terça-feira, 30 de outubro de 2007

Teixeira de Pascoais



Teixeira de Pascoaes (Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos) nasceu em Amarante, a 2 de Novembro de 1877, e faleceu em São João de Gatão, Amarante, a 14 de Dezembro de 1952.

Teixeira de Pascoaes fez o curso oficial no Liceu Nacional de Amarante, tendo partido para Coimbra em 1896, com 18 anos, para se matricular no curso de Direito, que concluiu em 1901.

Nunca se adaptou à vida normal coimbrã seguida pelos estudantes de então, confinando-se ao seu quarto, aos seus livros, aos seus papéis e às suas ruminações de homem que "não fora feito para este mundo" (Jacinto do Prado Coelho). "O seu coração", observa ainda Prado Coelho, "apenas devia palpitar pela virgem que nunca existiu e de que tem saudades, vaga aspiração de azul e de inocência. O verdadeiro amor de Pascoaes dirigia-se à natureza, ao silêncio, ao mistério, aos fantasmas. O mundo fantástico era o seu mundo".

Durante a passagem por Coimbra, fez alguns amigos como Fausto Guedes Teixeira, Augusto Gil, João Lúcio e Afonso Lopes Vieira.

Em 1901 começou a exercer advocacia, em Amarante. Neste ano conheceu o pensador espanhol Miguel de Unamuno. (ver post: Don Miguel de Unamuno ) A partir de 1906, exerceu advocacia no Porto, onde conheceu Leonardo Coimbra, Jaime Cortesão e Raul Brandão, entre outros. Em 1910, foi um dos fundadores da revista A Águia, órgão do movimento da Renascença Portuguesa, sociedade cultural que tinha por fim "restituir Portugal à consciência dos seus valores espirituais próprios". Nesta publicação que dirigiu entre 1912 e 1917, Teixeira de Pascoaes pretendeu inculcar a saudade como "expressão superior da alma portuguesa", nas suas duas vertentes de lembrança e desejo, afirmando-se como grande teorizador do saudosismo.

Em 1911, foi nomeado juiz substituto em Amarante, cargo que exerceu durante dois anos, dando por finda, a sua carreira judicial, em 1913, ano em que se fixou no solar da família em S. João de Gatão.

Foi homenageado, em 1951, pela Academia de Coimbra e está traduzido para várias línguas. Faleceu em São João de Gatão, Amarante, a 14 de Dezembro de 1952.


A sua obra literária mais significativa:

Poesia:


Sempre -1898;
À Minha Alma -1898;
Terra Proibida -1899;
Vida Etérea -1906;
As Sombras -1907;
Marânus -1911;
Regresso ao Paraíso -1912;
Elegias -1912;
O Doido e a Morte -1913;
Contos Indecisos -1921;
Sonetos -1925;
Cânticos -1925.

Prosa:

O Espírito Lusitano ou o Saudosismo - 1912;
O Génio Português na sua Expressão Filosófica, Política e Religiosa -1913;
A Era Lusíada - 1914;
O Penitente - 1942


Dos seus poemas escolhi:


A MÁSCARA

Esta luz animada e desprendida –

Duma longínqua estrela misteriosa

Que, vindo reflectir-se em nosso rosto,

Acende nele estranha claridade;

Esta lâmpada oculta, em nossa máscara

Tornada transparente e radiante

De alegria, de dor ou desespero

E de outros sentimentos emanados

Do coração dum anjo ou dum demónio;

Este retrato ideal e verdadeiro,

Composto de alma e corpo e de que somos

A trágica moldura, errando à sorte,

E ela, é ela, a nossa aparição,

Feita de estrelas, sombras, ventanias

E séculos sem fim, surgindo, enfim,

Cá fora, sobre a Terra, à luz do Sol.

Teixeira de Pascoaes


José Gomes



domingo, 21 de outubro de 2007

António Aleixo

Estátua António Aleixo

Hoje acordei com as “Quadras do Poeta Aleixo” a entoarem nos meus ouvidos.

Peguei no livro deste poeta popular e escolhi estas quadras… embaladas pela voz de Francisco Fanhais:

Quadras de António Aleixo


Os meus versos o que são?

Devem ser, se os não confundo,

Pedaços do coração

Que deixo cá, neste mundo.

Este livro que vos deixo

E que a minha alma ditou,

Vos dirá como o Aleixo

Viveu, sentiu e pensou.

Eu não tenho vistas largas,

Nem grande sabedoria,

Mas dão-me as horas amargas

Lições de filosofia.

