quinta-feira, 29 de abril de 2010

O 1.º de Maio de 1982


O 1.º de Maio de 1982
(para que a memória não esqueça)

O golpe de 25 de Novembro de 1975 veio pôr fim ao processo revolucionário começado com o 25 de Abril. A luta dos trabalhadores já não era de avanços progressistas, mas de luta contra a recuperação capitalista e de defesa das conquistas e dos direitos adquiridos. O governo saído deste golpe teve a responsabilidade pelo 1.º de Maio mais sombrio realizado no nosso país: o 1.º de Maio de 1982.

Nos seis meses que o antecederam, mais de 800 mil trabalhadores realizaram manifestações e greves em torno dos seus contratos colectivos de trabalho, num poderoso afrontamento entre as forças do trabalho e a reacção, então no governo, através da AD, com Francisco Pinto Balsemão como Primeiro-ministro e Ângelo Correia como ministro da Administração Interna.

Em 12 de Fevereiro de 1982, realizou-se uma Greve Geral, sob a palavra de ordem “Uma só Solução AD Fora do Governo”. A direita, instalada no Governo pela primeira vez depois do 25 de Abril, sentiu-se acossada pela pujança da movimentação dos trabalhadores e recorreu à violência para a tentar travar, montando, com a ajuda da UGT, uma provocação criminosa, que teve o seu desfecho no dia 30 de Abril à noite, no Porto, véspera do 1.º de Maio.

O Governo tentou proibir as manifestações do 1º de Maio no Porto, que tradicionalmente se realizavam na Praça da Liberdade, sob o pretexto de que este espaço lhe havia sido solicitado em primeiro lugar pela UGT. O que era falso, já que a estrutura regional da CGTP-IN tinha comunicado ao Governador Civil do Porto, com mais de oito meses de antecedência, a sua intenção de realizar neste local as habituais comemorações.

A festa de 30 de Abril foi por isso mantida pelos sindicatos, que interpretavam a atitude do Governo como uma tentativa de pôr em causa o direito de reunião e manifestação tão duramente conquistados.

O Governo, numa atitude de força e provocação, montou na Baixa do Porto um aparato policial que envolveu centenas de polícias e uma companhia completa da Policia de Intervenção vinda directamente de Lisboa, armada de espingardas metralhadoras e que cerca das 23h30 investiram à bastonada e a tiros de rajada sobre os milhares de trabalhadores que pacificamente realizavam a sua festa.

A violência brutal sobre a população indefesa prolongou-se por mais de duas horas, pela madrugada do dia 1 de Maio adentro, estendendo-se a sítios muito distantes da cidade, longe dos locais que diziam pretender proteger.

Dois operários, Pedro Vieira e Mário Emílio Gonçalves, foram assasinados a tiro e dezenas de outros foram feridos, muitos em estado grave, pela polícia. Pedro, delegado sindical da CGTP e empregado têxtil foi atingido nas costas. Mário, vendedor ambulante, um mero curioso, foi atingido na cara.

Ninguém foi culpabilizado pelas mortes, nem o próprio autor político, o então ministro da Administração Interna Angelo Correia.

No dia seguinte, 1º de Maio de 1982, os trabalhadores responderam de forma esmagadora à violência ordenada pelo Governo e encheram a Praça da Liberdade e exerceram e defenderam o direito de manifestação no local histórico que era e continua a ser seu nos dias de hoje.

Noutras 63 cidades e vilas do país, o 1º de Maio de 1982 transformou-se num imenso protesto contra a repressão e pela liberdade.

No dia 5 de Maio, numa das maiores manifestações que os portuenses puderam presenciar, realizaram-se os funerais dos operários baleados pela polícia, Pedro Manuel Sarmento Vieira, de 24 anos e Emílio Pereira Gonçalves de 18 anos. Ambos são lembrados por placas de mármore branco colocadas nos locais onde tombaram, na estação de S. Bento e na Rua de S. Sebastião, na Sé.

Para que a memória não esqueça!

