quinta-feira, 1 de abril de 2010

25 Abril, sempre!








Desta vez vou dar a palavra à Palmira Marques - tinha 14 anos quando aconteceu a Revolução dos Cravos - , uma amiga de Coimbra que aceitou o desafio de falar de Abril...

Como a conversa é relativamente longa, resolvi dividi-la por 4 postagens a inserir neste blog durante este mês de Abril.



O 25 de Abril tal como eu o vi e vivi…
(Parte I)


Recordo-me perfeitamente do dia 25 de Abril de 1974: foi a uma quinta-feira e era dia de dentista. Às 8,30h eu estava no consultório do Dr. Mineiro, em Gouveia. A espera foi longa porque ele não apareceu para dar as consultas, justificando a empregada que havia uma revolução em Lisboa… Fiquei toda contente e dei graças por haver a tal revolução… assim, não tinha que sofrer o suplício, já que para mim, ir ao dentista era uma autêntica tortura!

Saí para a rua e constatei que não havia aulas! Então a alegria superou todas as expectativas! Como o dia estava bom, com muito sol, aproveitei ficar na vila e passear. Uma revolução? Que raio seria isso? Na rua, as pessoas acotovelavam-se e faziam comentários em surdina. O melhor seria eu ir para casa, não fosse acontecer alguma coisa e eu ser apanhada pelo meio.

Fui para o convento (local onde eu estava interna) e colei-me à televisão para saber novas. Lembro-me vagamente de ver muitas leituras de comunicados logo seguidos de desenhos animados, ou então, imagens da paisagem portuguesa acompanhadas de música clássica. Nesses momentos, ia para a camarata e ouvia juntamente com as outras internas a rádio, onde “Grândola, Vila Morena”, cantada pelo saudoso Zeca Afonso, foi passada milhares de vezes!

Recordo-me ainda de jogar o mata no pátio e, falarmos entre nós da possibilidade de no dia seguinte à revolução, chegar a Gouveia uma multidão de pára-quedistas caídos do céu para tomarem de assalto a região. Isto era o sonho dos catorze anos, em que nós, raparigas indefesas, poderíamos ser vítimas duma revolução! Mas nada aconteceu: o povo saiu para as ruas, abraçou os soldados e nos canos das espingardas viam-se cravos… cravos vermelhos! Era a Revolução de Abril!

Pacificamente o dia-a-dia foi voltando à normalidade, mas as mentalidades e o pensamento nunca mais foram os mesmos! Chegara a Liberdade! Não havia censura. Só anos mais tarde descobri o poder dessa Liberdade. Como podiam existir sistemas em que os homens pensassem cortar o pensamento de outros? Podem amarrar-nos, torturarem-nos, fazerem-nos as maiores sevícias, mas o pensamento, ninguém pode atingir!

(continua)









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