domingo, 28 de setembro de 2008

Fernando Tordo na Maia

Fernando Tordo
(Fotografia tirada em Agosto, na estreia do musical "Jesus Cristo Superstar", em Portimão)


 

Fernando Tordo veio este sábado (27 de Setembro) ao Fórum da Maia, acompanhado pela Stardust Orchestra, dirigida pelo maestro Pedro Duarte, para nos encantar com as suas canções.

 

Durante quase duas horas fez-nos vibrar com a sua maneira muito característica de interpretar as suas canções, não só com a sua voz, mas também com o jogo fisionómico de um corpo que soube sempre traduzir aquilo que cantava.

 

"Adeus Tristeza", "Lisboa de Feira", "O Homem do Jazz" (uma homenagem que prestou a Luís Villas Boas, ainda em vida deste homem do Jazz), "O Café", "Balada para os nossos filhos" (balada dedicada aos gémeos João e Joana, nascidos em 1975), "Estrela da Tarde", "Amadeu" (homenagem ao grande pintor Amadeu Sousa Cardoso), "Tele Tele", "O Rato Roeu a Rolha" foram algumas das interpretações que arrancaram vibrantes aplausos das pessoas que enchiam o Fórum.

 

Mas foi a "Tourada" que fez vibrar a sala, que fez com que toda a gente se levantasse como que impelidos por uma mola, aplaudindo e cantando com o Fernando Tordo esta canção que, ontem como hoje, mostra que pouca coisa mudou no panorama nacional!

 

Foi uma noite que valeu a pena não ter ficado em casa. Espero que não seja preciso passarem mais 10 anos para voltar a ter o Fernando Tordo na Maia.

 

José Gomes



segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Pablo Neruda... a minha homenagem.


Lembrando este mês:

“... Deixa que o vento corra, coroado de espuma, que me chame e me busque galopando na sombra, enquanto eu, mergulhado nos teus imensos olhos, nesta noite imensa, descansarei, meu amor..." - Pablo Neruda


Pablo Neruda, aliás Neftali Ricardo Reys Basoalto, nasceu a 12 de Julho de 1904 e faleceu em Santiago do Chile a 23 de Setembro de 1973. Foi um dos mais importantes poetas do século XX, vindo a receber em Outubro de 1971 o Prémio Nobel da Literatura.

Desde muito novo que começou a escrever, tendo ganho alguns prémios com os seus poemas.

Em 1927 foi nomeado cônsul em Rangum, na Birmânia passando, depois, por Ceilão, Java e Singapura. De regresso ao Chile escreveu  “Residência en la Terra” e “El Hondero Entusiasta”.

Em 1934 foi nomeado cônsul em Barcelona e no ano seguinte foi transferido para Madrid. Nesta cidade ficou com a direcção da revista “Cavalo Verde para a Poesia”, relacionando-se com grandes nomes da chamada geração de 27, onde veio a conheçer os poetas Federico Garcia Lorca e Rafael Alberti.

Em 1936 começou a Guerra Civil Espanhola e, devido às suas tomadas de posição, Neruda foi destituído do cargo. Colocado em Paris, escreveu “España en el Corazón” seguido, em 1939, por “Las Furias y las Penas”. Em 1940 foi nomeado cônsul geral do México. Regressou ao Chile em 1943, em 1945 foi eleito senador e obtém o Prémio Nacional de Literatura.

Por participar activamente em actividades políticas e por ser militante do Partido Comunista que, entretanto, fora declarado ilegal, teve de sair do Chile. Regressou em 1952, continuando a sua actividade literária e política.

Indicado para a Presidência da República do Chile nos anos 70, veio a desistir da sua candidatura a favor de Salvador Allende.

Participou na campanha deste e, eleito Allende, foi nomeado embaixador do Chile em França.

Recebeu, em 21 de Outubro de 1971, o "Prémio Nobel de Literatura" com o livro “Confesso que Vivi”.

Morreu a 23 de Setembro de 1973 em Santiago do Chile, doze dias depois da queda do Governo de Unidade Popular e da morte de Salvador Allende.


