terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Estou de volta!...



Dia invernoso, muito frio, com as pessoas a correr bem aconchegadas nos seus casacos... não é difícil advinhar a névoa que sai das suas bocas, nem que seja pelo ar lívido das suas caras e o esfregar das mãos uma contra a outra. É quase inverno, mas o frio veio com vontade de fazer mossa!

E cá estou eu de novo, sentado diante do teclado, pronto a recomeçar esta actividade, que interrompi há já algum tempo, para ajudar a Sónia a construir o seu emprego (e chamam a isto um país de oportunidades! Não é que o mestre socas prometeu milhares de empregos em 4 anos... onde, onde, onde estão eles?!!!).

Estou sentado ao balcão da Loja que ajudamos a construir. Os clientes não abundam, mas os que têm aparecido trazem outros e isso é mesmo bom. Bom porque ajudam a acreditar na aposta que foi feita, ajuda a Sónia a encontrar outra maneira de estar na Vida, a sentir-se útil e a dar aquilo que ela sabe fazer (e fá-lo bem, a acreditar na crítica). É trabalhoso, mas a Vida constroi-se de trabalho, de aventura e de acreditar naquilo que se faz.

Parabéns Sónia pela Loja, pelo trabalho que tens desenvolvido nestas duas semanas desta nova vida e, claro, acreditámos que vais conseguir atingir os teus objectivos.


Isto é que vai uma crise!... até nem os cãezinhos escapam!...


“(…)

Com o dinheiro com que se salvaram os bancos nos EUA e na Europa se poderia acabar com a fome e a miséria no mundo. Portanto, o mundo pode ser regido por outras leis que não o preço para os alimentos e os lucros sobre a miséria. Uma nova economia é possível, assim como foi possível se unir mesmo muitos países e indústrias em defesa do nosso planeta. Um outro mundo é possível, sem bestas, sem deuses, mas com solidariedade...

Quem sabe 2009, depois do entêrro da Besta do Neoliberalismo, vai sentir surgir a centelha de novas ideologias que, dentro de dois, três ou quatro milênios verão o nosso planeta sem famintos, sem miseráveis, sem agiotas, sem exploradores, sem gananciosos do lucro, numa outra fórmula de convívio econômico social, justa e solidária.

É tempo de Natal, de uma crença nascida na pobreza de uma manjedoura e tendo como atores um casal pobre e uma criança sem teto. A crença se deturpou e deu origem à riqueza e potência política, porém a idéia de um mundo mais justo nascido da pobreza perdura no inconsciente da humanidade. Porém é preciso não se adiar esse sonho para depois da morte ou num céu abstrato e tentar construí-lo aqui. Mesmo que sejam necessárias mais de mil gerações e que outras bestas surjam pelo caminho, tenho certeza de que os humanos sem ídolos, sem ícones, sem deuses e sem muletas construirão esse mundo.

Ver :
DE JESUS A MARX, NA MORTE DA BESTA”,
in MOMENTOS & DOCUMENTOS
http://momentosydocumentos.wordpress.com/

Realmente, a que ponto chegamos… nem os cães escapam à crise!!!

Um abraço a todos vós.

José Gomes


quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Até um dia destes...

Espaço de reflexão...

"Aquele que não respeita o pássaro, nem a montanha, nem a água dos rios, que fere a terra e envenena o ar que respira, esse despreza a vida maravilhosa. Já não sabe ver a beleza simples das coisas, que acompanha cada gesto da vida e protege o homem desde a infância, como um pássaro de asas de ouro."

in "Sabedoria Ameríndia" - a sabedoria dos índios da América do Norte

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

A Revolução em cada um de nós!


"Por isso a revolução terá de começar em cada um de nós de forma interna e inequívoca."...


Foi esta frase, neste artigo escrito pela Ana Camarra, que me levou a pedir para o inserir na íntegra neste blog. E é esta análise simples e muito profunda que quero compartilhar com os meus amigos, os meus habituais leitores e com aqueles que me visitam esporadicamente.

Este artigo está em "CHEIRA-ME A REVOLUÇÃO" e desde já convido a uma visita mais cuidada.




Ninguém é sozinho!

Ninguém nasce tão pouco sozinho, se durante 9 meses, mais ou menos dependemos na íntegra de outra pessoa, depois a coisa não é muito diferente.

