domingo, 12 de agosto de 2007

No centenário de Miguel Torga

Miguel Torga (1907-1995)


Miguel Torga, nome literário do médico Adolfo Correia da Rocha, nascido em S. Martinho de Anta, distrito de Vila Real, a 12 de Agosto de 1907 e falecido em Coimbra a 17 de Janeiro de 1995.

Proveniente de uma família humilde, teve uma infância dura, que lhe deu a conhecer a realidade do campo, sem bucolismos, feita de árduo e contínuo trabalho. Após uma breve passagem pelo seminário de Lamego, emigrou com 13 anos para o Brasil, onde durante cinco anos trabalhou na fazenda de um tio, em Minas Gerais.

Regressou a Portugal em 1925, concluiu o ensino liceal e frequentou em Coimbra o curso de Medicina, que terminou em 1933.

Em Coimbra fez os seus primeiros contactos com o mundo literário, nomeadamente com o grupo da revista Presença, de que foi um dos fundadores.


Em 1928 editou o seu primeiro livro de poesia, Ansiedade, e na afirmação de uma personalidade humana marcada por um "individualismo feroz" que o levou à saída da Presença e à criação da revista Sinal, em 1930, ano da publicação de Rampa, o seu segundo livro de poesia.

A escrita do Diário iniciou-se em 1932 com uma nota da sua passagem pela Universidade - "Passo por esta Universidade como cão por vinha vindimada. Nem eu reparo nela nem ela repara em mim" - indício do desprezo por uma instituição elitista, envelhecida e politicamente servil.

Em 1934, Adolfo Correia da Rocha assumiu o nome literário “Miguel Torga” quando publicou o livro de contos A Terceira Voz, identificando-se, por um lado, com a urze vulgarmente conhecida por “torga” – um arbusto espontâneo, resistente e florido que se vinga em chão agreste – e, por outro, com uma tradição combativa e heterodoxa espanhola (Miguel de Molinos, Miguel de Cervantes, Miguel de Unamuno).

Em 1936 publicou a colectânea poética O Outro Livro de Job e fundou a revista Manifesto. No ano seguinte realizou a primeira viagem à Europa. Foi durante este percurso que constatou a degradação da Espanha em guerra, esmagada sob um regime de terror que glorificou Franco em retratos e dísticos estampados nos muros das cidades.

De novo em Portugal, cursou em 1938, com trinta e um anos de idade, a especialidade de otorrinolaringologia, na Faculdade de Medicina de Coimbra.

Em 1939 exerceu medicina em Leiria, publicou a denúncia dos horrores presenciados na Europa das ditaduras em O Quarto Dia da Criação do Mundo. O volume foi apreendido e o autor foi detido pela PIDE, sob acusação de comunismo, agravada pela suspeita de recepção de dinheiro de Moscovo para a compra de instrumental cirúrgico. Transferido, em Dezembro de 1939, para o Limoeiro e depois para o Aljube, em Lisboa, acabou por ser libertado, sem julgamento, em Fevereiro de 1940.

Em 1941 o médico Adolfo Rocha (Miguel Torga) fixou-se definitivamente em Coimbra, como otorrinolaringologista, no Largo da Portagem, local que viria a ser um centro de conspiração contra o regime.

Ainda nesse ano, o escritor publicou uma das suas obras mais célebres Bichos, livro que integra contos parcelarmente concebidos na cadeia.

Os Contos da Montanha, encarados pela censura como uma denúncia das penosas condições de vida do Nordeste, foram apreendidos em Coimbra por ordem do censor Salvação Barreto.

Em 1947, a esposa de Miguel Torga, Andrée Crabbé Rocha, com quem casara civilmente em 1940, foi expulsa, devido às suas atitudes democráticas, da Faculdade de Letras de Lisboa, onde era assistente. O marido, por sua vez, foi demitido, sem qualquer justificação, do Serviço de Saúde da Casa dos Pescadores da Figueira da Foz.

