sexta-feira, 31 de agosto de 2007

“Che” Guevara



GUEVARA

Não choro, que não quero
Manchar de pranto
Um sudário de força combativa.
Reteso a dor, e canto
A tua morte viva.

A tua morte morta
Pelo próprio terror em que ficaram
À sua frente
Aqueles que te mataram
Sem poderem matar o combatente.

O combatente eterno que ficaste,
Ressuscitado
Na voluntária crucificação.
Herói a conquistar o inconquistado,
Já sem armas na mão.

Quem te abateu, perdeu a guerra santa
Da liberdade.
Fez brilhar na manhã do mundo inteiro
Um sol de redentora claridade:
O teu rosto de Cristo guerrilheiro.

Miguel Torga


Che Guevara é um dos heróis da minha juventude, um dos meus ídolos e uma referência de luta e determinação... Tornou-se num mito e é com muita alegria que volto a vê-lo no peito de muitos jovens.

Neste ano em que comemoramos os 1oo anos de nascimento de Miguel Torga achei que é oportuno divulgar este seu poema.

... e para que a história não esqueça…


Che Guevara morreu no dia 9 de Outubro de 1967 na aldeia boliviana de Higueras.

Foi assassinado, com apenas 39 anos de idade, por "Boinas Verdes Quíchuas", tropas de elite bolivianas, treinada pelos Estados Unidos, especialmente para esse fim.

Che Guevara morreu como queria: lutando por um ideal que considerava justo.

Em 1997, trinta anos depois do assassinato de Che Guevara, os seus restos mortais foram descobertos numa vala comum na cidade de Vallegrande, na Bolívia, por antropólogos argentinos e cubanos.

Em 17 de Outubro de 1997, Che Guevara foi enterrado na cidade cubana de Santa Clara (onde liderou uma batalha decisiva para o derrube do ditador Fulgêncio Baptista), com a presença da família e de Fidel de Castro.

Embora os seus ideais sejam românticos aos olhos de um mundo globalizado, ele transformou-se num símbolo na história das revoluções do século XX e num exemplo de coerência política.

A sua morte determinou o nascimento de um mito, até hoje símbolo de resistência para os países latino-americanos.

(…)

Quem te abateu, perdeu a guerra santa
Da liberdade.
Fez brilhar na manhã do mundo inteiro
Um sol de redentora claridade:
O teu rosto de Cristo guerrilheiro.

Miguel Torga


José Gomes
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"Hasta Siempre" - Carlos Puebla

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

De regresso...

As férias são aquele período de tempo com que sonhamos o ano inteiro... descanso, bem estar, tempo ameno (eu não gosto do calor!), se possível banhando-nos nas águas de um mar convidativo ou tostando-nos ao sol de qualquer praia de areias apetitosas!
Mas as coisas nem sempre saem como planeamos!
Mesmo assim deixo-vos com estas 4 fotos... espero que gostem!

Oliveira - Olea Europea - com 1500-1800 anos de idade
Guardamar - Espanha - Agosto 07


Foi nesta praia que nos banhamos. A água estava maravilhosa!
San Juan - Alicante - Espanha - Agosto 07


Vista nocturna da piscina do hotel
Guardamar - Espanha - Agosto 07

Vista nocturna da piscina do hotel (outro ângulo)
Guardamar - Espanha - Agosto 07


domingo, 12 de agosto de 2007

No centenário de Miguel Torga

Miguel Torga (1907-1995)


Miguel Torga, nome literário do médico Adolfo Correia da Rocha, nascido em S. Martinho de Anta, distrito de Vila Real, a 12 de Agosto de 1907 e falecido em Coimbra a 17 de Janeiro de 1995.

Proveniente de uma família humilde, teve uma infância dura, que lhe deu a conhecer a realidade do campo, sem bucolismos, feita de árduo e contínuo trabalho. Após uma breve passagem pelo seminário de Lamego, emigrou com 13 anos para o Brasil, onde durante cinco anos trabalhou na fazenda de um tio, em Minas Gerais.

Regressou a Portugal em 1925, concluiu o ensino liceal e frequentou em Coimbra o curso de Medicina, que terminou em 1933.

Em Coimbra fez os seus primeiros contactos com o mundo literário, nomeadamente com o grupo da revista Presença, de que foi um dos fundadores.


Em 1928 editou o seu primeiro livro de poesia, Ansiedade, e na afirmação de uma personalidade humana marcada por um "individualismo feroz" que o levou à saída da Presença e à criação da revista Sinal, em 1930, ano da publicação de Rampa, o seu segundo livro de poesia.

