quarta-feira, 26 de março de 2008

Entrevista a Fernando Pessoa


Daqui entrevistei Fernando Pessoa...


Entrevista a Fernando Pessoa

Boa noite, Fernando Pessoa. É um prazer tê-lo aqui, assim como aos seus heterónimos Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Álvaro de Campos. Agradeço-lhes terem acedido ao meu convite. Fernando Pessoa nasceu em Lisboa, no dia de Santo António, em 13 de Junho de 1888. Foi um menino precoce na arte das letras e com sete anos escreveu o seu primeiro poema intitulado À Minha Querida Mamã. Desde esse dia e até 30 de Novembro de 1935, data em que veio a falecer, construiu uma extensa obra literária.

Em vida publicou apenas Mensagem, livro que recebeu o prémio da Secretaria da Propaganda Nacional. Já doente e internado no hospital, terá sido esta a sua última frase: ``I know not what tomorrow will bring'' (Não sei o que o Amanhã nos trará).

Feita esta apresentação posso começar a nossa entrevista?

Claro, quando quiser! – responderam.


— Quem é a pessoa atrás de Pessoa?
(Responde Ricardo Reis):

Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.

Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.

Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu 'screvo.

— Como é o seu processo criativo?
(Responde Alberto Caeiro):

Não me importo com as rimas. Raras vezes
Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra.
Penso e escrevo como as flores têm cor
Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me
Porque me falta a simplicidade divina
De ser todo só o meu exterior

— O que é que os deuses querem de um homem como Fernando Pessoa?
(Responde Álvaro de Campos):

Queriam-me casado, quotidiano, fútil e tributável?
Queriam-me o contrário disso, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!

O senhor acredita em Deus?
(Responde Fernando Pessoa):

Às vezes sou o Deus que trago em mim
E então eu sou o Deus, o crente e a prece
E a imagem de marfim
Em que esse Deus se esquece.

Às vezes não sou mais que um ateu
Desse Deus meu que eu sou quando me exalto.
Olho em mim todo um céu
E é um mero oco céu alto.

O senhor tem um lado Zen. O que é pensar em nada?
(Responde Álvaro Campos):

Pensar em nada
É ter a alma própria e inteira.
Pensar em nada
É viver intimamente
O fluxo e o refluxo da vida.

O senhor foi maluco pela beleza?
(Responde Fernando Pessoa):

Fui doido e tudo por Deus.
Só a loucura incompreendida
Vai avante para os céus.
(…)
Só a loucura é que é grande!
E só ela é que é feliz!

— Existe algum mistério no Universo?
(Responde Alberto Caeiro):

O único mistério do Universo é o mais e não o menos.
Percebemos demais as cousas — eis o erro, a dúvida.
O que existe transcende para mim o que julgo que existe.
A Realidade é apenas real e não pensada.

— O principal desejo do poeta é a eternidade?
(Responde Fernando Pessoa):

Ama o infinito porque mais do que todos
se apega à vida, desejando-a infinda,
sob a simulação de resignar-se com a transitoriedade.

— O Senhor é saudosista?
(Responde Alberto Caeiro):

Eu amo tudo que foi,
Tudo que já não é,

A dor que já não me dói.

A antiga e a errónea fé,

O ontem que dor deixou,

O que deixou alegria
Só porque foi e voou

E hoje é já outro dia.

O senhor é um sábio?
(Responde Ricardo Reis):

Sábio é o que se contenta
Com o espectáculo do mundo,
E ao beber nem recorda
Que já bebeu na vida,
Para quem tudo é novo
E imarcescível sempre.

Como definiria a VIDA neste mundo de Deus?
(Responde Álvaro Campos):

A vida é um hospital
Onde quase tudo falta.
Por isso ninguém se cura
E morrer é que é ter alta.

Quem é o poeta? O que busca na poesia?
(Responde Fernando Pessoa):

O poeta é um fingidor,
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

Tem algum mote que o acompanhe?
(Responde Fernando Pessoa):

Tudo vale a pena quando a alma não é pequena.

Qual o conselho que pode dar aos jovens de espírito?
(Responde Ricardo Reis):

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.


A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós próprios.


Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Estás além dos deuses.


Mas serenamente

Imita o Olimpo

No teu coração.

Os deuses são deuses

Porque não se pensam.


(Esta entrevista foi baseada no texto “Fernando Pessoa - Uma colagem de Rodrigo Sousa Leão”).


José Gomes

5 comentários:

  1. Excelente post! Parabéns:)
    Beijos

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  2. Excelente trabalho, Z� Outra coisa n�o seria de esperar de ti, um homem que ama a poesia, o teatro, a fotografia, a m�sica...a cultura. O teu post � o ponto de partida para um trabalho de pesquisa , profunda, de um poeta que tanto admiro e que t�o controverso parece ser ao albergar em si tantas e t�o diversas pessoas.
    Bem hajas pela divulga�o que t�o bem fazes da cultura portuguesa.
    Gostei da imagem e do Z� que ama a sua Invicta, Nobre e Leal Cidade do Porto.

    Beijinhos, amigo!

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  3. Está excelente a entrevista!! Ao som de Rui Veloso adorei! Beijos.

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  4. Oportuna e interessante esta recolha. Presumo, pelo que li (se não estou enganado), que haverá ainda mais texto e esta será uma adaptação?
    Fizeste bem em divulgar. Eu próprio guardarei isto nos meus arquivos, mas já agora, Zé, poderias indicar-me a fonte, mesmo por e-mail?
    Um abraço e continuação deste esforço meritório.
    Fernando Peixoto

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  5. Querido amigo, amei ler esta tua entrevista! A ligação entre as perguntas e os poemas está excelente! Identifico-me muito com a poesia de Fernando Pessoa. A verdade e a simplicidade das coisas revela-se em cada verso. A alma humana revela-se sem embaraços na poesia. Sou sua verdadeira fã!
    Boa José!! És formidável!
    Bji

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