Eu não sei porque razão

Certos homens, a meu ver,

Quanto mais pequenos são

Maiores querem parecer.

P'ra a mentira ser segura

E atingir profundidade,

Tem de trazer à mistura

Qualquer coisa de verdade.

Tu, que tanto prometeste

Enquanto nada podias,

Hoje que podes – esqueceste

Tudo quanto prometias...

Metade do mundo come

À custa de outra metade;

Viver com honestidade

É abrir portas à fome...

É triste que a gente veja

Tanta gente que não come:

O pão que a muitos sobeja

Matava bem essa fome...

Quem trabalha e mata a fome

Não come o pão de ninguém;

Quem não ganha o pão que come,

Come sempre o pão de alguém!

Sei que pareço um ladrão...

Mas há muitos que eu conheço,

Que, não parecendo o que são,

São aquilo que eu pareço.

A arte é força imanente,

Não se ensina, não se aprende,

Não se compra, não se vende,

Nasce e morre com a gente.

A arte é dom de quem cria;

Portanto não é artista

Aquele que só copia

As coisas que tem à vista.

A arte em nós se revela

Sempre de forma diferente:

Cai no papel ou na tela

Conforme o artista sente.

Só a Arte tem o poder

De a todos nós transmitir

O que todos podem ver,

Mas poucos podem sentir.

Uma mosca sem valor

Poisa, c'o a mesma alegria,

Na careca de um doutor

Como em qualquer porcaria.

Riem d'outras com desdém

Certas damas bem vestidas;

Quantas, para vestir bem,

Se despem às escondidas!

Há tantos burros mandando

Em homens de inteligência,

Que às vezes fico pensando

Que a burrice é uma ciência!

...E assim, lição por lição,

Que a pouco e pouco aprendemos

De outros – a outros daremos,

Que a muitos outros darão!


Uma mini biografia de António Aleixo:

António Fernandes Aleixo, nome completo de um dos poetas populares algarvios de maior relevo, nasceu em Vila Real de Santo António a 18/Fev. 1899.

As suas quadras ficaram famosas pela ironia e pela crítica social sempre presente em seus versos. “
Também é recordado por ter sido simples, humilde e semi-analfabeto e mesmo assim ter deixado como legado uma obra poética singular no panorama literário português da primeira metade do século XX.” – Wikipédia.

Fez um pouco de tudo nos 50 anos que por cá passou: foi tecelão, guarda da P.S.P, servente de pedreiro, trabalho este que também exerceu em França, para onde emigrou.


Voltou a Portugal e estabeleceu-se em Loulé, onde passou a vender cautelas e a cantar as suas produções nas feiras, actividades essas que se juntaram ao seu rol de profissões.


Faleceu vitimado por tuberculose em 16 de Novembro de 1949.

José Gomes


quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Don Miguel de Unamuno

Don Miguel de Unamuno

(Espanha, 1864-1936)



Um Homem

Era o dia 12 de Outubro de 1936. O salão nobre da Universidade de Salamanca estava repleto. As mais altas patentes militares e demais autoridades franquistas, ali se juntaram com suas esposas, ao general Franco e sua esposa.

Celebravam o dia da raça. Pouco tempo antes Federico Garcia Lorca tinha sido fuzilado.

O Reitor da Universidade era, então, o mais prestigiado dos pensadores espanhóis e grande amigo de Lorca: Don Miguel de Unamuno.

A dada altura o general Millán Astray tomou a palavra. E, logo começou a sua alocução amaldiçoando os “bandos de republicanos e comunistas” que se opunham a Franco intitulando-os de “cancro espanhol”. Prometendo raivosamente que o fascismo “exterminaria aquele cancro passando-os a todos pelas armas” terminando a sua alocução com um “Viva La Muerte!

O Reitor escutando aquele slogan desvairado enaltecendo a luta contra a vida, ergueu-se. Virou-se para o general Astray e disse-lhe que não poderia permitir que fossem, uma grande parte dos espanhóis, vilipendiados na sua presença. E que também não aceitaria que em plena casa da sabedoria viessem aclamar a morte, com um “brado necrófilo e insensato”. Atribuindo aquele desvario todo ao facto do general ser um ignorante destituído da “grandeza moral de Cervantes”.

Ao escutar as derradeiras palavras do Reitor, o general Astray furioso e de pé, fazendo a saudação fascista, bradou: “abajo la inteligencia” complementando com um “viva la muerte”.

O Reitor virou-se novamente para ele e sem poder conter já a indignação disse-lhe:

Este é o templo da inteligência. E eu sou o sacerdote mais alto. Sois vós que profanais este sagrado recinto. Vencereis porque possuís a força bruta. Vencereis mas não convencereis porque para tanto vos falta a razão, o direito e o poder moral”.

E no meio de um silêncio constrangedor daquela multidão uniformizada que repentinamente emudecera, o Reitor retirou-se do salão.

Passados pouco mais de dois meses, a 31 de Dezembro desse mesmo ano de 1936, detido, coberto de humilhações, afundado na maior tristeza, morria também, tal como Federico Garcia Lorca às mãos do fascismo, este outro poeta e figura maior da inteligência mundial: Don Miguel de Unamuno.



- Texto cedido por José Silva (joseasilva@sapo.pt).




Don Miguel de Unamuno foi um escritor, pensador e filósofo espanhol, que nasceu e foi educado em Bilbau, num ambiente familiar tipicamente católico e puritano.

Fez os seus estudos universitários em Madrid (1880-1883) e foram as suas pesquisas e leituras de filósofos europeus (Carlyle, Spencer, Hegel, Marx) que contribuíram para o desenvolvimento de um idealismo racionalista. Desde 1981, ano em que ganhou a cátedra de grego na Universidade de Salamanca, que alternava o ensino com um intenso trabalho como jornalista.

Aderiu ao socialismo e deu a sua colaboração ao jornal de Bilbau “La lucha de clases”. No seu primeiro livro, “En torno al casticismo” (1895), tentou dar uma interpretação à alma espanhola. Desde então e até 1897 mergulhou numa profunda crise pessoal, existencial e religiosa, que foi fundamental para a evolução do seu pensamento.

Em 1921 foi nomeado reitor da Universidade de Salamanca. Perseguido em 1924 pelos seus ataques ao rei e ao ditador Primo de Rivera, foi para Paris e permaneceu em Hendaya (no lado francês da fronteira com Espanha) de 1925 a 1930.

Criada a República Espanhola em 1930, foi eleito deputado às Cortes por Salamanca e reintegrado na reitoria da Universidade, ao qual veio a renunciar em Outubro de 1936, no primeiro ano da guerra civil.

Depois do episódio acima descrito, Don Miguel de Unamuno passou os seus últimos meses em prisão domiciliária na sua casa em Salamanca, onde viria a morrer em 31 de Dezembro de 1936.

(tradução livre do artigo de Beth Groeneman)






domingo, 14 de outubro de 2007

Adriano Correia de Oliveira


Adriano Correia de Oliveira

25 anos depois da sua partida


  • Adriano Correia de Oliveira nasceu no Porto a 9 de Abril de 1942;
  • Meses depois foi morar para Avintes, na Quinta das Porcas, local pitoresco do Rio Douro.
  • Fez a instrução primária em Avintes, entre 1948 e 1952.
  • Fez o Curso Liceal no Liceu Alexandre Herculano (entre 1952-59), no Porto, tendo-se revelado um bom aluno.
  • Em 1957 foi fundada a União Académica de Avintes (UAA), da qual foi um dos fundadores; iniciou-se no Teatro Amador; a UAA tinha uma forte vertente desportiva, sendo uma das suas primeiras iniciativas a construção de um campo de voleibol.
  • Adriano acompanhou esta equipa desde os campeonatos regionais até à consagração de campeões nacionais da I Divisão.
  • Em 1959, com 17 anos de idade, matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra; tornou-se atleta da secção de Voleibol na AAC (Associação Académica de Coimbra); integrado no Conjunto Ligeiro da Tuna Académica, abrilhantou bailes de estudantes, cantando e tocando guitarra eléctrica, ao lado de José Niza, José Cid, Proença de Carvalho, e outros...
  • Apesar de caloiro, foi primeiro tenor no Orfeão Académico de Coimbra; fez também parte do Grupo Universitário de Danças Regionais da AAC; integrou o CITAC (Círculo de Iniciação Teatral de Coimbra), onde foi actor e participou em várias peças; iniciou-se no fado, acompanhando o Grupo Eduardo Melo, nas serenatas pelas noites frias das ruas da cidade de Coimbra.
  • Em 1960, foi campeão regional de Voleibol da II Divisão; gravou o seu primeiro disco “Noite de Coimbra”, acompanhado pelas guitarras de António Portugal, Jorge Martinho e Durval Meirinhas; serenata nos Jardins da A. A. Coimbra.
  • Foi, principalmente, o Orfeão Académico de Coimbra que proporcionou a Adriano o contacto com alguns dos melhores intérpretes e renovadores do fado de Coimbra.
  • Nas digressões feitas pelo Orfeão Académico de Coimbra, desde 1961 Adriano conviveu, actuou e sofreu, naturalmente, a influência de Zeca Afonso, Machado Soares, José Niza, entre outros.

No Campo Político:

  • Desde 1960 que Coimbra era palco de lutas desenvolvidas pelos estudantes, no sentido de se construir uma Academia Livre, Isenta, Justa, Democrática, um baluarte da Paz e da Igualdade.
  • Adriano Correia de Oliveira participou activamente nas lutas travadas pelo movimento associativo académico, que viria a culminar nas greves académicas de 1962.
  • Em 1963 agarrou um poema de Manuel Alegre e gravou aquele que seria o hino de resistência de uma geração, quiçá das gerações futuras: “Trova do Vento Que Passa”.
  • Os poemas que canta mobilizam e agitam quem os ouve.
  • Nos inícios de 1964, a voz de Adriano é já um apelo de combate; numa festa de recepção aos caloiros, na Faculdade de Medicina de Lisboa, Adriano cantou, pela primeira vez em público, “Trova do Vento que Passa”.
  • Uma onda de viragem começou a correr o País. A Poesia veio para a rua e com as vozes de Adriano Correia de Oliveira, Zeca Afonso; Francisco Fanhais; Luís Cília; Manuel Freire (entre outros), a cantiga tornou-se uma arma!
  • A voz e as canções de Adriano Correia de Oliveira denunciaram a Guerra Colonial, a injustiça e a opressão. A sua presença está ligada a toda uma luta estudantil, operária e camponesa contra a ditadura, a guerra colonial e a falta da Liberdade, desde a década de 60 até ao 25 de Abril.
  • Músicos e vozes como Adriano Correia de Oliveira, Zeca Afonso, José Niza, Rui Pato, António Portugal, Machado Soares, entre tantos outros, transformaram a canção numa arma contra a ditadura, uma forma de mobilização de consciências que deram origem ao PAÍS DE ABRIL.

Adriano partiu!... mas não devemos deixar cair nas brumas do esquecimento que foi com os seus sonhos, as suas canções, a sua voz e a sua generosidade que ajudou a construir este País de Abril.

Recordar-te aqui hoje, Adriano, como amanhã em qualquer ponto deste País, é manter-te bem vivo e actuante, é empunhar uma bandeira de esperança, é continuar a lutar por um Portugal, mais livre, mais fraterno, mais justo e mais solidário, tal qual como tu o sonhaste.

É esta a homenagem que te posso fazer, amigo Adriano.


É tempo de Adriano voltar a cantar!



José Gomes


quarta-feira, 10 de outubro de 2007

13 Outubro 07 - Tributo a Che Guevara (3)


Não esquecer
:

"Uma noite com... Che Guevara"


- Sábado, 13 Outubro 07 -


21,30 horas

Anfiteatro do GDM Flor de Infesta

Rua Padre Costa, 118

4465 S. Mamede Infesta




terça-feira, 9 de outubro de 2007

Che Cuevara - Hasta la victoria siempre


"No momento em que for necessário, estarei disposto a entregar a minha vida pela liberdade de qualquer um dos países da América Latina, sem pedir nada a ninguém..."


Che Guevara



1967

Após onze meses de luta, a guerrilha boliviana foi dizimada pelos "Boinas Verdes Quíchuas", tropas de elite do exército boliviano, treinadas pelos EUA especialmente para esse fim.

Che Guevara foi ferido e capturado no dia 8 de Outubro e levado para a aldeia de Higueras onde chegou a ordem do presidente boliviano René Barrientos: Che Guevara deve morrer.

Che Guevara foi executado no dia 9 de Outubro, pelo capitão Gary Prado Salgado, chefe da companhia de rangers do 2. Regimento.

Na sua morte não houve poeta ou cantor que não lhe tenha dedicado os seus poemas ou as suas canções.

Che Guevara foi chorado em todo o mundo e já nas manifestações estudantis de 1968 em França, o seu rosto apareceu impresso em bandeiras, posters, livros, camisas, boinas, numa repercussão jamais alcançada por nenhum líder político em toda a História.

José Gomes