quinta-feira, 26 de abril de 2007

1º de Maio em Liberdade (1 Maio 1974)


(…)

O que é preciso é termos confiança
se fizermos de Maio a nossa lança
isto vai meu amigos isto vai.

José Carlos Ary dos Santos


O primeiro 1º de Maio celebrado em Portugal depois do 25 de Abril foi a maior manifestação alguma vez organizada no país. Para muitos, foi a forma dos portugueses demonstrarem a sua adesão ao 25 de Abril, que uma semana antes restituira ao país a democracia.

33 anos depois desta data, façamos do 1º de Maio uma grandiosa demonstração de força e de unidade.

José Gomes

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"Cantar Alentejano" - José Afonso
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terça-feira, 24 de abril de 2007

A história da senha do 25 de Abril


A história da senha do 25 de Abril de 1974


“Querido Amigo,

Já agora seria bom que repuséssemos uma verdade que tem andado omitida e lembrássemos quem foi o homem que na Rádio Renascença pôs no ar a “Grândola Vila Morena”. Foi o locutor Carlos Albino, homem completamente esquecido! E não se entende porquê... às vezes esquecemo-nos que a História é feita destes pequenos feitos e destes pequenos/grandes heróis e que, sem eles, nada teria sido possível. Carlos Albino está completamente esquecido e muito justamente amargurado. E no entanto foi um homem fundamental na engrenagem dos factos que levaram à nossa Libertação!”


A partir deste e-mail e servindo-me de u
ma artigo do DN de 24/04/99, vou da a palavra a Carlos Albino que nos vai contar a sua experiência naqueles dias que antecederam a madrugada de Abril:




(24 de Abril de 1999
)

O acontecimento menos conhecido de todos é o da combinação da "senha" difundida pela Rádio Renascença para a saída das tropas dos quartéis no próprio dia 25 de Abril de 1974. A sua escolha fez-se no bairro de Alvalade, onde tinha a sede a empresa radiofónica que emitia o programa "Limite" que pôs no ar a canção "Grândola Vila Morena".

A verdadeira história da senha do 25 de Abril de 1974

Era meia-noite, 20 minutos, 19 segundos

Carlos Albino: - Passaram 25 anos desde aquele momento em que eu e o Manuel Tomás nos vimos directamente comprometidos e cúmplices conscientes na senha para o arranque simultâneo dos militares que decidiram acabar de uma vez por todas com uma ditadura que matava o País com uma morte que não se via. Durante este tempo todo, os únicos responsáveis directos pela execução e transmissão da senha têm assistido ao mais lamentável desfile de vaidades por parte de gente e até de forças políticas que indevidamente têm querido apropriar-se desse gesto. E o que é mais lamentável é que, tendo este País tantos historiadores, quase nenhum destes quis acertar com a verdade sobre factos recentes e autores vivos. Em matéria de senhas do 25 de Abril, tem havido para cada um a sua senha.

Otelo é que, no fundamental, tem dito sempre a verdade no seu legítimo ponto de vista de comandante operacional do 25 de Abril. E, diga-se, também pouco mais interessará do que esse ponto de vista, pelo que os responsáveis efectivos pela execução e transmissão da senha jamais ao longo destes anos tentaram meter-se ou insinuar-se nessa área em que Otelo fala por direito próprio, como também, depois que foi comunicada e confirmada em definitivo a senha escolhida pelo Movimento, jamais incomodaram os militares operacionais com questões que apenas passaram a fazer parte da responsabilidade de quem, independentemente do risco (ao lado do local da emissão da senha estava o Governo Civil, pejado de polícia de choque, e em linha de vista a própria sede da PIDE), assumiu o firme compromisso de a transmitir e no momento exacto. Foi o que aconteceu e também isto foi importante.