Mais, cada um de nós é uma espécie de multidão, um aglomerado de células, os traços fisionómicos ancestrais misturados de uma forma ímpar, alguns defeitos também, muitas capacidades.

Depois, muito depois aparentemente autónomos, também não o somos, não só porque não vivemos em ilhas à mercê dos elementos e da nossa vontade, do nosso espírito empreendedor, mas vivemos em grupo, alcateias, bandos, cardumes e enxames.

O ser humano será um pouco como a grande barreira de corais da Austrália, o que se supunha que fosse um conjunto de organismos é apenas um único que e estende por 345,4 mil km2, e é só um, pode sobreviver a uma pequena amputação, a algumas tempestades, à morte de algumas das suas partes, mas é ainda só um.

A espécie humana será assim também, precisamos sempre de alguém, precisamos fisicamente de outros, mesmo que saiba fabricar o meu pão, irei precisar de quem fabrique a farinha, plante o cereal…

Como tal nesta necessidade de outros, na necessidade de sermos amados, de diversas formas como filhos, como companheiros, como pais e como amigos.

Por vezes afirmamos essas necessidades de uma forma básica, animal, tentar subjugar, tentar aniquilar, neutralizar, de todas as formas.

No fundo os nossos desejos pessoais serão sempre os mesmos, ser felizes, ter abrigo, se possível com conforto, ter alimento, ser amados e amar, caso tenhamos filhos que eles sejam felizes.

Simples!

Por isso a revolução terá de começar em cada um de nós de forma interna e inequívoca.

Fazendo parte deste organismo gigantesco da humanidade, teremos de saber que cada vitória ou realização pessoal, não poderá nunca ser conquistada em cima da derrota de outro ser como nós, que não poderemos apreciar na totalidade o nosso abrigo e conforto, quando for só e exclusivamente nosso sabendo que parte do mesmo grupo que nós não o tem de todo, o nosso pão, o nosso espaço…

Teremos assim que, mantendo as características que tornam cada um de nós único, esforçarmo-nos para que cada um de nós seja igual.

Todos os dias, em todas as coisas!




#Ana Camarra

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Outono

(Braga - Bom Jesus)



Hoje de manhã levantei-me cedo…


Grossas nuvens toldavam um céu ainda escuro, ameaçador de uma forte chuvada que não tardaria a cair. Cheirava-me, não sei bem porquê, a aldeia!... talvez porque das traseiras da minha casa ainda se veja os campos lavrados e ao longe, entre os pirilampos de luzes públicas, adivinho o que vai restando das árvores semeadas nos montes - outrora floresta densa! – e que se estendem no escuro.


O moinho de vento, em primeiro plano, faz girar as suas pás, gemendo ao sabor do vento que passa, enquanto a sua cauda metálica tenta seguir-lhe o rumo. Os galos começam a cantar, aqui um, mais além outro, mais ao fundo acorda outro, juntando a sua voz ao silêncio que, lentamente, começa a despertar!


Debruço-me na janela e sinto que o Outono está a chegar!...

Os dias já são mais curtos, mais frescos, sinto até que o vento é diferente! O dia vai esmoendo o alvorecer e reparo, então, na folhagem das árvores que estão a deixar os seus tons esverdeados que conheci até há poucos dias atrás e que começam, agora, a vestir-se de cores quentes, donde sobressaem os castanhos, os vermelhos, os dourados...


As folhas começam a cair num bailado de harmonia e cor e quedam-se, imóveis, já sem vida, enfeitando o chão com um tapete crocante, emprestando à natureza as cores de uma estação em mutação! As andorinhas, os estorninhos, os patos e outras aves começaram já a sua viagem para terras mais quentes...



(Braga - Bom Jesus)


Sinto que há qualquer coisa especial no ar! São as primeiras chuvas, as primeiras trovoadas em concerto de som e luz, o cheiro a terra húmida... O azul do céu, quando consegue furar o manto das nuvens, é mais pálido e mais triste.


Os pássaros residentes esvoaçam, agitados, de árvore em árvore, procurando um refúgio para a chuva, para as noites frias e para a curiosidade mórbida dos predadores... é o Outono que se aproxima a passos agigantados!...


O pôr-do-sol pinta o horizonte de vermelho e as nuvens do fim da tarde vestem-se de cores vivas, numa miscelânea de roxos, castanhos, azuis, cores que me dizem que é chegado o Outono, sarapintado de nostalgia! Cores que me convidam a caminhar ao encontro da Harmonia e a irmanar-me com a Natureza num amplexo de Paz, de Bem Estar e de reencontro com a Mãe Terra.