Posso Escrever Os Versos Mais Tristes Esta Noite

Posso escrever os versos mais tristes esta noite. 
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada, 
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe". 
O vento da noite gira no céu e canta. 

Posso escrever os versos mais tristes esta noite. 
Eu amei-a e por vezes ela também me amou. 
Em noites como esta tive-a em meus braços. 
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito. 

Ela amou-me, por vezes eu também a amava. 
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos. 
Posso escrever os versos mais tristes esta noite. 
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi. 

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela. 
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho. 
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la. 
A noite está estrelada e ela não está comigo. 

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe. 
A minha alma não se contenta com havê-la perdido. 
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a. 
O meu coração procura-a, ela não está comigo. 

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores. 
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos. 
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei. 
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido. 

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos. 
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos. 
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda. 
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento. 

Porque em noites como esta tive-a em meus braços, 
a minha alma não se contenta por havê-la perdido. 
Embora seja a última dor que ela me causa, 
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

Pablo Neruda
'Vinte poemas de amor e uma canção desesperada'


José Gomes



terça-feira, 16 de setembro de 2008

A morte de Victor Jara





Lembrando este mês...

...Victor Jara:



17 de Setembro de 2008.

Faz hoje 35 anos que morreu um grande músico e um grande lutador. Victor Jara teria hoje 76 anos, viveria ainda com a sua mulher e as suas duas filhas e teria assistido ao processo judicial do autor do seu assassinato, o ditador chileno Augusto Pinochet, e à morte deste, por velhice.

Faz hoje 35 anos que os soldados comprometidos com o golpe, lhe desfizeram as mãos para que nunca mais pudesse empunhar a guitarra. À ordem de Edwin Bianchi, el príncipe, o carniceiro do Estádio do Chile, o corpo de Victor Jara foi cravado com dezenas de tiros e assim arrancaram-lhe aquela voz que a tantos lugares chegara, com um canto de liberdade que abriu os olhos a milhares de pessoas.

Faz hoje 35 anos que a vida de Víctor Jara se apagou, mas a sua voz continua a chegar a todos os cantos deste planeta, com a mesma força militante de há 35 anos.



Victor Jara Martínez

Nasceu a 28 de Setembro de 1932 em La Quinquina, uma pequena aldeia do Chile. Desde muito novo que sentia uma certa inclinação para a música, talvez influenciado pela sua mãe, Dona Amanda. Esta costumava cantar para uma plateia de trabalhadores e de crianças da vizinhança.

Com a morte desta quando tinha 15 anos, desamparado e cheio de saudades, procurou refúgio no Seminário Redentorista de S. Bernardo e seguiu a sua vocação sacerdotal. Mas ao fim de dois anos reconheceu que aquele não era o seu caminho e desistiu.

A Universidade e Violeta Parra

Em 1957 matriculou-se na Escola de Teatro da Universidade do Chile onde estudou Teatro.

Aqui conheceu Violeta Parra que gostou da sua voz e entusiasmou-o a continuar a compor e a cantar.

Em 1960 foi director do teatro universitário, actor, investigador das tradições do seu povo (folclore e instrumentos indígenas) e compositor.

A partir de 1963 foi membro da direcção do Instituto de Teatro da Universidade do Chile e professor da Escola de Teatro da mesma Universidade. Foi um dos fundadores do movimento da Nova Canção Chilena.

Em 1970 participou activamente na campanha presidencial de Salvador Allende, realizando recitais por todo o país.

Depois da vitória de Salvador Allende nas eleições presidenciais de 1970, Victor Jara assumiu um papel preponderante no desenvolvimento cultural e político do país. Foi embaixador cultural do governo de Unidade Popular, desde 1971 até à sua morte.

A sua morte

Na manhã do dia 11 de Setembro de 1973 Victor Jara, tendo tido conhecimento do golpe militar, dirigiu-se para a Universidade Técnica para se juntar aos estudantes, professores e pessoal administrativo que quiseram resistir ao golpe de Pinochet.