Ora, a partir do momento em que ficou assente que para o arranque do movimento militar seria necessária uma senha transmitida através de uma estação de rádio com efectiva cobertura nacional, as escolhas não eram muitas. Uma das escolhas seria o Rádio Clube Português, que haveria de ser pensado para posto de comando do Movimento após ocupação militar das instalações, e transmitir previamente uma senha por aí seria uma imprudência de toda a ordem. Outra escolha possível seria a antiga Emissora Nacional, mas não se via lá dentro alguém com capacidade de intervenção e iniciativa para actuar àquela hora ou mesmo a qualquer outra hora, pois os democratas nessa altura não abundavam por lá. Restava a Rádio Renascença e dentro desta o "Limite", um programa independente que, pelo aluguer de instalações e antenas para as suas emissões, pagava por mês o equivalente em moeda actual a 4500 contos.

O programa, à data da preparação final do movimento militar, tinha no núcleo duro dos seus decisores Marcel de Almeida (um amigo de longa data de Melo Antunes), Leite Vasconcelos e Manuel Tomás (vindos de Moçambique com indesmentível currículo de democratas) e o signatário.

Como não acontecia com qualquer outro programa de rádio, o "Limite", que era transmitido em directo, era alvo de duas censuras: uma que era a da própria Rádio Renascença e a outra a oficial, exercida por um coronel cujo nome neste momento não me ocorre mas de que conservo as garatujas de assinatura, instalado na Renascença exclusivamente para actuar sobre o "Limite" (por tanto recebia o equivalente hoje a 300 mil escudos, quantia obtida através do aumento do aluguer das antenas ao "Limite" - ou seja, o programa pagava indirectamente ao seu próprio censor...

E quanto aos célebres Emissores Associados de Lisboa, o que era isso? Essa rede de fracos emissores mal se ouvia em Lisboa (nas zonas baixas da cidade a sintonia era impossível). Seria impensável a transmissão de uma senha para todo o País através dos Associados. O sinal que consistiu em “E depois do Adeus” serviu e bem como primeiro toque para uns poucos operacionais e, diga-se já agora, serviu também para quem no "Limite" estava com aviso.

Mas por aí houve uma fase em que toda a gente corria para as senhas de Abril, para os símbolos de Abril, para as condecorações de Abril, para os heróis de Abril, e no meio de tanta distracção chegou a dizer-se que o sinal dos Associados serviu para todo o País, pouco faltando para se garantir que quando o Paulo de Carvalho apresentou tal canção para o concurso televisivo já o tinha feito a pensar no MFA, na noite do 25 de Abril, na libertação dos presos políticos, no fim da censura e no termo da guerra colonial. Que José Afonso assim já pensasse (e de há muito) quando escreveu, cantou e gravou a Grândola, não duvido.

Mas devo dizer, agora que passaram 25 anos e no que está relacionado com o que me pediram, que apenas dois civis tiveram conhecimento do processo que culminaria com a senha do 25 de Abril: Manuel Tomás e quem dá testemunho nestas linhas. Álvaro Guerra foi um precioso elemento de ligação e naturalmente que não foi ouvido nem achado para a execução da senha; Leite Vasconcelos, que no seu dia de folga deu a sua voz a tudo o que tinha que ser dito nos exactos 11 minutos de duração do bloco previamente submetido às censuras; o estagiário de locução que estava na cabine (não quero dizer o nome antes que o encontre porque é um dos que têm andado para aí a mentir) estava longe de imaginar o que se iria passar e nada justificava que se lhe dissesse o que estava em jogo; a regência de estúdios onde em todo o caso poderia ser interrompida a emissão caso tivesse ocorrido alguma denúncia, estava debaixo de olho. Mas, acima de tudo, devo aqui testemunhar que o Manuel Tomás, para além de uma lealdade total, foi uma peça-chave para o êxito da pequena coisa que foi pedida – a senha.

A caminho do limite…

22 de Março. Informação inicial sobre a inevitabilidade de uma senha por rádio com efectiva cobertura nacional para o arranque dos quartéis.

