quarta-feira, 30 de abril de 2008

1º Maio 1974 - aquela festa!

O 1º Maio 1974 no Porto - scan de fotos recentemente encontradas


1º Maio 1974 - aquela festa!

E que grande festa!!!

Foi há 34 anos que fiz parte da mole humana que transbordou o centro da cidade do Porto. Da Praça do Município até à Praça da Liberdade o povo anónimo festejou, pela primeira vez, o dia do trabalhador em Liberdade.

Desde as primeiras horas da manhã até noite cerrada assisti a milhares e milhares de pessoas que se aglomeraram neste imenso espaço, cantando, dançando, manifestando das mais variadas formas a sua alegria pelas portas que Abril abrira seis dias antes.

Os cravos vermelhos, as bandeiras vermelhas desfraldadas sem medo, as canções proibidas uma semana antes, eram cantadas a plenos pulmões, com a certeza que a longa noite terminara e que agora tínhamos nas mãos a esperança da Liberdade recentemente conquistada.

34 anos depois desta data, façamos do 1º de Maio uma grandiosa demonstração de Força e Unidade.


Com este poema de Fernando Peixoto deixo aqui a minha homenagem ao 1º de Maio, Dia Mundial do Trabalhador:



1º. MAIO


Há Maio em cada rosto
em cada olhar
que passa pelo asfalto da Avenida
Há Maio em cada braço
que se ergue
há Maio em cada corpo em cada vida


Há Maio em cada voz
que se levanta
há Maio em cada punho que se estende
há Maio em cada passo
que se anda
há Maio em cada cravo que se vende


Há Maio em cada verso
que se canta
há Maio em cada uma das canções
há Maio que se sente
e contagia
no sorriso feliz das multidões


Há Maio nas bandeiras
que flutuam
e mancham de vermelho
o céu de anil
Há Maio de certeza
em cada peito
que sabe respirar o ar de Abril


Mas há Maio sobretudo
no poema
que se escreve sem ler o dicionário
porque Maio há-de ser
mais do que um grito
porque Maio é ainda necessário


Canto Maio e se canto
logo existo
que o meu canto de Maio é solidário
com o canto que escuto
e em que medito
e que sai da boca do operário


(Fernando Peixoto)


sexta-feira, 25 de abril de 2008

25 de Abril - O Nascimento de um Sonho!


Chamava-se Catarina

O Alentejo a viu nascer

Serranas viram-na em vida
Baleizão a viu morrer

Ceifeiras na manhã fria

Flores na campa lhe vão por

Ficou vermelha a campina

Do sangue que então brotou…


(José Afonso)


Portugal viveu durante 48 anos debaixo do terror fascista onde o medo, o grande capital e os latifúndios dominaram o país, oprimiram e exploraram o Povo. Muitas Catarinas, Humbertos Delgados, Dias Coelhos, caíram alvos de balas assassinas… muitos outros, mercê da tortura, dos maus-tratos, das más condições de saúde e alimentação, tombaram nas masmorras da Pide, às mãos dos algozes a soldo da polícia política e nos campos do Tarrafal, para que Portugal fosse um País Livre, Democrático, onde houvesse Igualdade, Liberdade, Saúde e Paz …

A luta continuou durante muitos anos. Apesar dos reveses sofridos pela Oposição, o Povo caía, para logo se levantar organizando-se nos seus Sindicatos, nas Associações Recreativas e Culturais, nas Faculdades, nas Fábricas e nos Campos. As acções desenvolvidas pelos vários sectores produtivos, o espírito de classe que cada dia mais se enraizou no seio dos trabalhadores, deram mais alento à luta. Operários, Trabalhadores, Camponeses e Intelectuais engrossaram cada dia mais o caudal de resistentes ao regime fascista.