A escrita do Diário iniciou-se em 1932 com uma nota da sua passagem pela Universidade - "Passo por esta Universidade como cão por vinha vindimada. Nem eu reparo nela nem ela repara em mim" - indício do desprezo por uma instituição elitista, envelhecida e politicamente servil.

Em 1934, Adolfo Correia da Rocha assumiu o nome literário “Miguel Torga” quando publicou o livro de contos A Terceira Voz, identificando-se, por um lado, com a urze vulgarmente conhecida por “torga” – um arbusto espontâneo, resistente e florido que se vinga em chão agreste – e, por outro, com uma tradição combativa e heterodoxa espanhola (Miguel de Molinos, Miguel de Cervantes, Miguel de Unamuno).

Em 1936 publicou a colectânea poética O Outro Livro de Job e fundou a revista Manifesto. No ano seguinte realizou a primeira viagem à Europa. Foi durante este percurso que constatou a degradação da Espanha em guerra, esmagada sob um regime de terror que glorificou Franco em retratos e dísticos estampados nos muros das cidades.

De novo em Portugal, cursou em 1938, com trinta e um anos de idade, a especialidade de otorrinolaringologia, na Faculdade de Medicina de Coimbra.

Em 1939 exerceu medicina em Leiria, publicou a denúncia dos horrores presenciados na Europa das ditaduras em O Quarto Dia da Criação do Mundo. O volume foi apreendido e o autor foi detido pela PIDE, sob acusação de comunismo, agravada pela suspeita de recepção de dinheiro de Moscovo para a compra de instrumental cirúrgico. Transferido, em Dezembro de 1939, para o Limoeiro e depois para o Aljube, em Lisboa, acabou por ser libertado, sem julgamento, em Fevereiro de 1940.

Em 1941 o médico Adolfo Rocha (Miguel Torga) fixou-se definitivamente em Coimbra, como otorrinolaringologista, no Largo da Portagem, local que viria a ser um centro de conspiração contra o regime.

Ainda nesse ano, o escritor publicou uma das suas obras mais célebres Bichos, livro que integra contos parcelarmente concebidos na cadeia.

Os Contos da Montanha, encarados pela censura como uma denúncia das penosas condições de vida do Nordeste, foram apreendidos em Coimbra por ordem do censor Salvação Barreto.

Em 1947, a esposa de Miguel Torga, Andrée Crabbé Rocha, com quem casara civilmente em 1940, foi expulsa, devido às suas atitudes democráticas, da Faculdade de Letras de Lisboa, onde era assistente. O marido, por sua vez, foi demitido, sem qualquer justificação, do Serviço de Saúde da Casa dos Pescadores da Figueira da Foz.

As dificuldades financeiras não vergaram a combatividade de Miguel Torga. Entre 1943 e 1950 publicou várias colectâneas poéticas, a novela O Senhor Ventura (relato das aventuras de um emigrante português na China), o romance Vindima (denúncia da exploração dos vindimadores no Douro), Novos Contos da Montanha, a parábola dramática O Paraíso e o livro de ensaios Portugal, em paralelo com a publicação dos sucessivos volumes do Diário.

O ano de 1950 assinalou a publicação do Cântico do Homem, o livro de poemas de maior empenhamento social do autor e uma das referências culturais do povo português, que começava a ver em Torga um símbolo cívico de oposição ao salazarismo.

No mesmo ano, foi levantada ao escritor a proibição de saída do país, retomando assim as suas viagens a Espanha e a outros países europeus e o regresso ao Brasil da sua adolescência, em 1954 (data da aparição da colectânea poética Penas do Purgatório), um ano antes do nascimento de Clara, a sua única filha e da publicação de Traço de União (1955), volume ensaístico sobre as relações culturais luso-brasileiras.

Na altura desta deslocação ao Brasil como convidado ao Congresso de Escritores de São Paulo, a sua obra gozava já do reconhecimento internacional patenteado nas traduções em castelhano, francês, inglês, romeno, etc.

Em 1958, ano das eleições presidenciais, editou Orfeu Rebelde, um dos livros cimeiros da poética torguiana.

Em 1960, Miguel Torga foi proposto pela Universidade de Montpellier para o Prémio Nobel da Literatura. Mais tarde, em 1978, foi novamente candidato ao Nobel. Nesta data foi-lhe feita uma homenagem nacional, em comemoração do cinquentenário da sua estreia literária.

Nas suas páginas, Miguel Torga, encarnação do velho anarquista, manifesta a sua oposição a qualquer instituição que prive o indivíduo da liberdade. É esta atitude que explica a sua indignação perante os falhanços socio-económicos dos sucessivos governos do após 25 de Abril ou a crítica à inconsciência e à corrupção instaladas na classe política, a sua firme oposição à precipitada adesão à Comunidade Europeia, emoldurada pelos lúcidos avisos premonitórios da irresponsabilidade oficial na assinatura do tratado de Maastricht – a seu ver, um verdadeiro atentado contra a independência da nação e o último combate que travou na sua rebeldia.