As dificuldades financeiras não vergaram a combatividade de Miguel Torga. Entre 1943 e 1950 publicou várias colectâneas poéticas, a novela O Senhor Ventura (relato das aventuras de um emigrante português na China), o romance Vindima (denúncia da exploração dos vindimadores no Douro), Novos Contos da Montanha, a parábola dramática O Paraíso e o livro de ensaios Portugal, em paralelo com a publicação dos sucessivos volumes do Diário.

O ano de 1950 assinalou a publicação do Cântico do Homem, o livro de poemas de maior empenhamento social do autor e uma das referências culturais do povo português, que começava a ver em Torga um símbolo cívico de oposição ao salazarismo.

No mesmo ano, foi levantada ao escritor a proibição de saída do país, retomando assim as suas viagens a Espanha e a outros países europeus e o regresso ao Brasil da sua adolescência, em 1954 (data da aparição da colectânea poética Penas do Purgatório), um ano antes do nascimento de Clara, a sua única filha e da publicação de Traço de União (1955), volume ensaístico sobre as relações culturais luso-brasileiras.

Na altura desta deslocação ao Brasil como convidado ao Congresso de Escritores de São Paulo, a sua obra gozava já do reconhecimento internacional patenteado nas traduções em castelhano, francês, inglês, romeno, etc.

Em 1958, ano das eleições presidenciais, editou Orfeu Rebelde, um dos livros cimeiros da poética torguiana.

Em 1960, Miguel Torga foi proposto pela Universidade de Montpellier para o Prémio Nobel da Literatura. Mais tarde, em 1978, foi novamente candidato ao Nobel. Nesta data foi-lhe feita uma homenagem nacional, em comemoração do cinquentenário da sua estreia literária.

Nas suas páginas, Miguel Torga, encarnação do velho anarquista, manifesta a sua oposição a qualquer instituição que prive o indivíduo da liberdade. É esta atitude que explica a sua indignação perante os falhanços socio-económicos dos sucessivos governos do após 25 de Abril ou a crítica à inconsciência e à corrupção instaladas na classe política, a sua firme oposição à precipitada adesão à Comunidade Europeia, emoldurada pelos lúcidos avisos premonitórios da irresponsabilidade oficial na assinatura do tratado de Maastricht – a seu ver, um verdadeiro atentado contra a independência da nação e o último combate que travou na sua rebeldia.

Depois de 1977, ano em que recebeu o Prémio Internacional de Poesia, foi distinguido com vários galardões literários: o "Prémio Montaigne" da Fundação Alemã F.V.S. (1981), o "Prémio Camões" (1989), o "Prémio Vida Literária" da A.P.E. (1992). Foi designado Personalidade do Ano 1991 pela Associação de Imprensa Estrangeira em Portugal e foi-lhe outorgado o "Prémio de Literatura Écureuil", do Salão do Livro de Bordéus (1991).

A partir de 1986, ano em que lhe foi detectada uma doença incurável e submetido a mais uma intervenção cirúrgica, passou períodos de internamento no Hospital da Universidade e no Instituto Português de Oncologia de Coimbra, onde acabaria por morrer a de 17 de Janeiro de 1995, aos 87 anos de idade.

Foi nestes locais que redigiu o volume XVI e último do Diário, corajoso livro viril de adeus e exaltação do acto de viver, pautado por uma ironia sadia e sempre iluminado pela esperança no Homem, valores que levaram a Associação Internacional de Críticos Literários a laureá-lo em 1994.

O seu funeral – de Coimbra ao cemitério da terra natal, S. Martinho de Anta – foi a clara expressão da dor de um povo, enquanto a imprensa nacional e estrangeira, consciente da importância histórica da perda, divulgou a notícia da morte, acompanhada de depoimentos e comentários bibliográficos.

A publicação do Cântico em Honra de Miguel Torga, em 1996, supõe a continuidade da admiração, agora expressa por 85 poetas contemporâneos portugueses.

Está traduzido em castelhano, galego, francês, inglês, alemão, holandês, polaco, romeno, búlgaro, servo-croata, norueguês, sueco, chinês e japonês, entre outras línguas.

À intensa consciência individual de Miguel Torga aliou-se uma profunda afirmação de enraizamento à Natureza, com que se solidarizou na oposição a todas as forças que oprimem a energia viva e a dignidade do homem, sejam elas as tiranias políticas ou o próprio Deus.