“Por cada flor estrangulada,

há milhões de sementes a florir”…

A cantiga foi uma arma que desafiou o Poder. Adriano, Freire, Zeca, Sérgio, Zé Mário, Fanhais, entre tantos outros, foram as vozes que minaram as forças opressoras e acordaram as consciências adormecidas.

Menina dos olhos tristes

O que tanto a faz chorar?

O soldadinho não volta

Do outro lado do mar.

Senhora de olhos cansados,

Porque a fatiga o tear?

O soldadinho não volta

Do outro lado do mar.

Vamos, senhor pensativo,

Olhe o cachimbo a apagar.

O soldadinho não volta

Do outro lado do mar.

(…)

Durante 13 longos anos o Poder sustentou, à custa da juventude — a maior riqueza de um País — uma guerra colonial sangrenta onde perderam a vida, ficaram feridos ou estropiados milhares e milhares de portugueses.

(…)

Anda bem triste o amigo,

Uma carta o fez chorar.

O soldadinho não volta

Do outro lado do mar.

A Lua, que é viajante,

É que nos pode informar.

O soldadinho já volta

Do outro lado do mar.

O soldadinho já volta

Está quase mesmo a chegar.

Vem numa caixa de pinho.

Desta vez o soldadinho

Nunca mais se fez ao mar.

(José Afonso)







Para que nunca se esqueça, lembro os dois últimos anos que antecederam a Revolução dos Cravos:


1 de Janeiro 73

O padre Alberto presidiu à vigília pela Paz. A capela do Rato, em Lisboa foi cercada e invadida pela Pide e os seus ocupantes expulsos à força. Mais tarde o padre foi destituído das suas funções;

9 de Março 73
As Brigadas Revolucionárias fizeram detonar bombas no Distrito de Recrutamento de Lisboa e nos Serviços Mecanográficos do Exército;

4 de Abril 73
Em Aveiro, no III Congresso da Oposição Democrática, foi reclamado o fim da guerra colonial e a instauração das liberdades democráticas; foram lançados cães, a policia, a GNR e a Pide reprimiram de uma forma brutal e selvática os congressistas, convidados e assistentes;

1 de Maio 73
As Brigadas Revolucionárias fizeram explodir bombas no Ministério das Corporações;

Dezembro 73
Foi escolhida a Coordenadora do Movimento das Forças Armadas; neste mesmo mês foram presos pela Pide 170 estudantes numa reunião na Faculdade de Medicina de Lisboa;

Janeiro de 74
A BBC noticiou que um golpe de estado, de inspiração dos ultras do regime e que seria comandado por Kaulza de Ariaga, estava na forja. Este golpe visava matar os generais Costa Gomes e Spínola e instaurar em Portugal um regime ainda mais violento. Este golpe de estado foi abortado pelo major Fabião que o denunciou numa aula no Instituto de Altos Estudos Militares;

Fevereiro 74
O general Spínola publicou o livro “Portugal e o Futuro” que se esgotou rapidamente;

5 de Março 74
Em Cascais, 200 delegados do Movimento das Forças Armadas marcaram a acção militar do dia 25 de Abril;

9 de Março 74
O Governo, pressionado pelos ultras, pelo mal-estar que as citações do livro de Spínola estava a causar na opinião pública e nas forças armadas, decretou o estado de alerta em todos os quartéis; Américo Tomás, presidente da República, exigiu a Marcello Caetano, presidente do Conselho de Ministros, a exoneração de Spínola e de Costa Gomes. Marcello assumiu a responsabilidade pela saída do livro e pediu a demissão dos seus cargos, que não foi aceite. Após este incidente, 120 oficiais-generais que passariam à História como a “Brigada do Reumático”, à boa maneira medieval, foram prestar fidelidade e lealdade ao Governo — Spínola e Costa Gomes, não estiveram presentes.