Depois de 1977, ano em que recebeu o Prémio Internacional de Poesia, foi distinguido com vários galardões literários: o "Prémio Montaigne" da Fundação Alemã F.V.S. (1981), o "Prémio Camões" (1989), o "Prémio Vida Literária" da A.P.E. (1992). Foi designado Personalidade do Ano 1991 pela Associação de Imprensa Estrangeira em Portugal e foi-lhe outorgado o "Prémio de Literatura Écureuil", do Salão do Livro de Bordéus (1991).

A partir de 1986, ano em que lhe foi detectada uma doença incurável e submetido a mais uma intervenção cirúrgica, passou períodos de internamento no Hospital da Universidade e no Instituto Português de Oncologia de Coimbra, onde acabaria por morrer a de 17 de Janeiro de 1995, aos 87 anos de idade.

Foi nestes locais que redigiu o volume XVI e último do Diário, corajoso livro viril de adeus e exaltação do acto de viver, pautado por uma ironia sadia e sempre iluminado pela esperança no Homem, valores que levaram a Associação Internacional de Críticos Literários a laureá-lo em 1994.

O seu funeral – de Coimbra ao cemitério da terra natal, S. Martinho de Anta – foi a clara expressão da dor de um povo, enquanto a imprensa nacional e estrangeira, consciente da importância histórica da perda, divulgou a notícia da morte, acompanhada de depoimentos e comentários bibliográficos.

A publicação do Cântico em Honra de Miguel Torga, em 1996, supõe a continuidade da admiração, agora expressa por 85 poetas contemporâneos portugueses.

Está traduzido em castelhano, galego, francês, inglês, alemão, holandês, polaco, romeno, búlgaro, servo-croata, norueguês, sueco, chinês e japonês, entre outras línguas.

À intensa consciência individual de Miguel Torga aliou-se uma profunda afirmação de enraizamento à Natureza, com que se solidarizou na oposição a todas as forças que oprimem a energia viva e a dignidade do homem, sejam elas as tiranias políticas ou o próprio Deus.

Sem esperança nos intelectuais, preferiu o convívio menos tenso e mais fecundo dos homens humildes e analfabetos do povo onde ainda encontrava "o riso, a indignação, o espanto".

A ligação de Torga a Portugal, à própria Península Ibérica e às suas gentes, é uma constante dos seus textos mas, Trás-os-Montes, é o seu grande amor e surge a cada momento na sua prosa.

Miguel Torga tornou-se um exímio conhecedor de Portugal, conhecimento este, que ele alargou também a Espanha, países por ele considerados unidos no conceito de uma Ibéria Comum. Este conceito tinha por base a rudeza e pobreza dos seus meios naturais, pelo movimento de expansão e opressões da história e por certas características humanas definidoras da sua personalidade.

Sobre a regionalização, pergunta: O mundo a braços com o drama das diversidades e nós, que há oitocentos anos temos a unidade nacional no território, na língua, nos costumes e na religião, vamos desmioladamente destrui-la?

Não apoia nem tem a mínima simpatia pela União Europeia. Ela ofende o seu espírito patriótico e o seu ideal de Pátria. “É o repúdio de um poeta português pela irresponsabilidade com que meia dúzia de contabilistas lhe alienaram a soberania (...) e Maastricht há-de ser uma nódoa indelével na memória da Europa.” (Miguel Torga, 17 de Janeiro de 1995).


Requiem por mim

Aproxima-se o fim.

E tenho pena de acabar assim,

Em vez de natureza consumada,

Ruína humana.

Inválido do corpo

E tolhido da alma.

Morto em todos os órgãos e sentidos.

Longo foi o caminho e desmedidos

Os sonhos que nele tive.

Mas ninguém vive

Contra as leis do destino.

E o destino não quis

Que eu me cumprisse como porfiei,

E caísse de pé, num desafio.

Rio feliz a ir de encontro ao mar

Desaguar,

E, em largo oceano, eternizar

O seu esplendor torrencial de rio

MIGUEL TORGA, in Diário XVI, 1994

O homem é, por desgraça, uma solidão: Nascemos sós, vivemos sós e morremos sós.

José Gomes
Agosto 2007


segunda-feira, 6 de agosto de 2007

PARA QUE A HISTÓRIA NÃO ESQUEÇA

Passaram-se 62 anos...

