quinta-feira, 29 de março de 2007

Anoitecer em fins de Março...

25_abril


Ontem ao anoitecer, de repente, o céu ficou assim:

Gueifães às 19,39 horas do dia 28 Março 07

Sombrio, triste, mas com umas cores lindas...

Gueifães às 19,40 horas do dia 28 Março 07

... a temperatura caiu e a minha cara sentiu o vento agreste que começara a soprar!

Gueifães às 19,41 horas do dia 28 Março 07

Apenas uns leves pingos caíram, o suficiente para, em meu redor, ficar um cheiro a terra húmida!...

Gueifães às 19,41 horas do dia 28 Março 07


Registo, apenas, a recordação de um anoitecer de Março, frio e ameaçador, sem o burburinho da passarada! Só as gaivotas esvoaçavam em bandos pelos céus desta minha terra...

Lembrei-me de Ary dos Santos e da sua "Nona Sinfonia" que aqui vos deixo, com um abraço de fim de semana.



Nona Sinfonia

É por dentro do homem que se ouve

o tom mais alto que tiver a vida

a glória de cantar que tudo move

a força de viver enraivecida.


Num palácio de sons erguem-se as traves

que seguram o tecto da alegria

pedras que são ao mesmo tempo as aves

mais livres que voaram na poesia.


Para o alto se voltam as volutas

hieráticas sagradas impolutas

dos sons que surgem rangem e se somem.


Mas de baixo é que irrompem absolutas

as humanas palavras resolutas.

Por deus não basta. É mais preciso o Homem.


José Carlos Ary dos Santos

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"Coro da Primavera" - José Afonso

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José Gomes


quarta-feira, 21 de março de 2007

Hino à beleza da Terra

Entardecer - Praia do Molhe - Foz do Douro - Porto


Assinala-se hoje o “Dia Internacional da Eliminação da Discriminação Racial”, uma data estipulada pelas Nações Unidas em memória do massacre de Sharpeville, na África do Sul, onde a polícia disparou e matou 69 pessoas e feriu 169 numa manifestação pacífica contra as “leis do passe”, do Apartheid, em 1960.

Hoje, também, é o “
Dia Mundial da Poesia”, instituído pela UNESCO na 30ª Conferência Geral, em 1999.

Comemora-se igualmente o “
Dia Mundial da Árvore”, efeméride assinalada no início da Primavera no Hemisfério Norte.

Como saudação à Primavera e um apelo para que todos olhem por esta "nave azul", deixo-vos com o "Hino à Beleza do Mundo":

Hymne à la beauté du monde


Ne tuons pas la beauté du monde.
Chaque fleur, chaque arbre que l’on tue,
Reviendront nous tuer à son tour.

Ne tuons pas la beauté du monde,
Ne tuons pas le chant des oiseaux,
Ne tuons pas le bleu du jour.

Ne tuons pas la beauté du monde.

La dernière chance de la Terre,
c’est maintenant qu’elle se joue.

Ne tuons pas la beauté du monde,
faisons de la Terre un grand jardin
pour ceux qui viendront après nous!


Poema
: Luc Plamondon
Música
: Christian St Toch
Intérprete
: Isabelle Boulay



Hino à beleza do mundo


Não matem a beleza do mundo.
Cada flor,cada árvore que se mata
Virão um dia nos matar-nos.

Não matem a beleza do mundo,
Não matem o canto dos pássaros,
Não matem o azul do dia.

Não matem a beleza do mundo.

A última oportunidade da Terra,
É agora que ela se joga.

Não matem a beleza do mundo,
Façamos da Terra um grande jardim

Para aqueles que virão depois de nós!

Poema: Luc Plamondon
Música:
Christian St Toch
Intérprete:
Isabelle Boulay

Tradução: José Gomes


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É só clicarem aqui e ouvir Isabelle Boulay interpretando "L'hymne à la beauté du monde".

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José Gomes


quinta-feira, 15 de março de 2007

Pedro Homem de Mello


Pedro Homem de Mello

- 1904 – 1984 –

Gostaria de ter feito qualquer coisa diferente em 5 de Março deste ano, para lembrar – pelo menos ano a ano! – quem foi e o que representou no panorama cultural português este homem de excepção.

