quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Massacre de Santa Cruz - 12 Nov. 1991


TIMOR - 12 Novembro 1991
Massacre no cemitério de Santa Cruz, em Díli
(Para que a história não esqueça)


Desde a ocupação de Timor em Dezembro de 1975, uma onda de contestação ao regime de Jacarta não parou de crescer até atingir o seu ponto alto no ano de 1991. Por duas razões:

1 - A tão desejada e esperada visita dos deputados portugueses à capital timorense tinha sido adiada;

2 - A repressão era cada vez mais intensa e os timorenses pagavam com a vida o seu desejo de liberdade.

Foi o que aconteceu a Sebastião Gomes, um jovem que foi assassinado pelas tropas indonésias nos últimos dias do mês de Outubro de 1991 durante uma vigília, junto à igreja de Motael. A celebração da missa de 15.º dia serviu de pretexto aos indonésios para descarregarem a sua fúria assassina sobre os timorenses.

Naquele dia 12 de Novembro de 1991 muitos estudantes decidiram ir à missa por intenção de Sebastião Gomes. Finda esta rumaram até à sua campa, no cemitério de Santa Cruz, em Díli. Depois tudo se precipitou.

Soldados indonésios dispararam sobre a multidão que se manifestava no cemitério. As imagens desta tragédia deixaram o Mundo em estado de choque. Pouco passava das 14,00 horas quando as nossas casas foram invadidos pelas imagens horrorosas, não tratadas, enviadas pela Eurovisão e que tinham sido filmadas por Max Stahl, jornalista ao serviço da Yorkshine Television. - 1

As imagens que desfilavam diante dos nossos olhos, os gritos, as sirenes, o metralhar não era ficção, mas sim a mais torpe realidade! Em vão, os timorenses tentaram com a fuga desordenada e com as suas orações travar as balas assassinas disparadas indiscriminadamente.

Hoje, para que nunca mais se esqueça, para que nunca mais actos como este se repitam, relembro e denuncio aqui, aquela manhã de terça-feira, depois da missa do 15º dia celebrada em intenção do jovem Sebastião Gomes, varado pelas balas indonésias em 28 de Outubro, durante uma noite de vigília e de oração na igreja de Motael, em Dili;

Hoje, aqui e agora, relembro o horror crispado nos rostos daqueles jovens indefesos que rolavam pelo pó e que se esvaíam em sangue, crivados de balas;

Hoje e aqui sinto, ouço e me arrepio com o gemido lancinante das sirenes, o sibilar seco das balas que procuravam as vítimas indefesas no meio daquela corrida desenfreada de jovens que corriam para lado nenhum, procurando o abraço da morte ou os braços impotentes do amigo que o apertava, incrédulo, com lágrimas de raiva no olhar...

Hoje e aqui, rendo a minha homenagem a Timor que desde cedo ajudei a defender, pois sinto-o como uma pequena parte de mim. Esse Timor cheio de poesia, essa ilha de pouco mais de 20.000 km quadrados, situada no outro lado do mundo, em pleno Pacifico, com uma vegetação luxuriante, praias de areias acolhedoras, de águas quentes e cristalinas, onde os peixes mais exóticos, de cores garridas e belos olhos meigos saúdam, na sua candura, os pacatos mergulhadores;

Hoje e aqui agradeço aos jornalistas nacionais e estrangeiros, às organizações nacionais e internacionais, aos jovens, e a todos aqueles que, estoicamente, lutaram desde 1975 para que TIMOR sobrevivesse, com as suas tradições, com a sua identidade, com a sua liberdade e se tornasse na primeira Nação independente do século XXI.


12 de Novembro de 2009
José Gomes
1 - Uma resposta ao amigo ANÓNIMO, agradecendo as correcções:

Dos apontamentos que tirei na altura, dizem que o massacre foi fotografado pelos jornalistas americanos, Amy Goodman e Allan Nairn - que acabaram por ser espancados pelos soldados indonésios, ao tentarem servir de escudo entre os soldados e os timorenses - e filmado por Max Stahl, um cineasta ao serviço da estação britânica Yorkshire Television.

Este filmou o massacre dentro do cemitério de Santa Cruz, escondendo as cassetes numa campa recentemente aberta, antes de ser preso e interrogado pelos soldados. Mais tarde foi buscá-las ao cemitério e enviou-as para a Austrália, através de um jornalista holandês Saskia Kouwenberg.

O nome de Chris Wenner que erradamente mencionei como autor do filme, era o produtor da referida estação.

Obrigado, Anónimo, pela chamada de atenção.

José Gomes

5 comentários:

  1. Caro José Gomes, as imagens filmadas do massacre de Sta. Cruz em 1991 são de Max Sthall e as imagens fixas (fotografias) são de Steve Cox. De onde retirou a informação sobre Chris Wenner, jornalista da Yorkshine Television?

    Gostava de saber, pois desconheço.
    Obrigado.

    ResponderEliminar
  2. Caro José Gomes, grato pela explicação.

    ResponderEliminar
  3. Também devo uma explicação. As imagens fixas a que me referia, de Steve Cox, em relação ao Massacre de Sta Cruz, algumas estão neste livro: http://html.editorial-caminho.pt/show_produto__q1area_--_3Dcatalogo__--_3D_obj_--_3D35570__q236__q30__q41__q5.htm

    Steve Cox, duas semanas após o Massacre esteve em Portugal.

    ResponderEliminar
  4. "Estavam pelo menos quatro jornalistas ocidentais entre os manifestantes: além de Max Stahl, o britânico Steve Cox (fotógrafo) e os norte-americanos Alan Nairn e Amy Goodman, que foram feridos. E ainda um jovem activista neozelandês, Kamal, que foi assassinado já a alguma distância do cemitério, quando tentava escapar do tiroteio."

    do artigo - Uma força tranquila, de João Pedro Henriques no Público de 13/11/99

    ResponderEliminar
  5. Olá Zé,

    Obrigada or recordares o que nunca deve ser esquecido.
    Tive pena de não ter estado em Bonjoia, mas foi-me de todo impossível.
    Um beijinho

    ResponderEliminar