domingo, 22 de abril de 2007

25 Abril, sempre!!! - 3



25 Abril – 33 anos depois...

(continuação)

Durante alguns dias recordei — embora superficialmente — os anos que antecederam o 25 de Abril de 1974, guiado por excertos do poema de Ary dos Santos “As Portas que Abril abriu”.Com este artigo termino essa viagem…

(…)

Os trabalhadores foram sempre as vítimas da ganância do grande capital e dos latifúndios. As perseguições policiais investiam sobre quem lutasse pelos seus direitos e pela dignidade de um País amordaçado.

Era uma vez um País
Onde o pão era contado
Onde quem tinha a raiz
Tinha o fruto arrecadado
Onde quem tinha o dinheiro
Tinha o operário algemado
Onde suava o ceifeiro
Que dormia com o gado
Onde tossia o mineiro
Em Aljustrel ajustado
Onde morria primeiro
Quem nascia desgraçado.

Durante 48 anos o Povo foi oprimido e explorado…

Era uma vez um País
De tal maneira explorado
Pelos consórcios fabris
Pelo mando acumulado
Pelas ideias nazis
Pelo dinheiro estragado
Pelo dobrar da cerviz
Pelo trabalho amarrado
Que até hoje já se diz
Que nos tempos do passado
Se chamava esse País
Portugal suicidado.

Durante 13 longos anos uma guerra colonial ceifou e estropiou milhares de jovens, a flor de uma geração.

Ora passou-se porém
Que dentro de um povo escravo
Alguém que lhe queria bem
Um dia plantou um cravo.
Era a semente da esperança
Feita de força e vont
ade

Era ainda uma criança

Mas já era a liberdade.

Faz agora 33 anos. Era a tarde de 23 de Abril de 1974... Álvaro Guerra, jornalista do Jornal República, recebeu em mão, num alfarrabista de Lisboa, uma folha de papel amarelo que mudou o rumo da história de Portugal.

Era já uma promessa
Era a força da razão
Do coração à cabeça
Da cabeça ao coração.

Nele estava escrita a senha que homens, já cansados de uma guerra sem sentido e duma nação sem esperança, esperavam ouvir nos quartéis para então saírem à rua, rumo à construção de um País Novo.


Quem o fez era soldado
Homem novo capitão
Mas também tinha a seu lado
Muitos homens na prisão.

João Paulo Diniz, produtor e locutor do programa “Alfabeta”, às 23,55 horas “enganou-se” nas horas – esse “engano” era parte integrante da primeira senha –“Faltam cinco minutos para as 23 horas”, seguindo-se a canção de Paulo de Carvalho “E Depois do Adeus”, vencedora do Festival da canção de 1974.


Dizia soldado amigo
Meu camarada e irmão
Este povo está contigo
Nascemos do mesmo chão
Trazemos a mesma chama
Temos a mesma ração
Dormimos na mesma cama
Comendo do mesmo pão.
Camarada e meu amigo
Soldadinho ou capitão
Este povo está contigo
A malta dá-te razão.

Foi a Rádio Renascença, no programa “Limite”, que às 00,20 H, lançou para o ar, de uma forma solene, a estrofe de “Grândola Vila Morena” seguida desta canção na voz de Zeca Afonso: “Grândola Vila Morena / Terra da fraternidade / O povo é quem mais ordena / Dentro de ti, ó cidade”. Estava dado o sinal que tudo estava a correr como previsto. A partir desta altura começou a nascer um novo País...

Foi então que Abril abriu
As portas da claridade
E a nossa gente invadiu
A sua própria cidade.
Disse a primeira palavra
Na madrugada serena
Um poeta que cantava

O povo é quem mais ordena.




José Gomes

22 Abril 07




4 comentários:

  1. Gostei imenso dos teus trabalhos em que recordas os principais momentos do 25 de Abril.Estão excelentes.
    Beijos.
    Milú

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  2. Obrigado pelo comentário, Milú. Gosto muito de te ver por aqui...
    Um beijo.
    JG

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  3. A procurar sobre a canção Grandola Vila Morena, deparei-me com os Chuviscos... E aqui estou, nesses Brasis, a me molhar com as lágrimas que esses chuviscos provocaram. Lágrimas de amor por um Portugal, origem do meu sangue dos Prereira, dos Prado e dos Albuquerque, pelo Portugal de Bragança, onde inexplicavelmente chorei saudades nem sei do que, pois sequer havia lá estado antes.
    O que mais me revolta é que nesse Brasil é mais fácil se encontrar um CD america que um luso, que as noticias da terra que nos pariu sejam apenas migalhas. Quando é que os paises lusófonos vão ter orgulho de o ser, e quando teremos um verdadeiro intercambio cultural?

    Carlos Prado

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