José Gomes




domingo, 12 de outubro de 2008

Lírios e rosas - Álvaro de Campos


Quando hoje fui comprar flores para o cemitério encontrei este poema, bem destacado, rodeado de rosas e lírios, na florista onde vou habitualmente. A dona ficou encantada quando lhe pedi se se importaria que eu apontasse o título do poema. Ainda ficámos um bocado a falar de poesia e de Álvaro de Campos, um dos heterónimos de Fernando Pessoa:


Poema de Canção sobre a Esperança (I)

Dá-me lírios, lírios,

E rosas também.

Mas se não tens lírios
Nem rosas a dar-me,
Tem vontade ao menos
De me dar os lírios
E também as rosas.
Basta-me a vontade,
Que tens, se a tiveres,
De me dar os lírios
E as rosas também,
E terei os lírios -
Os melhores lírios -
E as melhores rosas
Sem receber nada,
a não ser a prenda
Da tua vontade
De me dares lírios
E rosas também.

[...]

Álvaro de Campos


Aviso:

Há já alguns dias que CHUVISCOS sofreu uma modificação profunda. Para evitar os comentários nada correctos que têm aparecido neste blog e no sentido de evitar mais confusões, resolvi restringir os comentários ao blog por parte de anónimos e activei a “moderação de comentários”.

A todos aqueles que merecem o meu total respeito, as minhas desculpas por ter sido obrigado a tomar tal atitude.


José Gomes

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Palavra e acção revolucionárias




Para mais completas informações, visitem:

http://revolucionaria.wordpress.com/



"PALAVRA E ACÇÃO REVOLUCIONÁRIAS

Hoje vou pedir a vossa atenção para as palavras que vou transcrever de um Revolucionário do nosso tempo.

” Antes de tudo, estamos numa revolução. Agora uma revolução não quer dizer desordem nem quer dizer indisciplina. um dos grandes perigos da nossa revolução é a desordem e a indisciplina. não é verdadede que existe no próprio seio das Forças Armadas, devido a questões de ordem política, de ordem ideológica e propriamente até de interesses de classes, porque nós temos de enfrentar isso com toda a clareza! E não sei se todos os camaradas, quando aprovaram aquí as directrizes sobre a opção do MFA pelo socialismo, estavam bem conscientes do que isso representa. Não basta a gente dizer que optámos pelo socialismo. Há toda uma ganga, todo o meio em que nós vivemos, toda a nossa vida, os estratos sociais a que pretencemos e de que nos temos de libertar, se queremos, de facto, optar pelo socialismo e caminhar nesse sentido. Mas mesmo nós, até como somos em larga escala pequenos burgueses, estamos ligados a esses interesses; uns são filhos de pequenos comerciantes, outros são de pequenos lavradores, outros de de funcionários,etc…Nós tambem podemos fazer parte deste tal bloco histórico de apoio. O que é preciso é que tenhamos noção disso, que estas coisas não se fazem por varinhas de condão, nem por milagres, e que se desenrolam todas no seio de uma aguda luta de classes.

Não é uma palavra vâ o facto de aquilo que o brigadeiro Corvacho disse no Porto de que o capital nos move uma luta de morte. A gente ou tem a noção disto ou não tem. se a gente pensa que as lutas entre o Partido socialista e o Partido Comunista  são lutas entre o Benfica e o Sporting, então não há dúvida nenhuma que nós estamos afundados e vamos para o fundo. Agora se pensarmos que são lutas muito mais profundas, são lutas através das quais se manifestan as lutas de classes e os objectivos finais dos seus estratos sociais, então já podemos ver com muito mais lucidez essas lutas.

Aliás eu gostaria que me explicassem se o processo viveu muito depressa até agora, como é que poderia ter sido vivido mais devagar, (por exemplo como é que poderia ter vivido mais devagar até ao 28 de Setembro. Como é que poderia ter vivido mais devagar até ao 11 de Março). Penso que agora neste momento estão criadas as condições mínimas para  o socialismo. É que nós temos o problema de dominar o processo. Estamos na sua fase de construção, agora sim pê-se essa questão do ritmo e, de facto temos de ter muito cuidado com esse ritmo, porque nós não podemos deslocar a nossa  vanguarda daqueles que devem ser a nossa base de apoio, porque ás duas por três, de facto, o pelotão está deslocado da base de apoio.