29 de Março. Ensaio no Coliseu (festival da Casa da Imprensa) sobre a aceitação de Grândola. O festival foi gravado e transmitido em diferido pelo Limite.

23 de Abril, fim de manhã. Álvaro Guerra é o elemento de ligação com Carlos Albino, a quem pede a transmissão da canção “Venham mais Cinco” no Limite de 25 de Abril. Carlos Albino pede a Álvaro Guerra para devolver a resposta de que tal canção estava proibida pela censura interna da Renascença embora a censura oficial a tolerasse. Sugeridas alternativas, entre as quais Grândola.

24 de Abril, 10 horas. Álvaro Guerra novamente serve de elo de ligação de Almada Contreiras com Carlos Albino, a quem comunica a escolha definitiva de Grândola Vila Morena como senha para o movimento militar. Carlos Albino garante a transmissão.

24 de Abril, 11 horas. Carlos Albino adquire na então Livraria Opinião, a Madeira Luís, o disco "Cantigas de Maio" para garantia. Desde Dezembro de 1973, havia indícios de que a PIDE preparava o assalto aos escritórios do Limite, na Praça de Alvalade.

24 de Abril, 15 horas. Encontro decisivo com Manuel Tomás, para a execução da senha e garantia de transmissão face às duas censuras que o Limite enfrentava: a da Rádio Renascença e a oficial (um coronel que acompanhava as emissões em directo e visava previamente os textos). Carlos Albino e Manuel Tomás decidem sair dos estúdios para um local onde possam prosseguir com segurança o diálogo.

24 de Abril, 15 e 30. Ajoelhados na Igreja de S. João de Brito e simulando rezar, Carlos Albino e Manuel Tomás combinam todos os pormenores técnicos da senha.

24 de Abril, 17 horas. Leite Vasconcelos (em dia de folga na locução do Limite) é convocado por Manuel Tomás para "gravar poemas". Carlos Albino escreve textos para serem visados pelo censor.

24 de Abril, 19 horas. O censor autoriza textos e alinhamento.

24 de Abril, 20 horas. Na Renascença, gravação dos textos por Leite Vasconcelos, desconhecendo o objectivo.

25 de Abril. Aos 20 minutos e 19 segundos, arranque da fita com a senha. Carlos Albino e Manuel Tomás retiram-se da Renascença às 3 e 30.

Que vasta galeria de falsos heróis

Carlos Albino: - A senha, com as características com que foi pedida (leitura da primeira quadra de Grândola, transmissão integral da canção e repetição da quadra inicial), era à partida de difícil execução e transmissão num programa que estava debaixo de duas censuras: uma, relativamente tolerante e até em certos momentos pactuante, montada pela Renascença, e outra, braço directo da censura oficial a actuar exclusivamente sobre o Limite.

É lícito recordar isto, pois não são poucos os que têm procurado fazer a contrafacção da senha, chegando a pôr em causa a palavra e a própria dignidade pessoal das duas únicas pessoas (e não mais) que têm a ver directamente com o caso.

Em todo o caso, a leitura das quadras (independentemente de a canção de José Afonso ser permitida) e só pelo facto de ser uma leitura suporia sempre passagem pela censura que chegou a impedir que fizéssemos momentos de silêncio (as brancas como se diz na gíria da rádio). Ninguém hoje pode imaginar a dificuldade que era a de fazer rádio em directo como nós, os do Limite, fazíamos. Era aliás a nossa razão de existir na rádio.

Como é que as dificuldades foram contornadas, com a máxima garantia de que a transmissão da senha não seria interrompida, abortada ou substituída por outro material? Todos os cuidados eram poucos, pois não se passava só connosco - a PIDE conseguia instalar informadores em tudo o que fosse sítio. O Limite não poderia ser uma excepção só por ser Limite.

