sexta-feira, 25 de abril de 2008

25 de Abril - O Nascimento de um Sonho!


Chamava-se Catarina

O Alentejo a viu nascer

Serranas viram-na em vida
Baleizão a viu morrer

Ceifeiras na manhã fria

Flores na campa lhe vão por

Ficou vermelha a campina

Do sangue que então brotou…


(José Afonso)


Portugal viveu durante 48 anos debaixo do terror fascista onde o medo, o grande capital e os latifúndios dominaram o país, oprimiram e exploraram o Povo. Muitas Catarinas, Humbertos Delgados, Dias Coelhos, caíram alvos de balas assassinas… muitos outros, mercê da tortura, dos maus-tratos, das más condições de saúde e alimentação, tombaram nas masmorras da Pide, às mãos dos algozes a soldo da polícia política e nos campos do Tarrafal, para que Portugal fosse um País Livre, Democrático, onde houvesse Igualdade, Liberdade, Saúde e Paz …

A luta continuou durante muitos anos. Apesar dos reveses sofridos pela Oposição, o Povo caía, para logo se levantar organizando-se nos seus Sindicatos, nas Associações Recreativas e Culturais, nas Faculdades, nas Fábricas e nos Campos. As acções desenvolvidas pelos vários sectores produtivos, o espírito de classe que cada dia mais se enraizou no seio dos trabalhadores, deram mais alento à luta. Operários, Trabalhadores, Camponeses e Intelectuais engrossaram cada dia mais o caudal de resistentes ao regime fascista.

“Por cada flor estrangulada,

há milhões de sementes a florir”…

A cantiga foi uma arma que desafiou o Poder. Adriano, Freire, Zeca, Sérgio, Zé Mário, Fanhais, entre tantos outros, foram as vozes que minaram as forças opressoras e acordaram as consciências adormecidas.

Menina dos olhos tristes

O que tanto a faz chorar?

O soldadinho não volta

Do outro lado do mar.

Senhora de olhos cansados,

Porque a fatiga o tear?

O soldadinho não volta

Do outro lado do mar.

Vamos, senhor pensativo,

Olhe o cachimbo a apagar.

O soldadinho não volta

Do outro lado do mar.

(…)

Durante 13 longos anos o Poder sustentou, à custa da juventude — a maior riqueza de um País — uma guerra colonial sangrenta onde perderam a vida, ficaram feridos ou estropiados milhares e milhares de portugueses.

(…)

Anda bem triste o amigo,

Uma carta o fez chorar.

O soldadinho não volta

Do outro lado do mar.

A Lua, que é viajante,

É que nos pode informar.

O soldadinho já volta

Do outro lado do mar.

O soldadinho já volta

Está quase mesmo a chegar.

Vem numa caixa de pinho.

Desta vez o soldadinho

Nunca mais se fez ao mar.

(José Afonso)







Para que nunca se esqueça, lembro os dois últimos anos que antecederam a Revolução dos Cravos:


1 de Janeiro 73

O padre Alberto presidiu à vigília pela Paz. A capela do Rato, em Lisboa foi cercada e invadida pela Pide e os seus ocupantes expulsos à força. Mais tarde o padre foi destituído das suas funções;

9 de Março 73
As Brigadas Revolucionárias fizeram detonar bombas no Distrito de Recrutamento de Lisboa e nos Serviços Mecanográficos do Exército;

4 de Abril 73
Em Aveiro, no III Congresso da Oposição Democrática, foi reclamado o fim da guerra colonial e a instauração das liberdades democráticas; foram lançados cães, a policia, a GNR e a Pide reprimiram de uma forma brutal e selvática os congressistas, convidados e assistentes;

1 de Maio 73
As Brigadas Revolucionárias fizeram explodir bombas no Ministério das Corporações;

Dezembro 73
Foi escolhida a Coordenadora do Movimento das Forças Armadas; neste mesmo mês foram presos pela Pide 170 estudantes numa reunião na Faculdade de Medicina de Lisboa;

