sábado, 30 de abril de 2011

Porque Maio é ainda necessário

Recordando Maio e um amigo que também acreditou que “há Maio em cada rosto, em cada olhar e em cada braço que se ergue no ar”.



 A Fernando Peixoto (1947-2008) 
dedico este seu poema:



1º. MAIO

Há Maio em cada rosto
em cada olhar
que passa pelo asfalto da Avenida
Há Maio em cada braço
que se ergue
há Maio em cada corpo em cada vida

Há Maio em cada voz
que se levanta
há Maio em cada punho que se estende
há Maio em cada passo
que se anda
há Maio em cada cravo que se vende

Há Maio em cada verso
que se canta
há Maio em cada uma das canções
há Maio que se sente
e contagia
no sorriso feliz das multidões

Há Maio nas bandeiras
que flutuam
e mancham de vermelho
o céu de anil
Há Maio de certeza
em cada peito
que sabe respirar o ar de Abril

Mas há Maio sobretudo
no poema
que se escreve sem ler o dicionário
porque Maio há-de ser
mais do que um grito
porque Maio é ainda necessário

Canto Maio e se canto
logo existo
que o meu canto de Maio é solidário
com o canto que escuto
e em que medito
e que sai da boca do operário

Fernando Peixoto
Declamado pelo próprio em
“Noites de Poesia em Vermoim” - 7 Maio 2005


Em 30 de Abril de 2008 no blog “Chuviscos”, postei um trabalho a que dei o nome “1º Maio 1974 - aquela festa!”, onde inseri o poema acima.

É com saudade que deixo aqui o comentário do Fernando, neste blog:

Caro Zé:
Não te agradeço o teres publicado este poema que, já com vários anos, se mantém (infelizmente) actual, «porque Maio é ainda necessário». Agradeço-te, sim, o cuidado e a perseverança em manter-nos a todos tão despertos para factos, datas e pessoas que marcaram a nossa vida e que não temos o direito de olvidar. 
É que a nossa memória colectiva(por vezes curta e acomodatícia), pode ser (tem de ser) um poderoso e importante instrumento de formação cultural, educação política, mas sobretudo de intervenção cívica.
Um abraço do
FERNANDO PEIXOTO


Para que a Memória mantenha sempre vivo Maio e Fernando Peixoto.

Um abraço,

José Gomes

segunda-feira, 25 de abril de 2011

25 de Abril - uma data a não esquecer - IV


PENSAR ABRIL – I

O 25 de Abril,
A Liberdade na ponta
Das espingardas com cravos vermelhos,
A esperança pela Tolerância
E pela fraternidade,
O Zeca Afonso das baladas
De intervenção
Que nos fizeram acordar
De uma longa noite de trevas.

O 25 de Abril,
A voz audaz de um povo,
Até então, calado,
Adormecido
Pelas vozes tirânicas,
De um poder sem dó.

O 25 de Abril,
A consciência de uma voz,
Aberta,
Que nos iluminou o futuro.

O futuro? Que futuro?
O da política demagógica?
O da falsa democracia?

O futuro? Que futuro?
Que já não se silencia?
O futuro da expressão
De todas as cores?
O futuro do rosa, do laranja,
Do vermelho, do verde?

O 25 de Abril,
O eco de pensamentos outros,
Do diálogo,
Ou da conversa fiada,
Da trama das ideologias
E da teoria da inexistência das ideologias.

O 25 de Abril,
O amor e a paz,
Sempre adiadas,
Mesmo depois do ilusório apogeu
Da bem-dita guerra colonial,
Dos homens mutilados,
Dos corações de mulheres,
Despedaçados,
Das almas das crianças,
Órfãs,
Que assim nasceram,
Á luz da promessa
De uma nova idade.

Isabel Rosete







PENSAR ABRIL – II

Trinta e sete anos passados.
Restam-nos as memórias
Dos horrores da guerra,
De uma sociedade que,
Em nome dos cravos vermelhos,
Um dia, ousou gritar:
Liberdade.

Liberdade:
Qual palavra de ordem
Que fez cair um regime
Eternamente enraizado.


Liberdade:
Qual palavra de ordem
Que arrancou,
Com todas as armas,
A tirania aos pretensos opressores
De um poder adulterado.

Liberdade:
O sinal do dizer aberto,
Há muito ocultado,
Pelo véu da falsa ordem,
Há muito camuflado,
Sob a tríade
Deus, Pátria, e Família.

Liberdade:
O sinal do dizer aberto,
Há muito velado,
Nos meandros da paupérrima Cultura
De um Povo
Que convinha manter calado.

