domingo, 6 de maio de 2007

Castro Alves - O laço de fita

"Espelhados" - Ribeira - Porto (José Gomes, 5 Maio 07)



O Laço de Fita

Não sabes, criança? ´stou louco de amores...

Prendi meus afectos, formosa Pepita.

Mas onde? No templo, no espaço, nas névoas?!

Não rias, prendi-me

Num laço de fita.

Na selva sombria de tuas madeixas,

Nos negros cabelos da moça bonita,

Fingindo a serpente qu'enlaça a folhagem,

Formoso enroscava-se

O laço de fita.

Meu ser, que voava nas luzes da festa,

Qual pássaro bravo, que os ares agita,

Eu vi de repente cativo, submisso

Rolar prisioneiro

Num laço de fita.

E agora enleada na ténue cadeia

Debalde minh'alma se embate, se irrita...

O braço, que rompe cadeias de ferro,

Não quebra teus elos,

Ó laço de fita!

Meu Deus! As falenas têm asas de opala,

Os astros se libram na plaga infinita.

Os anjos repousam nas penas brilhantes...

Mas tu... tens por asas

Um laço de fita.

Há pouco voavas na célere valsa,

Na valsa que anseia, que estua e palpita.

Por que é que tremeste? Não eram meus lábios...

Beijava-te apenas...

Teu laço de fita.

Mas ai! findo o baile, despindo os adornos

N'alcova onde a vela ciosa... crepita,

Talvez da cadeia libertes as tranças

Mas eu... fico preso

No laço de fita.

Pois bem!... Quando um dia na sombra do vale

Abrirem-me a cova... formosa Pepital

Ao menos arranca meus louros da fronte,

E dá-me por c'roa...

Teu laço de fita.

Castro Alves

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Castro Alves nasceu em 14 de Março de 1847, na vila de Curralinho, no Brasil.

Começou a estudar Direito em 1864 na cidade do Recife acabando por concluir o curso, em S. Paulo, em 1868. Foi considerado um mau estudante mas muito bom poeta.

Em 1862 escreveu o poema "A Destruição de Jerusalém", em 1863 "Pesadelo", "Meu Segredo", já inspirado pela actriz Eugénia Câmara, "Cansaço", "Noite de Amor", "A Canção do Africano" e outros.

"A poesia", dizia, "é um sacerdócioseu Deus, o belo — seu tributário, o Poeta." O Poeta derramando sempre uma lágrima sobre as dores do mundo. "É que", acrescentava, "para chorar as dores pequenas, Deus criou a afeição, para chorar a humanidade — a poesia."

A partir de 1864 apaixonou-se pelas grandes causas da liberdade e da justiça — as lutas da Independência na Baia, a insurreição dos negros de Palmares, o papel civilizador da imprensa e a campanha contra a escravidão. Começou a escrever sobre o sofrimento dos negros escravos (O Navio Negreiro) e o martírio de todo um continente (Vozes d'África).

Em S. Paulo, nos fins de 1868, feriu-se num pé com um tiro acidental numa caçada, do que resultou uma longa enfermidade, que levou o poeta a ter que se submeter a várias intervenções cirúrgicas, acabando por ter que amputar o pé.

A sua saúde foi-se degradando, conduzindo-o a uma tuberculose pulmonar que o viria a vitimar em 1871.

(Era este o trabalho que tinha preparado para a Noite de Poesia de Vermoim. Mas – será da idade?!!! – por qualquer carga de água deixei-o em casa. As minhas desculpas a Castro Alves e a todos aqueles que poderiam ter descoberto mais cedo este poeta brasileiro do século XIX).

José Gomes


7 comentários:

  1. Belíssimo poema:)
    beijos

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  2. Tão melodioso e doce este poema!
    Obrigada José, por nos deres sempre mais a conhecer!
    Bji

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  3. Foi interessante, mas existe um erro no final:
    -Ele não morreu em 1981, mas em 1871. Pois, como poderia um homem viver tanto tempo assim?!

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  4. Dante Della Torre2/2/10 02:10

    Maravilhoso,laço de fitas...lembraças de minha vida,meus amores,quantas vezes cruzei o Douro acompanhado de uma bela rapariga...noite,noite recado ao melhor do Porto..quantas raparigas me amaram...quantas eu amei..lembraças... (da bela), Vila Nova De Gaia,obrigado Chuvisco,por fazer eu lembrar!

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  5. Época boa qndo o amor valia muito apena,quando não se amava por dinheiro!!! Quando um simples laço de fita tinha tamanha bela real... e levava um homem a escrever uma arte desta!!!

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  6. Obrigado, pelo comentário. É bom, depois destes anos todos, ainda recordar este poema.
    Um abraço,
    José Gomes

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