Transcrevi parte de uma intervenção do General Vasco Gonçalves, na Assembleia do MFA. em 25/07/1975

Companheiro, tu sózinho não és nada! Juntos temos o Mundo na mão

Um abraço do tamanho do mundo para todos!"


Agradeço ao   "Cheira-me a Revolução" (http://revolucionaria.wordpress.com/) terem-me facultado este artigo.


Um abraço,


José Gomes




domingo, 28 de setembro de 2008

Fernando Tordo na Maia

Fernando Tordo
(Fotografia tirada em Agosto, na estreia do musical "Jesus Cristo Superstar", em Portimão)


 

Fernando Tordo veio este sábado (27 de Setembro) ao Fórum da Maia, acompanhado pela Stardust Orchestra, dirigida pelo maestro Pedro Duarte, para nos encantar com as suas canções.

 

Durante quase duas horas fez-nos vibrar com a sua maneira muito característica de interpretar as suas canções, não só com a sua voz, mas também com o jogo fisionómico de um corpo que soube sempre traduzir aquilo que cantava.

 

"Adeus Tristeza", "Lisboa de Feira", "O Homem do Jazz" (uma homenagem que prestou a Luís Villas Boas, ainda em vida deste homem do Jazz), "O Café", "Balada para os nossos filhos" (balada dedicada aos gémeos João e Joana, nascidos em 1975), "Estrela da Tarde", "Amadeu" (homenagem ao grande pintor Amadeu Sousa Cardoso), "Tele Tele", "O Rato Roeu a Rolha" foram algumas das interpretações que arrancaram vibrantes aplausos das pessoas que enchiam o Fórum.

 

Mas foi a "Tourada" que fez vibrar a sala, que fez com que toda a gente se levantasse como que impelidos por uma mola, aplaudindo e cantando com o Fernando Tordo esta canção que, ontem como hoje, mostra que pouca coisa mudou no panorama nacional!

 

Foi uma noite que valeu a pena não ter ficado em casa. Espero que não seja preciso passarem mais 10 anos para voltar a ter o Fernando Tordo na Maia.

 

José Gomes



segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Pablo Neruda... a minha homenagem.


Lembrando este mês:

“... Deixa que o vento corra, coroado de espuma, que me chame e me busque galopando na sombra, enquanto eu, mergulhado nos teus imensos olhos, nesta noite imensa, descansarei, meu amor..." - Pablo Neruda


Pablo Neruda, aliás Neftali Ricardo Reys Basoalto, nasceu a 12 de Julho de 1904 e faleceu em Santiago do Chile a 23 de Setembro de 1973. Foi um dos mais importantes poetas do século XX, vindo a receber em Outubro de 1971 o Prémio Nobel da Literatura.

Desde muito novo que começou a escrever, tendo ganho alguns prémios com os seus poemas.

Em 1927 foi nomeado cônsul em Rangum, na Birmânia passando, depois, por Ceilão, Java e Singapura. De regresso ao Chile escreveu  “Residência en la Terra” e “El Hondero Entusiasta”.

Em 1934 foi nomeado cônsul em Barcelona e no ano seguinte foi transferido para Madrid. Nesta cidade ficou com a direcção da revista “Cavalo Verde para a Poesia”, relacionando-se com grandes nomes da chamada geração de 27, onde veio a conheçer os poetas Federico Garcia Lorca e Rafael Alberti.

Em 1936 começou a Guerra Civil Espanhola e, devido às suas tomadas de posição, Neruda foi destituído do cargo. Colocado em Paris, escreveu “España en el Corazón” seguido, em 1939, por “Las Furias y las Penas”. Em 1940 foi nomeado cônsul geral do México. Regressou ao Chile em 1943, em 1945 foi eleito senador e obtém o Prémio Nacional de Literatura.

Por participar activamente em actividades políticas e por ser militante do Partido Comunista que, entretanto, fora declarado ilegal, teve de sair do Chile. Regressou em 1952, continuando a sua actividade literária e política.

Indicado para a Presidência da República do Chile nos anos 70, veio a desistir da sua candidatura a favor de Salvador Allende.

Participou na campanha deste e, eleito Allende, foi nomeado embaixador do Chile em França.

Recebeu, em 21 de Outubro de 1971, o "Prémio Nobel de Literatura" com o livro “Confesso que Vivi”.