62 anos um avião americano chamado "Enola Gay", voando sobre Hiroshima, no Japão, lançou uma bomba atómica que detonou a 580 metros acima do Hospital Shima, próximo do centro da cidade. Eram 8,15 horas da manhã do dia 6 de Agosto de 1945 e os habitantes de Hiroshima estavam a começar o seu dia...

O piloto viu com espanto, antes de regressar à base, um cogumelo de chamas a erguer-se no céu.

Em poucos segundos, como resultado do ataque, da cidade de Hiroshima apenas ficaram ruínas fumegantes. Naquele dia cerca de 100 mil pessoas morreram...

No dia 9 de Agosto de 1945 (três dias depois), às 11,02 horas da manhã, a cidade de Nagasaky foi varrida do mapa por uma bomba de plutónio, detonada a 503 metros acima da cidade. Morreram de imediato 74.000 pessoas e, mais tarde, este número aumentou pois, dos 40.000 feridos, muitos não resistiram às queimaduras, feridas que não fechavam e à exposição às radiações.

Nagasaky – 9 de Agosto de 1945 – Palavras para justificar o quê?...

Os dedos queimavam com chamas azuis, estavam reduzidos a um terço do seu tamanho natural e retorcidos. Um líquido negro escorria da mão e caía no solo” – Akiko Takahura, testemunha ocular.

Ontem como hoje, desde que o homem se conhece como tal, a guerra sempre serviu para satisfazer os seus ideais megalómanos… todos os meios justificam estes fins! — sejam eles de cariz religioso, humanitário ou, simplesmente, intimidatório!...

Para que a memória colectiva dos povos não esqueça, deixo-vos com este registo:

1 – A construção e desenvolvimento da bomba atómica, denominada “Projecto Manhattan” (1942 – 1946), teve lugar em Los Álamos no deserto do Novo México; a bomba que foi lançada sobre Hiroxima era de Urânio-235 e a de Nagasaki de Plutónio;

2 – Ao fazerem a análise ao teste efectuado no deserto de Los Álamos e ao aperceberem-se das consequências da arma que tinham criado, os cientistas do “Projecto Manhattan” fizeram uma petição para anular a utilização destas bombas no Japão. Esta veio a “desaparecer” na gaveta do general Leslie Groves, supervisor do referido “Projecto”, em conivência com o secretário de estado James Byrnes;

3 – O presidente Truman assinou a ordem de lançamento;

4 - Na altura da explosão encontravam-se em Hiroshima 24 americanos. Apenas cinco sobreviveram, mas por pouco tempo: três foram linchados e os outros dois morreram onze dias depois, vítimas da radiação...

Entre os críticos do uso das armas nucleares em Hiroshima e Nagasaki estão líderes militares americanos. Numa entrevista após a guerra o General Eisenhower, que mais tarde viria a ser presidente dos EUA, disse a um jornalista:

- (...) os japoneses estavam prontos para se renderem e não havia necessidade de os atacar com aquela coisa terrível.

- O Almirante William D. Leahy, chefe do grupo de trabalho de Truman, escreveu: - “Na minha opinião o uso desta arma bárbara em Hiroshima e Nagasaki não ajudou em nada na nossa guerra contra o Japão. Os japoneses já estavam vencidos e prontos a se renderem... Sinto que sendo os primeiros a usá-la, nós adoptamos o mesmo código de ética dos bárbaros na Idade Média (...) As guerras não podem ser ganhas destruindo mulheres e crianças...”


6 e 9 de Agosto – dias em que o Japão chora e lembra os seus mortos vitimados por uma energia que deveria estar ao serviço da Humanidade.

6 e 9 de Agosto – dias em que toda a Humanidade deve recordar para que tais actos nunca mais se voltem a repetir.

O Homem para sobreviver como espécie teve de aprender a caminhar; o Homem se quiser sobreviver como espécie terá de aprender a compreender e, sobretudo, a Amar o Mundo e todos os Seres que nele vivem.

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Versão musical: "Rosa de Hiroshima"
- poema de Vinicius de Moraes
- interpretação: Ney Matogrosso e Secos & Molhados

José Gomes
6 de Agosto de 2007



sábado, 4 de agosto de 2007

A Terra do homem livre...

"Quando o último homem vermelho tiver morrido e quando a lembrança da minha tribo se tornar um mito entre os homens brancos, as margens ficarão cobertas com os mortos invisíveis da minha tribo; e quando os filhos dos vossos filhos julgarem que estão sozinhos nos seus campos, nas suas lojas ou no silêncio de um bosque sem caminho, não estarão sozinhos. Não há morte. Apenas uma mudança de mundo".

(in "Sabedoria Ameríndia")

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Não se esqueçam de ver e ouvir o vídeo abaixo... é uma forma de conhecer esta Terra.

Boas férias para todos vós.


Um abraço.