segunda-feira, 5 de abril de 2010

25 Abril Sempre! - parte II






Continuando a conversa com a Palmira Marques sobre o 25 de Abril de 1974...



O 25 de Abril tal como eu o vi e vivi…
(Parte II)
As Consequências


O ano escolar terminou com o saneamento do director da escola e as passagens de ano facilitadas grosso modo (passagens administrativas). Deu-se aos alunos como que uma benesse pele revolução dos cravos! A população estudantil adere à UEC (União Estudantes Comunistas). No ano seguinte ao da revolução, a pacata Escola Secundária de Gouveia, tornou-se numa movimentada explosão de cultura! Constituiu-se um grupo de teatro em que a representação de “Gota de Mel” foi levada à cena na vila e redondezas.

Para além de participar neste grupo, com todo este movimento de exaltação, a minha humilde veia poética vem ao de cima e passei para o papel, quadras espontâneas dedicadas ao Spínola, ao MFA e aos militares que lutaram nas províncias ultramarinas.

Tudo isto, hoje, pode parecer ridículo e anacrónico, mas na época era o sentir, o vibrar de algo novo que nos tinha sido oferecido quase de mão beijada, porque não tínhamos passado o que os nossos pais e avós sofreram, num tempo de 48 anos de opressão e escuridão.

É natural que em tudo o que relato, nem toda a gente concorde comigo, mas a DEMOCRACIA é isso mesmo: ter opiniões diferentes e sobretudo, poder expressá-las.

O tempo que mediou entre o 25 de Abril de 74 e o 25 de Abril de 75 tirou o povo do marasmo e pô-lo a pensar. Os relatos passados sobretudo na rádio, comemorando o 1º aniversário da Revolução de Abril, tiraram as dúvidas daquilo que tinha acontecido um ano antes. Mostraram de facto, em tempo real, o que se tinha passado, porque em 74 foi tudo tão rápido que não deu para acompanhar todo aquele movimento!

A súbita chegada dos retornados e refugiados das ex-colónias de Angola e Moçambique, contribuiu para que com a sua abertura, o seu modo de ver, viver, pensar e sentir bem diferenciados dos nossos, nos tenham influenciado grandemente, deixando para trás aquela sociedade fechada, virada para dentro, onde nada era permitido e tudo proibido. As raparigas começaram a fumar descaradamente! Os próprios namoros eram às claras e tornam-se numas “poucas-vergonhas”, como diziam as gentes. O certo é que em vez duma revolução, parece-me que se deram duas, alterando por completo a sociedade portuguesa.

(continua)






4 comentários:

  1. Manuela Carneiro9/4/10 12:09

    Olá querido amigo!
    Parabéns pelo documentário! É sempre bom sentir a realidade vivida pelos outros. Principalmente no que toca a acontecimentos marcantes da nossa história. Nesse período encontrava-me por África, longe em corpo e espírito, com apenas 8 anos. Por vezes é importante viver os momentos para se entender e valorizar as conquistas porque tantos lutaram, padeceram, para saborear a vitória com alma! Como a tua amiga Palmira Marques, ainda adolescente, cuja vida deu uma reviravolta inesquecível, que por certo a marcará para sempre. E depois, mais importante ainda, é ter a sabedoria e a capacidade de transmitir e fazer prevalecer os verdadeiros valores por que tanto se lutou! Assim, como tu fazes sem desistir, sempre com renovada força!
    VIVA A LIBERDADE! VIVA ABRIL! VIVAS TU!
    Bji e Xi coração!
    (fico a aguardar a continuação)

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  2. Obrigada Manuela, pelas palavras que me fazem sentir, que não foi em vão ter escrito estas páginas no diário da adolescente que era! O 25 de Abril marcou-me de tal forma, que ainda hoje, tenho saudades da Unidade do Povo, das vozes em uníssono e da Grândola cantada com alma!! Ainda me arrepio! Beijs
    Palmira Marques

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  3. Realmente sabe bem recordar momentos que nos marcaram... e isto não é saudosismo! É importante manter a memória colectiva bem viva!!!
    JG

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  4. Pois, Zé, não é saudosismo, mas sim tristeza por ver que estamos amorfos...incapazes de reagir! Cada um cata para seu lado e a palavra Unidade saíu do vocabulário! Quem sabe no 1º de Maio consigamos pôr em prática o slogan: "Trabalhadores de todo o mundo, UNI-VOS!"
    Palmira Marques

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