Entrevista a Fernando Pessoa
— Boa noite, Fernando Pessoa. É um prazer tê-lo aqui, assim como aos seus heterónimos Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Álvaro de Campos. Agradeço-lhes terem acedido ao meu convite. Fernando Pessoa nasceu em Lisboa, no dia de Santo António, em 13 de Junho de 1888. Foi um menino precoce na arte das letras e com sete anos escreveu o seu primeiro poema intitulado À Minha Querida Mamã. Desde esse dia e até 30 de Novembro de 1935, data em que veio a falecer, construiu uma extensa obra literária.
Em vida publicou apenas Mensagem, livro que recebeu o prémio da Secretaria da Propaganda Nacional. Já doente e internado no hospital, terá sido esta a sua última frase: ``I know not what tomorrow will bring'' (Não sei o que o Amanhã nos trará).
Feita esta apresentação posso começar a nossa entrevista?
— Claro, quando quiser! – responderam.
— Quem é a pessoa atrás de Pessoa?
(Responde Ricardo Reis):
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu 'screvo.
— Como é o seu processo criativo?
(Responde Alberto Caeiro):
Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra.
Penso e escrevo como as flores têm cor
Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me
Porque me falta a simplicidade divina
De ser todo só o meu exterior
— O que é que os deuses querem de um homem como Fernando Pessoa?
(Responde Álvaro de Campos):
Queriam-me o contrário disso, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
— O senhor acredita em Deus?
(Responde Fernando Pessoa):
E então eu sou o Deus, o crente e a prece
E a imagem de marfim
Em que esse Deus se esquece.
Desse Deus meu que eu sou quando me exalto.
Olho em mim todo um céu
E é um mero oco céu alto.
— O senhor tem um lado Zen. O que é pensar em nada?
(Responde Álvaro Campos):
É ter a alma própria e inteira.
Pensar em nada
É viver intimamente
O fluxo e o refluxo da vida.
— O senhor foi maluco pela beleza?
(Responde Fernando Pessoa):
Só a loucura incompreendida
Vai avante para os céus.
(…)
Só a loucura é que é grande!
E só ela é que é feliz!
— Existe algum mistério no Universo?
(Responde Alberto Caeiro):
Percebemos demais as cousas — eis o erro, a dúvida.
O que existe transcende para mim o que julgo que existe.
A Realidade é apenas real e não pensada.
— O principal desejo do poeta é a eternidade?
(Responde Fernando Pessoa):
se apega à vida, desejando-a infinda,
sob a simulação de resignar-se com a transitoriedade.
— O Senhor é saudosista?
(Responde Alberto Caeiro):
Tudo que já não é,
A dor que já não me dói.
A antiga e a errónea fé,
O ontem que dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi e voou
E hoje é já outro dia.
— O senhor é um sábio?
(Responde Ricardo Reis):
Com o espectáculo do mundo,
E ao beber nem recorda
Que já bebeu na vida,
Para quem tudo é novo
E imarcescível sempre.
— Como definiria a VIDA neste mundo de Deus?
(Responde Álvaro Campos):
Onde quase tudo falta.
Por isso ninguém se cura
E morrer é que é ter alta.
— Quem é o poeta? O que busca na poesia?
(Responde Fernando Pessoa):
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
— Tem algum mote que o acompanhe?
(Responde Fernando Pessoa):
— Qual o conselho que pode dar aos jovens de espírito?
(Responde Ricardo Reis):
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.
A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós próprios.
Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.
Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Estás além dos deuses.
Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.
(Esta entrevista foi baseada no texto “Fernando Pessoa - Uma colagem de Rodrigo Sousa Leão”).
José Gomes

Excelente post! Parabéns:)
ResponderEliminarBeijos
Excelente trabalho, Z� Outra coisa n�o seria de esperar de ti, um homem que ama a poesia, o teatro, a fotografia, a m�sica...a cultura. O teu post � o ponto de partida para um trabalho de pesquisa , profunda, de um poeta que tanto admiro e que t�o controverso parece ser ao albergar em si tantas e t�o diversas pessoas.
ResponderEliminarBem hajas pela divulga�o que t�o bem fazes da cultura portuguesa.
Gostei da imagem e do Z� que ama a sua Invicta, Nobre e Leal Cidade do Porto.
Beijinhos, amigo!
Está excelente a entrevista!! Ao som de Rui Veloso adorei! Beijos.
ResponderEliminarOportuna e interessante esta recolha. Presumo, pelo que li (se não estou enganado), que haverá ainda mais texto e esta será uma adaptação?
ResponderEliminarFizeste bem em divulgar. Eu próprio guardarei isto nos meus arquivos, mas já agora, Zé, poderias indicar-me a fonte, mesmo por e-mail?
Um abraço e continuação deste esforço meritório.
Fernando Peixoto
Querido amigo, amei ler esta tua entrevista! A ligação entre as perguntas e os poemas está excelente! Identifico-me muito com a poesia de Fernando Pessoa. A verdade e a simplicidade das coisas revela-se em cada verso. A alma humana revela-se sem embaraços na poesia. Sou sua verdadeira fã!
ResponderEliminarBoa José!! És formidável!
Bji