quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

O Tempo e o Relógio




Era uma vez...

Embora o Tempo e o Relógio passem juntos todo o santo dia (mas sempre de costas voltadas um para o outro!), um dia o Tempo resolveu pôr os pontos nos “ii” e dizer ao Sr. Relógio umas certas verdades que já engolia há muito, muito tempo!

Atirou-se, então, ao Relógio com unhas e dentes e disse-lhe que tinha tantas saudades daqueles tempos em que não existiam relógios e, curioso, nessa altura toda a gente tinha tempo!

Mas o “bicho homem”, predador e destruidor de tudo por natureza e feitio, sempre à procura de qualquer coisa para lhe alimentar o ego, fabricou o primeiro relógio que começou a marcar o tempo, melhor, pôs o tempo a marcar passo!...

Curioso!... a partir deste momento nunca mais ninguém conseguiu ter tempo! A partir dessa altura o homem ficou escravo do seu invento, esmigalhado na sucessão dos segundos, dos minutos, das horas, dos anos que acabara de criar!

— Ahhh – disse o Tempo - como eu recordo com saudade aqueles dias em que o Homem trabalhava de Sol a Sol e ainda tinha tempo para apreciar a natureza, deliciar-se com as tonalidades do pôr-do-sol, saborear as cores do arco-íris, deliciar-se com o bailado das estrelas no céu escuro, sem o brilho pálido da luz da Lua...

E o Relógio, no seu tic-tac metálico, ouviu, ouviu, mas não tinha tempo para responder, com medo de se atrasar...

— Antigamente – continuou o Tempo – nascia-se no tempo certo, sem ser preciso cesarianas nem incubadoras para aqueles que passavam ou se atrasavam no seu tempo de nascer. A natureza sabia, bem a tempo, quando era chegado o tempo de nascer... Hoje, o Homem, obedece-te, Relógio, mesmo antes de nascer... até os médicos, escravos do teu tic-tac, estão cada vez mais apressados e não têm tempo a perder!

E o Relógio, no seu tic-tac metálico, ouviu, ouviu, mas não tinha tempo para responder, com medo de se atrasar...

— Ainda me lembro – continuou o Tempo – quando o Homem crescia sem pressas, quando ainda tinha tempo para ser criança! Comia só quando tinha fome e dormia quando tinha sono. Não tinha horário para comer, para dormir e muito menos para amar... Envelhecia ao ritmo natural, na calma e tranquilidade duma vida sem estar a olhar constantemente para ti, Relógio, simplesmente porque tu ainda não existias!... Depois, encolhia-se calmamente no ventre da Mãe Terra e partia ao meu encontro, para aquele abraço duma Vida que sempre leváramos juntos...

E o Relógio, no seu tic-tac metálico, ouviu, ouviu, mas não tinha tempo para responder, com medo de se atrasar...

— Mas desde que foste inventado nunca mais o ciclo da vida foi o mesmo! O Homem, ainda criança, vai para a escola onde lhe dão um horário. Depois, mal aprende a saber contar as horas, o pai dá-lhe logo um relógio... e, então, nunca mais tem tempo na vida! Corre para o emprego, come apressado, dorme sem sono pois sabe que de manhã, bem cedinho, estás a gritar-lhe aos ouvidos, arrancando-o da cama quando ele queria dormir nem que fossem só mais cinco minutinhos!...

E o Relógio, no seu tic-tac metálico, ouviu, ouviu, mas não tinha tempo para responder, com medo de se atrasar...

— E a amar?!! Não sei se ainda hoje alguém faz amor!... Há tanta gente que já não tem tempo nem para respirar! Quando, de repente, se apercebem... já estão velhos, cansados, sem terem tido tempo de ver o Tempo passar...! E enterram-no, apressados, para a Vida poder continuar.

O Relógio corou!... O seu tic-tac metálico, ouviu, ouviu, mas continuou a não ter tempo para responder, com medo de se atrasar...


José Gomes


14 comentários:

  1. Bela e realista prosa:)
    Beijos

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  2. Os computadores quando "não querem" conseguem ser assaz enervantes. Quase tanto como o relógio...
    Há que manter a calma. Gostei do post.

    Abraço.

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  3. Gostei de te ler. É a realidade triste do tempo marcado para tudo. Não tenho muita paciência para isso, mas sou levada a não ter outro remédio se não cumprir os prazos que estão estipulados para a entrega das papeladas fiscais. Mais me apetecia enfiar tudo no caixote do lixo e zarpar para longe...beijinhos.

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  4. Gostei imenso desta história do tempo e do relógio que não queria atrasar-se! Fantástico e verdadeiro! Como tudo seria se não houvesse relógios para marcar o tempo? Tinhamos tempo para tudo!
    Gostava, se tiveres tempo, que me visitasses aqui:

    HOJE E AMANHÃ

    Um abraço!

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  5. Estou quase como o relógio com medo de se atrasar.
    Tenho que acertar o passo, e mantê-lo parado de vês enquando.
    Parar para pensar, refletir...Viver!

    Linquei o cuviscos no decorrer da minha "treta" no Zémaiato.
    Abraço José Gomes

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  6. José Gomes,
    Apesar de ter linkado há muito o Chuviscos o tempo é mesmo devorador e vou passando conforme posso. Este post está espectacular porque realmente nos tempos que correm o relógio é mesmo o maior dos ditadores e mantem-nos numa escravatura sem tréguas.
    Temo que fazer um esforço titânico para lhe dar luta e deixar muias vezes o supérfluo pelo essencial, como ir encher os pulmões ao mar ou ver o pôr do sol.
    Fica bem.
    Um beijinho.

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  7. Adorei a história! Apesar de ser uma "história", é a realidade da nossa vida!!

    um beijo
    Bom Carnaval

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  8. Bela prosa meu amigo, mas como vamos fazer para que: assim não aconteça?
    Será por culpa da "SENORA" ou da "RAMA"
    O relógio conta o tempo, mas não o aumenta, nem o deminui!
    Registei a sua mensagem!
    um abtraço
    José Manangão

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  9. Amei este teu texto amigo!Excelente
    prosa, feita de realidade. Somos "consumidos, devorados" pelo tempo.
    Os meus parabéns e beijokas amigas

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  10. Parabéns amigo José! Gostei muito desta tua pequena história, cheia de talento e imaginação! Reflecte bem a angustia da nossa vida, que passa, passando-nos ao lado!
    Como eu te compreendo, como desejava poder viver sem o bendito relógio!
    A todo o tempo me revolto com as horas que nunca chegam!!
    Realmente, nesta corrida frenética em direcção ao desconhecido, desabituamo-nos a viver com tempo as coisas essenciais à nossa felicidade, nesta nossa casinha redondinha a flutuar no cosmos...
    Acho que sobrevivemos, mais do que vivemos, mas... que podemos fazer, senão aproveitar os bocadinhos que escapam aos ponteiros?
    Agora, é praticamente impossível fugir ao ininterrupto tic-tac!!
    Beijinho amigo!
    Continua a escrever, contra e a favor do tempo!!

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  11. Bela prosa amigo. Um abraço e boa semana

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  12. Tantas verdades, num conto tão bonito... Parabéns!
    Ainda neste fim-de-semana uma revista dum jornal trazia uma frase que dizia qualquer coisa como "Quando Deus criou o homem branco, deu-lhe um relógio; quando criou o homem preto, deu-lhe tempo"- achei a frase assombrosa e bela.
    Beijos.

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  13. otima istori sobre o tempo

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