terça-feira, 6 de abril de 2010

25 Abril, sempre! - Parte III






O 25 de Abril tal como eu o vi e vivi…
(Parte III)
O professor de Matemática


Entre os retornados que chegaram à escola, estava um professor de matemática: o Jorge!

Proibiu-nos terminantemente de lhe chamarmos Doutor! Onde é que nós, alguma vez imaginávamos que um professor quisesse um tratamento tão estranho?! Todos os professores que nós tínhamos conhecido, licenciados ou não, burros ou espertos, maus ou bons, eram doutores! Mas se ele queria, satisfazia-se-lhe o desejo.

Ao princípio, com um bocado de receio, fomos chamando pelo Jorge, mas depois foi um hábito e o certo, é que o à-vontade criou em nós uma predisposição para a matemática, tornando as turmas que este professor leccionava - turmas de anos anteriores com baixíssimos níveis na disciplina - numas razoáveis turmas com aceitáveis valores a matemática, deixando esta, de ser, a disciplina enfadonha, dada de modo lúgubre, para passar a ser a disciplina favorita oferecida pelo Jorge.

Mas este professor tinha mais dotes: tocava viola que era um assombro e cantava como ninguém! Nas saídas do grupo de teatro, lá ia o Jorge de viola atrás e com a bonita mulher.

Depois, na actuação, ouvíamo-lo cantar “Negro, bairro Negro”,”Os Vampiros”, e outras do Zeca Afonso, ou então canções dos “Beatles”. Lembro-me de eu recitar “As luzes de Nambuangongo” e o “Menino de sua Mãe”.

Um colega que nos acompanhava também com a viola e a voz era o Zé Carlos. Vítima indirecta da guerra colonial - brincou com as granadas que o irmão levara para casa, recordação duma estúpida guerra – e ficara com as mãos decepadas. A cirurgia aplicou-lhe umas próteses que terminavam em dois ganchos móveis, funcionando como pinças, com as quais, o Zé Carlos, tudo fazia: tocava viola, órgão, escrevia poesia lindamente, em suma, era um artista que se conseguia expressar, sem que a falta das mãos o impedisse. Para quem não estava habituado, causava uma certa impressão, mas com o tempo, acabávamos por nem sentir que o Zé Carlos era diferente…


(continua)






3 comentários:

  1. Sabe-me tão bem ler estes textos...
    Obrigada!

    ResponderEliminar
  2. Obrigada Maria, por ter lido tão insignificante prosa. beijs
    Palmira Marques

    ResponderEliminar
  3. Obrigado, Maria, pelo compartilhar de emoções. Palmira, a tua prosa foi escrita com o coração e transmite-nos (pelo menos a mim) o teu estado de espírito naqueles dias que mudaram este país.
    JG

    ResponderEliminar