domingo, 21 de outubro de 2007

António Aleixo

Estátua António Aleixo

Hoje acordei com as “Quadras do Poeta Aleixo” a entoarem nos meus ouvidos.

Peguei no livro deste poeta popular e escolhi estas quadras… embaladas pela voz de Francisco Fanhais:

Quadras de António Aleixo


Os meus versos o que são?

Devem ser, se os não confundo,

Pedaços do coração

Que deixo cá, neste mundo.

Este livro que vos deixo

E que a minha alma ditou,

Vos dirá como o Aleixo

Viveu, sentiu e pensou.

Eu não tenho vistas largas,

Nem grande sabedoria,

Mas dão-me as horas amargas

Lições de filosofia.

Eu não sei porque razão

Certos homens, a meu ver,

Quanto mais pequenos são

Maiores querem parecer.

P'ra a mentira ser segura

E atingir profundidade,

Tem de trazer à mistura

Qualquer coisa de verdade.

Tu, que tanto prometeste

Enquanto nada podias,

Hoje que podes – esqueceste

Tudo quanto prometias...

Metade do mundo come

À custa de outra metade;

Viver com honestidade

É abrir portas à fome...

É triste que a gente veja

Tanta gente que não come:

O pão que a muitos sobeja

Matava bem essa fome...

Quem trabalha e mata a fome

Não come o pão de ninguém;

Quem não ganha o pão que come,

Come sempre o pão de alguém!

Sei que pareço um ladrão...

Mas há muitos que eu conheço,

Que, não parecendo o que são,

São aquilo que eu pareço.

A arte é força imanente,

Não se ensina, não se aprende,

Não se compra, não se vende,

Nasce e morre com a gente.

A arte é dom de quem cria;

Portanto não é artista

Aquele que só copia

As coisas que tem à vista.

A arte em nós se revela

Sempre de forma diferente:

Cai no papel ou na tela

Conforme o artista sente.

Só a Arte tem o poder

De a todos nós transmitir

O que todos podem ver,

Mas poucos podem sentir.

Uma mosca sem valor

Poisa, c'o a mesma alegria,

Na careca de um doutor

Como em qualquer porcaria.

Riem d'outras com desdém

Certas damas bem vestidas;

Quantas, para vestir bem,

Se despem às escondidas!

Há tantos burros mandando

Em homens de inteligência,

Que às vezes fico pensando

Que a burrice é uma ciência!

...E assim, lição por lição,

Que a pouco e pouco aprendemos

De outros – a outros daremos,

Que a muitos outros darão!


Uma mini biografia de António Aleixo:

António Fernandes Aleixo, nome completo de um dos poetas populares algarvios de maior relevo, nasceu em Vila Real de Santo António a 18/Fev. 1899.

As suas quadras ficaram famosas pela ironia e pela crítica social sempre presente em seus versos. “
Também é recordado por ter sido simples, humilde e semi-analfabeto e mesmo assim ter deixado como legado uma obra poética singular no panorama literário português da primeira metade do século XX.” – Wikipédia.

Fez um pouco de tudo nos 50 anos que por cá passou: foi tecelão, guarda da P.S.P, servente de pedreiro, trabalho este que também exerceu em França, para onde emigrou.


Voltou a Portugal e estabeleceu-se em Loulé, onde passou a vender cautelas e a cantar as suas produções nas feiras, actividades essas que se juntaram ao seu rol de profissões.


Faleceu vitimado por tuberculose em 16 de Novembro de 1949.

José Gomes


16 comentários:

  1. Mais um post admir�vel. Connheci bem a esposa de Ant�nio Aleixo. Morou aqui perto do local de onde te estou a escrever. Quanto � escultura da foto,encontra-se numa das avenidas de Loul� na esplanada do caf� Calcinha. A� tomo caf� algumas vezes com o poeta ao lado. O professor que o divulgou, era do Porto, o Dr. Joaquim Magalh�es, meu professor, amigo, colega, algarvio de adop�o.De Aleixo, gosto de tudo e do Francisco Fanhais fiquei a gostar desde que o ouvi no Zip Zip.Nunca mais o esqueci.
    Obrigada amigo, por me teres trazido, esta noite, um amigo algarvio. Um Grande Poeta!
    Beijinhosss

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  2. Excelente post! É sempre bom reler António Aleixo:)
    Beijos

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  3. adoro as quadras de antonio aleixo...
    e assim cantadas, melhor ainda!
    obrigada pela partilha!

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  4. Boa noite aqui de São Paulo
    Cheguei aqui por meio de Diálogos Lusófonos

    parabéns pelo belo blog, estou a gostar bastante
    do que aqui encontrei

    Constança Lucas

    http://constancalucas.blog.uol.com.br/

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  5. Quanta verdade nas palavras de António Aleixo agora mais refinadas na voz de Fanhais.



    Um abraço

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  6. Encontro esse senhor todos dias ...!
    Parabéns pelo post ...!

    Uma Boa Semana!
    Um abraço da M&M & Cª!

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  7. Agradeço os comentários que deixaram aqui.
    Eis o que faz escrever estas coisas em cima dos joelhos, esqueci a legenda da fotografia que inseri! Estátua de António Aleixo em Loulé. As minhas desculpas pelo esquecimento!!!
    Uma boa semana.
    José Gomes

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  8. Sou um dos felizardos que fez música original para quadras do Aleixo, cantadas pela Luisa Basto.
    Hiii... foi há tanto tempo!...
    Bom post!

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  9. Li estas quadras cantando com o Fanhais..... que por acaso (?) esteve presente na homenagem ao Adriano no passado sábado, na Voz do Operário...

    Abraço

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  10. Sempre me encantou a poesia simples e tão verdadeira, actual e viva. Um belo post, sem dúvida alguma! Um beijo.

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  11. gosto muito de Aleixo. Caqda quadra é um tratado de filosofia. E cantado por Fanhais...
    Sobre as tuas "alegadas" confusõpes...Cuide-se quem as não sentir.
    Quando puderes passa no Eremitério
    http://eremiterioblogspot.blogspot.com/
    Tens um prémio virtual, mas nem tanto, a levantar.
    Fraterno abraço.

    ResponderEliminar
  12. gosto muito de Aleixo. Caqda quadra é um tratado de filosofia. E cantado por Fanhais...
    Sobre as tuas "alegadas" confusõpes...Cuide-se quem as não sentir.
    Quando puderes passa no Eremitério
    http://eremiterioblogspot.blogspot.com/
    Tens um prémio virtual, mas nem tanto, a levantar.
    Fraterno abraço.

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  13. Ao amigo "Eremita"

    Quero agradecer a tua distinção mas, como já disse a outros amigos que me quiseram oferecer o "Prémio Blog Solidário", que não me sinto merecedor desta distinção. Os meus "trabalhos" ???) não passam da expressão daquilo que sinto. Não faço metade do que deveria fazer para que esta Terra, em todos os sentidos, entrasse nos eixos. Ser solidário, meu amigo, será contribuir com todas as nossas forças para construir um mundo novo! Nestes longos anos em que faço a minha Caminhada ainda não vislumbro a luz desse mundo apesar das palavras que por aqui vos deixo e das lutas que tenho travado!
    Por tudo isso, agradeço a distinção mas continuo a pensar que não mereço tal.
    Um abraço, meu amigo.
    José Gomes

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  14. É um prazer ler Aleixo. A actualidade dos seus versos torna-o a verdadeira voz do nosso povo.
    Um bjinho e uma flor

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  15. diogo simoes24/5/11 09:38

    obrigado pela sua infurmaçao deu me jeito para um trabalho

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