Morreu a 23 de Setembro de 1973 em Santiago do Chile, doze dias depois da queda do Governo de Unidade Popular e da morte de Salvador Allende.


Posso Escrever Os Versos Mais Tristes Esta Noite

Posso escrever os versos mais tristes esta noite. 
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada, 
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe". 
O vento da noite gira no céu e canta. 

Posso escrever os versos mais tristes esta noite. 
Eu amei-a e por vezes ela também me amou. 
Em noites como esta tive-a em meus braços. 
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito. 

Ela amou-me, por vezes eu também a amava. 
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos. 
Posso escrever os versos mais tristes esta noite. 
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi. 

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela. 
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho. 
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la. 
A noite está estrelada e ela não está comigo. 

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe. 
A minha alma não se contenta com havê-la perdido. 
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a. 
O meu coração procura-a, ela não está comigo. 

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores. 
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos. 
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei. 
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido. 

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos. 
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos. 
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda. 
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento. 

Porque em noites como esta tive-a em meus braços, 
a minha alma não se contenta por havê-la perdido. 
Embora seja a última dor que ela me causa, 
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

Pablo Neruda
'Vinte poemas de amor e uma canção desesperada'


José Gomes



terça-feira, 16 de setembro de 2008

A morte de Victor Jara





Lembrando este mês...

...Victor Jara:



17 de Setembro de 2008.

Faz hoje 35 anos que morreu um grande músico e um grande lutador. Victor Jara teria hoje 76 anos, viveria ainda com a sua mulher e as suas duas filhas e teria assistido ao processo judicial do autor do seu assassinato, o ditador chileno Augusto Pinochet, e à morte deste, por velhice.

Faz hoje 35 anos que os soldados comprometidos com o golpe, lhe desfizeram as mãos para que nunca mais pudesse empunhar a guitarra. À ordem de Edwin Bianchi, el príncipe, o carniceiro do Estádio do Chile, o corpo de Victor Jara foi cravado com dezenas de tiros e assim arrancaram-lhe aquela voz que a tantos lugares chegara, com um canto de liberdade que abriu os olhos a milhares de pessoas.

Faz hoje 35 anos que a vida de Víctor Jara se apagou, mas a sua voz continua a chegar a todos os cantos deste planeta, com a mesma força militante de há 35 anos.



Victor Jara Martínez

Nasceu a 28 de Setembro de 1932 em La Quinquina, uma pequena aldeia do Chile. Desde muito novo que sentia uma certa inclinação para a música, talvez influenciado pela sua mãe, Dona Amanda. Esta costumava cantar para uma plateia de trabalhadores e de crianças da vizinhança.

Com a morte desta quando tinha 15 anos, desamparado e cheio de saudades, procurou refúgio no Seminário Redentorista de S. Bernardo e seguiu a sua vocação sacerdotal. Mas ao fim de dois anos reconheceu que aquele não era o seu caminho e desistiu.

A Universidade e Violeta Parra

Em 1957 matriculou-se na Escola de Teatro da Universidade do Chile onde estudou Teatro.

Aqui conheceu Violeta Parra que gostou da sua voz e entusiasmou-o a continuar a compor e a cantar.

Em 1960 foi director do teatro universitário, actor, investigador das tradições do seu povo (folclore e instrumentos indígenas) e compositor.

A partir de 1963 foi membro da direcção do Instituto de Teatro da Universidade do Chile e professor da Escola de Teatro da mesma Universidade. Foi um dos fundadores do movimento da Nova Canção Chilena.

Em 1970 participou activamente na campanha presidencial de Salvador Allende, realizando recitais por todo o país.

Depois da vitória de Salvador Allende nas eleições presidenciais de 1970, Victor Jara assumiu um papel preponderante no desenvolvimento cultural e político do país. Foi embaixador cultural do governo de Unidade Popular, desde 1971 até à sua morte.

A sua morte

Na manhã do dia 11 de Setembro de 1973 Victor Jara, tendo tido conhecimento do golpe militar, dirigiu-se para a Universidade Técnica para se juntar aos estudantes, professores e pessoal administrativo que quiseram resistir ao golpe de Pinochet.

O Campus foi cercado por tropas do exército chjleno. A madrugada foi de terror, ouviam-se tiros e explosões por todos os lados. Os que tentaram escapar do cerco foram abatidos. Victor Jara procurou elevar a moral dos sitiados usando a sua melhor arma: o canto!