16 de Março de 74
Uma coluna do Regimento de Infantaria das Caldas da Rainha avançou sobre Lisboa. Isolados, regressaram à Unidade. Foram presos 200 militares; Otelo Saraiva de Carvalho começou, então, a planificar a estratégia do golpe. Redigiu o Plano Geral de Operações para ser aplicado na semana de 20 a 27 de Abril;

15 de Abril de 74
Foi entregue a Otelo um desenho do forte de Caxias elaborado por Jorge Sampaio;

21 de Abril de 74
Foram marcadas as diversas missões a cargo das unidades militares que participaram na acção da madrugada do dia 25 de Abril;

22 de Abril de 1974
Otelo e Costa Martins asseguram os contactos nas estações de rádio: foram indicadas a senha, contra-senha e as horas a que seriam transmitidas: — “E Depois do Adeus”, interpretada por Paulo de Carvalho, em 24 de Abril, às 22H55, nos Emissores Associados de Lisboa; — “Grândola Vila Morena”, interpretada por José Afonso, às 0H20 da madrugada do dia 25 de Abril, na Rádio Renascença.

Na madrugada de 25 de Abril iniciou-se a longa caminhada em direcção à Liberdade, rumo à Democracia...

Em resumo, a Revolução de 25 de Abril de 1974 veio pôr termo ao regime autoritário implantado pela Revolução de 28 de Maio de 1926 e abrir caminho a um regime democrático assente no reconhecimento dos direitos, garantias e liberdades fundamentais dos cidadãos e numa concepção pluralista do poder político. Foi preparada por um numeroso grupo de oficiais de baixa patente – na sua maior parte capitães – que se organizaram um ano antes, em torno de uma reivindicação de carácter corporativo. O seu êxito foi fruto da incapacidade revelada pelo governo de Marcello Caetano para ultrapassar a profunda crise de isolamento interno e externo que minava o regime autoritário.

Qualquer que seja a designação para o 25 de Abril de 1974, ele foi um movimento que trouxe a democracia a Portugal e a partir dessa altura, o nosso país pôde alinhar ao lado das demais democracias, na construção do Mundo do Futuro.


Trinta e quatro anos
já se passaram!

25 de Abril 2008
José Gomes






quinta-feira, 17 de abril de 2008

25 de Abril - 34 anos depois... (3)


O 25 de Abril no Porto

O 25 de Abril no Porto não teve a espectacularidade, o sincronismo e a determinação dos operacionais de Lisboa. Não teve, desde os primeiros momentos, a força e a generosidade espontânea do povo anónimo da Invicta. O povo do Porto só encheu a Avenida dos Aliados, a Praça do Município e a Praça da Liberdade, mais para o fim da tarde, depois de se saber que a marcha da revolução já era irreversível!

A indecisão, a falta de firmeza e as atitudes ambíguas por parte de algumas das forças ligadas ao Movimento, uma acção mais destemida e concentrada das forças fiéis ao regime, o corte dos telefones e da energia eléctrica ao Centro Emissor de Miramar do RCP, deu tempo para que as forças hostis ao Movimento mostrassem as suas garras.

Cronologia dos acontecimentos:

24/04/74

3 horas da manhã – A esta hora foi recebido no CICAP (Centro de Instrução de Condução Auto do Porto) o "Plano Geral das Operações". Homens da confiança do MFA e com este comprometidos, distribuíram essas instruções por todas as Unidades do Norte do País.

O major Delgado da Fonseca, ligado ao Movimento dos Capitães desde o seu início, foi destacado para o Porto em Janeiro de 1974. Foi um dos responsáveis pelo núcleo do Norte do MFA. Depois do Golpe das Caldas (16 de Março de 1974), apesar de vigiado e seguido pela Pide, foi transferido para Lamego para substituir oficiais demitidos após aquele Golpe.

22.30 horas – O major Delgado da Fonseca reuniu-se, num dos quartéis de Lamego, com os instrutores e outros elementos da sua confiança. Deu-lhes a conhecer o Programa do MFA e a operação que se iria desencadear nas primeiras horas do dia 25 de Abril, em Lisboa. Obtido o apoio de todos, foi constituída uma Companhia de Comandos que, armados até aos dentes, marchou sobre o Porto.