Como dois a pensar funcionam melhor do que um só, o Manuel Tomás e eu (ajoelhados na Igreja de S. João de Brito, local fantasticamente protegido para conspiração de tal tamanho, pois até o facto de o pároco ser então o antípoda dos progressistas ajudava a que o local obrigasse a PIDE a grandes cuidados), a senha ficou combinada nestes termos: eu escreveria dois poemas para justificar a chamada a serviço do Leite Vasconcelos, que estava em dia de folga, os textos seguiriam para o censor, o Manuel Tomás, segundo um alinhamento combinado, faria a engenharia final da peça, no domínio estético e técnico. Este modo de actuação não daria grandemente nas vistas: o Limite assentava na sua maior parte sobre textos poéticos meus lidos sempre, àquela época, pelo Leite de Vasconcelos e trabalhados também sempre segundo os belíssimos esquemas que somente a sensibilidade artística de Manuel Tomás conseguia nas circunstâncias em que trabalhávamos.

Assim foi.

O alinhamento foi redigido, em resumo: quadra, canção Grândola, quadra, poema Geografia, poema Revolução Solar e para finalizar a canção Coro da Primavera.

Os censores (da Renascença e o coronel) viabilizaram os textos sem hesitações: a "geografia" falava dos rios portugueses e a "revolução solar" falava de planetas e galáxias... Para eles, isto não tinha "política". Viabilizados, os textos foram lidos pelo Leite de Vasconcelos e gravados a seco, sendo pouco depois trabalhados sonoplasticamente pelo Manuel Tomás. O bloco ficou com 11 minutos, o que era habitual no Limite. Tudo se fez como se tudo fosse o mais normal. O que não tem sido normal é o aproveitamento que nestes 25 anos se tem feito da senha.

Vou esforçar-me para não dizer nomes, pois estamos em época de concórdia, mas recordo que surgiu um e garantiu que escolheu comigo o disco da senha. Não escolheu nada. Surgiu outro e garantiu que a senha foi o Depois do Adeus – e bem se viu o triste espectáculo e as tremendas confusões que fizeram nas comemorações do 25 de Abril que decorreram em Santarém. Ora isso não foi senha, por amor de Deus!

Outro que nem era do Limite deixou-se filmar para um alegado documentário sobre a senha que percorreu o Alentejo, sendo aqui recebido como herói. Não era. E outro que até era do Limite – não resisto a citar Leite de Vasconcelos – deixou-se filmar pelo musicólogo Fernando Matos Silva para alegada "reconstituição do cenário". Não era. A voz foi dele, mas ele estava longe do estúdio e mais longe ainda do que a senha significava.

Reportagem no ar sem hesitação

Carlos Albino: - As primeiras reportagens sobre o 25 de Abril e o que estava a acontecer nas ruas da capital, solicitadas como serviço a Adelino Gomes, a quem foram disponibilizados meios profissionais adequados, foram transmitidas por responsabilidade do Limite.

Os noticiários da Renascença até 27 de Abril continuaram com reservas sobre a queda da ditadura e ninguém esperava que o MFA fosse ocupar o Rádio Clube Português para mandar fazer reportagens... A Emissora Nacional dava música clássica e quanto aos Emissores Associados, ninguém ouvia nem podia ouvir isto.

Os primeiros debates políticos com intenção deliberadamente pluralista aconteceram no Limite. Mas também todo este sonho acabou no dia 8 de Junho de 1974, após a transmissão da primeira entrevista com Arnaldo Matos (na presença de Fernando Rosas, o historiador deve recordar bem a cena) e depois de terem sido ouvidas personalidades dos mais diversos quadrantes.

A Renascença acabou com o Limite trocando-o pelo efémero "Voz dos Trabalhadores" decidido em plenário, onde também ninguém se solidarizou com as circunstâncias que ditaram o fim do contrato firmado entre o Limite e a Renascença.