Calado? Sim, calado!
Em nome da ausência
Do espírito crítico,
Das mentes despertas
E do pensar astuto.

Trinta e sete anos passados
E aqui estamos nós,
Quiçá, em uníssono,
A comemorar,
Com milhares de cravos vermelhos,
O grande acontecimento da Liberdade.

Isabel Rosete





                                      
PENSAR ABRIL – III

Volvidos trinta e sete anos,
Já não somos os mesmos!

Somos quaisquer outros
Abandonados pelos políticos
Insanos do tachismo e da tagarelice,
Pelas pardidarices que, sem
Esperança, nos des-governam.

Peregrinamos pelos espaços
Vazios do Mundo, em crise
Consagrada pelos falsos
Mentores nacionais, de promessas
Sempre adiadas,
Avistando-nos com outro rosto:

‑ O rosto da política
Da integração europeia
E da inclusão comunitária.

‑ O rosto da moeda única,
Da farsa da adaptação
Ou da massificação ideológica.

‑ O rosto da desagregação
Cultural e apátrida, movida na
Mera verossimilhança de um
Povo sem identidade.

‑ O rosto, cuja voz,
Já não sabe mais cantar
O hino nacional.

‑ O rosto, cujos traços e cores,
Já não são mais
Os da nossa bandeira.

Volvidos trinta e sete anos,
Já não somos os mesmos!
O que somos, então?

Um povo errante,
Ainda e sempre,
No resto da cauda da Mundo,
Que outrora conquistámos,
No preciso momento
Em que o perdemos?

Erguemos o Convento de Mafra,
Com o ouro vindo do Brasil,
Edificámos a Torre de Belém
E o Monumento das Descobertas,
À custa de longas e saudosas lágrimas
Dos que sempre partiram,
Dos que nunca chegaram!

Qual Velho do Restelo
Se ousa, ainda, erguer?

Qual Adamastor
Povoa, ainda,
Os nossos mares?

Quais ondas alterosas
Se aprumam,
Nesse mar imenso,
Por onde não velejamos jamais?

Isabel Rosete




Maria Isabel Rosete nasceu em Aveiro em 1965. É professora, investigadora e escritora nos domínios da Filosofia, Estética, Poesia e Literatura. 
Fez o Curso de Mestrado em «Estética e Filosofia da Arte», pelo Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Doutoranda, na mesma área de investigação, no Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro, foi Bolseira do Ministério da Educação Português, fez o Curso de Estudos Superiores Especializados em «Gestão e Administração Escolar» (vertente de Psicologia da Educação), pelo Instituto Superior de Educação e Trabalho do Porto. Pertence a várias Associações, é uma Mulher plurifacetada, já fez rádio, teatro e TV. Dinamiza encontros de Poesia, é membro integrante/colaboradora do Grupo Poético de Aveiro (GPA), dizente/declamadora de Poesia, organizadora, apresentadora e encenadora de sessões de Poesia (da sua autoria/outros autores), entre outras.
Tem publicações impressas em Jornais, Revistas e Livros.
«Vozes do Pensamento – Uma Obra para Espíritos Críticos», publicado em Janeiro de 2010, é a sua primeira obra individual de Poesia filosófica de crítica social e política publicada em Portugal; primeira obra da quadratura «Pensamentos Dispersos e alguns Manifestos ‑ Fragmentos descontextualizados»
Livros a publicar (2011-2012):
Poesia: «Pensamentos Dispersos e alguns Manifestos – Fragmentos descontextualizado», «Fluxos da Memória», «Entre-Corpos» e «Mundos do Ser e do não-Ser»
Escrita filosófica/literária ensaística: «Uma poética da música em Martin Heidegger: Instauração de uma Poética onto-ecológica» (Tese de Doutoramento) e «Vergílio Ferreira: Na face do mistério, o pensamento e a voz do silêncio».



No dia 7 de Maio, às 21.00h
no "Clube Literário do Porto", Isabel Rosete vai estar presente para uma palestra «A Poesia e as "Vozes do Pensamento"», coincidente com a 12ª sessão de apresentação deste seu livro.

