segunda-feira, 1 de setembro de 2008

A Victor Jara


Setembro é um mês marcado por acontecimentos trágicos que decorreram ao longo dos seus dias, durante as últimas décadas.

Consultando a Net verifico que a atenção da maior parte das notícias se concentra nos atentados terroristas de 11 de Setembro de 2001, nos Estados Unidos., dando a entender que tudo o que aconteceu antes disto é para ser apagado da memória colectiva dos povos.

Estou a lembrar de alguns actos perpetrados contra democracias:

 - 11 de Setembro de 1973 - golpe militar no Chile que derrubou Salvador Allende (mais de 30.000 pessoas foram assassinadas e mais de 100.000 presas e torturadas);

- Primeiros dias de Setembro de 1999 - militares indonésios e milícias por eles armados e treinados, semearam o terror, a destruição, a pilhagem e a morte em Timor Leste, quando se aperceberam que a maioria esmagadora da população referendara a independência daquela jovem Nação:

- 28 de Setembro de 1974 - tentativa de golpe de estado em Portugal que visava restaurar a ditadura;

- 16 de Setembro de 1973 – Victor Jara, no Estádio Nacional de Santiago do Chile, foi assassinado a tiros de metralhadora, às ordens de Edwin Minter Bianchi, tenente do exército chileno, conhecido por «el príncipe».


Durante o mês de Setembro vou dar voz a figuras que partiram, mantendo-se fiéis aos seus ideais, nomeadamente Salvador Allende, Victor Jara, Pablo Neruda… para que a Memória Colectiva os não esqueça! 


HOUVE UM HOMEM...

HOUVE UM HOMEM... que nasceu no Chile, a 28 de Setembro de 1932, filho de Manuel Jara e de Amanda, originária do sul do país e de origem mapuche, que foi cantora e dona de casa.

HOUVE UM HOMEM... que, enquanto jovem, aproveitou as horas vagas da viola, para estudar e ajudar nas tarefas de casa até que a morte da mãe o fez mudar de vida. "Para mim foi uma decisão muito importante entrar para o seminário. Quando penso agora, da perspectiva mais dura, acho que fiz aquilo por razões íntimas e emocionais, pela solidão e o desespero de um mundo que até esse momento tinha sido sólido e perdurável, simbolizado por um lar e o amor da minha mãe."

HOUVE UM HOMEM... que, em 1952, abandonou o Seminário por não ter vocação para continuar, mas que reconhecia que foi este que o preparou para a vida, aprendendo canto gregoriano e interpretação litúrgica.

HOUVE UM HOMEM... que, aos 21 anos, entrou no grupo coral da Universidade do Chile e participou na montagem da peça "Carmina Burana ". Começou assim o seu trabalho de pesquisa e compilação musical. Três anos mais tarde, fez parte da companhia de teatro "Compañía de Mimos de Noisvander" e começou a estudar na Escola de Teatro da Universidade do Chile.

HOUVE UM HOMEM... que, em 1957, fez parte do grupo "Cuncumén" (cantos e danças folclóricas) onde conheceu Violeta Parra. Esta encorajou-o a continuar a luta das canções. Aos 27 anos dirigiu a sua primeira obra de teatro "Parecido a la Felicidad", de Alejandro Sieveking, encenando-a e apresentando-a posteriormente em vários países latino-americanos.

HOUVE UM HOMEM... que, em 1961 fez a sua primeira canção, " Paloma Quiero Contarte" enquanto continuou o seu trabalho como assistente de direcção, na montagem de" La Madre de los Conejos " de Alejandro Sieveking e que gravou, com o grupo "Cuncumén", o LP "Folclore Chileno" com duas canções próprias, "Paloma Quiero Contarte" e "La Canción del Minero". Nessa altura começou a trabalhar como director da Academia de Folclore da Casa da Cultura de Ñuñoa, função que desempenhou até 1968.

HOUVE UM HOMEM... que compôs música e em 1965 dirigiu a obra "La Remolienda", de Alejandro Sieveking, bem como a montagem de "La Maña de Ann Jellico", recebendo o prémio "Laurel de Oro" como melhor realizador e o prémio da "Crítica do Círculo de Jornalistas" para a melhor direcção por "La Maña".

HOUVE UM HOMEM... que se tornou director artístico do grupo "Quilapayún", entre os anos 1966 e 1969, continuando a dirigir obras de teatro e que, em 1966, gravou o seu primeiro LP, "Víctor Jara".

HOUVE UM HOMEM... que, em 1969, montou a obra "Antígonas de Sófocles" e escreveu a canção "Plegaria a un labrador" que ganhou o primeiro prémio do "Primeiro Festival da Nova Canção Chilena". Nesse ano viajou para Helsínquia e lá participar no Comício Mundial de Jovens pelo Vietname e gravou "Pongo en Tus Manos Abiertas".

HOUVE UM HOMEM... que, em 1970, participou na campanha eleitoral da coligação "Unidade Popular", editou o disco "Canto Libre" e que, após a eleição de Salvador Allende, foi nomeado embaixador cultural do"Governo da Unidade Popular".

HOUVE UM HOMEM… que editou o disco "El Derecho de Vivir en Paz" recebendo, de novo, o prémio "Laurel de Oro" para a melhor composição do ano. Trabalhou, ainda, como compositor na Televisão Nacional do Chile e recolheu música popular junto das populações autóctones, gravando o documentário "La Población".

