quinta-feira, 30 de abril de 2009

Primeiro de Maio - um dia de luta


1º de Maio



O primeiro 1º de Maio foi uma coisa espantosa. Uma festa que irmanou todos os trabalhadores num dia único, num dia seu, num dia que acreditamos que se estava a construir o FUTURO.

Recordo a multidão compacta que encheu a ampla sala de visitas da cidade do Porto, o povo que lado a lado dava vivas à Liberdade e à manhã libertadora de Abril, a alegria com que festejavamos o nascimento de um país novo…

Foi há 35 anos… e que saudades eu tenho desse dia e do que ele representou para milhões de portugueses.


Deixo-vos com este poema. O tema é esse primeiro 1º de Maio que partilhei com muitos amigos na cidade do Porto. Esta é a minha homenagem a Maio e au saudoso amigo Fernando Peixoto, autor deste poema

1º. MAIO

Há Maio em cada rosto

em cada olhar

que passa pelo asfalto da Avenida

Há Maio em cada braço

que se ergue

há Maio em cada corpo em cada vida

Há Maio em cada voz

que se levanta

há Maio em cada punho que se estende

há Maio em cada passo

que se anda

há Maio em cada cravo que se vende

Há Maio em cada verso

que se canta

há Maio em cada uma das canções

há Maio que se sente

e contagia

no sorriso feliz das multidões

Há Maio nas bandeiras

que flutuam

e mancham de vermelho

o céu de anil

Há Maio de certeza

em cada peito

que sabe respirar o ar de Abril

Mas há Maio sobretudo

no poema

que se escreve sem ler o dicionário

porque Maio há-de ser

mais do que um grito

porque Maio é ainda necessário

Canto Maio e se canto

logo existo

que o meu canto de Maio é solidário

com o canto que escuto

e em que medito

e que sai da boca do operário

(Fernando Peixoto)



José Gomes




quinta-feira, 23 de abril de 2009

25 Abril - 35 anos depois...




25 de Abril 1974

(35 anos depois...)


O dia 25 de Abril de 1974 marcou o nascer de uma nova Nação. Vou recordar — embora superficialmente —aqueles anos antes desta data histórica, servindo-me como guia o poeta Ary dos Santos:



Era uma vez um país

Onde entre o mar e a guerra

Vivia o mais infeliz

Dos povos à beira-terra.


Portugal viveu durante 48 anos debaixo de uma ditadura feroz imposta pelo regime que o governava com mão de ferro.


Os donos e os senhores deste País foram o grande capital e os grandes latifundiários, que oprimiram e exploraram o povo, na sua maioria inculto e a quem foram incutidos sentimentos de subserviência, medo e fatalismo.


Onde entre vinhas sobredos

Vales socalcos searas

Serras atalhos veredas

Lezírias e praias claras

Um povo se debruçava

Como um vime de tristeza

Sobre um rio onde mirava

A sua própria pobreza.


Os trabalhadores foram sempre as grandes vítimas da ganância desses senhores e objecto das perseguições policiais que investiam sobre pessoas indefesas que apenas lutavam pelos seus direitos e pela dignidade de um País amordaçado.


Era uma vez um País

Onde o pão era contado

Onde quem tinha a raiz

Tinha o fruto arrecadado

Onde quem tinha o dinheiro

Tinha o operário algemado

Onde suava o ceifeiro

Que dormia com o gado

Onde tossia o mineiro

Em Aljustrel ajustado

Onde morria primeiro

Quem nascia desgraçado.


Foram esses senhores que durante 48 anos oprimiram e mataram (ou mandaram matar…) Catarina Eufémia, Humberto Delgado, Dias Coelho, entre muitos outros, só por terem sonhado com um País mais justo, mais solidário, sem exploradores nem explorados e onde houvesse pão, paz, saúde, habitação e educação para todos.


Era uma vez um País

De tal maneira explorado

Pelos consórcios fabris

Pelo mando acumulado

Pelas ideias nazis

Pelo dinheiro estragado

Pelo dobrar da cerviz

Pelo trabalho amarrado

Que até hoje já se diz

Que nos tempos do passado

Se chamava esse País

Portugal suicidado.


Foram estes mesmos senhores que durante 13 longos anos mantiveram uma guerra colonial que ceifou e estropiou milhares e milhares de jovens, a flor de uma geração.