Um abraço,
José Gomes



sexta-feira, 22 de abril de 2011

25 de Abril - uma data a não esquecer - III

LEVANTE-SE O RÉU!
E o réu levantou-se com o aprumo e a dignidade das consciências tranquilas.
Jovem, tinha no olhar a limpidez dos íntegros e a altivez dos lutadores.
 - Nome, idade, filiação?
- Chamo-me Abril, nascido em 25 de 1974, filho da opressão e da miséria.
- Sabe do que é acusado?
- Confirmo, meritíssimos juízes que sei e me orgulho da sublime culpa.
Devolvi à flor a cor e o sentido, espalhei por todas o aroma inolvidável, iluminei-as com o sol da vida e da esperança, quebrei-lhes as algemas e as grades dos cárceres da tristeza, e as pétalas abriram-se libertas e as crianças sorriram. Ao vento dei a direcção e o pólen que fecundou a dignidade de néctar já esquecido
Fez uma pequena pausa e num tom calmo mas firme continuou:
Não sou herói nem mártir, mas a vida que em mutações constantes repele a cobardia e ao esgotar-se em sofrimento renasce impetuosa e firme, sugerindo de novo caminhos que só a bússola do sonho é capaz de encontrar.”
Os juízes entreolham-se; na assistência, uma jovem de beleza etérea, frágil embora, como tudo o que é puro, segue, letra a letra, o discurso vigoroso. É a Liberdade, sua irmã. Filha também de todas as quimeras, sem as quais a existência não tem sentido, sabendo-se que a nossa vida está orientada para o futuro que Lhe pertence.
A Liberdade, irreprimível, intemporal, questionou:
Porquê e em nome de quem nos julgam? Tempo perdido é o vosso. Sou parte dos subjugados pela ignorância quando dela consciência tomam e se libertam. Corporizo os seus anseios colectivos no Maio 1º, e posso renascer, e renasço sem dia ou mês anunciados.
Não se julga o sol e o luar e o bom-senso não questiona as estrelas, a brisa das manhãs ou o crepúsculo.
Em que instância se encontram a cobiça e a arrogância, irmãs daninhas, subvertendo indecisos, fracos e frustrados, arregimentando-os em legiões de corruptos?
Dado que libertas se encontram, decerto deixaram como caução a gula esfomeada que já vos subornou!
Abril retomou a palavra:
Um mês é sempre precedido de outro mês e de outros tantos como a eternidade, da opressão nasceu sempre a revolta tão natural como a água nas fontes. Julgando-me arrastam na vossa acusação, Maio meu irmão, e nossa irmã Liberdade que me abraçaram nesse reencontro que a memória retêm.
Senhores jurados, meritíssimos juízes duma causa também vossa; lembrem-se das lágrimas de alegria, da festa, da fraternidade que a todos envolvi quando cheguei, da solidariedade reencontrada, das canções, da alvorada de esperança que, perdendo-se, vos perde!
E justiça foi feita:
Abril, Maio e a Liberdade foram condenados a jamais se separarem, a lutarem eternamente, a nunca se curvarem e a serem amados para todo o sempre pelos que exigem dignidade e pão.
E assim será!
Cid Simões

Obrigado ao Cid Simões por este trabalho que fui "roubar" ao blog Cheira-me a Revolução (http://revolucionaria.wordpress.com/author/revolucionaria/).

Um abraço,
José Gomes


quarta-feira, 20 de abril de 2011

Lançamento dos livros da Mamede e meu




Estes são os convites para os lançamentos dos livros “BICHAROQUICES”, poemas de Maria Mamede e ilustrações de Victor Hugo de Freitas e “O COELHO JIRÓCA”, um conto infantil de José Gomes e ilustrações de Milú Coelho Gomes.

Este evento vai ter lugar no próximo dia 7 de Maio de 2011, Sábado, pelas 15 horas, na Sala Polivalente do G. D. M. Flor de Infesta (Rua Padre Costa, 118, S. M. Infesta).

Carlos Andrade animará musicalmente este evento.


Contamos com o vosso apoio na divulgação deste evento.


No site da Edium Editores  (http://www.ediumeditores.org/)  poderão “ver” estes livros.

Um abraço,

José Gomes / Maria Mamede



quinta-feira, 14 de abril de 2011

25 Abril - uma data a não esquecer - II


A Revolução de Abril de 1974 pôs fim ao regime autoritário implantado pela Revolução de 28 de Maio de 1926 e abriu caminho a um regime democrático assente no reconhecimento dos direitos, garantias e liberdades fundamentais dos cidadãos e numa concepção pluralista do poder político.

Preparada por um numeroso grupo de oficiais de baixa patente – na sua maior parte capitães – que se organizaram em menos de um ano antes, em torno de uma reivindicação de carácter corporativo, o seu êxito foi fruto da incapacidade revelada pelo governo de Marcello Caetano para ultrapassar a profunda crise de isolamento interno e externo que minava no regime autoritário.

O 25 de Abril de 1974 foi um movimento que trouxe a democracia a Portugal e a partir dessa altura, o nosso país pode alinhar ao lado das demais democracias na construção do mundo do futuro.

(in  “O 25 de Abril de 1974 – um estudo da Revolução dos Cravos” – Sónia Gomes)