Não foi difícil perceber que a colisão frontal entre o Limite e a administração da Renascença de então resultou do facto de se ter usado a estação para a transmissão da senha. Até hoje, ao que se saiba, nunca a estação assumiu como ponto de honra o facto de ter acontecido nessa casa o gesto que significou a mudança radical da vida portuguesa, pois, se o fizesse, dificilmente poderia evitar a alma do Limite que tem todos os motivos para descansar em paz.

Até ao último momento da existência do programa ninguém compreendeu como a Igreja perdeu uma oportunidade excelente para, logo em 1974, sair da sexta-feira pouco santa da ditadura para decididamente entrar no dia de ar livre da ressurreição que começou a ocorrer apenas passados anos, limitada e tardiamente.

Digamos que sobre o Limite caiu uma espécie de maldição impensável e da qual, por certo, nestas páginas de alguma forma se livra tendo sido necessário deixar passar estes 25 anos para que se diga à vontade o que jamais pode ser entendido como defesa de causa própria. Na verdade, algo de fundamental para a Revolução do 25 de Abril faz parte do património disso que hoje é já mera lembrança e simples recordação, mas que para aquela grande parte de uma geração a entrar nos 40, 50 e 60 que não perdeu ou não quis perder a memória, continua a ser a evocação suave de uma deliberada cultura de sensibilidade e da fragrância de um perfume com as possíveis palavras rasgadas nas noites de terror.

Não se está a sugerir o descerramento de uma placa à entrada da Renascença, nem outra coisa qualquer. O que se sugere é que já era altura de a Renascença assumir o Limite como facto importante da sua biografia, como altura é dos historiadores e candidatos a isso serem mais rigorosos e precisos, quanto a nomes, horas e formas. Sobretudo, ouvindo quem fez sobre o que fez.

A amiga Júlia Coutinho deu-me a conhecer quem foi o homem (Carlos Albino) que na Rádio Renascença pôs no ar “Grândola Vila Morena”. Este trabalho, tirado do DN de 24 de Abril 1999) é mais um contributo para a História do 25 de Abril.

José Gomes




Depois de pensar nas canções que ouvi nos tempos da Revolução dos Cravos e as recordar com saudade (e perguntar-me, depois daquele entusiasmo, como é que foi possível chegar à situação dos dias de hoje...) deixei-me embarcar no poema cantado por José Barata Moura.
Convido-vos a ouvir "Cravo Vermelho ao Peito". Canta José Barata Moura.



domingo, 22 de abril de 2007

25 Abril, sempre!!! - 3



25 Abril – 33 anos depois...

(continuação)

Durante alguns dias recordei — embora superficialmente — os anos que antecederam o 25 de Abril de 1974, guiado por excertos do poema de Ary dos Santos “As Portas que Abril abriu”.Com este artigo termino essa viagem…

(…)

Os trabalhadores foram sempre as vítimas da ganância do grande capital e dos latifúndios. As perseguições policiais investiam sobre quem lutasse pelos seus direitos e pela dignidade de um País amordaçado.

Era uma vez um País
Onde o pão era contado
Onde quem tinha a raiz
Tinha o fruto arrecadado
Onde quem tinha o dinheiro
Tinha o operário algemado
Onde suava o ceifeiro
Que dormia com o gado
Onde tossia o mineiro
Em Aljustrel ajustado
Onde morria primeiro
Quem nascia desgraçado.

Durante 48 anos o Povo foi oprimido e explorado…

Era uma vez um País
De tal maneira explorado
Pelos consórcios fabris
Pelo mando acumulado
Pelas ideias nazis
Pelo dinheiro estragado
Pelo dobrar da cerviz
Pelo trabalho amarrado
Que até hoje já se diz
Que nos tempos do passado
Se chamava esse País
Portugal suicidado.

Durante 13 longos anos uma guerra colonial ceifou e estropiou milhares de jovens, a flor de uma geração.