25/04/74

Até às 3 horas da madrugada: - Desde a primeira hora que o comandante do CICAP aderira ao MFA. No seu gabinete, juntamente com outros oficiais, com os ouvidos colados à telefonia, esperavam ouvir as “senhas”. A sintonia dos Emissores Associados de Lisboa era péssima e por isso não ouviram nem a “senha” nem a canção do Paulo de Carvalho. Sintonizaram a Rádio Renascença e aguardaram a segunda “senha”. À meia-noite e vinte minutos foi lida a primeira quadra de Grândola Vila Morena, seguida da canção do Zeca Afonso. Iniciada a operação e, como o segundo comandante não aderira ao Movimento, este teria de ser preso. Segundo o plano traçado por Otelo competia aos oficiais e soldados executarem as tarefas que lhes cabiam.

Em Lamego, depois dos instruendos terem sido informados do que se estava a passar e terem aderido ao Movimento, o Quartel Central onde se encontrava o major Delgado da Fonseca foi tomado pelos revoltosos. Às 3 horas da manhã partiram rumo ao Porto, tendo como missão ocupar a Pide/Dgs.

No Porto, tudo estava a correr como o previsto. O coronel Ramos Freitas, chefe da Região Militar do Porto, não aderira ao Movimento e foi necessário prendê-lo.

No RCP, na delegação do Porto, era difundida música, anúncios, notícias e comentários.

Às 2 horas, no Centro Emissor de Miramar, entrou de serviço o técnico Telmo de Morais. Nos estúdios de Tenente Valadim, no Porto, estava de serviço o operador Antero Rodrigues que controlava a emissão. Estava no ar, em simultâneo com Lisboa, o programa "A noite é nossa".

Das 4 às 6 horas da madrugada:

4 horas - Mudança na programação do RCP. Transmitia-se só música, muito poucas palavras e publicidade... nada!

4.26 horas - Joaquim Furtado leu o 1º Comunicado do Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas, seguindo-se de marchas militares. Telmo de Morais telefonou a Antero Rodrigues, em Tenente Valadim, chamando-lhe a atenção que algo de insólito se estava a passar. Este ficou com atenção à programação e ouviu o 2º Comunicado do MFA. Contactou imediatamente os estúdios de Lisboa que lhe disseram: "Eh, pá, não se está a passar nada, isto está normal, normalíssimoOh, pá, mas isto está tudo bem, não há problema nenhum, está tudo porreiro... Estão aqui uns militares amigosOh, pá, não posso dizer mais nada... Estão aqui militares amigosEstá tudo bem, tudo normal... E agora tenho que desligar!" Telefonou imediatamente para Miramar e pôs Telmo Morais a par da situação. Tentou, ainda, novo contacto com Lisboa mas os telefones não funcionavam.

4.30 horas - Telefonaram para casa do coronel Ramos Freitas, solicitando a sua presença urgente no QG. Ao sair de casa este foi preso por vários oficiais e soldados que o aguardavam e o levaram para o CICAP, onde foi fazer companhia ao 2º comandante desta Unidade, igualmente preso. De várias Unidades do Porto saíram homens e material rumo a objectivos desconhecidos.

5 horas - Fui acordado pelo telefonema de um amigo que me disse que algo de muito importante se estava a passar e que em Lisboa havia tropas na rua, no Porto havia movimentações militares e que o RCP estava a transmitir comunicados, marchas militares e canções proibidas. Saltei logo da cama e fui para a rua, sem antes dar a notícia a outros amigos…as primeiras pessoas, incrédulas e cheias de medo, começaram a aparecer nas ruas da cidade! Os telefones foram cortados em vários sectores, dificultando as comunicações entre as várias Unidades e o Quartel-General. As Unidades de Braga, Viana do Castelo e o RAP 1 tomaram as suas posições, conforme o plano previamente estabelecido.