José Gomes
Abril 2010

terça-feira, 13 de abril de 2010

25 de Abril - Ontem, hoje e amanhã

QUEM A TEM...

Não hei-de morrer sem saber
Qual a cor da liberdade.
Eu não posso senão ser
desta terra em que nasci.
Embora ao mundo pertença
e sempre a verdade vença,
qual será ser livre aqui,
não hei-de morrer sem saber.

Trocaram tudo em maldade,
é quase um crime viver.
Mas embora escondam tudo
e me queiram cego e mudo
não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.

Jorge de Sena, Poesia II

sexta-feira, 9 de abril de 2010

25 Abril Sempre! - parte IV



O 25 de Abril tal como eu o vi e vivi…
(Parte IV)
O rosto das memórias


O 25 de Abril em Manteigas, minha terra natal, tenho-o menos presente, porque ia ali apenas nas férias ou fim-de-semana.

Recordo-me de assistir no antigo cinema do Valazedo, às sessões de esclarecimento. Lembro-me ainda de ver apear, na minha rua, também no Valazedo, no prédio defronte da nossa casa, a placa branca com letras verdes que dizia: “Legião Portuguesa”.

Estava a ser posta na rua a organização que durante anos ali tivera a sua sede e que eu visitava amiúde, porque vivia lá uma amiga da escola primária. Recordo-me que ao subir o 1º lance de escadas, miúda como era, ficava sempre apreensiva com o letreiro na parede “ Aqui não reside temor”.

As imagens da televisão que mais me marcaram, foram a saída das prisões de Caxias e Tarrafal, dos prisioneiros políticos, entre eles mulheres que exibiram perante as câmaras de televisão, os seios nus, com marcas de tortura, feitas pela PIDE: queimaduras de cigarro!

Em jeito de conclusão e porque o 25 de Abril foi concretizado por pessoas – muitas delas sentiram a tiranização do regime – queria aqui lembrar dois manteiguenses: o senhor Antero, que recordo como homem pequenino e austero, e o senhor Bráulio Monteiro com quem convivi de perto, pois era o proprietário da Farmácia que ainda hoje existe.

Era um homem muito forte e muito alto. Tinha um sorriso espontâneo e estrondosa gargalhada. Fazia-me muita confusão, quando era pequena, eu ir à farmácia e ele pegar-me ao colo, porque só tinha uma perna. A PIDE prendeu-o e meteu-o num poço com água tendo uma das pernas sucumbido. Foi sempre o que ouvi dizer.

Compreendi tudo isto, tarde demais, nunca tendo falado com ele nesse assunto.

Quero aqui fazer jus, também ao povo anónimo que muitas vezes sentiu na pele a exploração dos patrões: como o Durão que esteve na Pousada de São Lourenço e pagava os ordenados das empregadas com as gorjetas que elas recebiam. Também este patrão, na hora da inscrição na Caixa Nacional de Pensões, registou-as com categoria muito inferior à desempenhada: ajudante de criada de quarto, quando de facto a categoria era cozinheira ou criada de quarto, auferindo hoje, em função disso, de miseráveis reformas.

Havia ainda, aquele outro patrão, em que as horas extraordinárias feitas pelo empregado, nunca eram pagas e mesmo o ordenado, quantas vezes pago a destempo, tendo que o empregado recorrer a empréstimos de pessoas amigas para poder sustentar a família!

Por isto e por mais razões, das quais nem metade estão descritas, o 25 de Abril, foi o melhor que poderia ter acontecido ao povo português! Não quero dizer, que a exploração do trabalhador tivesse acabado, mas pelo menos é mais fácil recorrer a certos meios para fazer justiça aos explorados.

O meu testemunho sobre o 25 de Abril, ficou nestes artigos. Foi o ver e sentir de uma miúda de catorze anos que mudou profundamente o modo de viver.

Na certa, sem esta revolução, não teria sido possível escrever o que escrevi – e que certamente ainda irei escrever – e como diz o poeta Carlos Oliveira “Não há machado que corte/ a raiz ao pensamento/ não há morte para o vento/ não há morte!”

