
Álvaro Cunhal
10/11/1913 – 13/06/2005
Não me permito interromper o discurso da flor. O colorido luminoso da palavra sugere a fragrância da terra e o horizonte da verdade. Resta-me ficar atento para escutar o que sinto.
Cid Simões
Agradeço a Cid Simões esta homenagem a Álvaro Cunhal e que eu fui roubar ao blog. Para "escutar o que sinto" deixa-me juntar este belo texto de José Saramago:
Álvaro Cunhal
Não foi o santo que alguns louvavam
nem o demónio que outros aborreciam, foi, ainda que não simplesmente, um homem.
Chamou-se Álvaro Cunhal e o seu nome foi, durante anos, para muitos
portugueses, sinónimo de uma certa esperança. Encarnou convicções a que guardou
inabalável fidelidade, foi testemunha e agente dos tempos em que elas
prosperaram, assistiu ao declínio dos conceitos, à dissolução dos juízos, à
perversão das práticas. As memórias pessoais que se recusou a escrever talvez
nos ajudassem a compreender melhor os fundamentos da raquítica árvore a cuja
sombra se recolhem hoje os portugueses a ingerir os palavrosos farnéis com que
julgam alimentar o espírito. Não leremos as memórias de Álvaro Cunhal e com
essa falta teremos de nos conformar. E também não leremos o que, olhando desde
este tempo em que estamos o tempo que passou, seria provavelmente o mais
instrutivo de todos os documentos que poderiam sair da sua inteligência e das
suas finas mãos de artista: uma reflexão sobre a grandeza e decadência dos
impérios, incluindo aqueles que construímos dentro de nós próprios, essas
armações de ideias que nos mantêm o corpo levantado e que todos os dias nos
pedem contas, mesmo quando nos negamos a prestá-las. Como se tivesse fechado
uma porta e aberto outra, o ideólogo tornou-se autor de romances, o dirigente
político retirado passou a guardar silêncio sobre os destinos possíveis e
prováveis do partido de que havia sido, por muitos anos, contínua e quase única
referência. Quer no plano nacional quer no plano internacional, não duvido de
que tenham sido de amargura as horas que Álvaro Cunhal viveu ainda. Não foi o
único, e ele o sabia. Algumas vezes o militante que sou não esteve de acordo
com o secretário-geral que ele era, e disse-lho. A esta distância, porém, já
tudo parece esfumar-se, até as razões com que, sem resultados que se vissem,
nos pretendíamos convencer um ao outro. O mundo seguiu o seu caminho e
deixou-nos para trás. Envelhecer é não ser preciso. Ainda precisávamos de
Cunhal quando ele se retirou. Agora é demasiado tarde. O que não conseguimos é
iludir esta espécie de sentimento de orfandade que nos toma quando nele
pensamos. Quando nele penso. E compreendo, garanto que compreendo, o que um dia
Graham Green disse a Eduardo Lourenço: "O meu sonho, no que toca a
Portugal, seria conhecer Álvaro Cunhal." O grande escritor britânico deu
voz ao que tantos sentiam. Entende-se que lhe sintamos a falta.
José Saramago
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