sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Zeca Afonso - 21 anos depois!


Que melhor forma poderia encontrar para fazer lembrar ZECA AFONSO, que esta prosa poética proferidas pelo Sérgio Marques, na homenagem que fizemos ao Zeca no 7º aniversário da sua morte:
ZECA AFONSO - CRÓNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA
A 23 de Fevereiro de 1987, há 21 anos, em pleno inverno, no outono da vida, morreu Zeca Afonso.
Sem pé-de-meia, sem fundo de maneio, sem saco azul, sem subsídios, sem ajudas de custo, sem reforma.
Morreu como sempre viveu, pobre, à 3ª badalada da madrugada de 23 de Fevereiro, vítima de esclerose lateral niotrópica. Num leito anónimo do hospital de Setúbal, acontecia o triste epílogo duma morte anos antes anunciada: morria o poeta, morria o cantor, morria o amigo, morria o companheiro, morria o Zeca.
Enquanto galegos, bascos e madrilenos cirandavam numa roda-viva, homenageando o segrel, os portugueses reunidos na praça da indiferença e do egoísmo esqueciam-se no crepúsculo da sua vida. "Estou sozinho no mar negro sem medo à noite cerrada. Ó minha mãe, minha mãe, minha mãe, minha amada".
Foi no povo, nos seus anseios e nas suas raízes, nas verdadeiras raízes deste caleidoscópio de gentes, de costumes e de raças, que o cantor encontrou a razão, as razões de muitas das suas cantigas.
(…)
Homem do Povo, nunca se cansou de cantar para o seu Povo. Com a mesma atenção escutavam-no ricos, escutavam-no pobres e enquanto a voz cristalina do Zeca se escoava como metal incandescente por becos e ruelas estreitas, uma lágrima de ternura resvalava à socapa dos olhos baços da velha dor do Augusto barbeiro e de tantos outros que o amavam.
Lá, no rés-do-chão da casa que foi em tempos do padre e depois virou "República dos Corsários", no quarto do Luban sob o olhar atento de Antero de Quental imortalizado num punhado de versos pintados a negro no fundo branco de uma parede, enquanto Mário Silva, o Topi e outros pintores daquela época desenhavam e coloriam decretos contestatários, o Zeca temperava na forja do seu descontentamento o aço das canções do folclore açoriano, com o mesmo afinco e com o mesmo carinho com que temperava as canções da Beira Baixa, do Minho, de Trás-os-Montes, do Algarve e do Alentejo que tanto, tanto amava. "Chamava-se Catarina o Alentejo a viu nascer, Serranas viram-na em vida, Baleizão a viu morrer".
(…)
Poeta de vanguarda, músico, cantor e compositor, cantou o Fado de Coimbra, cantou a Balada, cantou a Canção de Intervenção. "Cantai bichos da treva e da aparência, na absolvição por incontinência, cantai, cantai no pino do inferno, em Janeiro ou em Maio é sempre cedo. Cantai cardumes de guerra e da agonia neste areal onde não nasce o dia".
Cantou para ricos, cantou para pobres e sempre no mesmo tom. Cantou para galegos, cantou para bascos, cantou para flamengos, cantou para sul-americanos, cantou para índios, cantou para negros, cantou para cabo-verdianos, cantou, cantou sempre, até que a doença lhe amarrou a voz e aos poucos lhe roubou a vida. "Fui cantor porque deixei de ser professor e finalmente sou coisa nenhuma porque deixei de ser cantor".
Sem clamar vingança contra os que, no crepúsculo da sua vida, o apunhalaram na praça do silêncio e do egoísmo, tal como os irmãos Vicários cobardemente apunhalaram Santiago Nazara à porta de sua mãe Plácida Linero, às 3 da madrugada, numa cama anónima do hospital de Setúbal, morreu o Zeca Afonso.
Morreu como sempre viveu: sem pé-de-meia, sem fundo de maneio, sem saco azul, sem subsídios, sem ajudas de custo, sem reforma, sem nada.
Neste dia relembrar o Zeca não é mais do que homenagear o amigo, o poeta e o músico que. no dizer de João de Freitas Branco, tem um significado muito importante no panorama da cultura musical portuguesa.

JOSÉ FERRAZ ALÇADA (do seu livro: "ANAMNESE").

José Gomes
(Fev. 1994)


Uma nota, alguns anos depois...

Em 19 de Fevereiro de 1994, pelas 21,00 horas, no Salão Nobre da Junta de Freguesia de S. Mamede Infesta, Movimentum - Arte e Cultura e o Grupo Dramático e Musical Flor de Infesta, homenagearam José Afonso. com um trabalho intitulado "Uma noite recordando... José Afonso".

Resultados da procura

Na sexta feira seguinte, dia 25 de Fevereiro, nas nossas habituais Noites de Poesia, nessa altura no Salão Nobre da Junta de Freguesia de S. M. Infesta, ouvi o Sérgio ler (e de que maneira e com que sentimento!)  este texto. Talvez por isso ao escrever este blog dei o Sérgio como autor deste texto.
Ao seu autor, JOSÉ FERRAZ ALÇADA e ao Sérgio Marques, as minhas desculpas pelo erro.
Agradeço ao José Ferraz a inspiração e ao Sérgio a interpretação que deu ao texto, uma forma que ambos encontraram para recordar essa figura ímpar que se chama José Afonso.

Um abraço,

José Gomes / Março 2011

8 comentários:

  1. Bonita homenagem ao Homem das Palavras Livres!
    O que faz falta é avisar a malta...O que faz falta é acordar a malta...O que faz falta...
    Um abraço e Bom Fim de Semana

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  2. Já lhe fiz um post. Um amigo inesquecível. Este teu post é lindíssimo, Zé. Não deixemos cair no esquecimento quem tanto pugnou pela liberdade.
    Hoje, amanhã, sempre, Zeca e a Liberdade serão indissociáveis.

    Beijinhossssss

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  3. Excelente homenagem nessa prosa!
    Beijos

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  4. A homenagem ao Homem, ao Cantor, ao Amigo. Comovente.
    Saio daqui com a certeza de que ele cantou sempre, e para sempre......

    Abraço

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  5. Este foi o primeiro post que vi ontem pela madrugada, passado todo o dia em que percorri vários outros volto aqui e vejo que afinal José Afonso não está de forma nenhuma esquecido. Talvez pelas Entidades Oficiais sim, mas está bem vivo no coração do povo que cantava e amava.
    É um símbolo incontornável da Liberdade.
    Bom Domingo.
    Beijinhos.

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  6. Belo texto!
    É bom vê-lo lembrado...

    Abraço.

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  7. Que bela homenagem!
    Beijinhos.

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  8. Boa Noite.

    Depois de ter sido, gentilmente, abordado pelo autor do texto acima transcrito, venho por este meio alertar para o facto de o texto com o titulo "ZECA AFONSO - CRÓNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA" publicado neste blogue, não ser da autoria de Sérgio Marques como indicado no final da transcrição mas sim da autoria de:

    JOSÉ FERRAZ ALÇADA extraído do seu livro: "ANAMNESE".

    Agradecemos desde já a correcção.

    Obrigado,

    Com os melhores Cumprimentos

    Sérgio Marques

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