sexta-feira, 9 de abril de 2010

25 Abril Sempre! - parte IV



O 25 de Abril tal como eu o vi e vivi…
(Parte IV)
O rosto das memórias


O 25 de Abril em Manteigas, minha terra natal, tenho-o menos presente, porque ia ali apenas nas férias ou fim-de-semana.

Recordo-me de assistir no antigo cinema do Valazedo, às sessões de esclarecimento. Lembro-me ainda de ver apear, na minha rua, também no Valazedo, no prédio defronte da nossa casa, a placa branca com letras verdes que dizia: “Legião Portuguesa”.

Estava a ser posta na rua a organização que durante anos ali tivera a sua sede e que eu visitava amiúde, porque vivia lá uma amiga da escola primária. Recordo-me que ao subir o 1º lance de escadas, miúda como era, ficava sempre apreensiva com o letreiro na parede “ Aqui não reside temor”.

As imagens da televisão que mais me marcaram, foram a saída das prisões de Caxias e Tarrafal, dos prisioneiros políticos, entre eles mulheres que exibiram perante as câmaras de televisão, os seios nus, com marcas de tortura, feitas pela PIDE: queimaduras de cigarro!

Em jeito de conclusão e porque o 25 de Abril foi concretizado por pessoas – muitas delas sentiram a tiranização do regime – queria aqui lembrar dois manteiguenses: o senhor Antero, que recordo como homem pequenino e austero, e o senhor Bráulio Monteiro com quem convivi de perto, pois era o proprietário da Farmácia que ainda hoje existe.

Era um homem muito forte e muito alto. Tinha um sorriso espontâneo e estrondosa gargalhada. Fazia-me muita confusão, quando era pequena, eu ir à farmácia e ele pegar-me ao colo, porque só tinha uma perna. A PIDE prendeu-o e meteu-o num poço com água tendo uma das pernas sucumbido. Foi sempre o que ouvi dizer.

Compreendi tudo isto, tarde demais, nunca tendo falado com ele nesse assunto.

Quero aqui fazer jus, também ao povo anónimo que muitas vezes sentiu na pele a exploração dos patrões: como o Durão que esteve na Pousada de São Lourenço e pagava os ordenados das empregadas com as gorjetas que elas recebiam. Também este patrão, na hora da inscrição na Caixa Nacional de Pensões, registou-as com categoria muito inferior à desempenhada: ajudante de criada de quarto, quando de facto a categoria era cozinheira ou criada de quarto, auferindo hoje, em função disso, de miseráveis reformas.

Havia ainda, aquele outro patrão, em que as horas extraordinárias feitas pelo empregado, nunca eram pagas e mesmo o ordenado, quantas vezes pago a destempo, tendo que o empregado recorrer a empréstimos de pessoas amigas para poder sustentar a família!

Por isto e por mais razões, das quais nem metade estão descritas, o 25 de Abril, foi o melhor que poderia ter acontecido ao povo português! Não quero dizer, que a exploração do trabalhador tivesse acabado, mas pelo menos é mais fácil recorrer a certos meios para fazer justiça aos explorados.

O meu testemunho sobre o 25 de Abril, ficou nestes artigos. Foi o ver e sentir de uma miúda de catorze anos que mudou profundamente o modo de viver.

Na certa, sem esta revolução, não teria sido possível escrever o que escrevi – e que certamente ainda irei escrever – e como diz o poeta Carlos Oliveira “Não há machado que corte/ a raiz ao pensamento/ não há morte para o vento/ não há morte!”

Palmira Marques
Coimbra




Quero agradecer à Palmira Marques a oportunidade que me deu para lembrar o seu 25 de Abril de 1974.

A revolução de Abril constituiu um dos mais importantes acontecimentos da História de Portugal. Como grande revolução popular, foi uma afirmação da liberdade, emancipação social e de independência nacional.

Isto passou-se há 36 anos ...

2 comentários:

  1. Caro Zé,
    Só tenho a agradecer a publicação do meu sentir do 25 de Abril de 74. Foram umas folhas soltas que encontrei e resolvi passar a limpo. Não as poli, para que não perdessem a "patine" do tempo: quero que cheirem um pouco aos cravos que transportei; quero ainda que deixem passar alguns sons dos comícios ou que me tragam de novo na lembrança, os momentos em que meu pai se rebeldou contra o patrão... As linhas que escrevi, estão também espontâneas e firmes nas descrições que fiz, nas revoltas que senti pelas injustiças feitas a tanta gente...(meus pais, vítimas da exploração), nas palavras de ordem que gritei cerrando fileira nas manif's! Hoje, tenho orgulho em ter sentido na pele o 25 de Abril de 74. Hoje, explico aos meus filhos o que foi viver essa Revolução, o quanto podemos ser felizes, graças ao 25 de Abril. Não concebo ter que criar filhos no...24 de Abril! Era triste, muito triste! Obrigada Zé. Sincero abraço
    Palmira Marques

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  2. Palmira, se tem de haver alguém a quem agrdecer, esse alguém és tu, que me permitiste transcrever neste espaço aquilo que sentiste nos dias gloriosos de Abril.
    Eu, tu, os nossos filhos, os nossos netos têm que dar Vida hoje e sempre a esa data que mudou um país até então mergulhado nas trevas da opressão.
    É por isso que gritamos "25 de ABRIL, SEMPRE"!
    JG

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