O Campus foi cercado por tropas do exército chjleno. A madrugada foi de terror, ouviam-se tiros e explosões por todos os lados. Os que tentaram escapar do cerco foram abatidos. Victor Jara procurou elevar a moral dos sitiados usando a sua melhor arma: o canto!

Na manhã do dia 12 de Setembro os tanques atacaram a universidade. Depois de uma luta desigual, os resistentes renderem-se. Reunidos no pátio, foram forçados a se deitarem no chão com as mãos atrás da cabeça e foram espancados.

Foram levados para o Estádio do Chile, transformado em campo de concentração. Victor Jara foi reconhecido por “El Príncipe”, um violento oficial que lhe disse:

- Che tu madre! Vos sois el cantor de pura mierda!

Antes que pudesse responder e numa tentativa para o salvar, vários amigos tentaram confundir o oficial, gritando que eles é que eram Vítor Jara. Mas este, num gesto de dignidade e de coragem, levantou o braço e cantou os primeiros versos de “Plegaria a un lavrador”, canção que anos antes e naquele mesmo estádio, o transformou no maior expoente do movimento folk do seu país.

Foi barbaramente agredido e conduzido para um local do estádio onde estavam os militantes mais “perigosos”. Quando o levaram para as arquibancadas o seu rosto estava todo cheio de sangue.

No dia 14 de Setembro, os prisioneiros começaram a ser transferidos. Victor Jara, pressentindo que estava perto do fim, pediu papel e lápis e, naquele inferno, escreveu o seu último poema:

Estadio Chile

Somos cinco mil
En esta pequeña parte de la ciudad.
Somos cinco mil
¿Cuántos seremos en total
en las ciudades y en todo el país?
¡Cuanta humanidad,
hambre, frío, pánico, dolor,
presión moral, terror y locura!
Somos diez mil manos menos que no producen
¿Cuántos somos en toda la Patria?
La sangre del compañero Presidente
golpea más fuerte que bombas y metrallas
Así golpeará nuestro puño nuevamente.

Deste poema foram feitas várias cópias manuscritas e distribuídas por vários prisioneiros, pouco antes de “El Principe” interceptar uma delas e, indignado com a audácia do poeta, insultou-o:

- Yo te endeñaré ahora, hijo de puta, a escribir canciones chilenas y no comunistas!

Vítor Jara foi arrastado para o centro do estádio, para cima de um palco e, a um sinal do oficial “El Príncipe”, dois soldados esmagaram as falanges dos seus dedos indefesos e deram-lhe, ainda, coronhadas na nuca.

- No estoy escuchando, hijo de puta! No vas a cantar, carajo? – gritou-lhe “El Principe”, enquanto atirava o violão para cima do corpo do compositor, caído no chão.

Victor Jara, no limite das suas forças, pôs-se de pé, levantou os braços e o que restava das suas mãos ensanguentadas e com o que lhe restava das suas forças, cantou a canção “Venceremos”, hino da Unidade Popular:


Venceremos, venceremos,
Mil cadenas habrá que romper,
Venceremos, venceremos,
La miseria sabremos vencer.

Campesinos, soldados, mineros
La mujer de la patria también,
Estudiantes, empleados y obreros,
Cumpliremos con nuestro deber.

Sembraremos las tierras de gloria,
Socialista será el porvenir,
Todos juntos haremos la historia,
A cumplir, a cumplir, a cumplir


Os outros prisioneiros, entre lágrimas de terror e revolta, começaram também a cantar. Foi esta a última vez que Victor Jara foi visto com vida.

 

Três dias depois, seis corpos desfigurados e baleados foram encontrados na periferia da cidade. Um deles, perfurado por 44 balas e múltiplas fracturas dos punhos e das mãos, era o corpo de Victor Jara.


Em 1990 a Comissão Verdade e Reconciliação concluiu que Victor Jara foi assassinado a 17 de Setembro de 1973 no Estádio do Chile. Os seus restos mortais descansam no Cemitério Geral.



