terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

A António Nobre...



“Na praia lá da Boa Nova, um dia,
Edifiquei (foi esse o grande mal)
Alto Castelo, o que é a fantasia,
Todo de lápis-lazulli e coral!

(…)”

Lembrei-me hoje de António Nobre — “Só, é o poeta-nato, o lua, o santo, o cobra!”, um poeta que gosto bastante. Que, no Olimpo dos Poetas descanses em Paz das vicissitudes e das agruras dos tempos em que viveste entre nós!

António Nobre nasceu no Porto, na Rua Santa Catarina, numa manhã de Agosto de 1867 e foi registado na Igreja de Santo Ildefonso com o nome de António Pereira Nobre.

Filho de uma família de recursos, estudou no Porto e tentou tirar o curso de direito em Coimbra mas, inadaptado ao ambiente desta cidade, acabou por terminá-lo em Paris.

Era um rapaz alto, magro e muito pálido, de natureza frágil e egocêntrico, Encontrou refúgio para a saudade, o fatalismo e a morte na imensidão do mar, fazendo longas caminhadas desde a Foz do Douro até Leça da Palmeira. Foi aqui que passou as suas férias, irmanando-se com a Natureza e aprendeu com o mestre Oceano (seu confidente e amigo) as histórias dos naufrágios e das tempestades...

A praia de Leça era, nessa altura, frequentada pela fina-flor da colónia inglesa radicada no Porto. Foi aqui que conheceu os seus primeiros amores, viveu os seus romances e acariciou o calor loiro dos cabelos das doces britânicas...

Desde muito novo, nos rochedos da Boa Nova batidos pela espuma das ondas do Atlântico ou dentro de pequenos botes baloiçando na candura das águas, que António Nobre declamava os seus versos, tendo como ouvintes atentos o oceano ou as lindas moçoilas que lavavam no “Rio Doce” (nome dado, nesse tempo, ao Rio Leça, ainda límpido e pululante de vida) …

Oh Rio Doce! Túnel d’água e de arvoredo
Por onde Anto vogava em vagão dum bote...
E, ao Sol do meio-dia, os banhos em pelote
Quando íamos nadar, à Ponte do Tavares!

A sua poesia reflecte os conhecimentos, as crenças, as lendas, as músicas, as danças, as bruxas, as almas-penadas, conceitos que lhe foram transmitidos pelos pescadores e pelos aldeões. Vemos, sentimos e ouvimos as sachas, as ceifas e as vindimas da sua aldeia no Douro; sentimos o dedo da morte nos carpinteiros de caixões, nos enterramentos, nos cavadores e nos coveiros...

A sua obsessão pelo fim está retratada nos pedintes, nos paralíticos, nos gangrenados, nos moribundos que pululam a sua obra poética.

Influenciado pelos poetas e artistas europeus da sua época (especialmente britânicos e franceses), tornou-se numa figura típica e exótica na maneira de se vestir, passeando-se pelos areais de Leça até à Praia da Memória, envergando uma indumentária exuberante, adornos extravagantes, um livro debaixo do braço, com os cabelos pretos em desalinho e um pequeno buço aparado que aguçava ainda mais o seu rosto esguio…

Em Coimbra influenciou e foi influenciado por um pequeno grupo de amigos, intelectuais, poetas e sonhadores. Não se misturou com a chamada “boémia tradicional coimbrã”, antes formou o seu ciclo de intelectuais que o achavam insolente como um príncipe e adorável como uma criança, olhos como estrelas....

Na última semana em Coimbra, antes de partir para Paris, deixou o Penedo da Saudade onde vivia, instalando-se numa das torres da muralha medieval, a Torre de Sub-Ripas, mais tarde conhecida por Torre d’Anto, hoje ex-libris da cidade.

Foi desta torre que António Nobre descreveu a Coimbra outonal “... essa paisagem religiosa, milagrosa, o Mondego sem água, os choupos, meus queridos corcundas, sem folhas e vergados pelos anos, pareceu-me que estava num mundo extinto, todo espiritual, onde só um homem vivia, que era o Anto encantado na sua Torre.