Sem esperança nos intelectuais, preferiu o convívio menos tenso e mais fecundo dos homens humildes e analfabetos do povo onde ainda encontrava "o riso, a indignação, o espanto".

A ligação de Torga a Portugal, à própria Península Ibérica e às suas gentes, é uma constante dos seus textos mas, Trás-os-Montes, é o seu grande amor e surge a cada momento na sua prosa.

Miguel Torga tornou-se um exímio conhecedor de Portugal, conhecimento este, que ele alargou também a Espanha, países por ele considerados unidos no conceito de uma Ibéria Comum. Este conceito tinha por base a rudeza e pobreza dos seus meios naturais, pelo movimento de expansão e opressões da história e por certas características humanas definidoras da sua personalidade.

Sobre a regionalização, pergunta: O mundo a braços com o drama das diversidades e nós, que há oitocentos anos temos a unidade nacional no território, na língua, nos costumes e na religião, vamos desmioladamente destrui-la?

Não apoia nem tem a mínima simpatia pela União Europeia. Ela ofende o seu espírito patriótico e o seu ideal de Pátria. “É o repúdio de um poeta português pela irresponsabilidade com que meia dúzia de contabilistas lhe alienaram a soberania (...) e Maastricht há-de ser uma nódoa indelével na memória da Europa.” (Miguel Torga, 17 de Janeiro de 1995).


Requiem por mim

Aproxima-se o fim.

E tenho pena de acabar assim,

Em vez de natureza consumada,

Ruína humana.

Inválido do corpo

E tolhido da alma.

Morto em todos os órgãos e sentidos.

Longo foi o caminho e desmedidos

Os sonhos que nele tive.

Mas ninguém vive

Contra as leis do destino.

E o destino não quis

Que eu me cumprisse como porfiei,

E caísse de pé, num desafio.

Rio feliz a ir de encontro ao mar

Desaguar,

E, em largo oceano, eternizar

O seu esplendor torrencial de rio

MIGUEL TORGA, in Diário XVI, 1994

O homem é, por desgraça, uma solidão: Nascemos sós, vivemos sós e morremos sós.

José Gomes
Agosto 2007


7 comentários:

  1. O Poeta, o Homem, o Cidadão íntegro que muito aprecio.Conheci-o, em Coimbra. Homem de rija têmpora, de coração doce para aqueles que trabalham a terra que dá o pão, para os humildes, os desfavorecidos. Torga, fraga, penedia, que trata a terra como ninguém e me comove em toda a sua obra.Prosa e poesia.Escritor, homem, marido, pai de excelência!Relembrá-lo, hoje, aqui, agora, é um direito e um dever.
    Mais um post, Zé, com a qualidade a que nos habituaste.
    Continua por aqui, amigo!Fazes falta!
    Beijinhos

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  2. Um homem, escritor, poeta, digno de ser sempre lembrado como tu tão bem o fazes neste artigo.
    Um bjinho grande extensivo à Milú e à Sonia.
    Entrarei, em breve, em contacto convosco. As saudades são imensas e as novidades... lindas.
    Um bom Domingo.

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  3. Obrigado, "Chuviscos",

    Acabei de publicar um post sobre
    "Regionalização" (camaradita.blogs.
    sapo.pt). Pensei num sobre Miguel
    Torga para comemorar os 100 anos.
    Não fui capaz de o engendrar.

    Entrei há minutos no V/blog e fui
    recompensado. Oportuno e óptimo.

    Gosto muito, muito, muito dele.
    Obrigado e um abraço.

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  4. Passei para reler aquilo que nos deixaste sobre um dos Grandes Vultos da Cultura portuguesa. À semelhança de outros, quase foi ignorado pelo Estado Novo. Infelizmente!
    Beijinhos

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  5. Já voltei. Agradeço os comentários.

    Bela homenagem a Miguel Torga

    Abraço

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  6. Parabéns Zé, meu irmão!
    Eu sabia que não deixarias passar em brancas nuvens esta efeméride do nosso querido Torga!
    Um beijo da

    Maria Mamede

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