Ora passou-se porém

Que dentro de um povo escravo

Alguém que lhe queria bem

Um dia plantou um cravo.





Era a semente da esperança

Feita de força e vontade

Era ainda uma criança

Mas já era a liberdade.

Era já uma promessa

Era a força da razão

Do coração à cabeça

Da cabeça ao coração.


Faz agora 35 anos.


Era a tarde de 23 de Abril de 1974... Álvaro Guerra, jornalista do Jornal República, recebia em mão, num alfarrabista de Lisboa, uma folha de papel amarelo que iria mudar o rumo da história de Portugal.


Nele estava escrita a senha que ouvidos atentos de homens já cansados de uma guerra sem sentido e duma nação sem esperança, esperavam ouvir nos quartéis para então saírem para a rua, rumo à construção do País Novo.





Quem o fez era soldado

Homem novo capitão

Mas também tinha a seu lado

Muitos homens na prisão.


João Paulo Diniz, produtor e locutor do programa “Alfabeta”, às 23,55 horas “enganou-se” nas horas – esse “engano” era parte integrante da primeira senha –“Faltam cinco minutos para as 23 horas”, seguindo-se a canção de Paulo de Carvalho “E Depois do Adeus”, vencedora do Festival da canção de 1974.

Dizia soldado amigo

Meu camarada e irmão

Este povo está contigo

Nascemos do mesmo chão

Trazemos a mesma chama

Temos a mesma ração

Dormimos na mesma cama

Comendo do mesmo pão.

Camarada e meu amigo

Soldadinho ou capitão

Este povo está contigo

A malta dá-te razão.


Foi a Rádio Renascença, no programa “Limite”, que às 00,20 H, lançou para o ar a estrofe de “Grândola Vila Morena” : “Grândola Vila Morena / Terra da fraternidade / O povo é quem mais ordena / Dentro de ti, ó cidade” seguida desta canção na voz de Zeca Afonso.


Foi então que Abril abriu

As portas da claridade

E a nossa gente invadiu

A sua própria cidade.

Disse a primeira palavra

Na madrugada serena

Um poeta que cantava

O povo é quem mais ordena.



Estava dado o sinal que tudo estava a correr como previsto. A partir desta altura começava a nascer um novo País...


e tudo o que Abril abriu

ainda pouco se disse

e só nos faltava agora

que este Abril não se cumprisse.

Só nos faltava que os cães

viessem ferrar o dente

na carne dos capitães

que se arriscaram na frente.

Na frente de todos nós

povo soberano e total

que ao mesmo tempo é a voz

e o braço de Portugal.





Ouvi banqueiros fascistas

agiotas do lazer

latifundiários machistas

balofos verbos de encher

e outras coisas em istas

que não cabe dizer aqui

que aos capitães progressistas

o povo deu o poder!



E se esse poder um dia

o quiser roubar alguém

não fica na burguesia

volta à barriga da mãe!

Volta à barriga da terra

que em boa hora o pariu

agora ninguém mais cerra

as portas que Abril abriu!





[i] José Gomes


[i] Excertos do poema “As Portas Que Abril Abriu”, de José Carlos Ary dos Santos.

Música "A Cantiga é uma Arma" interpretada por GAC - Vozes na Luta.







quinta-feira, 9 de abril de 2009

Reabertura dos Chuviscos...

Recordar ADRIANO CORREIA DE OLIVEIRA hoje e sempre.


Recordar Adriano, hoje, no dia do seu nascimento, é mantê-lo bem vivo e actuante, é empunhar a bandeira de esperança, é continuar a lutar por um Portugal, mais livre, mais fraterno, mais justo e mais solidário, tal como ele sempre o sonhou.

Não deixemos murchar os cravos de Abril nem calar aqueles que cantaram a Liberdade.


Em memória de Adriano”


Nas tuas mãos tomaste uma guitarra
copo de vinho de alegria sã
sangria de suor e de cigarra
que à noite canta a festa da manhã.

Foste sempre o cantor que não se agarra
O que à terra chamou amante e irmã
Mas também português que investe e marra
Voz de alaúde e rosto de maçã.

O teu coração de oiro veio do Douro
Num barco de vindimas de cantigas
Tão generosas como a liberdade

Resta de ti a ilha dum tesouro
A jóia com as pedras mais antigas
Não é saudade, não!
É amizade...


José Carlos Ary dos Santos


 

É tempo de Adriano voltar a cantar!





José Gomes