terça-feira, 16 de setembro de 2008

A morte de Victor Jara





Lembrando este mês...

...Victor Jara:



17 de Setembro de 2008.

Faz hoje 35 anos que morreu um grande músico e um grande lutador. Victor Jara teria hoje 76 anos, viveria ainda com a sua mulher e as suas duas filhas e teria assistido ao processo judicial do autor do seu assassinato, o ditador chileno Augusto Pinochet, e à morte deste, por velhice.

Faz hoje 35 anos que os soldados comprometidos com o golpe, lhe desfizeram as mãos para que nunca mais pudesse empunhar a guitarra. À ordem de Edwin Bianchi, el príncipe, o carniceiro do Estádio do Chile, o corpo de Victor Jara foi cravado com dezenas de tiros e assim arrancaram-lhe aquela voz que a tantos lugares chegara, com um canto de liberdade que abriu os olhos a milhares de pessoas.

Faz hoje 35 anos que a vida de Víctor Jara se apagou, mas a sua voz continua a chegar a todos os cantos deste planeta, com a mesma força militante de há 35 anos.



Victor Jara Martínez

Nasceu a 28 de Setembro de 1932 em La Quinquina, uma pequena aldeia do Chile. Desde muito novo que sentia uma certa inclinação para a música, talvez influenciado pela sua mãe, Dona Amanda. Esta costumava cantar para uma plateia de trabalhadores e de crianças da vizinhança.

Com a morte desta quando tinha 15 anos, desamparado e cheio de saudades, procurou refúgio no Seminário Redentorista de S. Bernardo e seguiu a sua vocação sacerdotal. Mas ao fim de dois anos reconheceu que aquele não era o seu caminho e desistiu.

A Universidade e Violeta Parra

Em 1957 matriculou-se na Escola de Teatro da Universidade do Chile onde estudou Teatro.

Aqui conheceu Violeta Parra que gostou da sua voz e entusiasmou-o a continuar a compor e a cantar.

Em 1960 foi director do teatro universitário, actor, investigador das tradições do seu povo (folclore e instrumentos indígenas) e compositor.

A partir de 1963 foi membro da direcção do Instituto de Teatro da Universidade do Chile e professor da Escola de Teatro da mesma Universidade. Foi um dos fundadores do movimento da Nova Canção Chilena.

Em 1970 participou activamente na campanha presidencial de Salvador Allende, realizando recitais por todo o país.

Depois da vitória de Salvador Allende nas eleições presidenciais de 1970, Victor Jara assumiu um papel preponderante no desenvolvimento cultural e político do país. Foi embaixador cultural do governo de Unidade Popular, desde 1971 até à sua morte.

A sua morte

Na manhã do dia 11 de Setembro de 1973 Victor Jara, tendo tido conhecimento do golpe militar, dirigiu-se para a Universidade Técnica para se juntar aos estudantes, professores e pessoal administrativo que quiseram resistir ao golpe de Pinochet.

O Campus foi cercado por tropas do exército chjleno. A madrugada foi de terror, ouviam-se tiros e explosões por todos os lados. Os que tentaram escapar do cerco foram abatidos. Victor Jara procurou elevar a moral dos sitiados usando a sua melhor arma: o canto!

Na manhã do dia 12 de Setembro os tanques atacaram a universidade. Depois de uma luta desigual, os resistentes renderem-se. Reunidos no pátio, foram forçados a se deitarem no chão com as mãos atrás da cabeça e foram espancados.

Foram levados para o Estádio do Chile, transformado em campo de concentração. Victor Jara foi reconhecido por “El Príncipe”, um violento oficial que lhe disse:

- Che tu madre! Vos sois el cantor de pura mierda!

Antes que pudesse responder e numa tentativa para o salvar, vários amigos tentaram confundir o oficial, gritando que eles é que eram Vítor Jara. Mas este, num gesto de dignidade e de coragem, levantou o braço e cantou os primeiros versos de “Plegaria a un lavrador”, canção que anos antes e naquele mesmo estádio, o transformou no maior expoente do movimento folk do seu país.

Foi barbaramente agredido e conduzido para um local do estádio onde estavam os militantes mais “perigosos”. Quando o levaram para as arquibancadas o seu rosto estava todo cheio de sangue.

No dia 14 de Setembro, os prisioneiros começaram a ser transferidos. Victor Jara, pressentindo que estava perto do fim, pediu papel e lápis e, naquele inferno, escreveu o seu último poema:

Estadio Chile

Somos cinco mil
En esta pequeña parte de la ciudad.
Somos cinco mil
¿Cuántos seremos en total
en las ciudades y en todo el país?
¡Cuanta humanidad,
hambre, frío, pánico, dolor,
presión moral, terror y locura!
Somos diez mil manos menos que no producen
¿Cuántos somos en toda la Patria?
La sangre del compañero Presidente
golpea más fuerte que bombas y metrallas
Así golpeará nuestro puño nuevamente.