Das 6 às 9 da manhã

6 horas - Dois camiões militares pararam enfrente ao Emissor de Miramar, os militares desembarcaram e cercaram o Emissor. Entraram no edifício e disseram a Telmo Morais que estavam ali para proteger e defender os emissores e as instalações do RCP. Em Tenente Valadim foi desfeito o simultâneo com Lisboa e retomada a programação normal. Apesar dos pedidos dos militares para ser retomado o simultâneo com Lisboa, este não foi feito.

7 horas - A Companhia de Comandos vinda de Lamego parou no Campo 24 de Agosto. O major Delgado da Fonseca telefonou de uma cabine pública para o QG (Praça da República) mas os telefones estavam cortados. Telefonou, depois, para o CICAP. O brigadeiro Eurico Corvacho alterou a missão dos Comandos e pediu-lhes que se dirigissem para esta Unidade. Um aparatoso e barulhento cortejo militar atravessou a cidade, passando pela Avenida dos Aliados, Rua dos Clérigos, Praça dos Leões, Carmo (mesmo nas barbas da GNR) e terminou no CICAP.

8 horas - A CHENOP (concessionária da energia eléctrica do Norte de Portugal) cortou a corrente eléctrica a Miramar, o que veio a impossibilitar que os militares e a população seguissem o desenrolar das operações em Lisboa. As tropas tomaram posições nos lugares chaves. Militares, carros de assalto e armas pesadas viram-se um pouco por toda a cidade. Na Ponte da Arrábida estavam tanques virados para o Sul; um blindado munido de um canhão apontava para a Câmara; soldados e carros moviam-se no aeroporto de Pedras Rubras...

8.30 - O Regimento de Infantaria 6 e o oficial que estava em Miramar tiveram a atitude de firmeza necessária para que o RCP retomasse o simultâneo com Lisboa. A partir daqui as operações começaram a desenrolarem-se ao ritmo desejado. Os comandos recém-chegados de Lamego, dividiram-se em dois grupos: um, dirigiu-se a Tenente Valadim e ocupou militarmente o RCP; outro, dirigiu-se para a Companhia dos Telefones e resolveram o corte dos telefones; o outro grupo dirigiu-se para os Estúdios da RTP, no Monte da Virgem, tomando-o sem qualquer resistência. As estações de rádio começaram a transmitir marchas militares, música de intervenção e comunicados.

A partir da 9 horas da manhã

9 horas - As pessoas, agora em maior número, começaram a juntar-se na Baixa portuense, em busca de notícias frescas, de união e de esperança. Estabeleceu-se uma comunhão recíproca entre populares e militares. Houve sorrisos no ar, compartilhou-se cigarros, comida, bebida, cravos vermelhos, palavras de ordem, gritos de vitória… Apesar dos apelos lançados pelo Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas e pelo Posto de Comando do MFA no Porto, o comandante da PSP mandou para a rua os seus homens, numa tentativa de intimidação e de provocação.

11 horas - O RCP ficou, a nível nacional, sem a rede de Modulação de Frequência e o Posto de Comando do MFA só era escutado através do emissor de Lisboa de Onda Média. Já no Porto, o major Delgado da Fonseca espalhou oficiais à paisana pela cidade, que o mantiveram informado não só do desenrolar das operações como também da aderência e do entusiasmo popular.