Ora passou-se porém
Que dentro de um povo escravo
Alguém que lhe queria bem
Um dia plantou um cravo.
Era a semente da esperança
Feita de força e vont
ade

Era ainda uma criança

Mas já era a liberdade.

Faz agora 33 anos. Era a tarde de 23 de Abril de 1974... Álvaro Guerra, jornalista do Jornal República, recebeu em mão, num alfarrabista de Lisboa, uma folha de papel amarelo que mudou o rumo da história de Portugal.

Era já uma promessa
Era a força da razão
Do coração à cabeça
Da cabeça ao coração.

Nele estava escrita a senha que homens, já cansados de uma guerra sem sentido e duma nação sem esperança, esperavam ouvir nos quartéis para então saírem à rua, rumo à construção de um País Novo.


Quem o fez era soldado
Homem novo capitão
Mas também tinha a seu lado
Muitos homens na prisão.

João Paulo Diniz, produtor e locutor do programa “Alfabeta”, às 23,55 horas “enganou-se” nas horas – esse “engano” era parte integrante da primeira senha –“Faltam cinco minutos para as 23 horas”, seguindo-se a canção de Paulo de Carvalho “E Depois do Adeus”, vencedora do Festival da canção de 1974.


Dizia soldado amigo
Meu camarada e irmão
Este povo está contigo
Nascemos do mesmo chão
Trazemos a mesma chama
Temos a mesma ração
Dormimos na mesma cama
Comendo do mesmo pão.
Camarada e meu amigo
Soldadinho ou capitão
Este povo está contigo
A malta dá-te razão.

Foi a Rádio Renascença, no programa “Limite”, que às 00,20 H, lançou para o ar, de uma forma solene, a estrofe de “Grândola Vila Morena” seguida desta canção na voz de Zeca Afonso: “Grândola Vila Morena / Terra da fraternidade / O povo é quem mais ordena / Dentro de ti, ó cidade”. Estava dado o sinal que tudo estava a correr como previsto. A partir desta altura começou a nascer um novo País...

Foi então que Abril abriu
As portas da claridade
E a nossa gente invadiu
A sua própria cidade.
Disse a primeira palavra
Na madrugada serena
Um poeta que cantava

O povo é quem mais ordena.




José Gomes

22 Abril 07




quarta-feira, 18 de abril de 2007

25 Abril, sempre!!!



25 Abril

(33 anos depois...)


A elaboração deste vídeo é a homenagem que dedico não só a esta data histórica mas também a todos aqueles que, arriscando as suas vidas e as das suas famílias, contribuíram para o nascer de uma Nação onde houvesse Liberdade, Democracia, Igualdade, Trabalho, Educação, Saúde e Habitação…


Durante alguns dias vou recordar — embora que superficialmente — aqueles anos antes do 25 de Abril de 1974... e qual melhor guia poderia encontrar?

O poeta Ary dos Santos:


Era uma vez um país
Onde entre o mar e a guerra
Vivia o mais infeliz
Dos povos à beira-terra.


(…)

Portugal viveu durante 48 anos debaixo de uma ditadura feroz imposta pelo
regime que o governava com mão de ferro.


Os donos e os senhores deste País foram o grande capital e os grandes
latifundiários, que oprimiram e exploraram o povo, na sua maioria inculto e a
quem foi incutido sentimentos de subserviência, de medo e de fatalismo.

Onde entre vinhas sobredos
Vales socalcos searas
Serras atalhos veredas
Lezírias e praias claras
Um povo se debruçava
Como um vime de tristeza
Sobre um rio onde mirava
A sua própria pobreza.

(…)




(continua)




segunda-feira, 9 de abril de 2007

Abril e Liberdade
25 de Abril, sempre!













É Tempo de Adriano voltar a cantar!

Adriano Correia de Oliveira nasceu no Porto (Rua Formosa, 370) em 9 de Abril de 1942 e foi com poucos meses morar para Avintes, na Quinta das Porcas.