(foto: cortesia do grupo FUNA)

Edward Dimter Bianchi (Alias "El Principe"). Teniente de Ejercito durante el Golpe militar. Culpable de tortura y muerte de presos politicos incluyendo Vicor Jara. Hoy es funcionario del Ministerio del Trabajo y se desempeña como Jefe del Departamento de  Control de Instituciones de la Superintendencia de AFP.

Lugar de Trabajo: HUÉRFANOS 1273; Email: edimte@safp.cl ; Telefonos: 7530400- 7530401

 

“El Príncipe”,  Edwin Dimter Bianchi – o oficial responsável pelo mais horrível "concerto" da história da América Latina – escondeu a sua identidade durante décadas. No dia 25 de Maio de 2006 foi descoberto pela FUNA, uma comissão que procura desmascarar e levar à justiça os principais responsáveis da ditadura chilena.

O assassino de Victor Jara e de muitos outros, Edwin Dimter Bianchi (foto acima) trabalha no Ministério do Trabalho do Chile, como chefe do Departamento de Controle das Instituições, num edifício localizado na Avenida Huérfanos, 1273.

Seu e-mail é edimte@safp.cl e os seus telefones são 7530400 e 7530401.

(Esta notícia foi publicada em 30 de Novembro de 2007).


José Gomes


quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Salvador Allende e o golpe no Chile







… Salvador Allende:



Os últimos dias de Salvador Allende e do Governo de Unidade Popular

O presidente do Chile, Salvador Allende, declarou logo após a sua eleição:

A história ensinou-nos que os grupos ultra-revolucionários não desistem do poder e lutam para conquistá-lo”.

Esta previsão, feita três anos antes, veio a tornar-se realidade no dia 11 de Setembro de 1973, data do golpe sangrento comandado por Augusto Pinochet.

 

4 de Setembro de 1972:

Salvador Allende denunciou, em vão, nas Nações Unidas, as tentativas norte-americanas de destabilização do Chile. A situação económica tornou-se catastrófica. O povo protestou em manifestações turbulentas. A organização da extrema-direita "País e Liberdade" tornou-se violenta. As mulheres protestaram contra a falta de alimentos básicos. Os camionistas organizaram um boicote na estrada, bloqueando o tráfego com milhares de camiões. A economia entrou em rotura...

11 de Setembro de 1973:

Em 11 de Setembro de 1973, as forças armadas chilenas, comandadas pelo general Augusto Pinochet e com o apoio e financiamento dos Estados Unidos, derrubaram o governo de Unidade Popular de Salvador Allende, democraticamente eleito 3 anos antes.

Neste dia e apesar dos vários pedidos feitos ao presidente Allende para renunciar ao cargo (e até lhe ofereceram, a ele e à sua família, refúgio no exterior!), este não aceitou a proposta dizendo, num discurso difundido pela rádio, na manhã de 11 de Setembro de 1973:

“ (…) Trabalhadores de minha Pátria, tenho fé no Chile e no seu destino. Outros homens hão-de superar este momento cinza e amargo em que a tradição pretende impor-se. Prossigam vocês, sabendo que, bem antes que o previsto, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor. Viva o Chile! Viva o Povo! Viva os Trabalhadores! Estas são minhas últimas palavras e tenho a certeza que o meu sacrifício não será em vão. Tenho a certeza que, pelo menos, será uma lição moral que castigará a deslealdade, a covardia e a traição."

(Últimas palavras de Salvador Allende à Nação, Pouco minutos passavam das 9 horas, da manhã do dia 11 de Setembro de 1973).

Cercados no palácio presidencial e bombardeados pela Força Aérea, Allende e alguns colaboradores leais resistiram de armas na mão. Foram todos mortos em circunstâncias até hoje desconhecidas.

O exército chileno - liderado por Augusto Pinochet - não teve qualquer humanidade com os militantes do Partido da Unidade Popular. A repressão militar foi vingativa e intolerante.

 

Trinta mil pessoas foram assassinadas e mais de cem mil pessoas presas e torturadas.

 

Foram 17 longos anos que durou a ditadura de Pinochet. Este morreu em Dezembro de 2006 sem nunca ter sido julgado pelos seus crimes.


Homenagem ao Povo do Chile


Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro.