15 horas - A Baixa começou a ter uma moldura humana que buscava notícias. São os militares que orientavam o trânsito, respondiam às perguntas das pessoas e confraternizam com elas. Um grande jornal de parede, na entrada do jornal "O Comércio do Porto" dava as últimas notícias (constantemente renovadas) sobre o evoluir da revolução. Na Avenida dos Aliados e na Praça da Liberdade a multidão que engrossava a cada minuto que passava, começou aos gritos de "vitória", "viva o MFA", "abaixo o fascismo" "morte à Pide"…. Foi nesta altura que a polícia transportada em várias carrinhas carregou, lançando o pânico entre os manifestantes batendo, como era habitual nestas situações, nos populares indefesos. O simples engatilhar das armas dos soldados fez com que a polícia fugisse em debandada pela Avenida em direcção à Praça da Liberdade, largando cacetetes, bonés, sapatos e crachás. As carrinhas, ao tentarem fugir, foram alvo da fúria da multidão que carregou sobre elas, quebrando os vidros e ferindo os polícias que fugiam com gritos de pânico. Dos gritos "Morte à Pide", "Fascismo nunca mais" as palavras de ordem começaram a ser substituídas por "Liberdade para os presos políticos". A multidão começou a sair da Praça e a caminhar para a Rua do Heroísmo, tentando assaltar a Sede da tenebrosa polícia. A PSP que guardava a Pide foi atacada pela multidão. Houve tiros, correria de pessoas mas, pouco depois o número de manifestantes engrossou e a atitude destes não deixava qualquer dúvida. A PSP foi substituída por soldados, que tentaram pôr um tampão entre os manifestantes e elementos daquela polícia política.

Durante a noite o movimento na Baixa da cidade e na Rua do Heroísmo era muito. Cantava-se, davam-se vivas ao MFA, aos Soldados, aos Marinheiros. À Liberdade e esperava-se, pacientemente, o comunicado à Nação a ser feito pela Junta de Salvação Nacional recentemente formada.

26/04/74

Durante a madrugada e a manhã deste dia a multidão manteve-se compacta na sede da Pide, os agentes desta polícia resistiram e queimaram documentos, o que veio a dar origem a um reforço de tropas, com muitas viaturas e carros de assalto. Depois de intensas negociações, os presos políticos encarcerados na Rua do Heroísmo foram libertados, debaixo de uma forte ovação. Os agentes foram presos e conduzidos em viaturas militares para o Quartel da Região Militar do Porto, debaixo de uma vaia tremenda. Alguns carros que estavam nas proximidades do edifício e que "segundo parecia" pertenciam a agentes daquela polícia política, foram alvo da sanha da população enfurecida que os destruiu, entre gritos de júbilo!

Para concluir…

A Revolução de 1974 veio pôr termo ao regime autoritário implantado pela Revolução de 28 de Maio de 1926 e abrir caminho a um regime democrático assente no reconhecimento dos direitos, garantias e liberdades fundamentais dos cidadãos e numa concepção pluralista do poder político.

“Coimbra, 27 de Abril de 1974 – Ocupação das instalações da Pide.

Enquanto, juntamente com outros veteranos da oposição ao fascismo, presenciava a fúria de alguns exaltados que reclamavam a chacina dos agentes, acossados lá dentro, e lhes destruíam as viaturas, ia pensando no facto curioso de as vinganças raras vezes serem exercidas pelas efectivas vítimas da repressão. Há nelas um pudor que as não deixa macular o sofrimento.

São os outros, os que não sofreram, que se excedem, como se estivessem de má consciência e quisessem alardear um desespero que jamais sentiram”.

(In “Diário XII” . Miguel Torga)


José Gomes





quinta-feira, 10 de abril de 2008

25 de Abril - 34 anos depois... (2)



A Revolução de 1974 veio pôr termo ao regime autoritário implantado pela Revolução de 28 de Maio de 1926 e abrir caminho a um regime democrático assente no reconhecimento dos direitos, garantias e liberdades fundamentais dos cidadãos e numa concepção pluralista do poder político.

Preparada por um numeroso grupo de oficiais de baixa patente – na sua maior parte capitães – que se organizaram em menos de um ano antes, em torno de uma reivindicação de carácter corporativo, o seu êxito foi fruto da incapacidade revelada pelo governo de Marcello Caetano para ultrapassar a profunda crise de isolamento interno e externo que minava o regime autoritário.


