quarta-feira, 18 de maio de 2011

A Restauração da Independência de Timor - 9 anos depois

TIMOR - esboço a lápis de cor
Milú Coelho Gomes 

Timor é um país de sonho e encantamento, perdido em planícies verdejantes, montanhas floridas e um solo cor de fogo.
Como é belo sonhar à sombra dos tamarindos em flor, aspirar a brisa ondulante dos extensos palmares, sentir o perfume inebriante do sândalo, das acácias e dos cafezais.
(...)
In "Recordações da minha mocidade"
1999 - José Gomes


20 de Maio de 2002
(Restauração da Independência de Timor Lorosa’e)

Em 20 de Maio de 2002, pelas 00 horas locais[1], nasceu a mais jovem nação do terceiro milénio.
Cerimónia que ainda hoje muitos de nós recordamos com uma pontada de comoção e uma lágrima de alegria. Ao fim de 28 anos de massacres e de destruição maciça em que ninguém, nesta aldeia global em que se transformou esta nossa Terra, quis ver, a tenacidade dum povo que sempre acreditou que um dia iria viver numa pátria livre, hei-lo finalmente chegado!

Em vez de tecer odes àqueles que com o seu sangue e a sua coragem contribuíram para o nascimento desta jovem nação, penso que seria um bom contributo relembrar - neste dia 20 de Maio de 2011 – a história duma ilha curiosa, em forma de crocodilo, situada lá bem para os lados onde o sol nasce...

A Ilha de Timor

A Ilha de Timor está situada no sudeste asiático a 8º 50 latitude Sul e a 125o 55 de longitude Este, a cerca de 500 km da Austrália. Esta ilha está dividida em duas partes:
  • Timor Oeste, território indonésio desde 1949, com uma área de cerca de 13.000 km2 tem a cidade de Kupang como capital;
  • Timor Leste ou Timor Lorosa’e, território situado na parte oriental da ilha, com uma área de cerca de 19.000 km2 tem a cidade de Díli (situada na costa norte da ilha) como capital. O enclave de Okussi (Oe-Cusse), situado na parte noroeste da costa de Timor indonésio, a ilha de Ataúro, enfrente a Díli, a 23 km e o ilhéu de Jaco, na ponta leste da ilha.
O clima é influenciado não só pela sua componente marítima como também pela cadeia de montanhas mais altas a oeste, o que torna as regiões centrais mais quentes, ameno e chuvoso nas montanhas. O ponto mais alto é o Monte Ramelau com pouco menos de 3.000 metros de altura.

Timor não teve praticamente contacto com o Islão ou outras religiões asiáticas, ao contrário das outras ilhas do arquipélago indonésio, mantendo uma tradição animista ancestral associada a uma cultura católica que lhes foi incutida desde muito cedo por missionários católicos, enraizando nos indígenas um forte sentimento religioso e patriótico que os ligou sempre a Portugal[2], sendo o Tétum e o Português as línguas principais do território.

O café e o petróleo são, na actualidade, as principais riquezas do país. Na antiguidade o sândalo, o tamarindo, a borracha e as madeiras exóticas foram os pontos de cobiça de muitos aventureiros europeus e uma fonte de riqueza para os colonos que lá se estabeleceram.

Timor foi uma colónia portuguesa desde o século XVI (1512/1520) e ocupada pelo Japão durante três anos na II Guerra Mundial (Fevereiro de 1942 a Setembro de 1945). Portugal voltou a ser a potência colonizadora até 1975. Em 28 de Novembro a Fretilin proclamou unilateralmente a sua independência.

Foi invadido e ocupado pela Indonésia (com a conivência tácita e a indiferença de vários países, entre eles os Estados Unidos da América e a Austrália) a 7 de Dezembro de 1975. Desde essa altura instalou-se um clima de terror e morte que dizimou milhares e milhares de vidas de timorenses.

Em 17 de Julho de 1976 Timor Leste foi declarada como a 27ª província da Indonésia (no entanto as Nações Unidas nunca reconheceram esta anexação, considerando Portugal como potência administrante).

TIMOR - 12 Novembro 1991
Massacre no cemitério de Santa Cruz, em Díli
(Para que a história não esqueça)

Em 12 de Novembro de 1991 deu-se o massacre do cemitério de Santa Cruz. O exército indonésio abriu fogo indiscriminadamente sobre uma manifestação pacífica, causando centenas de mortes e feridos. Esta carnificina amplamente divulgada a todo o mundo pelos jornalistas presentes, foi mexer na opinião pública internacional e chamou a atenção para as violações dos direitos humanos em Timor.

Depois de uma luta heróica de mais de 25 anos, onde morreram milhares e milhares de timorenses, Timor-Leste veio a ser reconhecido como país livre e independente pela comunidade internacional, graças a um referendo que fez inveja a muitas democracias ocidentais.