Palmira Marques
Coimbra




Quero agradecer à Palmira Marques a oportunidade que me deu para lembrar o seu 25 de Abril de 1974.

A revolução de Abril constituiu um dos mais importantes acontecimentos da História de Portugal. Como grande revolução popular, foi uma afirmação da liberdade, emancipação social e de independência nacional.

Isto passou-se há 36 anos ...

terça-feira, 6 de abril de 2010

25 Abril, sempre! - Parte III






O 25 de Abril tal como eu o vi e vivi…
(Parte III)
O professor de Matemática


Entre os retornados que chegaram à escola, estava um professor de matemática: o Jorge!

Proibiu-nos terminantemente de lhe chamarmos Doutor! Onde é que nós, alguma vez imaginávamos que um professor quisesse um tratamento tão estranho?! Todos os professores que nós tínhamos conhecido, licenciados ou não, burros ou espertos, maus ou bons, eram doutores! Mas se ele queria, satisfazia-se-lhe o desejo.

Ao princípio, com um bocado de receio, fomos chamando pelo Jorge, mas depois foi um hábito e o certo, é que o à-vontade criou em nós uma predisposição para a matemática, tornando as turmas que este professor leccionava - turmas de anos anteriores com baixíssimos níveis na disciplina - numas razoáveis turmas com aceitáveis valores a matemática, deixando esta, de ser, a disciplina enfadonha, dada de modo lúgubre, para passar a ser a disciplina favorita oferecida pelo Jorge.

Mas este professor tinha mais dotes: tocava viola que era um assombro e cantava como ninguém! Nas saídas do grupo de teatro, lá ia o Jorge de viola atrás e com a bonita mulher.

Depois, na actuação, ouvíamo-lo cantar “Negro, bairro Negro”,”Os Vampiros”, e outras do Zeca Afonso, ou então canções dos “Beatles”. Lembro-me de eu recitar “As luzes de Nambuangongo” e o “Menino de sua Mãe”.

Um colega que nos acompanhava também com a viola e a voz era o Zé Carlos. Vítima indirecta da guerra colonial - brincou com as granadas que o irmão levara para casa, recordação duma estúpida guerra – e ficara com as mãos decepadas. A cirurgia aplicou-lhe umas próteses que terminavam em dois ganchos móveis, funcionando como pinças, com as quais, o Zé Carlos, tudo fazia: tocava viola, órgão, escrevia poesia lindamente, em suma, era um artista que se conseguia expressar, sem que a falta das mãos o impedisse. Para quem não estava habituado, causava uma certa impressão, mas com o tempo, acabávamos por nem sentir que o Zé Carlos era diferente…


(continua)






segunda-feira, 5 de abril de 2010

25 Abril Sempre! - parte II






Continuando a conversa com a Palmira Marques sobre o 25 de Abril de 1974...



O 25 de Abril tal como eu o vi e vivi…
(Parte II)
As Consequências


O ano escolar terminou com o saneamento do director da escola e as passagens de ano facilitadas grosso modo (passagens administrativas). Deu-se aos alunos como que uma benesse pele revolução dos cravos! A população estudantil adere à UEC (União Estudantes Comunistas). No ano seguinte ao da revolução, a pacata Escola Secundária de Gouveia, tornou-se numa movimentada explosão de cultura! Constituiu-se um grupo de teatro em que a representação de “Gota de Mel” foi levada à cena na vila e redondezas.

Para além de participar neste grupo, com todo este movimento de exaltação, a minha humilde veia poética vem ao de cima e passei para o papel, quadras espontâneas dedicadas ao Spínola, ao MFA e aos militares que lutaram nas províncias ultramarinas.

Tudo isto, hoje, pode parecer ridículo e anacrónico, mas na época era o sentir, o vibrar de algo novo que nos tinha sido oferecido quase de mão beijada, porque não tínhamos passado o que os nossos pais e avós sofreram, num tempo de 48 anos de opressão e escuridão.