Qualquer que seja a designação para o 25 de Abril de 1974, ele foi um movimento que trouxe a democracia para Portugal e a partir dessa altura, o nosso país pôde alinhar ao lado das demais democracias na construção do Mundo do Futuro.




Deixo-vos com um poema declamado pelo José Faria na última Noite de Poesia de Vermoim:


ABRIL ANTIGO


Que recitar ou declamar,
Sobre Abril, sobre a história?
Que tenho p’ra vos contar,
Se Abril foi de glória!
Já tudo foi dito e escrito,
Do país é já memória.
Já tudo foi dito e escrito,
Tudo foi declamado:
Do que foi Abril, o grito,
Da arma G3 com cravo.
Faz parte da nossa história,
E na escola é ensinado.
Revolução pela liberdade,
Novo mundo nos foi dado.

Que tenho eu p’ra vos contar,
Se tudo já foi contado!
Falar dos militares de Abril,
Neste país tão mudado?
Falar dos nossos partidos
Que o têm ignorado?
Não!...

Abril são as nossas mãos,
Sempre dadas, sempre unidas.
É a amizade entre irmãos,
São as lutas conseguidas.

Abril é a nossa vontade,
É juventude e mocidade.
Abril é servir a terra
Que Abril aos filhos lega.

É de todos quantos dão,
Amor e fraternidade.
No lugar, terra, nação,
Ensinando a liberdade.

José Faria – Abril 08





sexta-feira, 4 de abril de 2008

25 de Abril - 34 anos depois... (1)


A cantiga é uma arma

A cantiga é uma arma

eu não sabia

tudo depende da bala

e da pontaria

Tudo depende da raiva

e da alegria

a cantiga é uma arma

e eu não sabia

Há quem cante por interesse

há quem cante por cantar

e há quem faça profissão

de combater a cantar

e há quem cante de pantufas

p'ra não perder o lugar

a cantiga só é arma

quando a luta acompanhar

O faduncho choradinho

de tavernas e salões

semeia só desalento

misticismo e ilusões

canto mole em letra dura

nunca fez revoluções



Letra e música: José Mário Branco – 1975




“O 25 de Abril foi o maior acontecimento que houve na vida portuguesa. E foi com ele que a LIBERDADE veio para as ruas de braços abertos”.

José Gomes

A cantiga é uma arma



quarta-feira, 2 de abril de 2008

O ESTADO DO MUNDO



O ESTADO DO MUNDO

Não é preciso recorrer aos telejornais e aos jornais diários... basta olhar à nossa volta, sentir esta temperatura, esta humidade, os genocídios em nome da humanidade, as guerras e as destruições um pouco por toda a parte, para nos apercebermos que a nossa Terra está doente e incitar todos – especialmente os mais jovens! – a contribuir para a cura definitiva deste planeta.

Apesar dos esforços consideráveis que se vêm desenvolvendo, muitos dos problemas que afectaram a Terra do século XX continuam (ou aumentaram ainda mais!) a existir neste século.

É um facto que o planeta Terra está em mau estado. O ser humano adquiriu poderes e a sua capacidade de intervenção (que já não controla!) faz correr o sério risco de entrar numa espiral negativa destruidora da vida do Homem e do Planeta.

Mais do que nunca, precisamos tomar as medidas necessárias para assegurar que o Ambiente, as guerras, as destruições… permaneçam no topo das preocupações dos governos deste mundo, se estivermos ainda interessados em entregar às gerações futuras os restos desta Terra não em cacos, mas sim ainda em estado de ser curada.

É urgente criar as condições para uma reconciliação entre o Homem e o Homem e entre o Homem e a Natureza!

José Gomes

Aconselho a guardarem este vídeo e a revê-lo de vez em quando... será mais um contributo para a reconciliação entre Homem/Terra!

Para verem e ouvirem o vídeo, desliguem o botão do meio de "Os sons da chuva..."



O Pálido Ponto Azul