quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Don Miguel de Unamuno

Don Miguel de Unamuno

(Espanha, 1864-1936)



Um Homem

Era o dia 12 de Outubro de 1936. O salão nobre da Universidade de Salamanca estava repleto. As mais altas patentes militares e demais autoridades franquistas, ali se juntaram com suas esposas, ao general Franco e sua esposa.

Celebravam o dia da raça. Pouco tempo antes Federico Garcia Lorca tinha sido fuzilado.

O Reitor da Universidade era, então, o mais prestigiado dos pensadores espanhóis e grande amigo de Lorca: Don Miguel de Unamuno.

A dada altura o general Millán Astray tomou a palavra. E, logo começou a sua alocução amaldiçoando os “bandos de republicanos e comunistas” que se opunham a Franco intitulando-os de “cancro espanhol”. Prometendo raivosamente que o fascismo “exterminaria aquele cancro passando-os a todos pelas armas” terminando a sua alocução com um “Viva La Muerte!

O Reitor escutando aquele slogan desvairado enaltecendo a luta contra a vida, ergueu-se. Virou-se para o general Astray e disse-lhe que não poderia permitir que fossem, uma grande parte dos espanhóis, vilipendiados na sua presença. E que também não aceitaria que em plena casa da sabedoria viessem aclamar a morte, com um “brado necrófilo e insensato”. Atribuindo aquele desvario todo ao facto do general ser um ignorante destituído da “grandeza moral de Cervantes”.

Ao escutar as derradeiras palavras do Reitor, o general Astray furioso e de pé, fazendo a saudação fascista, bradou: “abajo la inteligencia” complementando com um “viva la muerte”.

O Reitor virou-se novamente para ele e sem poder conter já a indignação disse-lhe:

Este é o templo da inteligência. E eu sou o sacerdote mais alto. Sois vós que profanais este sagrado recinto. Vencereis porque possuís a força bruta. Vencereis mas não convencereis porque para tanto vos falta a razão, o direito e o poder moral”.

E no meio de um silêncio constrangedor daquela multidão uniformizada que repentinamente emudecera, o Reitor retirou-se do salão.

Passados pouco mais de dois meses, a 31 de Dezembro desse mesmo ano de 1936, detido, coberto de humilhações, afundado na maior tristeza, morria também, tal como Federico Garcia Lorca às mãos do fascismo, este outro poeta e figura maior da inteligência mundial: Don Miguel de Unamuno.



- Texto cedido por José Silva (joseasilva@sapo.pt).




Don Miguel de Unamuno foi um escritor, pensador e filósofo espanhol, que nasceu e foi educado em Bilbau, num ambiente familiar tipicamente católico e puritano.

Fez os seus estudos universitários em Madrid (1880-1883) e foram as suas pesquisas e leituras de filósofos europeus (Carlyle, Spencer, Hegel, Marx) que contribuíram para o desenvolvimento de um idealismo racionalista. Desde 1981, ano em que ganhou a cátedra de grego na Universidade de Salamanca, que alternava o ensino com um intenso trabalho como jornalista.

Aderiu ao socialismo e deu a sua colaboração ao jornal de Bilbau “La lucha de clases”. No seu primeiro livro, “En torno al casticismo” (1895), tentou dar uma interpretação à alma espanhola. Desde então e até 1897 mergulhou numa profunda crise pessoal, existencial e religiosa, que foi fundamental para a evolução do seu pensamento.

Em 1921 foi nomeado reitor da Universidade de Salamanca. Perseguido em 1924 pelos seus ataques ao rei e ao ditador Primo de Rivera, foi para Paris e permaneceu em Hendaya (no lado francês da fronteira com Espanha) de 1925 a 1930.

Criada a República Espanhola em 1930, foi eleito deputado às Cortes por Salamanca e reintegrado na reitoria da Universidade, ao qual veio a renunciar em Outubro de 1936, no primeiro ano da guerra civil.

Depois do episódio acima descrito, Don Miguel de Unamuno passou os seus últimos meses em prisão domiciliária na sua casa em Salamanca, onde viria a morrer em 31 de Dezembro de 1936.

(tradução livre do artigo de Beth Groeneman)






4 comentários:

  1. Venho convidar o Amigo a passar pelo "Beja" e receber o prémio "Blog Solidário" que lhe foi atribuído.

    Um abraço

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  2. Lendo o teu post tive a sensação que a troca de palavras no salão nobre da universidade de Salamanca já tinha sido há muito tempo...
    ... afinal, historicamente falando, foi apenas anteontem...

    Temos que continuar alerta para este (ou outro) tipo de "discursos" que nos ferem a consciência democrática...

    Abraço

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  3. Mais um daqueles posts que nos convidam a uma segunda leitura. Os tempos seguem mas h� mentalidades que n�o evoluem e temos de estar atentos.Neste Miguel e no de Cervantes foi o nosso grande Torga buscar o primeiro nome do seu pseud�nimo.
    Tem um bom domingo, amigo!
    Continua a deliciar-nos com estes posts e a acordar mem�rias.
    Beijinhos!

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  4. Gostei de recordar umas coisas e aprender outras.
    Até breve.

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