quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Bom Ano Novo

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2008 está aí à porta...

Nesta altura quero dirigir a todos os meus amigos os meus votos para que 2008 seja o ano da DIFERENÇA, o ano da MUDANÇA, o ano da SOLIDARIEDADE, o ano em que a PAZ invada, finalmente, esta NAVE que tão mal tratada tem sido...

Para todos vós, muita saúde!
Para todos vós, a minha esperança no FUTURO!
Para todos vós, a...

RECEITA DE ANO NOVO

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de Janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade



quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Natal...

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Com os meus votos de um Feliz Natal:



O filho do homem


O mundo parou
A estrela morreu
No fundo da treva
O infante nasceu.

Nasceu num estábulo
Pequeno e singelo
Com boi e charrua
Com foice e martelo

Ao lado do infante
O homem e a mulher
Uma tal Maria
Um José qualquer.

A noite o fez negro
Fogo o avermelhou
A aurora nascente
Todo o amarelou.

O dia o fez branco
Branco como a luz
À falta de um nome
Chamou-se Jesus.

Jesus pequenino
Filho natural
Ergue-te, menino
É triste o Natal.

Vinicius de Moraes


domingo, 9 de dezembro de 2007

Bom Natal (?!!!!)...



BOM NATAL! BOM ANO NOVO!
(Discurso que sempre se repete, mas que nunca se cumpre)


Natal

Menino dormindo... / Silêncio profundo. /
Benvindo, benvindo, / Salvador do Mundo!
Noite. Noite fria. / Mas que lindo que é! /
De um lado Maria. / Do outro José. /
Um anjo descerra / A ponta do véu... /
E cai sobre a Terra / A imagem do Céu!
[1]

Este poema foi escrito naquele tempo em que todos nós – crianças e adultos – sentíamos ainda o Espírito de Natal. Nos dias de hoje, Natal não passa de uma mera “palavra”, com significado igual ao daqueles dias de "qualquer coisa" que se comemoram nos 365 dias do ano.

Em Dezembro, as luzes coloridas dão novas cores e novos ritmos às árvores, às varandas, aos portais e às janelas das casas. No ar paira um espírito de festa, de uma pseudo-alegria e de mistério. As músicas natalícias ouvem-se em cada canto e esquina, adormecendo a razão de quem as escuta.

Toda a gente – rica e pobre - se acotovela diante dos escaparates e das montras deslumbrantes... Multidões irrompem pelas lojas, subjugadas aos deuses do consumismo, inebriadas pelas coisas inúteis que compram sem pensar e muito menos sem precisar...

Neste mês finge-se que tudo é diferente:

— Diz-se “Bom dia”, com um sorriso no rosto, ao vizinho... – que é ignorado todo o resto do ano!

— Olha-se para os idosos com mais respeito e com um sorriso nos lábios, dá-se-lhes um pouco mais de carinho, de atenção, de amizade... - para, durante o resto do ano, continuar-se a ignorar a sua existência!

— Para os pobrezinhos, os “sem abrigo”, os marginalizados, os indigentes, os doentes... lá estão os nossos “primeiros”, “segundos” e “terceiros” a dar-lhes a anual “sopa de pedra”, entre um sorriso e um piscar de olhos ternurento (mas só para as câmaras dos média os focarem num grande primeiro plano!)... e, durante o resto do ano, continuam a ignorar que estes (pobrezinhos, “sem abrigo”, marginalizados, indigentes, doentes) existem e que continuam a precisar de comer, vestir, dormir e, sobretudo, de um trabalho que lhes permitam sobreviver com dignidade!

Por isso dei por mim a pensar...

Ø Na “Balada de Neve” de Augusto Gil, naqueles pezinhos de criança, no frio e na dor que sente ao caminhar...

Ø No poema de Ary dos Santos que, ontem como hoje, ilustra bem o “faz de conta” desta época que estamos a viver: “Tu que dormes a noite na calçada ao relento / Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento / Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento / És meu irmão amigo / És meu irmão / (...) [2].

Mas o tempo avança inexoravelmente e as pessoas continuam a caminhar, atarefadas, sem ter tempo, sequer, de olhar para o lado...