É natural que em tudo o que relato, nem toda a gente concorde comigo, mas a DEMOCRACIA é isso mesmo: ter opiniões diferentes e sobretudo, poder expressá-las.

O tempo que mediou entre o 25 de Abril de 74 e o 25 de Abril de 75 tirou o povo do marasmo e pô-lo a pensar. Os relatos passados sobretudo na rádio, comemorando o 1º aniversário da Revolução de Abril, tiraram as dúvidas daquilo que tinha acontecido um ano antes. Mostraram de facto, em tempo real, o que se tinha passado, porque em 74 foi tudo tão rápido que não deu para acompanhar todo aquele movimento!

A súbita chegada dos retornados e refugiados das ex-colónias de Angola e Moçambique, contribuiu para que com a sua abertura, o seu modo de ver, viver, pensar e sentir bem diferenciados dos nossos, nos tenham influenciado grandemente, deixando para trás aquela sociedade fechada, virada para dentro, onde nada era permitido e tudo proibido. As raparigas começaram a fumar descaradamente! Os próprios namoros eram às claras e tornam-se numas “poucas-vergonhas”, como diziam as gentes. O certo é que em vez duma revolução, parece-me que se deram duas, alterando por completo a sociedade portuguesa.

(continua)






quinta-feira, 1 de abril de 2010

25 Abril, sempre!








Desta vez vou dar a palavra à Palmira Marques - tinha 14 anos quando aconteceu a Revolução dos Cravos - , uma amiga de Coimbra que aceitou o desafio de falar de Abril...

Como a conversa é relativamente longa, resolvi dividi-la por 4 postagens a inserir neste blog durante este mês de Abril.



O 25 de Abril tal como eu o vi e vivi…
(Parte I)


Recordo-me perfeitamente do dia 25 de Abril de 1974: foi a uma quinta-feira e era dia de dentista. Às 8,30h eu estava no consultório do Dr. Mineiro, em Gouveia. A espera foi longa porque ele não apareceu para dar as consultas, justificando a empregada que havia uma revolução em Lisboa… Fiquei toda contente e dei graças por haver a tal revolução… assim, não tinha que sofrer o suplício, já que para mim, ir ao dentista era uma autêntica tortura!

Saí para a rua e constatei que não havia aulas! Então a alegria superou todas as expectativas! Como o dia estava bom, com muito sol, aproveitei ficar na vila e passear. Uma revolução? Que raio seria isso? Na rua, as pessoas acotovelavam-se e faziam comentários em surdina. O melhor seria eu ir para casa, não fosse acontecer alguma coisa e eu ser apanhada pelo meio.

Fui para o convento (local onde eu estava interna) e colei-me à televisão para saber novas. Lembro-me vagamente de ver muitas leituras de comunicados logo seguidos de desenhos animados, ou então, imagens da paisagem portuguesa acompanhadas de música clássica. Nesses momentos, ia para a camarata e ouvia juntamente com as outras internas a rádio, onde “Grândola, Vila Morena”, cantada pelo saudoso Zeca Afonso, foi passada milhares de vezes!

Recordo-me ainda de jogar o mata no pátio e, falarmos entre nós da possibilidade de no dia seguinte à revolução, chegar a Gouveia uma multidão de pára-quedistas caídos do céu para tomarem de assalto a região. Isto era o sonho dos catorze anos, em que nós, raparigas indefesas, poderíamos ser vítimas duma revolução! Mas nada aconteceu: o povo saiu para as ruas, abraçou os soldados e nos canos das espingardas viam-se cravos… cravos vermelhos! Era a Revolução de Abril!

Pacificamente o dia-a-dia foi voltando à normalidade, mas as mentalidades e o pensamento nunca mais foram os mesmos! Chegara a Liberdade! Não havia censura. Só anos mais tarde descobri o poder dessa Liberdade. Como podiam existir sistemas em que os homens pensassem cortar o pensamento de outros? Podem amarrar-nos, torturarem-nos, fazerem-nos as maiores sevícias, mas o pensamento, ninguém pode atingir!

(continua)