Deste poema foram feitas várias cópias manuscritas e distribuídas por vários prisioneiros, pouco antes de “El Principe” interceptar uma delas e, indignado com a audácia do poeta, insultou-o:

- Yo te endeñaré ahora, hijo de puta, a escribir canciones chilenas y no comunistas!

Vítor Jara foi arrastado para o centro do estádio, para cima de um palco e, a um sinal do oficial “El Príncipe”, dois soldados esmagaram as falanges dos seus dedos indefesos e deram-lhe, ainda, coronhadas na nuca.

- No estoy escuchando, hijo de puta! No vas a cantar, carajo? – gritou-lhe “El Principe”, enquanto atirava o violão para cima do corpo do compositor, caído no chão.

Victor Jara, no limite das suas forças, pôs-se de pé, levantou os braços e o que restava das suas mãos ensanguentadas e com o que lhe restava das suas forças, cantou a canção “Venceremos”, hino da Unidade Popular:


Venceremos, venceremos,
Mil cadenas habrá que romper,
Venceremos, venceremos,
La miseria sabremos vencer.

Campesinos, soldados, mineros
La mujer de la patria también,
Estudiantes, empleados y obreros,
Cumpliremos con nuestro deber.

Sembraremos las tierras de gloria,
Socialista será el porvenir,
Todos juntos haremos la historia,
A cumplir, a cumplir, a cumplir


Os outros prisioneiros, entre lágrimas de terror e revolta, começaram também a cantar. Foi esta a última vez que Victor Jara foi visto com vida.

 

Três dias depois, seis corpos desfigurados e baleados foram encontrados na periferia da cidade. Um deles, perfurado por 44 balas e múltiplas fracturas dos punhos e das mãos, era o corpo de Victor Jara.


Em 1990 a Comissão Verdade e Reconciliação concluiu que Victor Jara foi assassinado a 17 de Setembro de 1973 no Estádio do Chile. Os seus restos mortais descansam no Cemitério Geral.



(foto: cortesia do grupo FUNA)

Edward Dimter Bianchi (Alias "El Principe"). Teniente de Ejercito durante el Golpe militar. Culpable de tortura y muerte de presos politicos incluyendo Vicor Jara. Hoy es funcionario del Ministerio del Trabajo y se desempeña como Jefe del Departamento de  Control de Instituciones de la Superintendencia de AFP.

Lugar de Trabajo: HUÉRFANOS 1273; Email: edimte@safp.cl ; Telefonos: 7530400- 7530401

 

“El Príncipe”,  Edwin Dimter Bianchi – o oficial responsável pelo mais horrível "concerto" da história da América Latina – escondeu a sua identidade durante décadas. No dia 25 de Maio de 2006 foi descoberto pela FUNA, uma comissão que procura desmascarar e levar à justiça os principais responsáveis da ditadura chilena.

O assassino de Victor Jara e de muitos outros, Edwin Dimter Bianchi (foto acima) trabalha no Ministério do Trabalho do Chile, como chefe do Departamento de Controle das Instituições, num edifício localizado na Avenida Huérfanos, 1273.

Seu e-mail é edimte@safp.cl e os seus telefones são 7530400 e 7530401.

(Esta notícia foi publicada em 30 de Novembro de 2007).


José Gomes


6 comentários:

  1. "Más temprano que tarde se abrirán las grandes alamedas por donde pasará el hombre libre para construir una sociedad mejor” Do último discurso de Salvador Allende


    Li o teu post, de fio a pavio, e as lágrimas rolaram, o coração apertou e senti um nó na garganta. Como foi possível cometer tanta barbaridade? Que homem é este que provoca uma carnificina destas dimensões?
    Não esqueçamos estes monstros, seres hediondos, que não podem medrar mais.

    Bem hajas, Zé!

    Beijinhos

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  2. Este assassino tem de morrer, vamos exigir a sua prisão ao governo do Chile.

    Ouss

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  3. Merecidíssima, esta homenagem a Vítor Jara, um guerreiro da liberdade.
    Depois da crueldade de lhe deceparem as mãos, pensavam calá-lo, assassinando-o.
    Puro engano. A sua memória e a sua música continuam vivas; jamais serão esquecidas!
    Beijinhos
    Mariazita

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  4. Mais um impressionante relato do Setembro de 1973 no Chile que me comoveu até às lágrimas.
    Confesso que foi a primeira vez que conheci tão em pormenor o assassinato de Victor Jara. É arrepiante!
    Bem hajas pela homenagem a todos os heróis daquele terrível golpe.
    Beijinhos

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  5. nao ha ninguem nenhum parente capazz de tirar a vida a esse assassinio que ainda por cima esa trabalhando no governo por isso digo que sao todos uns covardes

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  6. Matéria exemplar e muito oportuna. Parabéns!

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