quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Timor em Bonjóia - VII

" O timorense é a nossa melhor arma política; sem ele não teria sido possível conservar a soberania portuguesa durante a guerra, num território tão distante da metrópole.... O timorense é um ser adulto, pensante, com uma personalidade social definida e responsável." - Ruy Cinatti

(Peter Stilwell in "A condição humana em Ruy Cinatti ")


Para terminar esta resenha de “Timor na Quinta da Bonjóia” escolhi o poema de Ruy Cinatti "Pacto de Sangue" e que declamei nessa noite de 20 de Agosto de 2009:

Nobres há muitos. É verdade.
Verdade. Homens muitos. É muito verdade.
Verdade, que com um lenço velho
as nossas mãos foram enlaçadas.

Nós como aliados, eu digo.
Panos, um só, tal qual afirmo.
A lua ilumina a minha face. (feitio)
O sol ilumina o aliado.

Água de Héler! Pelo vaso sagrado!
Nunca esqueça isto o aliado.
Juntos, combater, eu quero.
Com o aliado, derrotarr, eu quero!

A lua ilumina a minha face.(feitio)
O sol ilumina o aliado
Poderemos, talvez, ser derrotados
ou combatidos, mas somente unidos.

(Substituí “feitio” por “face”. Penso, assim, ter melhorado a tradução).

Este é um poema que me intriga desde que o li pela primeira vez e já lá vão largos anos!!! Há nele qualquer coisa que não consigo compreender, talvez por ser um cântico tradicional, cantado originalmente em fataluku, dialecto do extremo leste de Timor e cuja tradução foi feita por Ruy Cinatti.

Em “Paisagens Timorenses com Vultos” Ruy Cinatti descreve mais detalhadamente este ritual:

(...) Corta-se um dedo, mete-se dentro de um copo com tuasabo, aguardente de palmeira, e depois bebe-se. Há um sacerdote gentio que diz "Maromak feto ! Maromak mane ! ", que quer dizer: "a energia que atravessa o sol fêmea, a energia que atravessa o sol macho". A seguir, tal como sucede na consagração a um bispo, as mãos unidas e um lenço enrolado à volta delas, canta-se um poema: nós dois somos amigos, se vencermos somos iguais, se formos derrotados somos iguais, tu bebeste a água da ribeira dela, eu também bebi a água da ribeira dela.”

O “Pacto de Sangue” que fez com D. Armando Barreto, liurai de Ai Assa e D. Adelino Ximenes, liurai de Loré, foi um ritual que uniu estes homens, transformando-os num só, tornando-os aliados e irmãos. O Sol e a Lua, elementos carregados de simbolismo, foram as testemunhas desta união.

Se até aí o “Engenheiro das Flores” (como era carinhosamente conhecido pelos timorenses) era respeitado por todos os nativos, graças a este Pacto que o uniu às grandes famílias timorenses foi considerado como um “filho da terra”, um igual entre os iguais, com direito a ser iniciado nos conhecimentos ancestrais deste povo, normalmente transmitidos de pais para filhos.

Sophia Mello Breyner ressaltou, assim, o significado deste ritual:

Ao longo dos dias, ao longo dos anos, muitas vezes falei de Timor com o Ruy. Contou-me como celebrara o pacto de sangue com o chefe de uma família timorense e como por isso, segundo a lei ancestral de Timor, se tornara ele próprio um timorense. De facto para ele Timor era uma verdadeira pátria. Para mim era uma ilha encantada no Extremo Oriente, mas para ele uma pátria – o lugar onde encontrara o seu destino”.


Ruy Cinatti morreu a 12 de Outubro de 1986, com 71 anos de idade, vítima de cancro pulmonar. Está sepultado no cemitério dos ingleses em Lisboa... Acredito que Ruy Cinatti, por sua vontade, se sentiria melhor, mais aconchegado, num abraço dessa terra Timor que tanto amou, descansando em paz à sombra de um tamarindeiro...

José Gomes



Consultas:

“Ruy Cinatti – o engenheiro das flores” – Dissertação de Mestrado, Dep. de Letras da PUC – Rio de Janeiro – Agosto 2004

"A condição humana em Ruy Cinatti " - Peter Stilwell

“Para uma corografia emotiva de Timor” - Ruy Cinetti

“Paisagens Timorenses com Vultos” - Ruy Cinatti


segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Timor - Quinta da Bonjóia - VI

Silvino Figueiredo (o "Figas" de Saint Pierre de la Buraque), amigo e companheiro dos nossos Serões de Poesia, não deixou de marcar a sua presença nesta Noite e declamar um poema a Timor feito já lá vão alguns anos.

Com um abraço, aqui fica a intervenção do "Figas":





NOTA:
(para ouvir esta interpretação do Silvino Figueiredo, na caixa "Os sons da chuva..." - a aba aqui do lado direito - cliquem no botão do meio para desligar o som de fundo).


José Gomes

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Tanta gente, pá!...


