quinta-feira, 15 de março de 2007

Pedro Homem de Mello


Pedro Homem de Mello

- 1904 – 1984 –

Gostaria de ter feito qualquer coisa diferente em 5 de Março deste ano, para lembrar – pelo menos ano a ano! – quem foi e o que representou no panorama cultural português este homem de excepção.

Ao verificar o post que lhe dediquei no ano passado (5 Março 2006, com o mesmo nome) verifiquei que entre os comentários recebidos, há uma que tenho o dever de divulgar: da sua neta, a arquitecta Rita Homem de Melo:

“José Gomes, acabei de ler a entrevista que fez ao meu avô Pedro há muitos anos atrás. Senti de imediato, ao passar os olhos pelas graciosas respostas proferidas por ele imensa, saudade...Fico feliz ao ver que há quem recorde e não deixe esquecer a Voz, o Professor, o Bailador , o Poeta e o Homem que ele foi. Aqui fica o meu agradecimento pelo seu nobre gesto ao sublinhar esta figura incontornável da história e costumes do Porto, Afife e tantas outras terras de Portugal.
Rita Homem de Melo
12/10/06 01:53 “
Para que a memória do poeta, professor, escritor e amante do folclore seja lembrada, pelo menos, uma vez por ano, deixo-vos com este apontamento biográfico…

Pedro
Homem de Mello nasceu no Porto, em 1904, no seio de uma família fidalga, tendo desde cedo sido imbuído de ideais monárquicos, católicos e conservadores.

Foi sempre amigo do povo e a sua poesia é o reflexo disso. O seu pai, António Homem de Mello, pertenceu ao círculo íntimo do poeta António Nobre.

Estudou Direito em Coimbra, acabando por se licenciar em Lisboa, em 1926.

Foi advogado, delegado do Procurador da República e, posteriormente, professor de português na Escola Infante D. Henrique e Mouzinho da Silveira, no Porto, tendo sido director nesta.

Foi um entusiástico estudioso e divulgador do folclore português, criador e patrocinador de diversos ranchos folclóricos minhotos, tendo sido, durante os anos 60 e 70, autor e apresentador de um popular programa na RTP sobre essa temática.

Foi um dos colaboradores do movimento da revista Presença.

A sua primeira obra literária data de 1934 e intitula-se "Caravela ao Mar". Foram-lhe atribuídos vários prémios, nomeadamente, em 1939, o Prémio Antero de Quental com a obra “Segredo”, o Prémio Ocidente, em 1964, com “Uma Rosa na Manhã Agreste”, o Prémio Casimiro Dantas, em 1966, com “Eu Hei-de Voltar um Dia”.

Apesar de gabada por numerosos críticos, a sua obra poética, cheia de um lirismo puro e pagão (claramente influenciada por António Botto e Frederico Garcia Lorca), está votada ao esquecimento.

Entre os seus poemas mais famosos destaco “Povo que Lavas no Rio” (cantado por Amália Rodrigues), “Havemos de Ir a Viana” e “O Rapaz da Camisola Verde”.

Faleceu no Porto em 1984.

Dois poemas que eu gosto muito e que dedico ao professor e ao amigo que conheci um dia…:


O Rapaz da Camisola Verde

De mãos nos bolsos e de olhar distante,
Jeito de marinheiro ou de soldado,
Era um rapaz de camisola verde,
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.

Perguntei-lhe quem era e ele me disse
"Sou do monte, Senhor, e um seu criado".
Pobre rapaz de camisola verde,
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.
Porque me assaltam turvos pensamentos?
Na minha frente estava um condenado.
Vai-te, rapaz da camisola verde,
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.

Ouvindo-me, quedou-se o bravo moço,
Indiferente à raiva do meu brado,
E ali ficou de camisola verde,
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.

Soube depois ali que se perdera
Esse que só eu pudera ter salvado.
Ai do rapaz da camisola verde,
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.
Ai do rapaz da camisola verde,
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.
(Pedro Homem de Mello)


Porto à noite
A noite desce... Com que lentidão
Comigo ela se deita!
E luminosos os anúncios vão
Tornar a vida em nós menos estreita,

Em cada rosto esfolha-se uma rosa

E cada ruga já desaparece!
E a carne, a minha carne voluptuosa
Sôfrega vai de encontro a qualquer prece

Voltam as ruas a imitar os rios

(Há quem deslize, às vezes, como um barco...)
Voltam a encher-se os corações vazios
Nesta cidade embandeirada em arco.

Sapek-Adubos; Tagus ou Bonança?

Jardim suspenso cujo aroma diz
Que os homens crescem quando a noite avança
A desprendê-los, quase, da raiz.

Cidade rubra ao longe e, ao perto escura

Gula insaciável de vilanovenses!
De que poetas andas à procura
Se aos meus poemas ávidos pertences?

(Pedro Homem de Mello)


José Gomes


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"Povo que lavas no rio" - Amália Rodrigues


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3 comentários:

  1. Uma merecida homenagem.
    Um abraço

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  2. Muito bem Zé!
    Bela homenagem!!!

    Um beijo



    Maria Mamede

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