Janeiro de 74
A BBC noticiou que um golpe de estado, de inspiração dos ultras do regime e que seria comandado por Kaulza de Ariaga, estava na forja. Este golpe visava matar os generais Costa Gomes e Spínola e instaurar em Portugal um regime ainda mais violento. Este golpe de estado foi abortado pelo major Fabião que o denunciou numa aula no Instituto de Altos Estudos Militares;

Fevereiro 74
O general Spínola publicou o livro “Portugal e o Futuro” que se esgotou rapidamente;

5 de Março 74
Em Cascais, 200 delegados do Movimento das Forças Armadas marcaram a acção militar do dia 25 de Abril;

9 de Março 74
O Governo, pressionado pelos ultras, pelo mal-estar que as citações do livro de Spínola estava a causar na opinião pública e nas forças armadas, decretou o estado de alerta em todos os quartéis; Américo Tomás, presidente da República, exigiu a Marcello Caetano, presidente do Conselho de Ministros, a exoneração de Spínola e de Costa Gomes. Marcello assumiu a responsabilidade pela saída do livro e pediu a demissão dos seus cargos, que não foi aceite. Após este incidente, 120 oficiais-generais que passariam à História como a “Brigada do Reumático”, à boa maneira medieval, foram prestar fidelidade e lealdade ao Governo — Spínola e Costa Gomes, não estiveram presentes.

16 de Março de 74
Uma coluna do Regimento de Infantaria das Caldas da Rainha avançou sobre Lisboa. Isolados, regressaram à Unidade. Foram presos 200 militares; Otelo Saraiva de Carvalho começou, então, a planificar a estratégia do golpe. Redigiu o Plano Geral de Operações para ser aplicado na semana de 20 a 27 de Abril;

15 de Abril de 74
Foi entregue a Otelo um desenho do forte de Caxias elaborado por Jorge Sampaio;

21 de Abril de 74
Foram marcadas as diversas missões a cargo das unidades militares que participaram na acção da madrugada do dia 25 de Abril;

22 de Abril de 1974
Otelo e Costa Martins asseguram os contactos nas estações de rádio: foram indicadas a senha, contra-senha e as horas a que seriam transmitidas: — “E Depois do Adeus”, interpretada por Paulo de Carvalho, em 24 de Abril, às 22H55, nos Emissores Associados de Lisboa; — “Grândola Vila Morena”, interpretada por José Afonso, às 0H20 da madrugada do dia 25 de Abril, na Rádio Renascença.

Na madrugada de 25 de Abril iniciou-se a longa caminhada em direcção à Liberdade, rumo à Democracia...

Em resumo, a Revolução de 25 de Abril de 1974 veio pôr termo ao regime autoritário implantado pela Revolução de 28 de Maio de 1926 e abrir caminho a um regime democrático assente no reconhecimento dos direitos, garantias e liberdades fundamentais dos cidadãos e numa concepção pluralista do poder político. Foi preparada por um numeroso grupo de oficiais de baixa patente – na sua maior parte capitães – que se organizaram um ano antes, em torno de uma reivindicação de carácter corporativo. O seu êxito foi fruto da incapacidade revelada pelo governo de Marcello Caetano para ultrapassar a profunda crise de isolamento interno e externo que minava o regime autoritário.

Qualquer que seja a designação para o 25 de Abril de 1974, ele foi um movimento que trouxe a democracia a Portugal e a partir dessa altura, o nosso país pôde alinhar ao lado das demais democracias, na construção do Mundo do Futuro.


Trinta e quatro anos
já se passaram!

25 de Abril 2008
José Gomes






4 comentários:

  1. Que Abril permaneça Sempre nos nossos corações. Viva a Liberdade!
    Um Abraço

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  2. Eu ainda não era nascida quando o 25 de abril aconteceu... mas aprendi o significado de tal data, com tanto que me contaram....

    Ahhhh e as musicas de Zeca Afonso??? Imortais!!!!


    Beijinho grande

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  3. Ó Zé Gomes! "A minha terra"?!
    O meu amigo faz ideia do tempo há que não ouvia isto?

    Abraço

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  4. Anónimo2/5/08 00:45

    25 DE ABRIL SEMPRE!!!
    BEM-HAJAM AQUELES QUE LUTAM PARA MANTER A MEMÓRIA VIVA!!!!

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