A época natalícia sucede-se ano após ano, com os mesmos gestos, os mesmos fracassos e as mesmas promessas. Fala-se de Fraternidade Universal, fala-se do Criador, fala-se de Jesus que nasceu numa manjedoura... Mas porque não se fala num Jesus mais adaptado a este mundo real?

Natal

Nasceu! / Numa garagem abandonada, coberta de chapa de zinco, / e num caixote velho de latas de óleo, / Entre desperdícios sujos e usados, / Nossa Senhora e S. José tinham vindo pela estrada, / Os pés no asfalto negro, onde circulam carros de luxo: / Pedir boleia, pediram, mas ninguém viu ou quis ver, / Ou escutar o gesto...

Iam apressados para a ceia da noite, / Desbragada como um conta-quilómetros / E cheia de neblina e promessas.

Nasceu!

Num caixote velho de latas de óleo, / Entre desperdícios sujos e usados.

(...) [3]

Finalmente é chegado o dia de Natal!...

"Hoje é dia de ser bom. / É dia de passar a mão pelo rosto das crianças / De falar e de ouvir com mavioso tom, / de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças".

"É dia de pensar nos outros - coitadinhos - nos que padecem, / de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria, / De perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem, / de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria"

(...) [4].

Milhares de mensagens vão atravessar o ciberespaço nas vésperas e no dia de Natal, compondo coisas lindas nos mais de 10 milhões de telemóveis que inundam este país de contradições e do faz de conta!... para gáudio das operadoras que, assim, vêem os seus lucros subirem em flecha!

Este mesmo ritual vai-se repetir na noite de 31 de Dezembro!... Desta vez regado com espumante e ao som das 12 badaladas da meia noite, como manda a tradição! Frases, pensamentos, mensagens (melhor ou pior elaboradas) vão ser trocadas num desejo mútuo de tudo de Bom, muita Saúde, Paz, Fraternidade e Amor...

Mas a velha dúvida persegue-me!... e interrogo-me, o que como será possível desejar em 2008...

Tudo de Bom...
— se irão subir as rendas de casa, a electricidade, as portagens, os táxis, a água, os transportes públicos, o pão, sei lá que mais!!!...

Tudo de Bom...
— se vão continuar as falências, os despedimentos, o desemprego!!!...

Muita Saúde...
- com o sistema de saúde que temos!!! Com a maioria do nosso povo a auferir um salário mínimo inferior a 450 euros!!! Serão suficientes para pagar os medicamentos, os honorários dos médicos, os tratamentos, os internamentos?!!!...

Paz...
- com tanta instabilidade e tantas guerras à nossa volta e sem qualquer vontade política de lhes pôr fim?!!!...

Fraternidade...
- se impera a lei da selva na nossa sociedade, do vale tudo, da competitividade desenfreada e sem regras...

Desejar Amor para 2008...
- se nem sequer há tempo para se DAR e muito menos para se poder COMPARTILHAR?!!!...

José Gomes


[1] - “Natal”, poema de Pedro Homem de Mello.

[2] - Excerto de “Quando um Homem Quiser”, poema de Ary dos Santos.

[3] - Excerto do poema “Natal”, escrito na noite de Natal de 1952, pelo poeta Amândio César.

[4] - Excerto de “Dia de Natal”, poema de António Gedeão.





segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Natal - Pedro Homem de Mello




No Sábado passado lembrei-me de Pedro Homem de Mello. Li estes dois poemas... bonitos, mas tão simples como ele sempre foi:

O Presépio

Duas tábuas...
E era um berço!

Estaria Deus lá dentro?

Tudo escuro...
E alumiava!

Fomos a ver...
E lá estava!

Pedro Homem de Mello


Natal

Menino dormindo...
Silêncio profundo.
Benvindo, benvindo,
Salvador do Mundo!

Noite. Noite fria.
Mas que linda que é!
De um lado Maria.
Do outro José.

Um anjo descerra
A ponta do véu...
E cai sobre a Terra
A imagem do Céu!

Pedro Homem de Mello