Nas suas almas abertas
traziam o sol da esperança
e nas duas mãos desertas
uma pátria ainda criança.

Gritavam Neruda Allende
davam vivas ao Partido
que é a chama que se acende
no povo jamais vencido.
- o povo nunca se rende
mesmo quando morre unido.

Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro.

Alguns traziam no rosto
um rictus de fogo e dor
fogo vivo fogo posto
pelas mãos do opressor.
Outros traziam os olhos
rasos de silêncio e água
maré-viva de quem passa
uma vida à beira-mágoa.

Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro.

Mas não termina em si próprio
quem morre de pé. Vencido
é aquele que tentar
separar o povo unido.
Por isso os que ontem caíram
levantam de novo a voz.
Mortos são os que traíram
e vivos ficamos nós.

Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que nasceram para o Chile
morrendo de corpo inteiro.


José Carlos Ary dos Santos



segunda-feira, 1 de setembro de 2008

A Victor Jara


Setembro é um mês marcado por acontecimentos trágicos que decorreram ao longo dos seus dias, durante as últimas décadas.

Consultando a Net verifico que a atenção da maior parte das notícias se concentra nos atentados terroristas de 11 de Setembro de 2001, nos Estados Unidos., dando a entender que tudo o que aconteceu antes disto é para ser apagado da memória colectiva dos povos.

Estou a lembrar de alguns actos perpetrados contra democracias:

 - 11 de Setembro de 1973 - golpe militar no Chile que derrubou Salvador Allende (mais de 30.000 pessoas foram assassinadas e mais de 100.000 presas e torturadas);

- Primeiros dias de Setembro de 1999 - militares indonésios e milícias por eles armados e treinados, semearam o terror, a destruição, a pilhagem e a morte em Timor Leste, quando se aperceberam que a maioria esmagadora da população referendara a independência daquela jovem Nação:

- 28 de Setembro de 1974 - tentativa de golpe de estado em Portugal que visava restaurar a ditadura;

- 16 de Setembro de 1973 – Victor Jara, no Estádio Nacional de Santiago do Chile, foi assassinado a tiros de metralhadora, às ordens de Edwin Minter Bianchi, tenente do exército chileno, conhecido por «el príncipe».


Durante o mês de Setembro vou dar voz a figuras que partiram, mantendo-se fiéis aos seus ideais, nomeadamente Salvador Allende, Victor Jara, Pablo Neruda… para que a Memória Colectiva os não esqueça! 


HOUVE UM HOMEM...

HOUVE UM HOMEM... que nasceu no Chile, a 28 de Setembro de 1932, filho de Manuel Jara e de Amanda, originária do sul do país e de origem mapuche, que foi cantora e dona de casa.

HOUVE UM HOMEM... que, enquanto jovem, aproveitou as horas vagas da viola, para estudar e ajudar nas tarefas de casa até que a morte da mãe o fez mudar de vida. "Para mim foi uma decisão muito importante entrar para o seminário. Quando penso agora, da perspectiva mais dura, acho que fiz aquilo por razões íntimas e emocionais, pela solidão e o desespero de um mundo que até esse momento tinha sido sólido e perdurável, simbolizado por um lar e o amor da minha mãe."

HOUVE UM HOMEM... que, em 1952, abandonou o Seminário por não ter vocação para continuar, mas que reconhecia que foi este que o preparou para a vida, aprendendo canto gregoriano e interpretação litúrgica.

HOUVE UM HOMEM... que, aos 21 anos, entrou no grupo coral da Universidade do Chile e participou na montagem da peça "Carmina Burana ". Começou assim o seu trabalho de pesquisa e compilação musical. Três anos mais tarde, fez parte da companhia de teatro "Compañía de Mimos de Noisvander" e começou a estudar na Escola de Teatro da Universidade do Chile.

HOUVE UM HOMEM... que, em 1957, fez parte do grupo "Cuncumén" (cantos e danças folclóricas) onde conheceu Violeta Parra. Esta encorajou-o a continuar a luta das canções. Aos 27 anos dirigiu a sua primeira obra de teatro "Parecido a la Felicidad", de Alejandro Sieveking, encenando-a e apresentando-a posteriormente em vários países latino-americanos.