Ao verificar o post que lhe dediquei no ano passado (5 Março 2006, com o mesmo nome) verifiquei que entre os comentários recebidos, há uma que tenho o dever de divulgar: da sua neta, a arquitecta Rita Homem de Melo:

“José Gomes, acabei de ler a entrevista que fez ao meu avô Pedro há muitos anos atrás. Senti de imediato, ao passar os olhos pelas graciosas respostas proferidas por ele imensa, saudade...Fico feliz ao ver que há quem recorde e não deixe esquecer a Voz, o Professor, o Bailador , o Poeta e o Homem que ele foi. Aqui fica o meu agradecimento pelo seu nobre gesto ao sublinhar esta figura incontornável da história e costumes do Porto, Afife e tantas outras terras de Portugal.
Rita Homem de Melo
12/10/06 01:53 “
Para que a memória do poeta, professor, escritor e amante do folclore seja lembrada, pelo menos, uma vez por ano, deixo-vos com este apontamento biográfico…

Pedro
Homem de Mello nasceu no Porto, em 1904, no seio de uma família fidalga, tendo desde cedo sido imbuído de ideais monárquicos, católicos e conservadores.

Foi sempre amigo do povo e a sua poesia é o reflexo disso. O seu pai, António Homem de Mello, pertenceu ao círculo íntimo do poeta António Nobre.

Estudou Direito em Coimbra, acabando por se licenciar em Lisboa, em 1926.

Foi advogado, delegado do Procurador da República e, posteriormente, professor de português na Escola Infante D. Henrique e Mouzinho da Silveira, no Porto, tendo sido director nesta.

Foi um entusiástico estudioso e divulgador do folclore português, criador e patrocinador de diversos ranchos folclóricos minhotos, tendo sido, durante os anos 60 e 70, autor e apresentador de um popular programa na RTP sobre essa temática.

Foi um dos colaboradores do movimento da revista Presença.

A sua primeira obra literária data de 1934 e intitula-se "Caravela ao Mar". Foram-lhe atribuídos vários prémios, nomeadamente, em 1939, o Prémio Antero de Quental com a obra “Segredo”, o Prémio Ocidente, em 1964, com “Uma Rosa na Manhã Agreste”, o Prémio Casimiro Dantas, em 1966, com “Eu Hei-de Voltar um Dia”.

Apesar de gabada por numerosos críticos, a sua obra poética, cheia de um lirismo puro e pagão (claramente influenciada por António Botto e Frederico Garcia Lorca), está votada ao esquecimento.

Entre os seus poemas mais famosos destaco “Povo que Lavas no Rio” (cantado por Amália Rodrigues), “Havemos de Ir a Viana” e “O Rapaz da Camisola Verde”.

Faleceu no Porto em 1984.

Dois poemas que eu gosto muito e que dedico ao professor e ao amigo que conheci um dia…:


O Rapaz da Camisola Verde

De mãos nos bolsos e de olhar distante,
Jeito de marinheiro ou de soldado,
Era um rapaz de camisola verde,
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.

Perguntei-lhe quem era e ele me disse
"Sou do monte, Senhor, e um seu criado".
Pobre rapaz de camisola verde,
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.
Porque me assaltam turvos pensamentos?
Na minha frente estava um condenado.
Vai-te, rapaz da camisola verde,
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.

Ouvindo-me, quedou-se o bravo moço,
Indiferente à raiva do meu brado,
E ali ficou de camisola verde,
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.

Soube depois ali que se perdera
Esse que só eu pudera ter salvado.
Ai do rapaz da camisola verde,
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.
Ai do rapaz da camisola verde,
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.
(Pedro Homem de Mello)


Porto à noite
A noite desce... Com que lentidão
Comigo ela se deita!
E luminosos os anúncios vão
Tornar a vida em nós menos estreita,

Em cada rosto esfolha-se uma rosa

E cada ruga já desaparece!
E a carne, a minha carne voluptuosa
Sôfrega vai de encontro a qualquer prece

Voltam as ruas a imitar os rios

(Há quem deslize, às vezes, como um barco...)
Voltam a encher-se os corações vazios
Nesta cidade embandeirada em arco.

Sapek-Adubos; Tagus ou Bonança?

Jardim suspenso cujo aroma diz
Que os homens crescem quando a noite avança
A desprendê-los, quase, da raiz.

Cidade rubra ao longe e, ao perto escura

Gula insaciável de vilanovenses!
De que poetas andas à procura
Se aos meus poemas ávidos pertences?

