quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

Natália Correia e os fundamentalismos

(Cartoon de António)


Quero agradecer ao G.M. o email que me enviou. A partir dele fiz esta "coisa"... Um abraço.


Para reflectir…

Nunca um coxo treinou atletas para a maratona nem um mudo deu aulas de dicção.

Só os padres não prescindem de dar conselhos sobre a reprodução e a sexualidade!

Dá que pensar...

(Natália Correia - 3 de Abril de 1982)

«O acto sexual é para ter filhos» - disse na Assembleia da República, no dia 3 de Abril de 1982, o então deputado do CDS João Morgado num debate sobre a legalização do aborto.

A resposta de Natália Correia, em poema - publicado depois pelo Diário de Lisboa em 5 de Abril desse ano - fez rir todas as bancadas parlamentares, sem excepção, tendo os trabalhos parlamentares sido interrompidos por isso:

Já que o coito - diz Morgado –

tem como fim cristalino,

preciso e imaculado

fazer menina ou menino;

e cada vez que o varão

sexual petisco manduca,

temos na procriação

prova de que houve truca-truca.

Sendo pai só de um rebento,

lógica é a conclusão

de que o viril instrumento

só usou - parca ração! –

uma vez. E se a função

faz o órgão - diz o ditado –

consumada essa excepção,

ficou capado o Morgado.



(Natália Correia - Abril /1982)


----------------------------------------
Nem a propósito! Deixo-vos com a "Valsa da Burguesia" na voz de José Barato Moura, recordando aquele tempo que lutavamos para construir um Futuro melhor... e deu no que deu!
--------------------------------------------------


JG



5 comentários:

  1. Natália agora de certeza que fariia mais poemas:)
    Beijos

    ResponderEliminar
  2. "A clérigo sandeu parece-lhe que todo o mundo é seu" - (Provérbio Popular)

    Abraço

    ResponderEliminar
  3. Boa Zé! Gosto dos poemas de Nsatalia Correia... entre eles sei de cor, partes, destes que te deixo: Queixa das almas jovens censuradas

    Dão-nos um lírio e um canivete
    e uma alma para ir à escola
    mais um letreiro que promete
    raízes, hastes e corola

    Dão-nos um mapa imaginário
    que tem a forma de uma cidade
    mais um relógio e um calendário
    onde não vem a nossa idade

    Dão-nos a honra de manequim
    para dar corda à nossa ausência.
    Dão-nos um prémio de ser assim
    sem pecado e sem inocência

    Dão-nos um barco e um chapéu
    para tirarmos o retrato
    Dão-nos bilhetes para o céu
    levado à cena num teatro

    Penteiam-nos os crâneos ermos
    com as cabeleiras das avós
    para jamais nos parecermos
    connosco quando estamos sós

    Dão-nos um bolo que é a história
    da nossa historia sem enredo
    e não nos soa na memória
    outra palavra que o medo

    Temos fantasmas tão educados
    que adormecemos no seu ombro
    somos vazios despovoados
    de personagens de assombro

    Dão-nos a capa do evangelho
    e um pacote de tabaco
    dão-nos um pente e um espelho
    pra pentearmos um macaco

    Dão-nos um cravo preso à cabeça
    e uma cabeça presa à cintura
    para que o corpo não pareça
    a forma da alma que o procura

    Dão-nos um esquife feito de ferro
    com embutidos de diamante
    para organizar já o enterro
    do nosso corpo mais adiante

    Dão-nos um nome e um jornal
    um avião e um violino
    mas não nos dão o animal
    que espeta os cornos no destino

    Dão-nos marujos de papelão
    com carimbo no passaporte
    por isso a nossa dimensão
    não é a vida, nem é a morte

    Natália Correia, in "O Nosso Amargo Cancioneiro"

    bom fim de semana

    ResponderEliminar
  4. Natália Correi, estará sempre viva no coração de quem ama Poesia.
    Grata por a recordares...

    Um abraço ;)

    ResponderEliminar