Neste dia em que festejamos o seu 65º aniversário quero homenagear, duma forma singela, o Amigo, o Sonhador, o Homem digno que nunca se deixou subverter pelo estatuto de vedeta e que sempre acreditou que um dia Abril seria aquela ponte que nos levaria a um Mundo Novo.

Conheci Adriano nos meus tempos do liceu — ele, no Alexandre Herculano e eu no D. Manuel II — quando nos cruzávamos à esquina do Carolina Michaellis (próximo do liceu D. Manuel II) ou à esquina do liceu Rainha Santa Isabel (no outro extremo da cidade e mais próximo do Alexandre) à espera da saída das jovens e bonitas meninas desses liceus femininos!

A troca daqueles comentários próprios de rapazes que começavam a olhar para a sombra e o sentir que estávamos a pisar em terreno alheio, deu azo a frases que tinham a ver com a nossa constituição física: — ele e eu éramos “gigantes”, mas só em altura! Ele, muito mais corpulento e eu um magricelas…

Adriano chamava-me “Estica” ou “Torre dos Clérigos”, alcunhas de que não gostava mesmo nada e que me aferroavam de tal maneira que me obrigava a tomar atitudes que instigavam, ainda mais, o gozo dos meus “adversários”.

Mas pior que tudo isto, quem mais ria eram as ditas miúdas, alunas daqueles Liceus, onde eu ia alegrar “o olho”, e que acabavam sempre por assistir a um espectáculo que não estava no meu programa!!!

Com o tempo estas querelas da juventude foram sendo substituídas por conversas mais interessantes, desde o desporto ao teatro, do cinema à música, terminando quase sempre nos nossos ideais de um País em construção.

Ainda encontrei Adriano por Avintes e, mais tarde, no Porto e em outros locais, em noitadas académicas, em jornadas de luta ou no meio de amigos comuns.

Um dia, já depois do 25 de Abril, voltei a encontrá-lo no Pavilhão do Académico, no Porto, envolto na sua capa de estudante, viola pousada no chão, com a sua barba característica — que contrastava com a minha longa pêra, bigode e cabelos compridos— esperando a sua vez de actuar. Olhou para mim, soltou uma gargalhada e disse-me:

— Oh, pá, quase que nem te conhecia, pareces mesmo o J.C.!

E rimos, no meio do pessoal que nos rodeava. Depois de um longo abraço falamos da revolução dos cravos, dos nossos sonhos para o futuro, da nossa utopia...

Foi a última vez que falamos, embora não tenha sido a última que o vi!

Adriano,

Por ti, por tudo aquilo em que acreditamos e planeamos na nossa juventude, por tudo o que representaste naqueles tempos difíceis, continuo a lutar para que a tua voz nunca se cale e que os teus poemas sejam cantados e vividos por toda a gente.

Recordar-te aqui hoje é manter-te bem vivo e actuante, é empunhar uma bandeira de esperança, é continuar a lutar por este País, para que seja mais livre, mais fraterno, mais justo e mais solidário, tal qual tu o sonhaste.

É Tempo de Adriano voltar a cantar!

Sábado, dia 21 de Abril de 2007, às 21H30, em Avintes, uma homenagem a Adriano Correia de Oliveira promovida pela CDU de Gaia.

Um abraço

José Gomes


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Canção do Soldado (no cerco do Porto) - Adriano Correia de Oliveira

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quarta-feira, 4 de abril de 2007

Vistas nocturnas do Porto

Abril e Liberdade
25 de Abril, sempre!







Uma forma de homenagear esta minha cidade do Porto é passar este vídeo que encontrei no YouTube. São imagens nocturnas, lindas, e a voz bem portuense de Rui Reininho, dos GNR.

Ouçam e sintam esta "Pronúncia do Norte".

Uma boa semana,


José Gomes