O Comício da CDU no Pavilhão dos Desportos, ontem, foi mesmo uma coisa espectacular!... e estava tanta, tanta gente, pá!

Que raiva! E logo ontem que, ao fotografar, reparei que a bateria da máquina estava completamente descarregada...

Foi um espectáculo... a começar pelo ambiente que se gerou naquele pavilhão mesmo antes deste começar! Cada minuto que passava mais gente, mais bandeiras, mais colorido, mais alegria invadia aquele amplo espaço!

Foi um delírio a coreografia dada por duas bailarinas à nossa "Carvalhesa"... um delírio que saltou do palco e invadiu todo o Pavilhão.

Duas vozes de antes de Abril encheram o Pavilhão de uma alegria contagiante e, mais uma vez, a cantiga voltou a ser a arma que nos uniu: Samuel e Luisa Bastos cantaram (e nós com eles, pois claro!) canções que fizeram história. "O Povo Unido", em homenagem aos mártires do Chile, trouxe ao rubro o Pavilhão.

Depois foi a parte séria do Comício, com a apresentação dos candidatos da CDU pelo círculo do Porto e as intervenções das várias forças que compõem a CDU.

Jerónimo de Sousa encerrou o Comício com uma intervenção vigorosa, objectiva e dinamizadora, largamente apoiado e aplaudido por a mole humana que encheu o Pavilhão.

"Que lindo estava o nosso Pavilhão com aquelas bandeiras, vermelhas, azúis, brancas, agitadas por aqueles braços que se agigantavam numa melodia que saía bem dentro dos nossos corações... e havia tanta gente, pá!" - dizia-me um camarada na paragem do autocarro, enquanto esparávamos que este chegasse.

Uma nota para o Samuel:

Desculpa lá não te ter ido dar um abraço., mas o tempo que dispunha era já muito curto... lá nos encontraremos pelos blogues! Aquele abraço, amigo!

José Gomes

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Timor em Bonjóia - Parte V

Victor Freitas é um amigo recente que vive lá para as bandas de Lisboa. Conheceu a Maria Mamede pela Net através da Poesia. A sua paixão por Timor foi o elo que rapidamente nos uniu. Foi recordando o passado que se cimentou uma amizade.

Quando estruturamos “Timor – Quinta da Bonjóia” o nome do Vicor foi sugerido. Seria interessante dar o seu testemunho daqueles anos que passou por Timor. A distância seria um problema pois ele vive em Lisboa e este Serão seria numa quinta-feira às 21,30 horas.

O Victor logo se desponibilizou não só a estar presente como a pintar dois quadros que presentaria aos timorenses presentes.

Esse testemunho está no vídeo que se segue. As palavras que antecede a leitura do poema Timor, de autoria da Maria Mamede, demontra o carinho e a amizade por aquele Povo com quem conviveu durante dois anos.

Obrigado Victor Freitas pela tua presença e pelo teu testemunho.

NOTA:

(para ouvir esta interpretação do Victor Freitas, na caixa "Os sons da chuva..." - aba do lado direito - cliquem no botão do meio para desligar o som de fundo).

José Gomes







terça-feira, 15 de setembro de 2009

Timor em Bonjóia - Parte IV

Amílcar Mendes declama um poema de Fernando Sylvan, na Quinta da Bonjóia no Porto, na Sessão dedicada a Timor, do passado dia 20 de Agosto 2009 (para ouvir esta interpretação do Amílcar, na caixa "Os sons da chuva..." - aba do lado direito - cliquem no botão do meio para desligar o som de fundo):







Espero que gostem. Mas ainda há mais...

Um abraço,

José Gomes

sábado, 12 de setembro de 2009

Timor em Bonjóia - Parte III



Ainda a Noite de Poesia na Quinta da Bonjóia - Porto
(20 de Agosto 2009).



(Maria Mamede, declamando...)



Escolhi este poema de Crisódio T. Araújo, que a Maria Mamede declamou:



Poema Ancestral


Lembra os dias antigos

Em que cantavas a pureza

Na nudez dos teus passos e gestos

Ou dançavas na inocente vaidade

Ao som dos babadok[1].

Relembra as trevas da tua inquietação

E o silêncio das tuas expectativas,

As chuvas, as memórias heróicas,

Os milagres telúricos,

Os fantasmas e os temores.

Tenta lembrar a herança milenar dos teus avós

Traduzida em sabedoria

E verdade de todos.

Recorda a festa das colheitas,

A harmonia dos teus Ritos,

A lição antiga da liberdade,

Filha da natureza.

Recorda a tua fé guerreira,

A lealdade,

E a ternura do teu lar sem limites,

Nos caminhos do inesperado

Ou no improviso da partilha definitiva.

Lembra pela última vez

Que a história da tua ancestralidade

É a história da tua Terra Mãe...


Crisódio T. Araújo

Poeta timorense



[1] Pequeno tambor de corpo cónico de madeira



Um abraço,

José Gomes


Maria Mamede declama "Rosa de Oecussi", poema de Palmira Marques, de Coimbra: