domingo, 16 de setembro de 2007

Natália Correia - uma Mulher de garra!



Natália Correia



Natália Correia nasceu a 13 de Setembro de 1923 em Ponta Delgada, em Fajã de Baixo, uma freguesia arreigada a tradições e mitos, onde a magia e o oculto se interligam.

Veio, ainda criança, estudar para Lisboa. Iniciou-se muito cedo na escrita. Foi uma figura muito importante da poesia portuguesa contemporânea, exercendo a sua actividade criadora como Poeta, Dramaturga, Cronista, Ensaísta, Deputada, Oradora, Tradutora, Editora...

Foi na Poesia que o seu talento de vanguardista e de independente ganhou plena expressão, assegurando-lhe um lugar de destaque na cultura portuguesa da segunda metade do século XX.

Destacou-se na luta contra o fascismo, tendo apoiado a candidatura à Presidência da República do General Humberto Delgado.

A partir daqui viu vários dos seus livros serem apreendidos pela censura!

Frequentou, juntamente com Vitorino Nemésio, Ary dos Santos, Vinícius de Morais, David Mourão Ferreira, entre outros, as recepções dadas pela Amália Rodrigues. Mas cedo veio a afastar-se da fadista, não só pela sua postura de vida – Amália revolucionou o mundo cantando Camões; e Natália desafiou regime ao escrever “O Homúnculo, peça sobre Salazar -, como pelas suas posições religiosas - Amália Rodrigues, segundo Natália, era uma beata que já não a podia suportar mais; Natália Correia era uma herege insuportável, dizia Amália.

Foi eleita deputada à Assembleia da República pelo Partido Social Democrata, tendo-se destacado pela defesa das liberdades e garantias da Mulher.

Inigualável nos caprichos, nas iras, na coragem e na esperança, Natália Correia cantava e dançava, declamava, discursava, improvisava e, de tal maneira, que cada improviso chegava à raia do satírico e da polémica.

No dia 3 de Abril de 1982, o então deputado do CDS João Morgado, num debate sobre a legalização do aborto, na Assembleia da República, afirmou que «O acto sexual é para ter filhos». A resposta de Natália Correia, em poema, foi pronta e fez rir todas as bancadas parlamentares, sem excepção, tendo os trabalhos parlamentares sido interrompidos por causa disso:

Já que o coito - diz Morgado -
tem como fim cristalino,

preciso e imaculado
fazer menina ou menino;
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.
Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou - parca ração! –
uma vez. E se a função
faz o órgão - diz o ditado –
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado.

(Natália Correia - 3 de Abril de 1982)


A partir de 1962, com Dórdio Guimarães (seu 4º marido), trabalhou para o cinema e televisão.

Com Isabel Meyrelles abriu o “Botequim”, um pequeno bar, espaço de convívio e tertúlia, onde se encontraram grandes vultos das letras e das artes do País.

Em 16 de Março de 1993 a poetisa sofreu um acidente cardiovascular e morreu em poucos minutos. A vigília do seu corpo, na Casa dos Açores, levou de todos os cantos do País milhares de pessoas e ondas de flores! Por lá passaram amigos e inimigos, músicos e cantores, ministros e intelectuais, tunas e artistas, vadios e desportistas, autarcas e videntes, astrólogos e sacerdotes que olharam o esquife aberto com ela lá dentro, serena, muito branca e feliz, finalmente transformada em deusa pagã.

Foi cremada no cemitério do Alto de S. João.

“(...)

Basta o que o tempo traz na sua anilha
Como uma rosa traz Abril no seio.
E que o mar dê o fruto duma ilha
Onde o amor por fim tenha recreio.”

Natália Correia - “Passaporte” (1958).

José Gomes

15 comentários:

  1. Bela homenagem a uma gande Mulher e escritora!
    beijos

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  2. Excelente, como poetisa e como mulher, deu a nós todos, sabedoria e grandes livros de poemas infindáveis e controversos, uma grande Escritora sem dúvida.

    Parabéns amigo, por esta merecida homenagem.

    Abraços do Beezz

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  3. Quando em 73 deixei "a asa" do Zeca e rumei sozinho para Lisboa, o meu início no espectáculo profissional foi numa peça de "O Judeu", D. Quixote, com encenação de Peyroteu, cenografia e fatos de João Vieira, actrizes e actores de primeira, jardim do Palácio das Galveias... um luxo!
    Dois jovens cantores tocavam e cantavam a música ao vivo. Eu e o Pedro Lobo Antunes. Dividimos a autoria das cantigas. Os versos eram da Natália. Foi a minha primeira "autora oficial".
    Nunca esquecerei as noites no Botequim que essa parceria proporcionou.
    "Cante lá aquela nossa!"

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  4. Bonita homenagem a Natália Correia....
    Que saudade da sua irreverência, do convívio no Botequim, que saudade dela...

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  5. Vou linkar-te, já....
    Se vires inconveniente, diz.

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  6. Natália Correia uma mulher que sempre esteve muito à frente no seu tempo. Ela e algumas outras.
    Uma escritora que muito admiro. Teria 84 anos! Uma saudade! No entanto, pertence ao grupo dos que nunca morre. Assim o queiramos.

    Beijinhos

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  7. o meu comentário sumiu-se...
    Bom, voltemos a tentar.
    Dizia eu, boe lembrança e mmória de uma realmente gbrande mulher em tudo o k nos deixou.
    Só discordo do uso da palavra "poetisa", pois sendo certo k com o novo dicionário de
    língua port. passsou a ser o feminino de poeta, sendo eu da velha guarda continuo a rejeitá-la. "Poetisa" significou, até há pouco tempo: "senhora k se entretém a faze uns versinhos".
    Para mim continua ahaver só uam palavra adequada: POETA!
    Poetisa faz-me alergia visceral.
    Bjs.
    Luz e paz

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  8. ...pena é não hajam hoje em dia muitas pessoas com os "tomates" da Natália...

    Abraço

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  9. Merecida homenagem, a uma mulher que só a morte deteve!
    Porque a herança que nos ofereceu, o tempo não vai por certo deixar esquecer!
    Parabéns amigo pelo cuidado trabalho!
    O poema “resposta” de Natália Correia, por certo improvisado, deve realmente ter tido um efeito daqueles, no deputado Morgado!
    Bji amigo!

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  10. wind disse... - Simpática, como sempre! É bom lembrar aqueles que lutaram para que este país fosse diferente.

    Beezzblogger disse... - Serve para ti a resposta acima! Foi uma forma de fazer justiça a essa grande Mulher!

    samuel disse... - Ao fim destes anos foi bom ter notícias tuas. Deixaste o mundo das canções? Foi uma forma de fazeres um tributo à Natália. Bons tempos esses que sonhávamos que iríamos mudar o mundo!!! Vê lá no que deu!...

    Maria disse... - Sim, Maria, tenho saudades desses tempos... e o tempo vai-se passando e tenho medo que os nossos grandes nomes vão perdendo o seu brilho pelo caminho. Podes "linkar" à vontade. Estou à espera de tempo (?!!!) para vos linkar, também.

    Sophiamar disse... - mais não posso que agradecer o comentário. Os textos acima são, também, uma resposta ao teu comentário.

    TMara disse... - Realmente é uma luta sobre a "Poeta" e a "Poetisa". Não passa pela cabeça de ninguém fazer juízos de valor sobre estas duas expressões! A carga negativa de "poetisa" há muito que deixou de ser perceptível! Mesmo os "versinhos" elevam muito quem os escreveu, pois transmitiu o calor da sua sensibilidade, a dignidade do seu coração! Para essas "poetisas" deixo aqui o meu apreço e o meu respeito!

    Manuel Bento disse... - Parece-me que a matéria em que foi esculpida a Natália se esgotou no dia em que a conceberam!

    mf disse... - Que é feito de ti?!!! Obrigado pelas palavras que deixaste à Natália. Ela mereceu isso!

    Para todos aqueles que deixaram um comentário (e também para os meus leitores anónimos!!!) deixo um abraço de amizade e o desejo de uma boa semana.

    José Gomes

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  11. Natália Correia uma Mulher que muito admiro. Com muito carinho recebi as tuas preciosas palavras no meu romãs. Muitos beijos.

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  12. Excelente contributo
    Bom fim de semana
    Saudações amigas

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  13. Gostei, muito.
    Quando puderes, dizes-me como adicionar à minha assinatura a figurinha (foto, boneco, desenho...), sff?
    Obrigada. Bj.

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  14. também adoro o frio, Zé, mas o Agosto fica ainda mais desejado e gostoso por isso mesmo. pela frieza, a chuva, a trovoada...Um abraço que a gente se vai sempre reencontrando

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  15. Não José Gomes. Ainda não deixei as canções.
    Tenho é um bocadinho menos de "força" e parceiros para mudar o mundo...
    Se a coisa fosse lá com canções!...

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