Na manhã do dia 12 de Setembro os tanques atacaram a universidade. Depois de uma luta desigual, os resistentes renderem-se. Reunidos no pátio, foram forçados a se deitarem no chão com as mãos atrás da cabeça e foram espancados.

Foram levados para o Estádio do Chile, transformado em campo de concentração. Victor Jara foi reconhecido por “El Príncipe”, um violento oficial que lhe disse:

- Che tu madre! Vos sois el cantor de pura mierda!

Antes que pudesse responder e numa tentativa para o salvar, vários amigos tentaram confundir o oficial, gritando que eles é que eram Vítor Jara. Mas este, num gesto de dignidade e de coragem, levantou o braço e cantou os primeiros versos de “Plegaria a un lavrador”, canção que anos antes e naquele mesmo estádio, o transformou no maior expoente do movimento folk do seu país.

Foi barbaramente agredido e conduzido para um local do estádio onde estavam os militantes mais “perigosos”. Quando o levaram para as arquibancadas o seu rosto estava todo cheio de sangue.

No dia 14 de Setembro, os prisioneiros começaram a ser transferidos. Victor Jara, pressentindo que estava perto do fim, pediu papel e lápis e, naquele inferno, escreveu o seu último poema:

Estadio Chile

Somos cinco mil
En esta pequeña parte de la ciudad.
Somos cinco mil
¿Cuántos seremos en total
en las ciudades y en todo el país?
¡Cuanta humanidad,
hambre, frío, pánico, dolor,
presión moral, terror y locura!
Somos diez mil manos menos que no producen
¿Cuántos somos en toda la Patria?
La sangre del compañero Presidente
golpea más fuerte que bombas y metrallas
Así golpeará nuestro puño nuevamente.

Deste poema foram feitas várias cópias manuscritas e distribuídas por vários prisioneiros, pouco antes de “El Principe” interceptar uma delas e, indignado com a audácia do poeta, insultou-o:

- Yo te endeñaré ahora, hijo de puta, a escribir canciones chilenas y no comunistas!

Vítor Jara foi arrastado para o centro do estádio, para cima de um palco e, a um sinal do oficial “El Príncipe”, dois soldados esmagaram as falanges dos seus dedos indefesos e deram-lhe, ainda, coronhadas na nuca.

- No estoy escuchando, hijo de puta! No vas a cantar, carajo? – gritou-lhe “El Principe”, enquanto atirava o violão para cima do corpo do compositor, caído no chão.

Victor Jara, no limite das suas forças, pôs-se de pé, levantou os braços e o que restava das suas mãos ensanguentadas e com o que lhe restava das suas forças, cantou a canção “Venceremos”, hino da Unidade Popular:


Venceremos, venceremos,
Mil cadenas habrá que romper,
Venceremos, venceremos,
La miseria sabremos vencer.

Campesinos, soldados, mineros
La mujer de la patria también,
Estudiantes, empleados y obreros,
Cumpliremos con nuestro deber.

Sembraremos las tierras de gloria,
Socialista será el porvenir,
Todos juntos haremos la historia,
A cumplir, a cumplir, a cumplir


Os outros prisioneiros, entre lágrimas de terror e revolta, começaram também a cantar. Foi esta a última vez que Victor Jara foi visto com vida.

 

Três dias depois, seis corpos desfigurados e baleados foram encontrados na periferia da cidade. Um deles, perfurado por 44 balas e múltiplas fracturas dos punhos e das mãos, era o corpo de Victor Jara.


Em 1990 a Comissão Verdade e Reconciliação concluiu que Victor Jara foi assassinado a 17 de Setembro de 1973 no Estádio do Chile. Os seus restos mortais descansam no Cemitério Geral.



(foto: cortesia do grupo FUNA)

Edward Dimter Bianchi (Alias "El Principe"). Teniente de Ejercito durante el Golpe militar. Culpable de tortura y muerte de presos politicos incluyendo Vicor Jara. Hoy es funcionario del Ministerio del Trabajo y se desempeña como Jefe del Departamento de  Control de Instituciones de la Superintendencia de AFP.

Lugar de Trabajo: HUÉRFANOS 1273; Email: edimte@safp.cl ; Telefonos: 7530400- 7530401

 

“El Príncipe”,  Edwin Dimter Bianchi – o oficial responsável pelo mais horrível "concerto" da história da América Latina – escondeu a sua identidade durante décadas. No dia 25 de Maio de 2006 foi descoberto pela FUNA, uma comissão que procura desmascarar e levar à justiça os principais responsáveis da ditadura chilena.