(Pedro Homem de Mello)


José Gomes


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"Povo que lavas no rio" - Amália Rodrigues


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quarta-feira, 7 de março de 2007

Aqui Planeta Terra!...

Atenção, senhores passageiros:

Lamentamos informar que neste momento estamos a navegar pelo universo a bordo da nave Terra que está a inspirar cuidados cada vez maiores em todos os passageiros.

Tecnicamente estamos à deriva, mas não há motivos para entrar em pânico.

Ainda é possível restabelecer as condições de voo, desde que todos colaborem - especialmente os passageiros da primeira classe!

O fumo lançado para o ar pelos mais ricos fez aumentar a temperatura desta nave em 0,6º C no último século.

Se mantiver este ritmo, chegaremos ao final do século com um aumento de temperatura na ordem de um a seis graus centígrados.

O nosso sistema de refrigeração não é capaz de enfrentar este aquecimento global.

Tecnicamente estamos à deriva, mas não há motivos para entrar em pânico.

É importante lembrar a situação do passageiro norte-americano que está sentado na primeira fila. Se todos a bordo quiserem imitar os hábitos de consumo dele, não teremos água, alimentos e energia para seguir viagem.

E não adianta reclamar, mister Bush!

Outra coisa: já não há água limpa suficiente para todos. Ou evitamos o seu desperdício, distribuindo melhor a que resta, ou vamos ter sérios problemas daqui para a frente.

Lembramos, também, que estamos a dividir este espaço com outras formas de vida que chegaram antes de nós e que estão a desaparecer rapidamente, a uma velocidade dez mil vezes maior do que antes da nossa chegada.

Cada um de nós, nesta nave, tem uma função. Por isso, cada espécie animal ou vegetal extinta vai produzir impactos importantes no equilíbrio da vida.

A distribuição dos passageiros pela nave dá-se de forma desigual. Quase metade dos lugares é ocupada por passageiros que sobrevivem com apenas dois dólares por dia.

Pedimos desculpa pelas péssimas condições de viagem desse grupo, mas a culpa não é da nave.

Estamos equipados com recursos suficientes para que todos façam uma viagem tranquila, sem agonia ou sofrimento. Se a distribuição dos recursos não se der de uma forma satisfatória, o problema é de quem se apossou de muito mais do que precisa, sem prestar atenção para o que acontece à sua volta.

Registamos com desgosto que 800 milhões de passageiros se encontram subnutridos e 24 mil morrem todos os dias por causa da fome.

A nave é de paz, mas alguns passageiros não. Percebemos, constrangidos, que os gastos crescentes com a indústria bélica seriam mais do que suficientes para resolver o problema da fome.

É importante frisar que a nossa nave não dispõe de saídas de emergência nem há outra opção para os passageiros a não ser permanecer aqui.


De design arrojado e semblante azul, a nossa nave foi concebida para ser o mais aconchegante abrigo do universo. Por isso pedimos a atenção de todos os passageiros para o burburinho que está a acontecer no Médio Oriente, onde todos os assuntos tratados são urgentes e do nosso interesse.

Agradecemos a boa vontade de todos em discutir o plano de voo que seguiremos daqui para a frente.

Lembramos que a responsabilidade é compartilhada e que todos contribuímos em maior ou menor grau para o sucesso desta viagem.

Muito obrigado pela vossa atenção!



Adaptação e actualização do PowerPoint de Ria Slides, “La nave va”.

Música escolhida: tema do E.T.


José Gomes




segunda-feira, 5 de março de 2007

E agora?...


Todos os poderes da Criação, o de voar, de visitar outros mundos, de ler o futuro ou de curar as doenças, foram dados ao homem desde o princípio do mundo.

O homem moderno trá-los dentro de si como pássaros mortos. Confusamente experimenta tristeza e uma certa angústia.


Não o imites! O seu desespero é uma chuva de cinzas, que apaga toda a chama, toda a luz.


Recupera os teus poderes e afina a tua sensibilidade e a tua escuta do mundo, depois desce aos teus sonhos e aprende a ler os sinais à luz do coração.



(Toda a filosofia dos Índios da América do Norte baseava-se na sua íntima ligação à Natureza e ao Cosmos).


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A música de fundo:

The Shadows - Tema de "The deer Hunter"

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José Gomes