A tuberculose que o viria a vitimar e de que cedo se apercebeu, reflectiu-se nos seus poemas. A morte, a degradação, a tristeza e a solidão estão sempre presente na sua obra, assim como a tragédia, os amores não concretizados e a solidão.

Tentou a cura da sua "tísica galopante" em todas as cidades europeias, mas a doença, implacável, não respondeu aos tratamentos e venceu-o.

Em 18 de Março de 1900, na Foz do Douro onde vivia e com apenas 33 anos de idade, António Nobre, o autor de , deixou a sua costa de areias doiradas, os seus pôr-do-sol de cores matizadas, o seu mar verde-esmeralda, pintalgado com auréolas prateadas de espuma, os seus rochedos agrestes da Boa Nova e foi aconchegar-se “…na ‘COVA’ onde a Mãe o esperava para o prometido reencontro…”.

"Aqui, espero-te, há que tempo enorme!
Tens o lugar quentinho…
".


De António Nobre, dois poemas que sempre admirei:


MEMÓRIA

À Minha Mãe
Ao meu Pai

Aquele que partiu no brigue Boa Nova
E na barca Oliveira, anos depois, voltou;
Aquele santo (que é velhinho e já corcova)
Uma vez, uma vez, linda menina amou:


Tempos depois, por uma certa lua nova,
Nasci eu… O velhinho ainda cá ficou,
Mas ela disse: - «Vou, ali adiante, à Cova,
António, e volto já…» - e ainda não voltou!


António é vosso. Tomai lá a vossa obra!
«Só» é o poeta-nato, o lua, o santo, a cobra!
Trouxe-o dum ventre: não fiz mais do que o escrever…


Lede-o e vereis surgir do poente havidas mágoas,
Como quem vê o Sol sumir-se, pelas águas,
E sobe os alcantis para o tornar a ver!

(António Nobre)


SONETOS

Na praia lá da Boa Nova, um dia,
Edifiquei (foi esse o grande mal)
Alto Castelo, o que é a fantasia,
Todo de lápis-lazulli e coral!


Naquelas redondezas, não havia
Quem se gabasse dum domínio igual:
Oh Castelo tão alto! Parecia
O território dum Senhor feudal!


Um dia (não sei quando, nem sei donde)
Um vento seco de Deserto e spleen
Deitou tudo por terra, ao pó que tudo esconde,


O meu condado, o meu condado, sim!
Porque eu já fui um poderoso Conde,
Naquela idade em que se é conde assim…


(António Nobre)


José Gomes

10 comentários:

  1. Excelente post que fizeste e muito bons os poemas escolhidos:)
    Beijos

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  2. Um post lindíssimo, Zé Gomes. Levas-me de regresso ao Porto, a essa cidade que eu amo. A Rua de Santa Catarina, a Igreja de Santo Ildefonso, a Praça da Batalha. Estou a ver, a sentir, a apreciar. Um homem, de uma sensibilidade, quase diria feminina ( desculpa)pela forma como fala da família. Comovente este poeta que eu amo.

    Beijinhossssss

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  3. Foi bom relembrar António Nobre e ler tudo o que disseste dele.Muitas vezes passo na casa onde viveu e morreu e lembro-me sempre da sua existência triste, sofredora e do "Só", livro quase obrigaqtório para toda a gente que na minha juventude já gostava de poesia. Uma sensibilidade muito peculiar e que deixou este poeta na história da poesia portuguesa, apesar de ter tido uma vida muito curta.
    Beijinhos para ti.

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  4. Adorei o teu post!! Beijinhos

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  5. um belo sonetista e considero-o o mais dos melancólicos, poetas do romantismo.
    Olha Zé, passa lá pela casota. Há algo k te pertence.
    Bj
    Luz e paz

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  6. Confesso ser pouco conhecedor da obra de António Nobr`! A partir deste teu post irei à descoberta de António Nobre.
    Parabens gostei do que vi, voltarei
    Um abraço
    José Manangão

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  7. Olá meu amigo,

    Que linda homenagem a quem bem a merece.

    Pessoalmente sou muito apreciadora dos escritos de António Nobre.

    Beijinhos com amizade.

    Alexandra Caracol

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