HOUVE UM HOMEM... que, em 1961 fez a sua primeira canção, " Paloma Quiero Contarte" enquanto continuou o seu trabalho como assistente de direcção, na montagem de" La Madre de los Conejos " de Alejandro Sieveking e que gravou, com o grupo "Cuncumén", o LP "Folclore Chileno" com duas canções próprias, "Paloma Quiero Contarte" e "La Canción del Minero". Nessa altura começou a trabalhar como director da Academia de Folclore da Casa da Cultura de Ñuñoa, função que desempenhou até 1968.

HOUVE UM HOMEM... que compôs música e em 1965 dirigiu a obra "La Remolienda", de Alejandro Sieveking, bem como a montagem de "La Maña de Ann Jellico", recebendo o prémio "Laurel de Oro" como melhor realizador e o prémio da "Crítica do Círculo de Jornalistas" para a melhor direcção por "La Maña".

HOUVE UM HOMEM... que se tornou director artístico do grupo "Quilapayún", entre os anos 1966 e 1969, continuando a dirigir obras de teatro e que, em 1966, gravou o seu primeiro LP, "Víctor Jara".

HOUVE UM HOMEM... que, em 1969, montou a obra "Antígonas de Sófocles" e escreveu a canção "Plegaria a un labrador" que ganhou o primeiro prémio do "Primeiro Festival da Nova Canção Chilena". Nesse ano viajou para Helsínquia e lá participar no Comício Mundial de Jovens pelo Vietname e gravou "Pongo en Tus Manos Abiertas".

HOUVE UM HOMEM... que, em 1970, participou na campanha eleitoral da coligação "Unidade Popular", editou o disco "Canto Libre" e que, após a eleição de Salvador Allende, foi nomeado embaixador cultural do"Governo da Unidade Popular".

HOUVE UM HOMEM… que editou o disco "El Derecho de Vivir en Paz" recebendo, de novo, o prémio "Laurel de Oro" para a melhor composição do ano. Trabalhou, ainda, como compositor na Televisão Nacional do Chile e recolheu música popular junto das populações autóctones, gravando o documentário "La Población".

HOUVE UM HOMEM... que na Universidade de Santiago, juntamente com outros professores, alunos e pessoal administrativo, tentaram resistir ao golpe de estado do general Augusto Pinochet a 11 de Setembro de 1973. Foram detidos e conduzidos para o Estádio Nacional de Santiago do Chile, convertido em campo de concentração.

HOUVE UM HOMEM... que, no dia 16 de Setembro de 1973, em plena bancada do Estádio Nacional de Santiago do Chile foi assassinado com 44 tiros de metralhadora por Edwin Minter Bianchi conhecido por «el príncipe», tenente do exército chileno.

HOUVE UM HOMEM... que, antes de ser assassinado, lhe partiram as mãos, como forma de o castigar pelo seu empenhamento artístico, pelo trabalho político junto dos mais desfavorecidos e pelo seu papel enquanto membro do Comité Central das Juventudes Comunistas do Chile.

HOUVE UM HOMEM... a quem gritaram "Canta agora,  filho da puta!" e que, de imediato, se levantou e cantou com a força da coragem "Venceremos, venceremos, Mil cadenas habrá que romper, Venceremos, venceremos, La miseria sabremos vencer”.

HOUVE UM HOMEM... que, nos dias do cárcere a céu aberto, escreveu:

Somos cinco mil

nesta pequena parte da cidade.

Somos cinco mil

Quantos seremos ao todo

nas cidades e em todo o país?

Só aqui

dez mil mãos semeiam

e fazem as fábricas andar

Quanta humanidade

com fome, frio, pânico, dor,

pressão moral, terror e loucura!


HÁ UM HOMEM... que continua a andar por aqui, a exigir o direito a viver em paz, a procurar o caminho das pedras para descobrir o mundo que há-de vir e que, como Pablo Neruda dizia:

EU SOU VITOR JARA... ESTOU AQUI!

 

José Gomes