HOUVE UM HOMEM... que na Universidade de Santiago, juntamente com outros professores, alunos e pessoal administrativo, tentaram resistir ao golpe de estado do general Augusto Pinochet a 11 de Setembro de 1973. Foram detidos e conduzidos para o Estádio Nacional de Santiago do Chile, convertido em campo de concentração.

HOUVE UM HOMEM... que, no dia 16 de Setembro de 1973, em plena bancada do Estádio Nacional de Santiago do Chile foi assassinado com 44 tiros de metralhadora por Edwin Minter Bianchi conhecido por «el príncipe», tenente do exército chileno.

HOUVE UM HOMEM... que, antes de ser assassinado, lhe partiram as mãos, como forma de o castigar pelo seu empenhamento artístico, pelo trabalho político junto dos mais desfavorecidos e pelo seu papel enquanto membro do Comité Central das Juventudes Comunistas do Chile.

HOUVE UM HOMEM... a quem gritaram "Canta agora,  filho da puta!" e que, de imediato, se levantou e cantou com a força da coragem "Venceremos, venceremos, Mil cadenas habrá que romper, Venceremos, venceremos, La miseria sabremos vencer”.

HOUVE UM HOMEM... que, nos dias do cárcere a céu aberto, escreveu:

Somos cinco mil

nesta pequena parte da cidade.

Somos cinco mil

Quantos seremos ao todo

nas cidades e em todo o país?

Só aqui

dez mil mãos semeiam

e fazem as fábricas andar

Quanta humanidade

com fome, frio, pânico, dor,

pressão moral, terror e loucura!


HÁ UM HOMEM... que continua a andar por aqui, a exigir o direito a viver em paz, a procurar o caminho das pedras para descobrir o mundo que há-de vir e que, como Pablo Neruda dizia:

EU SOU VITOR JARA... ESTOU AQUI!

 

José Gomes




 

13 comentários:

  1. Que a memória perdure e não esqueça, nunca!
    Pela Liberdade, pela Justiça, por uma Sociedade mais Igualitária... Lutamos!
    Um Abraço

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  2. Excelente e merecida homenagem!
    Beijos

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  3. Grande lembrança!

    O genocida e covarde Augusto Pinochet morreu em dezembro de 2006 sem nunca ter sido julgado por seus crimes, dentre eles, o assassinato de milhares de ativistas políticos. A ditadura chilena, no entanto, tentou silenciar não só os militantes, mas também toda uma geração de artistas engajados que faziam de sua arte verdadeiras armas de transformação social e de luta contra o imperialismo. O maior deles, o cantor Victor Jara, foi barbaramente assassinado no Estádio Nacional, após ser brutalmente espancado e ter as duas mãos quebradas.
    Hoje quem é lembrado como herói na América latina?

    VICTOR JARA

    Abraços!

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  4. Que a memória jamais morra a qualquer sombra...
    Pela Liberdade, Igualdade e Fraternidade!

    Um abraço amigo,
    Maria Faia

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  5. Que a memória jamais morra a qualquer sombra...
    Pela Liberdade, Igualdade e Fraternidade!

    Um abraço amigo,
    Maria Faia

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  6. El Pueblo unido jamas será vencido.

    Un Abrazo

    António Delgado

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  7. Amigo

    Que bom recebê-lo!
    Irei linka-lo.Seu blog me agradou muito!

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  8. A malta está de partida e... Sábado, 6 de Setembro, 15h, Lago da Rotunda da Avenida Principal
    Não há Festa Como Esta!
    Até já!

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  9. Este comentário foi removido pelo autor.

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  10. Olá, José
    Voltei!
    Retomei as actividades publicando noSEMPRE JOVENS
    o post «Regresso de Férias» na terça-feira (lá é nesse dia da semana) e hoje publiquei na minha "Casa" (é à quinta-feira e domingo).

    Estou verdadeiramente impressionada!
    Conhecia Vítor Jara como um verdadeiro lutador (para além de grande músico, é claro), mas desconhecia a maior parte do seu percurso, que aqui descreves de forma clara e pormenorizada.
    Que a sua memória, e a de tantos outros, perdure, e não saia nunca da nossa lembrança.
    Obrigada por ajudares a recordar esses heróis tantas vezes esquecidos.
    Beijinhos
    Mariazita

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  11. José

    AH! OS RELÓGIOS

    Amigos, não consultem os relógios
    quando um dia eu me for de vossas vidas
    em seus fúteis problemas tão perdidas
    que até parecem mais uns necrológios...

    Porque o tempo é uma invenção da morte:
    não o conhece a vida - a verdadeira -
    em que basta um momento de poesia
    para nos dar a eternidade inteira.

    Inteira, sim, porque essa vida eterna
    somente por si mesma é dividida:
    não cabe, a cada qual, uma porção.

    E os Anjos entreolham-se espantados
    quando alguém - ao voltar a si da vida -
    acaso lhes indaga que horas são...

    Mario Quintana - A Cor do Invisível

    beijo

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  12. Há homens que ao morrer se universalizam, deixam de estar localizados para estarem vivos e presentes como nunca em todo o mundo, onde exista opressão, eles são a voz na voz de outros, eles são a esperança na vontade dos que jamais mas JAMAIS SE SUBMETERÃO às bestas da repressão.

    Ouss

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  13. Os cantores são os únicos heróis em que acredito.

    Estão presentes todos os dias. Alguns, não todos. Mas o Victor nunca falta.

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