O assassino de Victor Jara e de muitos outros, Edwin Dimter Bianchi (foto acima) trabalha no Ministério do Trabalho do Chile, como chefe do Departamento de Controle das Instituições, num edifício localizado na Avenida Huérfanos, 1273.

Seu e-mail é edimte@safp.cl e os seus telefones são 7530400 e 7530401.

(Esta notícia foi publicada em 30 de Novembro de 2007).


José Gomes


quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Salvador Allende e o golpe no Chile







… Salvador Allende:



Os últimos dias de Salvador Allende e do Governo de Unidade Popular

O presidente do Chile, Salvador Allende, declarou logo após a sua eleição:

A história ensinou-nos que os grupos ultra-revolucionários não desistem do poder e lutam para conquistá-lo”.

Esta previsão, feita três anos antes, veio a tornar-se realidade no dia 11 de Setembro de 1973, data do golpe sangrento comandado por Augusto Pinochet.

 

4 de Setembro de 1972:

Salvador Allende denunciou, em vão, nas Nações Unidas, as tentativas norte-americanas de destabilização do Chile. A situação económica tornou-se catastrófica. O povo protestou em manifestações turbulentas. A organização da extrema-direita "País e Liberdade" tornou-se violenta. As mulheres protestaram contra a falta de alimentos básicos. Os camionistas organizaram um boicote na estrada, bloqueando o tráfego com milhares de camiões. A economia entrou em rotura...

11 de Setembro de 1973:

Em 11 de Setembro de 1973, as forças armadas chilenas, comandadas pelo general Augusto Pinochet e com o apoio e financiamento dos Estados Unidos, derrubaram o governo de Unidade Popular de Salvador Allende, democraticamente eleito 3 anos antes.

Neste dia e apesar dos vários pedidos feitos ao presidente Allende para renunciar ao cargo (e até lhe ofereceram, a ele e à sua família, refúgio no exterior!), este não aceitou a proposta dizendo, num discurso difundido pela rádio, na manhã de 11 de Setembro de 1973:

“ (…) Trabalhadores de minha Pátria, tenho fé no Chile e no seu destino. Outros homens hão-de superar este momento cinza e amargo em que a tradição pretende impor-se. Prossigam vocês, sabendo que, bem antes que o previsto, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor. Viva o Chile! Viva o Povo! Viva os Trabalhadores! Estas são minhas últimas palavras e tenho a certeza que o meu sacrifício não será em vão. Tenho a certeza que, pelo menos, será uma lição moral que castigará a deslealdade, a covardia e a traição."

(Últimas palavras de Salvador Allende à Nação, Pouco minutos passavam das 9 horas, da manhã do dia 11 de Setembro de 1973).

Cercados no palácio presidencial e bombardeados pela Força Aérea, Allende e alguns colaboradores leais resistiram de armas na mão. Foram todos mortos em circunstâncias até hoje desconhecidas.

O exército chileno - liderado por Augusto Pinochet - não teve qualquer humanidade com os militantes do Partido da Unidade Popular. A repressão militar foi vingativa e intolerante.

 

Trinta mil pessoas foram assassinadas e mais de cem mil pessoas presas e torturadas.

 

Foram 17 longos anos que durou a ditadura de Pinochet. Este morreu em Dezembro de 2006 sem nunca ter sido julgado pelos seus crimes.


Homenagem ao Povo do Chile


Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro.

Nas suas almas abertas
traziam o sol da esperança
e nas duas mãos desertas
uma pátria ainda criança.

Gritavam Neruda Allende
davam vivas ao Partido
que é a chama que se acende
no povo jamais vencido.
- o povo nunca se rende
mesmo quando morre unido.

Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro.

Alguns traziam no rosto
um rictus de fogo e dor
fogo vivo fogo posto
pelas mãos do opressor.
Outros traziam os olhos
rasos de silêncio e água
maré-viva de quem passa
uma vida à beira-mágoa.

Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro.

Mas não termina em si próprio
quem morre de pé. Vencido
é aquele que tentar
separar o povo unido.
Por isso os que ontem caíram
levantam de novo a voz.
Mortos são os que traíram
e vivos ficamos nós.

Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que nasceram para o Chile
morrendo de corpo inteiro.


José Carlos Ary dos Santos