"Por Ti, Timor" - Dezembro 1999 - E.B. 2,3 Gueifães - Maia

Foi o resultado do referendo de 30 de Agosto de 1999 (a esmagadora maioria do povo timorense recusou a autonomia prometida pelo governo indonésio) que foi projectar a Nação rumo ao Futuro, mesmo com um custo demasiado alto em vidas humanas e em destruições. Estas teriam sido evitadas se os “senhores polícias do mundo” fossem tão céleres como o fazem (quando lhes convém, claro!...) na actualidade!

As milícias integracionistas – não contentes com os resultados do referendo, juntamente e em cumplicidade com os soldados indonésios no território - mergulharam Timor, mais uma vez, na barbárie, espalhando o seu ódio, deixando atrás de si rastos de sangue, destruição e morte. O povo indefeso procurou ajuda e protecção nos quartéis da Untaet[3], enquanto outros se refugiaram nas montanhas ao lado das Falintil[4] (ali aquarteladas) que, com um espírito abnegado de disciplina e o coração destroçado por se sentirem de mãos atadas, lançaram apelos lancinantes a todo o mundo.

A partir de 8 de Setembro de 1999, com concentrações diárias e vigílias, Portugal demonstrou a sua indignação pelas imagens das chacinas que percorreram mais uma vez todo o mundo graças a um punhado de jornalistas que arriscaram as suas vidas.

"Por Ti, Timor" - Dezembro 1999 - E.B. 2,3 Gueifães - Maia

Cordões humanos, uma paragem simbólica por 3 minutos em plena hora de ponta (15 horas do dia 8 Setembro de 1999), os fax enviados para os chamados “polícias do mundo”, os email que “entupiram “ os correios electrónicos de Kofi Annan (Nações Unicas), Habibie (Indonésia) e Bill Clinton (América), além de outras acções de massas levadas a cabo por todo o mundo, trouxeram o dia de glória que todos esperavam.


19 de Maio de 2002
Pelas 18 horas (10 horas da manhã em Portugal) iniciou-se uma grande Missa campal em Taci-Tolo, nos arredores de Dili.
A poucos minutos das 00 horas chegou o momento solene por todos esperado: a restauração da independência de Timor Leste. A bandeira das Nações Unidas foi arreada ao som do “All Freddom”, dobrada com toda a solenidade e entregue a Kofi Annan.

20 de Maio de 2002

Pouco passava das 00 horas - (16 horas do dia 19 de Maio em Portugal).

Seis membros das ex-Falintil dirigiram-se para o palco onde entregaram com toda a pompa e circunstância, a bandeira preto, amarela e rubra de Timor Leste aos seis membros das recém formadas Forças de Defesa de Timor Leste que, por sua vez, a entregaram a uma jovem trajando o tradicional “
Tais[5] colorido.


Amarelo - os rastos do colonialismo
Preto - o obscurantismo que é preciso vencer
Vermelho - a luta pela libertação nacional
Estrela Branca - a luz que guia, a Paz



Esta preparou a bandeira de Timor que foi içada lentamente no mastro principal, marcando assim os primeiros minutos do dia 1 da primeira nação do século XXI. 

Um enorme silêncio, comovente, mas que reflectia bem a cabeça erguida daqueles que nunca se deixaram vergar pelo terror imposto há um quarto de século, demonstrado durante todos estes anos com a sua grande coragem e perseverança.


Parabéns, Timor Leste, parabéns Timor Lorosa’e.
Eu te saúdo a ti, como Nação e mando um grande abraço a todo o Povo meu irmão.

José Gomes
Recordações de Timor
Aguada - Milú Coelho Gomes


Sentados na Praia da Areia Branca, em Díli, numa noite de estrelas, pai e filha (Passado e Futuro), embalados pelo vai e vem das ondas do mar, contemplam o céu:
— Papá, já viste quão belas são as estrelas do céu?
— Filha, já reparaste que os teus olhos são um pedaço do brilho, da força e da beleza de milhões de estrelas que pulsam dentro de ti, em sintonia com o Universo?

In "A Timor"
2003 - José Gomes











[1]  - 16,00 horas do dia 19 de Maio de 2002, em Portugal.

[2]
  Saliento a veneração e o respeito que o timorense dedicava à bandeira portuguesa, passando ao largo da sua sombra, para a não pisar.

[3]
 
Untaet (Administração Transitória das Nações Unidas em Timor Leste) proporcionou uma administração civil provisória e uma missão de paz em Timor Leste, desde a sua criação, em 25 de Outubro de 1999 até à sua independência em 20 de Maio de 2002. Foi liderada pelo brasileiro Sérgio Vieira de Mello.
[4]
 As Falintil é a sigla em português de Forças Armadas da Libertação Nacional de Timor-Leste e foram criadas em 20 de Agosto de 1975.
[5]
 Taís, são panos multicoloridos fabricados artesanalmente, através de uma forma de tecelagem criada pelas mulheres de Timor-Leste.


1 comentário:

  1. Obrigado, Prof. Serra, pela sua chamada de atenção. Já rectifiquei o blog. O dia 20 Maio de 2002 marca a Restauração da Independência de Timor. As minhas desculpas.

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