígena que passou pela nossa civilização e nos mostra ao espelho tão ridículos quanto somos, quando nos afastamos da natureza, da nossa própria natureza, que é parte integrante da demais e nos desarmonizamos, perdendo tudo o que de melhor temos.

    Parabéns pelo teu texto, pelo alerta, sempre pertinente, para que não nos esqueçamos de remar para o lado do Humanismo.

    Beijos
    Branca

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  4. Obrigado, Branca, pelo comentário.
    Um abraço,
    JG

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